domingo, 27 de dezembro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ XVII


Jó 29: 1 a 16 - "E prosseguiu Jó no seu discurso, dizendo: ah! quem me dera ser como eu fui nos meses passados, como nos dias em que Deus me guardava! Quando fazia resplandecer a sua lâmpada sobre a minha cabeça e quando eu pela sua luz caminhava pelas trevas. Como fui nos dias da minha mocidade, quando o segredo de Deus estava sobre a minha tenda; quando o Todo-Poderoso ainda estava comigo, e os meus filhos em redor de mim. Quando lavava os meus passos na manteiga, e da rocha me corriam ribeiros de azeite; quando eu saía para a porta da cidade, e na rua fazia preparar a minha cadeira, os moços me viam, e se escondiam, e até os idosos se levantavam e se punham em pé; Os príncipes continham as suas palavras, e punham a mão sobre a sua boca; A voz dos nobres se calava, e a sua língua apegava-se ao seu paladar. Ouvindo-me algum ouvido, me tinha por bem-aventurado; vendo-me algum olho, dava testemunho de mim; Porque eu livrava o miserável, que clamava, como também o órfão que não tinha quem o socorresse. A bênção do que ia perecendo vinha sobre mim, e eu fazia que rejubilasse o coração da viúva. Vestia-me da justiça, e ela me servia de vestimenta; como manto e diadema era a minha justiça. Eu me fazia de olhos para o cego, e de pés para o coxo. Dos necessitados era pai, e as causas de que eu não tinha conhecimento inquiria com diligência."
O homem sempre preza por um discurso em seu favor, porque sua fé é apenas circunstancial. A fé verdadeira independe das circunstâncias, porque é dom de Deus. Ele a dá apesar do homem e das suas circunstâncias. Entretanto, a fé humana é um tipo de esperança, ou expectativa e só se manifesta quando as circunstâncias são desfavoráveis. Neste sentido é algo passageiro e não o fundamento do que ainda não é e a certeza do que não se vê como postulado nas Escrituras. A fé circunstancial ou circunstanciada produz resultados pelos poderes latentes da alma. Não é uma ação monérgica de Deus, mas algo produzido pelas forças almáticas do próprio homem. Muitos dos "milagres" atribuídos a Deus, aos santos ou às forças sobrenaturais, nada mais são do que o resultado do poder gerado pela alma decaída do homem. É a tristemente famigerada "luz interior" do homem, amplamente cultuada pelo gnosticismo. Porque as Escrituras classificam esta luz com trevas conforme Lc. 11: 35 - "Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas."
O homem julga tudo com base na sua noção de justiça própria e de méritos. Jó estabeleceu uma teologia da prosperidade, quando em seu drama se viu aparentemente desamparado imaginou que Deus o havia abandonado. Então, para ele, Deus só se faz presente quando as coisas estão indo bem. Este é um julgamento prevalecente nas religiões: se tudo vai bem, Deus está abençoando; se, no entanto, vai mal, Deus está castigando e o Diabo está agindo. Ora, no caso de Jó, Deus não o abandonou em momento algum! A sua natureza não regenerada é que confundiu religião cerimonial com ação soberana, misericordiosa e graciosa de Deus. Contrariamente à teologia de Jó, Deus estava mais atuante no infortúnio dele, do que antes, no tempo das benesses, porque no último caso, o Altíssimo estava realizando a sua purificação e a sua vivificação para salvá-lo.
Outro aspecto típico do homem justo aos seus próprios olhos é a necessidade de ser consultado, admirado e bajulado. Vê-se que Jó se gabava de ser notado, prestigiado, admirado e consultado, como evidência da presença de Deus em sua vida. Ora, há muitos ateus confessos que possuem imenso prestígio. Deus não está nestas coisas originárias das cogitações humanas. Foi exatamente por conta do pecado da soberba e do orgulho que Lúcifer perdeu a posição de anjo cobridor e sinete da perfeição. Foi ele expulso do monte santo de Deus, porque desejou ser semelhante ao Altíssimo por conta própria. Desde a inoculação do pecado no homem a partir do Éden, que este passou a desenvolver e cultuar a "síndrome de Lúcifer" em seu coração. Deseja ser Deus, agir como Ele, e viver em uma espécie de autonomia apóstata.
O mais impressionante é que líderes religiosos tomam a figura de Jó como alguém que sofreu com muita paciência e submissão a Deus. Não é esta a realidade das declarações e confissões do próprio Jó. Basta verificar o final da sua experiência, para ver que Deus realizou nele uma obra de regeneração e envergonhou Satanás para sempre.
Sola Gratia!

domingo, 13 de dezembro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ XVI


Jó 28: 12 a 21 - "Porém onde se achará a sabedoria, e onde está o lugar da inteligência? O homem não conhece o seu valor, e nem ela se acha na terra dos viventes. O abismo diz: Não está em mim; e o mar diz: ela não está comigo. Não se dará por ela ouro fino, nem se pesará prata em troca dela. Nem se pode comprar por ouro fino de Ofir, nem pelo precioso ônix, nem pela safira. Com ela não se pode comparar o ouro nem o cristal; nem se trocará por joia de ouro fino. Não se fará menção de coral nem de pérolas; porque o valor da sabedoria é melhor que o dos rubis. Não se lhe igualará o topázio da Etiópia, nem se pode avaliar por ouro puro. Donde, pois, vem a sabedoria, e onde está o lugar da inteligência? Pois está encoberta aos olhos de todo o vivente, e oculta às aves do céu." Jó discorre sobre conhecimentos gerais da Terra e suas riquezas naturais, mostrando como o homem domina os recursos e atribui a estes grande valor. Demonstra ter profundo conhecimento da estrutura geológica e dos processos evolutivos do planeta que hoje são confirmados pelas geociências; levanta diversos questionamentos sobre os eventos naturais e a incompetência do homem em explicar-lhes a origem e o poder que os regula e os mantêm.
Após tais asseverações, Jó demonstra que o homem é incompetente para desenvolver a sabedoria utilizando a metáfora do mineiro e seus processos tecnológicos. A maestria do minerador não lhe confere a verdadeira sabedoria, porque esta é procedente do alto conforme Tg. 3:17 - "Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia." Esta sabedoria é dom de Deus, portanto, não se coaduna com a sabedoria humana que é de baixo e contaminada pela natureza pecaminosa conforme Tg. 3:15 - "Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica." Os religiosos e legalistas se desapontam com tais afirmações, porque elas lhes são por demais desconcertantes. Eles querem um Deus alcançável e manipulável. Eles querem um Deus que se preocupe com suas cogitações e não com o seu "Supremo Propósito". O homem decaído, especialmente, o religioso é um Narciso por natureza. Ele quer que Deus se curve aos seus desejos, mas não possui inclinação para alcançar a grandiosidade do plano divino, além do que lhe convém. É uma religião de conveniências, reducionista, maniqueísta e excludente da verdade. O Deus das religiões não pode ser encontrado nas Escrituras. Nestas circunstâncias, Ele é uma ficção resultante da arrogância do pecado inoculado no homem desde o Éden. Ele cultua um "deus" que lhe é submisso e omisso ante à natureza pecaminosa.
A sabedoria a que alude o texto de Tiago é do alto, a saber, é dom de Deus, é pura, ou seja, não se contamina com a natureza pecaminosa, é pacífica, moderada, tratável, misericordiosa, produz bons frutos, é imparcial e sem hipocrisia. Geralmente, este tipo de sabedoria não agrada ao homem decaído, porque ele quer ser o centro das atenções e, ela, retira-lhe o brilho. Porém, a sabedoria produzida pela vontade humana é terrena, ou seja, se produz com base no que é natural, é almática, pois, no original, a palavra 'animal' é 'psikikos', ou seja, almática, e finalmente é diabólica, porque o homem que não nasceu do alto possui a natureza diabólica por herança adâmica. Não importa o comportamento moral, ético e estético de uma pessoa, se não for regenerada, a natureza diabólica continua nela. Embora esta natureza não seja exatamente determinante de práticas maldosas, potencialmente a referida pessoa possui todas as condições para o mal.
Este ensino é duro, mas é o que as Escrituras ensinam e não o que as religiões e o humanismo retorcido pelo gnosticismo pretende.
Sola Scriptura!

