sábado, 20 de agosto de 2016

PARA VIVER ETERNAMENTE É NECESSÁRIO MORRER PRIMEIRO

Jo. 12: 24 a 25 - "Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo caindo na terra não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á; e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quiser servir, siga-me; e onde eu estiver, ali estará também o meu servo; se alguém me servir, o Pai o honrará."
Morte é um substantivo feminino cuja significação é 'interrupção definitiva da vida de um organismo vivo.' Tal substantivo deriva do verbo morrer que, por sua vez, significa: 'perder a vida, finar-se, falecer, expirar,' enquanto verbo pronominal, intransitivo e predicativo. A morte é a única certeza que alguém passa a ter após atingir a consciência plena. Para a maioria a morte é uma certeza aterrorizante. Por esta razão muitos gastam tudo o que têm e até o que não têm em busca de adiar ou eliminar a morte. Há hoje diversos centros de pesquisas contratados para congelar pessoas portadoras de doenças, até agora, incuráveis. O medo da morte, em sua maior parte, se justifica pela incerteza quanto ao prosseguimento após cessar a existência terrena. Para alguns, a morte é o limite final da vida biológica e da existência do ser; para outros, a morte é um evento que define estágios na escala evolutiva do homem; para outros ainda, a morte é a certeza de uma vida eterna, redimida; finalmente, para uma grande parte de pessoas, a morte é a certeza apenas da condenação por seus atos falhos. 
As Escrituras ensinam que a destinação do homem após a morte é a seguinte: o corpo retorna ao pó de onde foi formado e o espírito retorna a Deus que o assoprou nas narinas do primeiro Adão conforme Gn. 3:19 - "... porquanto és pó, e ao pó tornarás." Na cultura judaica veterotestamentária, a menção ao espírito é dupla, pois se refere à alma e ao espírito. Por esta razão boa parte dos teólogos modernos não aceita a tripartição do homem em corpo, alma e espírito. Isto é esclarecido em Gênesis, quando é afirmado o seguinte: "... e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente." A expressão hebraica traduzida, nas línguas ocidentais, para "fôlego da vida" é "nefesh l'hayym", ou seja, o 'fôlego das vidas'. Muitos tradutores, por não terem revelação sobre o assunto, reduz tal expressão a uma série de explicações gramaticais mirabolantes. Todavia, o texto faz referência à alma e ao espírito. A alma não é uma entidade que incorpora no homem juntamente com espírito, mas é uma dimensão sensorial que caracteriza cada pessoa. É uma referência à vida almática e à vida espiritual inoculadas no primeiro ancestral e passada à humanidade.
Desta forma, o corpo é a dimensão físico-biológica, a alma é a dimensão psíquica ou a consciência, e o espírito é a essência divina que retorna a Deus. A alma é, portanto, aquilo que o homem é em sua consciência existencial. Desta forma, Adão recebeu o corpo formado pelos elementos químicos do barro, a alma ou corpo psíquico e o espírito eterno conforme I Co. 15:45 - "Assim também está escrito: o primeiro homem, Adão, tornou-se alma vivente." Assim, Adão, o ancestral comum comunicou aos seus descendentes esta estrutura corporal, almática e espiritual. O espírito só se comunica com o Espírito de Deus; a alma é a parte sensitiva ou sensorial percebe a realidade; e o corpo sente, agindo e reagindo ao comando da alma. A alma é a dimensão vivente para a realidade terrena, enquanto o espírito é a dimensão viva em relação a Deus. Porém, o pecado original fez que o espírito se tornasse morto para Deus.
O texto que abre esta instância é uma parábola cujo ensino é sobre a necessidade da morte da natureza pecaminosa do homem e do seu novo nascimento. A explicação de Jesus, o Cristo é muito simples e se utiliza de elementos da natureza e comuns ao dia-a-dia daqueles que o ouviam. Ao semear um grão de trigo ele tem duas possibilidades: germinar e se desfazer para dar lugar a uma nova planta, a qual produzirá diversas espigas com novos grãos de trigo; permanecer ressequido na terra e não produzir nada de novo. 
O ensino é igualmente muito simples: para que o homem natural, representado pelo grão de trigo, seja semeado e experimente o nascimento do alto, terá de morrer em Cristo e ressuscitar juntamente com ele conforme Ef. 2:4 a 6 - "Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus..." Desta forma o espírito do homem tornou-se morto para Deus, isto é, perdeu o elo com o Espírito Santo. Por isto, Jesus, o Cristo veio para morrer a nossa morte e nos incluir em sua morte de cruz conforme Rm. 6: 3 a 6 - "Ou, porventura, ignorais que todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se temos sido unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente também o seremos na semelhança da sua ressurreição; sabendo isto, que o nosso homem velho foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado fosse desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado."
O resumo desta doutrina, a saber, da inclusão do pecador na morte de Cristo consiste na seguinte sequência:
a) Apenas Deus conduz os pecadores eleitos até Cristo para ganharem a vida eterna conforme Jo. 6:44 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer..."
b) Jesus, o Cristo inclui o pecador eleito em sua morte conforme Jo. 12: 32 e 33 - "E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. Isto dizia, significando de que modo havia de morrer."
c) Cristo Jesus, nos traz a vida eterna na sua ressurreição conforme Gl. 2: 20 - "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim."
Portanto, para ter certeza que há vida eterna e perfeita após a morte é necessário ganhar fé para confiar plenamente na graça que redime o homem da culpa do pecado. Tal redenção é pela fé, pois ninguém estava lá fisicamente no dia da morte e da ressurreição de Cristo. Desta maneira os eleitos são ensinados pelo Espírito de Deus que podem crer que foram incluídos na morte e na ressurreição de Cristo. É esta a fé que mostra a graça que salva e vivifica o homem seja ele quem for. 
Sola Gratia!
Sola Fide!
Sola Scriptura!