sábado, 12 de dezembro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ XV


Jó 27: 1 a 6 - "E prosseguindo Jó em seu discurso, disse: vive Deus, que tirou o meu direito, e o Todo-Poderoso, que amargurou a minha alma. Que, enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus nas minhas narinas, não falarão os meus lábios iniquidade, nem a minha língua pronunciará engano. Longe de mim que eu vos justifique; até que eu expire, nunca apartarei de mim a minha integridade. À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprovará o meu coração em toda a minha vida." Agora se percebe um homem armado e submetido à sua real natureza decaída, ainda que reto, íntegro, temente e desviando-se do mal. Avaliando-se a si mesmo além do que deveria e culpando a Deus pelo seu infortúnio sem entendimento do fato. Obviamente que tudo quanto sucede no universo está sob o controle de Deus, pois do contrário, Ele não seria Soberano. Entretanto, uma coisa é o homem se curvar ante a soberana vontade de Deus, outra coisa é o homem, em sua arrogância pecaminosa, atribuir culpa a Deus como se Ele deleitasse no castigo do pecado. Feitas estas primeiras distinções, pode-se verificar claramente como a alma de Jó raciocinava e agia em meio ao seu drama pessoal. No final do livro encontra-se Jó negando tudo quanto havia afirmado no início e se reconhecendo incompetente para conhecer Deus por conta própria.
Observa-se que Jó estava requerendo o munus de um direito que não existe, pois o pecador não possui direito algum. O pecado é injustiça conforme Rm. 1:18 - "Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça." Percebe-se nas palavras de Jó, um misto de crença e de soberba: não perde a visão do Deus concebido em sua base de crença, mas não consegue ver claramente a causa e a finalidade da ação divina na remoção do pecado pessoal.
Jó em seu drama, afirma uma fé humana e desprovida do dom de Deus, pois nenhum homem pode fazer promessas quanto a manutenção da sua integridade. O pecado, o trairá, levando-o a cometer atos pecaminosos, os quais desfazem a base destas promessas. Por esta razão Jesus afirma que ninguém pode jurar por nada, e nem por si mesmo. No desespero sem conhecimento de causa, Jó apegara-se ao conceito de justiça própria, sendo que Deus não o havia classificado como justo. Sondou o seu coração e verificou por conta própria que este, isto é, a sua alma e espírito, não encontrava nenhuma reprovação em toda a sua existência. Entretanto, sabe-se que o coração é a coisa mais enganosa e corrupta no homem conforme Jr. 17:9 e 10 - "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração e provo os rins; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações."
Caso houvesse algum tribunal ou recurso apelativo naquele tempo, Jó teria entrado com uma queixa crime contra Deus, por julgar que estaria sendo subtraído injustamente em seu direito. Esta é a mente humana corrompida pelo pecado: considera a ação de Deus a partir de seus pressupostos de justiça e integridade próprias. Os parâmetros forenses e sociológicos não servem para estabelecer entendimento sobre Deus, porque Ele é anterior e acima de todas estas normas, preceitos, e regras produzidas pela alma corrompida em sua natureza pecaminosa. É o reflexo do que foi inoculado no homem desde o Éden: o desejo de ser como Deus, conhecedor do bem e do mal. Isto cria na mente decaída do homem uma noção errônea de justiça própria e méritos.
Soli Deo Gloria!

domingo, 6 de dezembro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ XIV


Jó 25: 1 a 6 - "Então respondeu Bildade, o suíta, e disse: com ele estão domínio e temor; ele faz paz nas suas alturas. Porventura têm número as suas tropas? E sobre quem não se levanta a sua luz? Como, pois, seria justo o homem para com Deus, e como seria puro aquele que nasce de mulher? Eis que até a lua não resplandece, e as estrelas não são puras aos seus olhos. E quanto menos o homem, que é um verme, e o filho do homem, que é um vermezinho!" Bildade é um dos amigos de Jó que apresentou um conhecimento razoável acerca da soberania de Deus. Ele consegue mostrar a Jó o seu verdadeiro lugar e situação, porém este era cego pela natureza não regenerada, tanto quanto os demais. É isto que acontece aos que substituem a misericórdia e a graça de Deus por obras de justiça própria: não conseguem ver! E, quem não vê, também não entra conforme Jo. 3: 3 e 5.
O suíta recebe clara revelação da posição do homem perante Deus: é um verme e o filho do homem, igualmente, verme é por vias de consequências. Ora, um verme é um hospedeiro oportunista que habita o corpo dos outros seres vivos a fim de lhes sugar alimento. No sentido figurado, que é o caso do texto de Bildade, verme é aquilo que consome, mina ou corrói intimamente, como se fosse um parasito, ou ainda, pessoa abjeta, vil, desprezível.
O texto utiliza para verme, a palavra de origem espanhola, gusano, que é um verme o qual possui em uma das extremidades duas pequenas valvas com sulcos providos de dentes. Com eles, em movimento rotatório, cava galerias em madeira submersa, com a qual se alimenta, causando grandes prejuízos às embarcações de madeira, e aos embarcadouros e cais.
O texto mostra que nenhum homem é puro aos olhos de Deus, e, que, apenas a Ele pertence a soberania. Mostra ainda que não há um justo, nenhum dentre os nascidos de mulher. Este amigo de Jó resumiu a doutrina predominante entre os três amigos, os quais pretendiam levar Jó a prostrar-se perante Deus conforme o que entendiam acerca de piedade e reverência elaboradas com base em religião. Tal tentativa se circunscrevia à esfera dos códigos de moralidade e de ética religiosa e não na experiência de regeneração. Entretanto, não adianta o homem não regenerado prostrar-se diante de Deus, pois não pode haver comunhão entre trevas e luz. Com o pecado, o homem jamais será aceito perante a face do Altíssimo. Não é o pecador que aceita a Deus, mas Ele quem o aceita, após torná-lo aceitável em Cristo. É imperativo saber que a salvação sempre foi por meio de Cristo, mesmo para os que viveram antes da Sua vinda na pessoa de Jesus. O acerto para regenerar o homem for determinado antes dos tempos eternos conforme II Tm. 1:9 - "... que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos..."
No capítulo 26, Jó reafirma a soberania de Deus, entretanto persiste a tese de um mero conhecimento religioso acerca d'Ele. Não demonstra ter reconhecido que é miserável e necessitado de salvação do que é e não do que faz ou deixa de fazer. Enquanto Deus quer salvar o homem do que ele é, este busca a salvação do que faz, confundindo assim, o pecado que o mata, com os atos pecaminosos que tão somente confirmam este estado de morte espiritual. Não é a consequência maior que a causa, mas a causa é o fator determinante das consequências. Enquanto a religião combate as consequências do pecado, a ação monérgica de Deus retira a causa fundamental na cruz. Enquanto a religião, mal e mal, realiza apenas alguma reforma moral no homem, Deus faz uma nova criatura nos seus eleitos. Não são os atos pecaminosos que tornam o homem pecador, mas a sua natureza pecaminosa que os gera e os multiplica continuamente.
Sola Fide!

sábado, 5 de dezembro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ XIII


Jó 23: 1 a 4 - "Respondeu, porém, Jó, dizendo: ainda hoje a minha queixa está em amargura; a minha mão pesa sobre meu gemido. Ah, se eu soubesse onde o poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal. Exporia ante ele a minha causa, e a minha boca encheria de argumentos. Saberia as palavras com que ele me responderia, e entenderia o que me dissesse. Porventura segundo a grandeza de seu poder contenderia comigo? Não: ele antes me atenderia." Jó agiu como agem todos os homens portadores da natureza decaída: quando provados querem encontrar Deus. O desejo de falar com Deus não é para colocar-se na perspectiva d'Ele, mas para propor solução ao seu drama. Os religiosos, especialmente, os arminianos buscam Deus para ditar-lhe como Ele deve operar o querer e o efetuar, segundo as suas necessidades e não segundo a boa vontade d'Ele. Observe que Jó vê Deus apenas como um juiz em seu tribunal. É a visão do Deus sem a graça! É a visão maniqueísta de Deus! É o Deus iracundo e prestes a castigar qualquer um sem motivos...
O homem decaído desenvolve enorme capacidade de argumentar suas reivindicações. Se coloca na perspectiva de interlocutor perante Deus. Não conhece o caminho da humilhação conforme Mt. 11:29 - "Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas." Não se vê como mendigo, mas como rei e postulante de direitos. Jó faz uma pressuposição do que imagina ser a retidão e a grandeza de Deus, porém não consegue compreender as razões do seu sofrimento. Logo, a sua visão de Deus é apenas assentimento intelectual e religioso. Ao contrário do que pleiteiam os homens e do que ensinam as doutrinas humanistas nas igrejas, o regenerado necessita de dependência plena conforme II Co. 12:9a - "E disse-me: a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza."
Jó não se vê como portador da culpa do pecado original, mas como alguém que não dá motivos para sofrer os danos por que passava. Este é um comportamento comum entre os homens decaídos: alegam sua retidão, sua justiça própria, seus méritos na tentativa de fazer Deus se curvar a eles em seus dramas. Observa-se que Jó, de fato, possui profundo conhecimento informativo sobre Deus. Declara coisas grandiosas acerca d'Ele: mostra que Deus é onisciente, onipresente e onipotente; mostra que Deus é incompreensível pelo homem, salvo se Ele mesmo se revelar; mostra que Deus é imutável; mostra que é Deus quem resolve as coisas; mostra que é Deus quem cumpre os Seus decretos; mostra que há um plano para o mundo; mostra que é Deus quem soluciona o problema do pecado no homem. Assim, fica evidente que não é suficiente ter um assentimento puramente intelectual sobre Deus.
Por fim, Jó declara que não é por conta da sua tragédia que se sente angustiado, mas, sim, o fato de que era Deus quem a executava. Ou seja, o homem sem a regeneração possui uma visão parcial da soberania de Deus. Além do que o homem em tal situação espiritual se magoa muito rapidamente contra Deus.
No capítulo 24, Jó chega a uma tese que Deus, muitas vezes deixa de castigar os perversos. Desta forma, subjaz no inconsciente do homem decaído, a ideia de que Deus é injusto e que se vale de dois pesos e duas medidas. Mostra a brutalidade dos ímpios, como quem age sem nenhum limite. Mostra que há uma ordem dominante no sistema humano que é tolerante com o mal e que Deus não age sobre esta questão. Isto equivale a acusar Deus de ser conivente com o que é mal.
Jó encerra o seu discurso amargo contra a ordem prevalecente, para que seus amigos provem o contrário do que ele expõe. Está interessado em encontrar uma resposta para o seu dilema pessoal. A prosperidade dos ímpios é um mistério para os que não conhecem a soberana vontade de Deus. Exige dos regenerados um profundo exercício de fé, pois o reino deles não se firma na prosperidade, mas no mundo vindouro, onde haverá justiça e paz. Entretanto, o homem em seu estado pecaminoso, quer produzir o reino de Deus à força neste mundo que jaz no maligno. Não veem a restauração final como fato, mas apenas como retórica.
Mais adiante veremos onde Jó pretende chegar com todos os seus questionamentos.
Sola Gratia!

sábado, 24 de outubro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ XII


Jó 22: 1 a 5 - "Então respondeu Elifaz, o temanita, dizendo: porventura será o homem de algum proveito a Deus? Antes a si mesmo o prudente será proveitoso. Ou tem o Todo-Poderoso prazer em que tu sejas justo, ou algum lucro em que tu faças perfeitos os teus caminhos? Ou te repreende, pelo temor que tem de ti, ou entra contigo em juízo? Porventura não é grande a tua malícia, e sem termo as tuas iniquidades?" Continua a saga do amigo Elifaz em jogar dor sobre a dor de Jó. Assim são os religiosos, têm imenso prazer em acusar os outros de pecados. Não foi atoa que A.W. Tozzer afirmou: "os cristãos são os únicos soldados que, na guerra, atiram em seus próprios companheiros e não voltam para socorrer os feridos." Obviamente, ele se referia a cristãos nominais e não aos nascidos de Deus e verdadeiramente libertos por Cristo. Também ele se utiliza apenas de linguagem figurada que aborda a indelicadeza e a facilidade de desentendimento e condenações entre ditos cristãos.
Elifaz insiste na ideia, que, obrigatoriamente havia uma razão para Deus tratar Jó daquela maneira. Porém, ele não vê outra alternativa, senão a da existência de graves pecados na vida de Jó. De volta ele traz à baila a temática de causa e consequência para o campo teológico. Ele não consegue ver Deus como causa, mas apenas o pecado como a causa e os males do amigo como consequências deste.
Não satisfeito em tecer sua pseudoteologia de causa e efeito, Elifaz especifica, inclusive, os pecados de Jó. Afirma que o mesmo é violento, de personalidade ambígua, e que joga em dois lados. Elifaz é daquela categoria de pessoas que, mesmo sem evidência alguma, parte de seus próprios pressupostos lógicos para estabelecer juízos temerários. Nesta fase os amigos de Jó saem das meras insinuações para o ataque aberto e direto. Fazem inumeráveis generalizações, utilizando fatos descritos nas Escrituras para supostamente elucidar suas afirmações. Este mesmo fato se vê entre religiosos atualmente: utilizam-se dos textos bíblicos apenas até está o ponto que lhes interessa para justificar suas posições. Muitas injustiças e acusações temerárias são feitas em nome de Jesus, em defesa de uma igreja ou denominação institucional.
Embora Elifaz apresente um ensaio sobre como se reconciliar com Deus, entretanto, este ensino não serve a Jó, porque parte de pressupostos errôneos, a saber, que a causa de todo o mal é a maldade deste seu amigo. Elifaz não consegue visualizar a soberania de Deus no trato com suas criaturas. A tese do temanita é tão tênue que convida Jó a desapegar-se dos bens materiais, porém estes já haviam sido absolutamente destruídos por ordem de Deus.
Lc. 16:8 - "E louvou aquele senhor ao injusto mordomo por haver procedido com sagacidade; porque os filhos deste mundo são mais sagazes para com a sua geração do que os filhos da luz." Nesta parábola Jesus mostra que os filhos das trevas são mais prudentes que os filhos da luz. Isto porque a luz deles não é a luz de Cristo, por isso, são trevas conforme Lc. 11: 34 e 35 - "A candeia do corpo é o olho. Sendo, pois, o teu olho simples, também todo o teu corpo será luminoso; mas, se for mau, também o teu corpo será tenebroso. Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas."
Sola Fide !

A SÍNDROME DE JÓ XI


Jó 21: 4 a 6 - "Porventura eu me queixo de algum homem? Porém, ainda que assim fosse, por que não se angustiaria o meu espírito? Olhai para mim, e pasmai; e ponde a mão sobre a boca. Porque, quando me lembro disto me perturbo, e a minha carne é sobressaltada de horror." Jó deixa claro que a sua queixa é contra Deus. Chama atenção sobre o seu estado de penúria, demonstrando um forte estado de autocomiseração. Esta característica do "coitadinho de mim" é própria do homem, especialmente os religiosos, pois julgam serem merecedores de algum benefício divino. Não se pretende aqui esvaziar de significação o sofrimento de Jó, mas tão somente, mostrar a similaridade de comportamento da alma humana diante dos grandes dramas. Todos que já viveram mais de três ou quatro décadas sabem que há muitas dores e sofrimentos na vida.
No capítulo 20, o amigo de Jó, Zofar descreve a calamidade como consequência dos atos iníquos dos perversos. É muito comum entre os religiosos, especialmente os que se dizem cristãos, considerarem esta mesma doutrina esdrúxula de Zofar. Eles postulam que as pessoas que não professam uma religião, não são bons, corretos e justos passam por provações, dissabores e angústias. Esta é uma doutrina maniqueísta e absolutamente errada. Não existe esta doutrina deletéria nas Escrituras, a qual afirma que só os pecadores não regenerados sofrem. Além do que ela coloca Deus como o autor e promotor do que é mau. Muitos cristãos quando estão diante de acontecimentos estarrecedores, seja com eles mesmos, seja com outros, logo se põem a afirmar que há alguma falha, algum pecado oculto e que tudo é uma espécie de castigo de Deus.
Jó, entretanto, mostra ao seu interlocutor que tal doutrina não tem fundamento, pois os perversos experimentam grandes progressos. Os seus lares, suas famílias, suas propriedades e seus rebanhos prosperam, e eles, descem à sepultura em tranquilidade no fim dos seus dias. Jó faz uma veemente refutação do que lhe fora doutrinado por Elifz em 15:28; por Bildade em 18:14; e por Zofar em 20:28. Não se trata apenas de uma disputa dialética de argumentação, mas porque Jó está buscando entender o seu estado de desagregação e desconstrução moral e espiritual.
Jó não pactua com o conselho dos perversos, e, muito menos, deseja se unir aos pecadores para ter a sua sorte mudada. Apenas refuta a estranha doutrina das recompensas materiais como sinal de bem-estar espiritual e pacificação com Deus. Acusa os seus amigos de presunçosos ao elaborarem teorias mal fundadas. O mundo de hoje está repleto desses teólogos de alcovas que aparecem apenas para defender Deus, como se necessário fosse, e para sobrepor fundamento novo sobre o já estabelecido nas Escrituras. Pretendem estes doutores em divindades estabelecer o caminho em que Deus deve andar. Preferem esta nefasta pseudoteologia, à se curvar ante a soberana vontade de Deus que usa de misericórdia com quer quer, independentemente das suas condições morais.
Jó não defende uma visão unilateral, a qual sustenta que apenas os ímpios obtêm vantagens materiais, mas mostra que a realidade é mais ampla do que supõem os seus amigos. A visão de Zofar, Bildade e Elifaz é a mesma que perdura ainda hoje entre religiosos: o bem provém de Deus, e o mal do Diabo. Esquecem estes analistas superficiais que o conceito de bem e mal é variável de acordo com o tempo e a cultura. É uma mera concepção humana, pois Deus não se limita a estes conceitos.
Perceber-se-á no desenvolver da trama divina para redimir Jó, que Deus não pende, nem para Jó, nem para os seus desagradáveis amigos sabichões. Simplesmente, Deus, em sua soberana vontade permanece no Seu propósito de salvar Jó e envergonhar os religiosos e a Satanás perante os céus.
Soli Deo Gloria!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ X