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A EXPERIÊNCIA DO NOVO NASCIMENTO III

Jo. 1: 11 a 14 - "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai."
Viu-se nos estudos anteriores que o nascimento do alto ou novo nascimento é uma experiência sobrenatural, porém destinada ao homem natural, decaído e totalmente corrompido. O homem natural, a saber, antes de experimentar o novo nascimento, não é capaz de discernir as coisas espirituais conforme I Co. 2:14 a 16 - "Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, enquanto ele por ninguém é discernido. Pois, quem jamais conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo." Esta não é uma mera presunção, fruto da arrogância religiosa, mas o fruto da ação monérgica de Deus. Também, não se pode confundir discernimento religioso de discernimento espiritual. Assim é, porque os pecadores eleitos têm consciência, primeiramente, que não são dignos e merecedores. Portanto, recebem este fato, não por recompensas de supostos feitos, mas por graça e misericórdia de Deus. Desta forma, se reconhecem portadores da natureza pecaminosa. Ora, como alguém poderia receber perdão, se não se reconhece pecador? Os religiosos não se veem desta maneira, porque tentam alcançar a graça pela lei do esforço e dos méritos. A questão é muito clara no text que vem de ser lido: "... o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus..." Para os cegos pela natureza pecaminosa há um fio de luz ou de inclinação do pecador para aceitar a salvação. Todavia, as Escrituras não ensinam isto! É o fruto da própria soberba religiosa sem a regeneração pelo novo nascimento. Aquilo que só se discerne espiritualmente jamais poderá ser compreendido e recebido pelo homem natural. Os eleitos e regenerados ganham a vida de Cristo e, aos poucos, vão recebendo luz para discernir tudo e todos pelo espírito. 
Assim, reitera-se que o novo nascimento é uma experiência de origem espiritual dirigida a homens naturais para que se tornem espirituais. Em hipótese alguma isto significa que se tornarão perfeitos nesta vida. O nascimento do alto é um ato instantâneo para o pecador e decidido antes dos tempos eternos por Deus conforme Ef. 1: 3 a 6 - "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para o louvor da glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado." O aperfeiçoamento, todavia, é um processo desenvolvido no deserto. O deserto é uma figura da solidão, aspereza, inospitalidade e perda dos atos pecaminosos, resultantes da velha natureza adâmica. Os eleitos e regenerados são os únicos homens que sofrem neste deserto e sentem prazer neste sofrimento. A cada época vão sendo libertados dos antigos hábitos e inclinações até atingirem a estatura de Cristo conforme Ef. 4: 12 e 13 - "... tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo."
O texto que abre esta instância demonstra com infinita propriedade a realidade do novo nascimento. Primeiramente, mostra que é Cristo quem aceita o pecador e, este, apenas recebe esta graça. Há profunda diferença entre aceitar e receber: aceitar é uma atitude ativa, enquanto receber é uma atitude passiva. O que há de significativo em tal diferença é que o homem natural não tem capacidade para aceitar ativamente a Deus, sem que antes tenha recebido a graça para se ver como pecador imerecedor. Na impossibilidade de aceitar, porque seu espírito está morto para Deus, o próprio Deus o conduz à cruz para que Jesus, o Cristo o aceite conforme Jo. 6:44 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia." Portanto, se ninguém pode ir por conta própria até a cruz para ser nela incluído na morte de Cristo, resta aos pecadores eleitos serem conduzidos pelo Espírito Santo até a sua inclusão na morte de Cristo. Assim, são substituído por Jesus, o Cristo e têm suas naturezas pecaminosas anuladas. É este o sentido do texto que diz que Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. A doutrina da anulação da culpa do pecado encontra-se claramente em Hb. 9:26 - "... doutra forma, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo."
Secundariamente o texto de João capítulo um, mostra que o novo nascimento não depende da origem étnicas ou da nacionalidade, não depende dos planos humanos, tão pouco da genealogia. Depende exclusivamente da vontade de Deus, porque ele é eternamente soberano. A ele, pois a glória eternamente!
Soli Deo Gloria!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A EXPERIÊNCIA DO NOVO NASCIMENTO II