Jó 19:25 a 27 - "Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus. Vê-lo-ei por mim mesmo, os meus olhos o verão, e não outros; de saudade me desfalece o coração dentro de mim." Prosseguiu Jó em sua indignação contra a situação calamitosa em que se achava, tanto contra Deus, como contra os amigos, parentes e servos. Entretanto, Jó obteve a graça da lembrança de que há um Redentor vivo e que encarnará sobre a Terra. É a memória das profecias sobre o advento do Salvador, do Messias, do Ungido de Deus. Este Redentor é a única resposta concreta às dúvidas e à esperança em meio a dor e o sofrimento. No texto hebraico, a palavra redentor é 'gô'el', significando libertador, protetor, defensor, redentor, justificador ou vindicador. Todos estes qualificativos são referências à obra redentora de Jesus, o Cristo de Deus. Ver com os próprios olhos é a confirmação da exigência para entrar no reino de Deus conforme Jo. 3: 3 e 5 - "Jesus respondeu, e disse-lhe: na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Jesus respondeu: na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus." Desta forma, sem nascimento do alto, o pecador não vê e não entra!
Hb. 2:11 - "Porque, assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos..." De fato Cristo é o santificador dos eleitos e, ambos, pertencem a Deus. Por isso, há um Redentor que é mais do que um amigo verdadeiro, é um irmão. Rm. 8:35 - "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?" Nada pode ou poderá fazer separação entre os eleitos de Deus e o Redentor Jesus, o Cristo de Deus. Não importa a tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo ou espada. O Redentor é alguém que não só justifica, mas também protege, liberta, defende, redime, vindica. O que muitos religiosos não podem compreender é que Deus conduz os seus eleitos para o deserto da dor e do sofrimento para apurar os seus sentidos a fim de que experimentem o que é a misericórda e a graça. O homem só valoriza e compreende a eficácia de uma medicação quando ela cura a sua enfermidade. Muitos preferem apenas ler a bula do remédio, mas não o experimenta!
Is. 47:4 - "O nosso redentor cujo nome é o Senhor dos Exércitos, é o Santo de Israel." Em meio a todas as perdas e danos há uma única possessão que ninguém pode retirar. Os eleitos de Deus são mendigos ricos! Há eternamente um parente vivo que jamais morre, mesmo em meio aos parentes mortos. Eis que surge uma certeza, em meio a tantas incertezas: "eu sei que o meu Redentor vive" é o mesmo que o apóstolo Paulo afirma: "eu sei em quem tenho crido." Por isso a salvação é pela graça, tendo a fé como meio segundo diversas instâncias escriturísticas, especialmente Ef. 2:8 - "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus." Ambas, graça e fé são dons de Deus, exatamente porque o justificado não pode ser também o próprio justificador. Neste sentido é que arminianos e pelagianos estão absolutamente equivocados ao afirmar, por suas próprias expensas, que o pecador coopera com Deus no processo de salvação.
Jesus Cristo é o vindicador, isto é, aquele que reclama ou exige em juízo os direitos de quem defende. Certamente Cristo é quem vindica os direitos perante os falsos juízes e acusadores dos eleitos de Deus conforme I Jo. 2:1 - "Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo."
Solo Christus!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A SÌNDROME DE JÓ IX


Jó 14:13 e 14 - "Quem dera que me escondesses na sepultura, e me ocultasses até que a tua ira se fosse; e me pusesses um limite, e te lembrasses de mim! Morrendo o homem, porventura tornará a viver? Todos os dias de meu combate esperaria, até que viesse a minha mudança." No capítulo 14, Jó discorre sobre a brevidade da vida e a realidade da morte. Insiste no fato que está sendo punido sem causa e tem plena consciência de que nada pode fazer para mudar tal realidade. Fala poeticamente de um sonho no qual vai para o Sheol, ou seja, o mundo dos mortos, e, depois, seria chamado e teria suas transgressões depositadas em um saco e as suas iniquidades seriam encobertas. Isto indica uma leve consciência de redenção em meio ao sofrimento de Jó. A ação da graça de Deus sempre é assim, conduz o homem ao reconhecimento da sua natureza pecaminosa e da graça salvífica d'Ele.
Entretanto Jó volta à realidade das suas dores e perde as esperanças nas ações futuras de Deus. Assim tem sido com o homem, quer a solução para os seus dilemas imediatamente. Desconhece que o tempo de Deus não é o tempo do homem. Por isso, tenta produzir a sua própria salvação sem o concurso da ação monérgica de Deus. E, quanto mais tenta, mais se perde, porque como pode um ser destituído da glória de Deus produzir sua própria redenção?
No capítulo 15, Jó é acusado de impiedade pelo seu amigo Elifaz. É submetido a uma seção de tortura psicológica. É o segundo ciclo de debates, quando Jó é acusado de desprezar a sabedoria dos amigos. Elifaz acusa-o de não se render e se humilhar perante Deus. Os amigos de Jó apegam-se cada vez mais aos seus ensinos preconcebidos e sem a visão do que Deus estava realizando naquele patriarca. De consoladores, os amigos de Jó passam a detratores ofensivos e sarcásticos.
No capítulo 16, Jó se queixa do tratamento dispensado a ele da parte de Deus. Continua reclamando dos consoladores molestos e mais uma vez se coloca em pé de igualdade aos seus amigos no tocante à capacidade de falar e discorrer acerca de Deus. E no capítulo 17, Jó declara a sua descrença e desesperança nesta vida. Reconhece que só Deus poderá providenciar os meios para satisfação das exigências de sua justiça. Cristo é o fiador que Jó se refere! Entretanto, Jó permanece firme no propósito de manter a sua religiosidade, apesar dos males que o afligem. No verso 9, Jó cita pela primeira vez a reivindicação de ser justo.
Bildade, amigo de Jó, faz discurso sobre a sorte do perverso. Acusa Jó de procurar palavras para se justificar e reclamam da rejeição dele aos seus conselhos e considerações. O discurso de Bildade descreve os horrores e os terrores destinados aos perversos, incluindo Jó nesta categoria de homem. Segundo este amigo, Jó quer mudar a ordem das coisas.
Estes amigos de Jó eram religiosos e legalistas que concebiam a realidade à luz de um dualismo, sendo o bem proveniente de Deus e o mal proveniente do Diabo. Esta visão maniqueista persiste ainda nos tempos atuais, especialmente entre os religiosos modernos. Deus está acima do bem e do mal!
Sola Scriptura!