Jo. 3: 4 a 7 - "Perguntou-lhe Nicodemos: como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer? Jesus respondeu: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te haver dito: necessário vos é nascer de novo."
O vocábulo 'experiência' provém do latim 'experientiae', ou seja, é uma prova que leva o sujeito a experimentar pessoalmente o objeto da sua busca. É uma forma de conhecimento específico, ou perícia adquirida por meio de aprendizado sistemático. Nesta série de estudos trata-se da experiência do nascimento do alto. Tal experiência, não resulta da ação sinérgica do homem, a qual lhe confere aprendizados genéricos ou específicos ao longo da vida. Contrariamente, o conceito de experiência no sentido espiritual, é de caráter estritamente monérgico, a saber, provém absolutamente e inequivocamente de Deus. O pecador experimenta a Graça e a Misericórdia de Deus, porque foi eleito e preordenado para isto. Não envolve méritos e justiça própria, pois isto anularia a graça de Deus.
No estudo anterior viu-se a primeira parte em que Jesus, o Cristo indicou o método do nascimento do alto a Nicodemos. Foi dito a este ilustre príncipe judeu que se alguém não experimentar o nascimento do alto, não vê o reino de Deus. Esta definição deixa meridianamente claro que o homem não é o promotor da sua própria experiência de redenção. Primeiro, é necessário nascer de novo, portanto, ninguém nasce de novo sem que tenha, primeiramente, morrido. Morrer é condição sine qua non, ou seja, é pré-requisito obrigatório para nascer do alto ou espiritualmente. O novo nascimento não pertence a categoria de experiências resultantes de constantes ensaios e empirismos que produzem o ato espiritual libertador. A libertação dos vícios, doenças, possessões, fraquezas morais são da categoria da experiência humana a qual pode ser desenvolvida e conseguida por esforço e disciplina. Isto porque esta categoria de experiência é de caráter puramente sociológico e moral. Entretanto, a experiência da regeneração, a saber, de uma nova geração em Cristo é de cunho espiritual e, por isso, tem procedência do alto. Isto fica evidente no ensino paulino conforme II Co. 5:17 e 18 - "Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. Mas todas as coisas provêm de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação." Neste texto, a expressão: "nova criatura é..." em seu original grego, diz: "nova geração é..." A experiência da nova geração não é um abstracionismo, mas ocorreu de modo concreto na cruz em Cristo. Por extensão, ela validou a experiência espiritual de todos os pecadores eleitos, os quais foram atraídos à morte de Jesus, o Cristo. Validou a redenção, tanto para os que viveram da fé antes de Cristo, como para todos os que receberão a graça para crer após ascensão de Cristo. Na cruz, Jesus, o homem histórico substituiu o homem fisicamente, enquanto, o Cristo eterno e pré-existente, substituiu o homem espiritualmente. Os pecadores de todos os tempos e lugares que foram preordenados para a salvação, foram todos incluídos e substituídos na morte de Jesus, o Cristo. A solução de Deus para a redenção dos pecadores eleitos é atemporal.
No texto que abre esta instância fica evidente que Nicodemos não compreendeu a profundidade e extensão do ensino do novo nascimento. Jesus, por seu turno, retratou o mesmo assunto em outro nível. Foi dito ao príncipe judeu que, se o mesmo não nascesse da água e do espírito, não entraria no reino de Deus. No primeiro momento, Jesus, o Cristo lhe falou em nível mais espiritualizado, indicando que o novo nascimento é uma operação monergística e que procede do alto, a saber, de Deus. Neste segundo momento, Jesus, o Cristo lhe indica que a água, símbolo da Palavra de Deus é o veículo para despertar o pecador à consciência da sua própria condição pecaminosa. Isto fica doutrinado com clareza em Rm. 10:17 - "Logo a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo." Posteriormente, Jesus, o Cristo arremete Nicodemos para a verdade inteira que o processo do novo nascimento resulta do convencimento realizado no pecador pelo Espírito Santo. Isto está perfeitamente doutrinado em Jo. 16: 7 a 11 - "Todavia, digo-vos a verdade, convém-vos que eu vá; pois se eu não for, o Ajudador não virá a vós; mas, se eu for, vo-lo enviarei. E quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não creem em mim; da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais, e do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado."
Desta forma, o novo nascimento é uma experiência originada em Deus, concretizada no pecador eleito por graça e obra de Jesus, o Cristo que se deu a si mesmo para remissão da natureza pecaminosa dos pecadores preordenados antes dos tempos eternos. Então, quem não nascer do alto - sendo convencido pelo Espírito por meio do Evangelho - não vê e não entra no reino de Deus.
Sola Scriptura!