A SÍNDROME DE JÓ VIII


Jó 13: 13 a 24 - "Calai-vos perante mim, e falarei eu, e venha sobre mim o que vier. Por que razão tomarei eu a minha carne com os meus dentes, e porei a minha vida na minha mão? Ainda que ele me mate, nele esperarei; contudo os meus caminhos defenderei diante dele. Também ele será a minha salvação; porém o hipócrita não virá perante ele. Ouvi com atenção as minhas palavras, e com os vossos ouvidos a minha declaração. Eis que já tenho ordenado a minha causa, e sei que serei achado justo. Quem é o que contenderá comigo? Se eu agora me calasse, renderia o espírito. Duas coisas somente não faças para comigo; então não me esconderei do teu rosto: desvia a tua mão para longe, de mim, e não me espante o teu terror. Chama, pois, e eu responderei; ou eu falarei, e tu me responderás. Quantas culpas e pecados tenho eu? Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado. Por que escondes o teu rosto, e me tens por teu inimigo?" No capítulo 12, Jó se restringe a se defender das acusações dos seus amigos. E no capítulo 13, além de demonstrar que não é inferior aos seus amigos acerca do conhecimento de Deus, resolve arguir ao próprio Deus. Estes amigos de Jó são a tipificação daqueles religiosos defensores da religião. São como advogados de Deus, os quais estão prontos a condenar qualquer situação ou pessoa para justificar Deus. Entretanto, se esquecem que Deus Si basta a Si mesmo e é Justo.
O mundo de hoje está cheio de Bildades, Zofares e Elifazes. Basta qualquer comentário sobre uma determinada personalidade religiosa, igreja ou denominação, logo os seus defensores aparecem munidos até os dentes de razões. Ora, primeiramente a verdade é una e é uma, logo, como podem existir inumeráveis seitas e religiões? Porque há tantas diferentes traduções dos textos sagrados, cada uma favorecendo esta ou aquela interpretação? Porque o mesmo texto bíblico fala uma verdade para uma religião e outra verdade para a outra? A verdade não é uma concepção, mas é uma pessoa, a saber, Cristo e Cristo mesmo.
Jó representa nesta instância, o homem religioso que se apega apenas à si mesmo, à sua própria integridade e ousa questionar Deus. Por não ter uma visão correta de si mesmo, também desenvolve uma visão errônea de Deus e das outras pessoas. Quando o homem decaído põe o foco em Cristo e se vê nú, cego, pobre e desgraçado, aí sim, Deus começa a mudar a sua sorte.
Jó reivindica duas coisas: a) que Deus lhe dê alívio; b) que Deus lhe faça perguntas e que lhe responda. Ele joga perante a face de Deus a seguinte indagação: "quantas culpas e pecados tenho eu?" Pede a Deus que lhe notifique a sua transgressão e o seu pecado. Não é assim que procedem os religiosos quando lhes acontecem coisas indesejáveis? Logo se põem a perguntar: onde foi que errei? Qual é o meu erro? Porque está acontecendo isto comigo? Estou em pecado para Deus me castigar? Muitos destes, logo desenvolvem uma teologia da autocomiseração e dos sacrifícios para apaziguar Deus. No fundo estão com os seus entendimentos obscurecidos pelo 'deus' deste século. Suas mentes cauterizadas por conceitos e preconceitos próprios não podem retirar o foco de suas justiças próprias, por isso, não conseguem olhar para Jesus autor e consumador da fé.
A visão correta é aquela exposta por Davi segundo o Sl. 51: 1 a 3 - "Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado. Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim."
Sola Fide!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ VII


Jó 11:1 a 11 - "Então respondeu Zofar, o naamatita, e disse: porventura não se dará resposta à multidão de palavras? E o homem falador será justificado? Às tuas mentiras se hão de calar os homens? E zombarás tu sem que ninguém te envergonhe? Pois dizes: a minha doutrina é pura, e limpo sou aos teus olhos. Mas na verdade, quem dera que Deus falasse e abrisse os seus lábios contra ti! E te fizesse saber os segredos da sabedoria, que é multíplice em eficácia; sabe, pois, que Deus exige de ti menos do que merece a tua iniquidade. Porventura alcançarás os caminhos de Deus, ou chegarás à perfeição do Todo-Poderoso? Como as alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás tu fazer? É mais profunda do que o inferno, que poderás tu saber? Mais comprida é a sua medida do que a Terra, e mais larga do que o mar. Se ele passar, aprisionar, ou chamar a juízo, quem o impedirá? Porque ele conhece aos homens vãos, e vê o vício; e não o terá em consideração?" Zofar é a tipificação do religioso legalista. Ele sai na defesa de Deus, sem que o mesmo tenha dele isto requerido. Deus não necessita de advogados, porque Ele mesmo é o Justo Juiz e se basta a si mesmo. Zofar é o tipo do amigo que está mais interessado em condenar e estabelecer julgamentos sem conhecimento de causa, do que necessariamente confortar e consolar na hora da dor.
Realmente tudo o quanto Zofar disse a Jó no capítulo 11 é verdadeiro no tocante ao reconhecimento do que é o homem e de quem Deus é. Entretanto, Deus não lhe delegou poderes para atribuir a Jó qualquer juízo.
Zofar acusa Jó de ser um falador, tagarela, paroleiro, mentiroso e zombeteiro. Realmente se vê que religiosos gostam muito de falar, porém não têm a mesma disposição para ouvir. Em muitas dessas igrejas institucionais observa-se que a maioria é animada na hora do ruidoso "louvor", mas quando começa a pregação, estes perdem imediatamente o entusiasmo.
Zofar de certa forma vaticina o que Deus realmente irá fazer a Jó, porque de fato Ele o levará ao pleno conhecimento dos segredos e da sabedoria. Também Deus purificará a Jó e perdoará a sua iniquidade, pois é este o sentido da graça e da misericórdia d'Ele. Zofar mostra que o mais sábio dos homens é estúpido como o asno montês. Esta espécie de asinino não podia ser domada conforme fica claro em Jó 39: 5 a 8 - "Quem despediu livre o jumento montês, e quem soltou as prisões ao jumento bravo, ao qual dei o ermo por casa, e a terra salgada por morada? Ri-se do ruído da cidade; não ouve os muitos gritos do condutor. A região montanhosa é o seu pasto, e anda buscando tudo que está verde."
Zofar indica a Jó que ele necessita render-se a Deus, limpar as suas mãos lançar fora a sua iniquidade para estar em condições de manter comunhão com Ele. Isto implica em arrependimento de pecados e mudança de foco de si mesmo, para Deus. Todavia, faltou a Zofar o conhecimento e o reconhecimento de que tudo isso se processa monergisticamente e não com a cooperação do pecador. Esta é a questão mais penosa para um religioso: conhecer e reconhecer o seu estado pecaminoso, mesmo que não cometa muitos atos pecaminosos. O homem sem a graça não consegue compreender a realidade da natureza pecaminosa, pois vê apenas os atos pecaminosos. Por isso, julga que, ao não cometer muitas falhas, deslizes e atos imorais, logo conclui que não tem do que se arrepender. Entretanto, Deus quer é rasgar o escrito de dívida, ou seja, a culpa do pecado original. Logo, o homem é pecador, porque é portador de uma natureza geradora dos pecados. Não é pecador apenas porque comete pecados, mas porque a tal natureza adâmica o leva a cometê-los. A justificação por inclusão na morte e na ressurreição com Cristo é que elimina a natureza pecaminosa retirando a culpa do pecado. E, com o processo de produção da semelhança de Cristo, os atos pecaminosos vão desaparecendo até o dia da restauração final.
Sola Gratia!