domingo, 24 de julho de 2016

A EXPERIÊNCIA DO NOVO NASCIMENTO I

Jo. 3: 1 a 3 - "Ora, havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és Mestre, vindo de Deus; pois ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele. Respondeu-lhe Jesus: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus."
A expressão "novo nascimento" traduzida do texto grego neotestamentário significa, de fato, "nascer do alto." Embora não seja totalmente errado traduzi-la por "novo nascimento", porém importa a ênfase contida na outra tradução. Muitos religiosos imaginam em seus corações iludidos por doutrinas humanistas, que são eles os promotores da experiência do nascimento do alto. Então, a expressão nascer do alto é preferível, porque indica que a operação e a operacionalização desta verdade procedem absolutamente de Deus. Não é produzida pelas obras do homem, ou pelos seus sistemas de crenças. Nada na Terra pode mover Deus a realizar qualquer coisa, sem que isto já tenha sido preordenado antes dos tempos eternos conforme II Tm. 1: 9 - "...que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos..." Assim, o propósito é de Deus e a graça que recebemos veio d'Ele também. Tudo decidido antes dos tempos eternos. Antes que o próprio mundo houvera.
Quando se busca a concordância no texto sagrado, como um todo, o mesmo se encaixa e forma um único texto coeso e coerente. O sentido de presciência de Deus é demonstrado claramente em Sl. 139: 16 - "Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles." Tal revelação é fundamental para desconstruir a falsa noção que as religiões passam que Deus vive de improvisos. Que ele reescreve a história do homem a cada dia em função dos seus atos e atitudes. Ora, todos os feitos do homem, certos ou errados, são do conhecimento de Deus antes que o próprio mundo existisse. Todos os dias do homem foram escritos pelo próprio Deus em seus livros eternos. 
Deus tem e mantém todos os registros dos feitos dos homens em seus livros antes que qualquer homem houvesse sobre a Terra. Tais livros serão utilizados no juízo eterno conforme Ap. 20:12 - "E vi os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono; e abriram-se uns livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras." Vê-se que o texto fala em "uns livros", outro livro, que é o da vida. Quando às anotações dos feitos dos mortos estão nos livros e não no livro da Vida do Cordeiro que é mencionado em Ap. 21: 27 - "E não entrará nela coisa alguma impura, nem o que pratica abominação ou mentira; mas somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro." Ao fim de tudo, Deus se assentará no torno de justiça para julgar conforme o registro dos feitos dos homens conforme Dn. 7: 10 - "Um rio de fogo manava e saía de diante dele; milhares de milhares o serviam, e miríades de miríades assistiam diante dele. Assentou-se para o juízo, e os livros foram abertos."