domingo, 11 de outubro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ VI


Jó 10: 1 a 9 - "A minha alma tem tédio da minha vida; darei livre curso à minha queixa, falarei na amargura da minha alma. Direi a Deus: não me condenes; faze-me saber por que contendes comigo. Parece-te bem que me oprimas, que rejeites o trabalho das tuas mãos e resplandeças sobre o conselho dos ímpios? Tens tu porventura olhos de carne? Vês tu como vê o homem? São os teus dias como os dias do homem? Ou são os teus anos como os anos de um homem, para te informares da minha iniquidade, e averiguares o meu pecado? Bem sabes tu que eu não sou iníquo; todavia ninguém há que me livre da tua mão. As tuas mãos me fizeram e me formaram completamente; contudo me consomes. Peço-te que te lembres de que como barro me formaste e me farás voltar ao pó." Jó está decidido a continuar se queixando de Deus, e isto, o conduzirá a uma situação da qual terá de expor o pecado oculto em seu coração. Quando isto acontecer Deus agirá e o regenerará. Não é pelo desafio ou pela lisonja que Deus se inclina ao pecador. É sempre e invariavelmente por misericórdia e graça. Toda a tese de Jó se restringe a si mesmo quando levanta a questão do tédio da sua alma pela sua própria vida. A alma é a parte constitutiva do homem que possui a vida animada, os sentimentos, os desejos e as vontades. A vida está no sangue e este é que expia pela alma conforme Lv. 17:11 - "Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação pela alma." Por esta razão é que Cristo teve de ser sacrificado na cruz para purificação do pecado.
Jó apela ao Oleiro Eterno tentando lembrá-Lo da profundidade e da beleza de Sua obra ao formá-lo com tanta ciência. Por isso, Jó não podia entender o objetivo de Deus ao atingi-lo com perdas, doenças e insultos dos amigos. Até então ele permanecia centralizado em si e no seu drama. Quando a percepção da realidade fica restrita apenas ao homem e suas dificuldades permanecerá apenas na periferia das impossibilidades humanas e não na totalidade da possibilidade de Deus conforme Mt. 19:26 - "E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível." A fé, dom de Deus, torna qualquer impossibilidade em possibilidade conforme Mc. 9:23 - "E Jesus disse-lhe: se tu podes crer, tudo é possível ao que crê."
Jó acusa Deus de ser extremamente rigoroso com os mais leves pecados e se coloca na perspectiva de uma criatura inocente e vitimada pelo rigor d'Ele. Ocorre, no entanto, que Deus vê o pecado, ou seja, a natureza determinadora dos atos pecaminosos. Esta fonte é que é o alvo da justiça de Deus na cruz. A justificação do pecador sempre foi por meio da morte em Cristo na cruz.
Por não compreender e não receber o mal que lhe fora destinado, Jó sente que já fora condenado à desgraça. Entretanto, a graça é justamente para os que se sentem desgraçados. A misericórdia é exatamente Deus não nos dando o que de fato merecemos como pecadores. Assim, Deus está conduzindo Jó a um processo de reconhecimento da sua natureza pecaminosa para usar para com ele de misericórdia e graça.
Solo Christus!

A SÍNDROME DE JÓ V


Jó 7:1 a 5 - "Porventura não tem o homem guerra sobre a terra? E não são os seus dias como os dias do jornaleiro? Como o cervo que suspira pela sombra, e como o jornaleiro que espera pela sua paga, Assim me deram por herança meses de vaidade; e noites de trabalho me prepararam. Deitando-me a dormir, então digo: quando me levantarei? Mas comprida é a noite, e farto-me de me revolver na cama até à alva. A minha carne se tem vestido de vermes e de torrões de pó; a minha pele está gretada, e se fez abominável." No capítulo 7, Jó continua a sua lamentação diante de Deus, por causa do seu infortúnio. Demonstra a sua escassez de fé genuína, isto é, da fé que procede de Deus, porque o homem não pode ter fé em Deus, mas apenas a fé de Deus. É a fé que possui o homem e não o homem que possui a fé. Ela é dom e não habilidade, capacidade ou talento. Nos versos 8 a 10, Jó deixa clara a sua desesperança na ressurreição. Toma a morte como ponto final e não considera o poder de Deus para trazer os mortos à vida conforme Rm. 4:17 - "Como está escrito: por pai de muitas nações te constituí, perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem."
Nos versos 14 a 21 Jó confronta-se diretamente com Deus. No verso 20 ele chega ao ponto de indagar a Deus em que aspecto o seu pecado fez mal a Ele. Chama Deus de 'Espreitador dos homens', como se Deus se divertisse às custas das desgraças humanas, simplesmente por vê-los sofrer. No verso 21 ele coloca Deus como alguém que brinca de tiro ao alvo com o homem, no caso, ele mesmo, Jó era o alvo.
No capítulo 8, o amigo de Jó, Bildade, o suíta, reafirma a justiça de Deus e se põe a condenar as atitudes e as palavras de Jó. Assim, também agem os religiosos, em geral, quando alguém está passando por dificuldades ou provações: se tornam advogados de Deus, defendem-no sem saber que muitos males na vida do homem são da vontade d'Ele. Tudo quanto Deus realiza é para um fim útil e grandioso, inclusive, aquilo que reputamos como o mal. É que a religião humanista coloca invariavelmente o bem como procedente de Deus e o mal como procedente do Diabo. Ora, Deus é soberano e não há nada que Lhe escape. O que prevalece é a Sua soberania!
No capítulo 9, Jó se declara incompetente para discutir com Deus. Porém, continua se colocando como uma mera vítima da situação. Isto prova e comprova que não basta ao homem saber acerca da grandeza de Deus. O que Deus pretende produzir nos seus eleitos é o conhecimento pleno d'Ele como pessoa e não apenas como Criador. Nos versos 15 e 16, Jó diz que não responderia e não argumentaria, mesmo que fosse justo. Declara que mesmo que chamasse e Deus o respondesse, não creria que Ele o ouviria. Jó não confessa Deus, ele simplesmente declara acerca de Deus. Este é o maior problema do homem religioso, ou não. Imaginam em seus corações que o simples fato de declarar acerca de Deus o torna conhecedor d'Ele e alvo de bênçãos e méritos. Nem toda a eternidade será suficiente para conhecer plenamente a Deus.
Nos versos 17 a 19, Jó finalmente atribui a culpa de todo o seu sofrimento a Deus. No verso 20, finalmente, Jó se declara quase como um justo. Daí por diante ele afirma que Deus não se importa com a sorte de ninguém e nem da Terra. Acusa Deus de cobrir o rosto e não ver a perversidade dos homens.
Toda a tese de Jó está focada nele mesmo, ainda que faça declarações brilhantes acerca de Deus. A compreensão intelectual de Deus não é muito útil ao homem portador da natureza pecaminosa. Isto mostra que a salvação é ação monérgica de Deus e não resultante do sinergismo humano.
Soli Deo Gloria!

sábado, 10 de outubro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ IV


Jó 6: 1 a 5 - "Então Jó respondeu, dizendo: oh! se a minha mágoa retamente se pesasse, e a minha miséria juntamente se pusesse numa balança! Porque, na verdade, mais pesada seria, do que a areia dos mares; por isso é que as minhas palavras têm sido precipitadas. Porque as flechas do Todo-Poderoso estão em mim, cujo ardente veneno suga o meu espírito; os terrores de Deus se armam contra mim. Porventura zurrará o jumento montês junto à relva? Ou mugirá o boi junto ao seu pasto?" Neste ponto começam aparecer sinais de desesperança em Jó. Evidentemente que se deve considerar, o imenso sofrimento físico e almático dele. Jó se declara magoado e miserável. Atribui a sua miserabilidade a ação de Deus, embora não a entenda e não a receba. Alega, por metáfora, que se as coisas estivessem boas, não haveria motivos para reclamar.
Esta é de fato a realidade humana: está sempre aberto a receber apenas o bem com gratidão. Entretanto, as Escrituras ensinam que se deve dar graças em tudo conforme I Ts. 5:18 - "Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco." A vontade de Deus é em Cristo Jesus e não com base em pressupostos de justiça própria do homem. Não é muito fácil dar graças na hora da provação e da angústia, entretanto, esta é a exigência de Deus. A questão é principiológica, porque a alma que dá graças em tudo, possui a mente de Cristo. Logo, fica evidente a natureza que domina o homem que vive da fé e da graça.
Nos versos 7 a 9, Jó desejou que Deus o matasse para aliviar a sua dor. Este tem sido o mesmo comportamento do homem, quando está tudo bem, quer viver e tirar proveito da vida, quando está tudo ruim deseja a morte para fugir à realidade. Nos versos 10 a 13, Jó afirma-se como alguém que não tem fé, pois vê apenas o seu fim e não a misericórdia e a graça de Deus. Este tem sido o problema do pecado no homem, não confia em Deus plenamente. Confiança parcial não é confiança! Sabendo que confiança provém de dois vocábulos: com e fiar, ou seja, ter fé. Jó reclama da perda dos seus recursos, mostrando que o homem põe muito a sua confiança no que tem e não no que não pode ver e tocar. O princípio da fé genuína é crer para ver e não ver para crer. Isto tem produzido muita desconfiança em religiosos e viciados em igrejas institucionais. Esperam muito do que não pode oferecer nada.
Jó reclama veementemente dos seus amigos, porque estão tratando-o com dureza. Afirma que não pediu nada para eles e que não via em que havia errado para ser assim tratado. Reivindica um juízo mais exato sobre a sua causa e que espera deles a afirmação da sua justiça conforme verso 29. Afirma que não há iniquidade em suas palavras. Todavia, desconhece que a iniquidade do homem está no seu coração e não nas suas palavras. As palavras apenas refletem aquilo de que o coração está cheio.
Normalmente as pessoas julgam que só é pecado o que o homem fala ou faz. Entretanto, o pecado é a natureza humana contaminada pela natureza adâmica, denominada nas Escrituras de velho homem, ou corpo do pecado. Enquanto isto tudo não é destruído na morte com Cristo continua no homem, por mais ético e comportado que ele seja. Para extirpar o pecado só há um lugar: a cruz.
Jó só conheceu esta verdade após passar por todo o processo de regeneração produzido por Deus conforme fica registrado no último capítulo do livro que leva o seu nome.
Sola Fide!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ III


Jó 2: 1 a 7 - "E, vindo outro dia, em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles, apresentar-se perante o Senhor. Então o Senhor disse a Satanás: donde vens? E respondeu Satanás ao Senhor, e disse: de rodear a Terra, e passear por ela. E disse o Senhor a Satanás: observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na Terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal, e que ainda retém a sua sinceridade, havendo-me tu incitado contra ele, para o consumir sem causa. Então Satanás respondeu ao Senhor, e disse: pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida. Porém estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se não blasfema contra ti na tua face! E disse o Senhor a Satanás: eis que ele está na tua mão, porém guarda a sua vida. Então saiu Satanás da presença do Senhor, e feriu a Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça."
Na primeira experiência de Jó, Deus permitiu a Satanás que retirasse todos os seus bens, porque o maligno levantou a prosperidade como sendo uma âncora que faz do homem um ser fiel a Deus. Jó perdeu absolutamente tudo o que possuía, como também os seus dez filhos. Até aí Jó não pecou com os lábios contra Deus conforme os versos 20 a 22 do capítulo 1, assim o demonstram: "Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou. E disse: nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor. Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma."
Na segunda experiência foi permitido ao maligno tocar o corpo de Jó e ferir-lhe com chagas, ou úlceras malígnas desde a planta do pé até a raíz do cabelo. Ainda assim, não pecou Jó contra Deus, conforme o relato do capítulo 2, versos 9 a 10 : "E Jó tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza. Então sua mulher lhe disse: ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre. Porém ele lhe disse: como fala qualquer doida, falas tu; receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios." O pecado que desligou o homem de Deus não foi por palavras ou atos falhos, estes são consequências do pecado que fez o homem perder a comunhão com Ele. Esta é a confusão que as religiões e seitas ditas cristãs fazem na cabeça dos seus seguidores: confundem atos pecaminosos com o pecado.
Há pessoas capazes de suportar intenso sofrimento e muitas provações por algum tempo, porque acreditam em uma teologia da purificação pela dor. Pelo menos por palavras não dizem desatinos ou murmurações, porém há profunda diferença entre pecar por palavras, por atos e no coração com a natureza pecaminosa. Estas atitudes aparentemente resignadas são subproduto de um senso de justiça própria e de bondade desenvolvido pela religião e pela cultura moral em que a pessoa é submetida desde a mais tenra idade. Ela está focada no homem e seus pressupostos e não na centralidade do amor de Deus. Desta forma o homem se submete por algum tempo para comover o coração de Deus a lhe ser favorável, depois utiliza isto como argumento para reivindicar algo de Deus. É diferente ter o temor de Deus e buscar o temor de Deus. No primeiro caso a ação é monérgica, no segundo é sinérgica. Agir dessa forma pode ser uma boa atitude sociológica e antropológica, mas não necessariamente uma boa atitude espiritual. Isto porque só há um que é bom, a saber, Deus. O verdadeiro regenerado não possui a bondade, a bondade de Deus é que o possui.
No capítulo 3, Jó começa perder a sua elegância e paciência. Quando viu que a sua aparente serenidade não superava a crise, amaldiçoou o dia do seu nascimento. Aí que começou a expor o que de fato estava no íntimo da sua natureza adâmica decaída. Começou a falar e conforme o texto sagrado afirma, "na multidão de palavras não falta pecado, mas o que modera os seus lábios é sábio."
Em todo o capítulo três Jó derramou o que estava de fato em seu coração amargurado pela dor e pela perda. Não economizou palavras para expressar a sua indignação contra o que estava passando. Não é assim entre os religiosos e os homens, em geral? Quando está tudo bem, tudo é aceitável, tolerável e maravilhoso. Basta algum desequilíbrio para a velha natureza mostrar a sua real face. A desconfiança de que Deus abandonou o barco e que os seus esforços e dedicação foram em vão levam o homem a revelar a sua real situação pecaminosa. É neste ponto que surge a ira do louco que o destrói e o zelo do tolo que o mata conforme Elifaz, amigo de Jó, ensina no capítulo 4.
Sola Fide!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ II


Jó 1: 1 a 5 - "Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era este homem íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal. E nasceram-lhe sete filhos e três filhas. E o seu gado era de sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; eram também muitíssimos os servos a seu serviço, de maneira que este homem era maior do que todos os do oriente. E iam seus filhos à casa uns dos outros e faziam banquetes cada um por sua vez; e mandavam convidar as suas três irmãs a comerem e beberem com eles. Sucedia, pois, que, decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó, e os santificava, e se levantava de madrugada, e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; porque dizia Jó: talvez pecaram meus filhos, e amaldiçoaram a Deus no seu coração. Assim fazia Jó continuamente."
Jó cujo nome significa, "voltado sempre para Deus", era um semita da terra de Uz, o que hoje corresponde à Arábia Saudita. Há frágeis indícios de que Jó tenha vivido entre os séculos XVII e XVI a. C. Era possuidor de um perfil socialmente aceitável, pois dele se diz que era reto, íntegro, temente e evitava o mal. Tinha dez filhos, milhares de cabeças de gado e muitos empregados estava a seu serviço. Em termos materiais e morais era tido como maior entre todos os homens do Oriente.
Verifica-se pelo texto, que Jó era profundamente religioso, pois antes mesmo de os filhos se reunirem para banquetear e celebrar, se preocupava em sacrificar a Deus preventivamente. Jó entendia que se poderia obter uma sentença favorável, ajuizando uma medida cautelar, no caso de os seus filhos cometerem algum pecado. Queria uma proteção sobrenatural sobre a sua prole, ainda que para tanto, isto lhe custasse sacrifícios de holocaustos noturnos de contínuo. Neste ponto, Jó almejava ser mais justo que o Justo Juiz.
Jó é um tipo, a saber, uma tipificação do homem decaído que supõe poder conduzir Deus à realização da sua vontade. Ainda que politicamente correto, o homem não pode positivar, validar e normatizar a vontade de Deus. Salvo, quando Deus solicita e determina alguma ação humana na Terra, o homem não Lhe pode mover ou demover em nada.
À ação isolada ou coletiva do homem na direção e no sentido de mover e comover Deus dá-se o nome de religião. É uma luta inglória de chegar a Deus por meio de suas próprias expensas. A religião é uma ação sinergística, pois envolve o esforço do homem em suposta cooperação com a ação monergística de Deus. Neste sentido, uma anula a outra, pois se há duas forças atuando em sentidos opostos, uma prevalecerá sobre a outra. Elas são conjuntas apenas na aparência e no desejo do homem. Porém, em sua natureza são opostas, porque Deus é Santo, Justo e Puro, enquanto o homem é pecador, injusto e impuro. É esta condição que o qualifica como decaído e depravado, portanto, carente da graça redentora, não sendo o seu autor e promotor.
O braço de Deus é movido, tão somente quando Ele concede o dom da fé ao homem e o vivifica para crer. Conforme ensinam as Escrituras, tanto a graça, como a fé são dons de Deus, logo o homem não é o autor da ação resultante destes dons.
Na suposição de agradar a Deus em seu coração, o homem pecador cria um maior abismo entre si e o Criador. Isto fica claro em Is. 1:13 - "Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer." A questão fundamental é que o homem religioso se preocupa com o continente e não com o conteúdo; se importa com o culto e não como o cultuado; se importa com a forma e não com a essência. A questão posta no texto acima é que toda a solenidade do culto era contaminada pelas iniquidades. Os religiosos buscam objetivos no culto e não objetividade do Deus cultuado. Restando, por isso, apenas adoração sem o adorado!
Soli Deo Gloria!

domingo, 4 de outubro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ I


Jó 42: 1 a 6 - "Então respondeu Jó ao Senhor, dizendo: bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido. Quem é este, que sem conhecimento encobre o conselho? Por isso relatei o que não entendia; coisas que para mim eram inescrutáveis, e que eu não entendia. Escuta-me, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás. Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te vêem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza."
Uma síndrome, no sentido e na extensão que interessa aqui, se define como um conjunto de características ou de sinais associados a uma condição crítica, suscetíveis de despertar reações de temor e insegurança. Este personagem bíblico, cuja existência real já foi questionada por alguns segmentos teológicos, é um típico caso de síndrome.
Pouco importa se Jó foi um personagem fictício ou real. O que de fato conta é que o relato da sua experiência é um ensino profundo da graça e da soberania de Deus, da realidade do Diabo, e da condição pecaminosa do homem. Jó foi um dos poucos homens elogiados diretamente por Deus. Dele foi declarado que era reto, íntegro, temente e desviava-se do mal. Apesar da referendada declaração de Deus diante dos seus anjos e de Satanás, Jó ainda era portador da síndrome do falar do que não conhecia, como se conhecedor fosse. Deste mesmo mal todos os homens decaídos sofrem.
A questão da síndrome é endêmica na natureza humana. Tal natureza é portadora do pecado, sendo este definido por Cristo em Jo. 16: 9, como sendo a incredulidade. De fato foi por incredulidade que Adão caiu no conto da serpente. Deu crédito à pregação do Diabo, e desprezou a pregação de Deus. Foi seduzido pelo desejo de ser, como Deus, conhecedor do bem e do mal. As Escrituras mostram com profunda clareza que a queda do homem o atingiu totalmente e não parcialmente como pretendem os religiosos pelagianos e arminianos, entre outros deslizes teológicos.
A ordem de Deus em Gn. 2:17 utiliza a expressão hebraica "môth tamuth", isto é, 'morrer morrendo.' Trata na língua semítica de um verbo no infinitivo absoluto. Em português corresponde a uma locução adverbial expressa como: "certamente morrerás." Assim, quando o homem caiu, ele morreu, não imediatamente no aspecto físico, mas para Deus e, consequentemente, foi morrendo fisicamente. Assim, como o pecado de Adão passou a todos os homens, porque ele era, não apenas o primeiro homem, mas o representante de toda a humanidade, todos os seus descendentes morreram para Deus. É aparentemente paradoxal dizer que alguém vivo está morto, mas no sentido bíblico é exatamente isto que acontece. O homem nasce vivo biologicamente, mas morto espiritualmente. A sua natureza está contaminada pelo pecado original e, portanto, morta para Deus. A morte espiritual significa separado ou destituído da natureza de Deus.
A solução para tal morte, isto é, separação entre o homem decaído e Deus é apenas uma: morrer para o pecado, sendo incluído na morte de Cristo e na sua consequente ressurreição. Deus mata a morte do homem, na morte de Cristo e o traz da morte para a maravilhosa vida de Cristo na ressurreição. Isto se dá por fé e não por atos.
Jó era um homem sociologicamente admirável, pois reto, íntegro, temente e procurava evitar o mal. Como a sociedade moderna carece de homens assim! Entretanto, era portador da síndrome do desconhecimento de Deus. Isto foi declarado por ele mesmo no texto que abre este artigo. É admirável como Deus agiu no caso de Jó e o fez ver com os próprios olhos a sua condição miserável espiritualmente e o mesmo foi levado ao verdadeiro arrependimento.
Sola Gratia!

domingo, 27 de setembro de 2009

ESPÍRITOS ENGANADORES E RELIGIÕES ENGANADAS XX


I Jo. 2:18 - "Filhinhos, esta é a última hora; e, conforme ouvistes que vem o anticristo, já muitos anticristos se têm levantado; por onde conhecemos que é a última hora." O substantivo anticristo possui o sentido de tudo o que se opõe a Cristo, aos cristãos e ao Cristianismo. Todavia, também significa aquele ou aquilo que presume tomar o lugar de Cristo. O vocábulo utilizado no texto que abre esta instância, é no grego neotestamentário, 'antichkristós', resultando da junção do prefixo 'anti' que é uma preposição, podendo significar: "face a face, oposto a, em frente de, no lugar de". Acrescido do título "Christós" que significa: Ungido, Escolhido, Enviado. Assim, a expressão 'anticristo' significa "que supõe tomar o lugar de Cristo, em substituição a Cristo, no lugar de Cristo."
Cumpridas as devidas exigências semânticas, passemos às considerações ao texto. O apóstolo João está mostrando que há uma profecia do advento do anticristo, mas que muitos homens já havia se levantado nesta condição, pois em suas heresias pretendiam tomar o lugar de Cristo na primazia do evangelho e da justificação do pecador. O ensino joanino é que estes acontecimentos e comportamentos na Igreja eram indicações de que o tempo do fim havia começado desde o primeiro século da era cristã.
Estes anticristos, os quais têm surgido e insurgido ao longo dos séculos desta última hora são doutrinadores, pregadores, professores de teologia, missionários, líderes religiosos. Os tais pretendem quebrar toda a revelação compendiada nas Escrituras para inserir seus métodos para a salvação do homem decaído. As Escrituras mostram que o homem decaído e absolutamente depravado, não possui capacidade alguma para crer no evangelho e para cumprir a lei moral; que a eleição divina é por graça e não por mérito, sendo, portanto, soberana, irresistível e incondicional. Os pecadores achados pela graça recebem fé para crer e para serem justificados mediante esta fé; que a obra remidora de Cristo teve como alvo a salvação dos eleitos e não de todos os homens; que a obra do Espírito Santo é a de conduzir os pecadores à fé por meio do convencimento da justiça, do juízo e do pecado; e que os eleitos regenerados são guardados nesta fé recebida e na graça pelo poder de Deus até que cheguem a glória eterna.
Desta forma uma das primeiras manifestações dos anticristos protótipos do anticristo final é a da negação destas verdades. Eles não conseguem alcançá-las por conta própria, porque as tais resultam da misericórdia e da graça livre de Deus, por isso, se rebelam contra elas criando uma religião paralela e de segunda mão.
Rm. 9:16 - "Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia." Então, a salvação não depende do querer do homem, nem tão pouco do esforço humano, mas de Deus que usa de misericórdia. Isto é considerado pelos espíritos enganados pelos espíritos enganadores como uma humilhação e uma injustiça de Deus. O espírito do engano religioso age sempre desta forma: se não podem crer, então não é verdadeiro.
Pelágio foi um desses, que, não podendo compreender a real existência da natureza pecaminosa, anterior e determinante dos atos pecaminosos, preferiu negar que houvesse o pecado original. Depois dele, tantos outros assim também procederam em suas crenças em arrepio às Escrituras. Dentre eles, um merece destaque pela importância a que a ele foi atribuída como grande virtuose, grande avivalista e grande pregador. Trata-se de Charles G. Finney. As Escrituras afirmam que o pecado original de Adão passou a todos os seus descendentes, porque ele era não apenas o pai ancestral, mas também o representante da raça humana. Por isso, no texto original hebraico ele é chamado de "cabeça federal de raça". Estava Adão em uma relação de pacto com Deus e com os seus descendentes. Como Adão pecou, transmitiu por culpa legal as consequências do pecado a todos os seus representados. Por isso, Deus encerrou tudo e todos debaixo do pecado para usar de misericórdia para com todos conforme Gl. 3:22 - "Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos que crêem." Finney afirmou que tais ensinos das Escrituras eram absurdos e que o pecado, tal como ele o entendia, era resultado da livre escolha do homem. Assim, nasceu a falsa doutrina do "livre arbítrio". Finney estava baseado no sistema filosófico de Imanuel Kant, o qual afirma: "se eu devo, eu posso." Para Finney a doutrina do pecado original era uma subversão do evangelho e repulsiva à inteligência humana. Pelágio negava a graça como necessária à salvação, enquanto Finney admitia a ajuda do Espírito Santo para tanto, porém com a cooperação do homem pecador. Atropelou capítulos inteiros das Escrituras para sustentar isso apenas com base em cogitações filosóficas, lógica forense e senso de justiça própria para um pecador destituído da glória de Deus. Este Charles Finney foi um pobre enganado e um tolo enganador. Como a religião enganada aprecia o engano, ele é tido como grande avivalista ainda hoje.
Assim, de fato, muitos anticristos se têm levantado e se levantarão outros tantos ainda. Cada nova geração de anticristos será mais enganada e mais enganadora que a anterior. Isto ocorrerá até que venha o Anticristo final, o qual o Senhor dos Senhores e o Rei dos Reis destruirá como o sopro da sua boca.
Então fica o que reza I Tm. 1:17 - "Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus sábio, seja honra e glória para todo o sempre. Amém."