Jesus falou sobre a experiência do nascimento do alto a um príncipe judeu chamado Nicodemos. Este membro da seita dos fariseus procurou o Mestre a noite, talvez para não ser visto pelos seus pares, pois poderia sofrer alguma censura, visto que os ensinos de Jesus se opunham ao sistema de crença deles. Nicodemos se aproximou de Jesus, o Cristo com o discurso próprio do homem que vê apenas os resultados e os sinais. Não se aproximou e não se dirigiu a Jesus, o Cristo pelo padrão da fé, isto é, crer sem ver ou sem constatação alguma. A declaração de Nicodemos parte de uma premissa de que os sinais legitimavam Jesus, o Cristo como proveniente de Deus com base no que ele fazia e não no que pregava. Esta tem sido a atitude da maioria dos religiosos: creem apenas, porque veem. Este nunca foi, não é, e jamais será o padrão da fé bíblica e verdadeira. 
Jesus, o Cristo não alimentou a crença religiosa de Nicodemos. Não lhe massageou o ego, pelo fato deste ter reconhecido os sinais como evidência da origem divina de Cristo. Ao contrário, Jesus, o Cristo lhe dirige uma sentença clara: "... se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." Desta forma, quem não tiver a experiência do nascimento do alto, não pode ver o reino de Deus. Vê-se que não é uma questão de querer, mas de poder. Influenciados pela falsa doutrina gnóstica do "livre arbítrio", muitos religiosos imaginam em seus corações enganados que o pecador pode optar por crer ou não crer. Não querem, porque não podem, e não podem, porque não receberam graça para ganhar a fé.
Sola Scriptura!

domingo, 10 de julho de 2016

DESCONHECIMENTO, REJEIÇÃO E REJEITADOS

Os. 4: 6 - "O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porquanto rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos."
Há profunda diferença entre saber e conhecer. O saber é apenas a apropriação de alguma informação, sem, no entanto, desenvolver uma relação direta e experimental com o objeto. O conhecimento é, além do saber, também uma relação experimental direta com o objeto. No primeiro caso, o sujeito tem apenas uma concepção informacional e retórica do objeto. No segundo caso, o sujeito possui, além de evidências, também experiência direta com o objeto. Neste sentido quase todas as pessoas possuem um saber acerca de Deus, religião, igreja, bíblia, dogmas, preceitos, superstições, misticismo. Entretanto, pouquíssimas pessoas conhecem a Deus como o Deus que se revela nas Escrituras. Há hoje profundo conhecimento de religião, teologia e práticas preceituais e cerimoniais, mas tudo isto pode não estabelecer uma relação experimental com Deus.
Mc. 7: 6 a 9 - "Respondeu-lhes: bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim; mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Vós deixais o mandamento de Deus, e vos apegais à tradição dos homens. Disse-lhes ainda: bem sabeis rejeitar o mandamento de Deus, para guardardes a vossa tradição." Jesus, o Cristo se confrontou com os religiosos do seu tempo no sentido em que estes sabiam muito acerca da lei e dos mandamentos, mas não colocavam tudo isto como prática interior. A hipocrisia consiste, exatamente, neste estado de relação em que o indivíduo demonstra uma coisa, enquanto é ou pensa outra coisa diferente. Trata-se de uma dissimulação da personalidade, ou uma representação teatral diante dos fatos e da vida. Isto tem produzido verdadeiras aberrações psicológicas no seio da sociedade.
As doutrinas podem ser divinas ou humanas. São divinas quando estão absolutamente de acordo com o texto sagrado, as Escrituras. Isto significa que o próprio texto se auto-explica, seja por meio de textos paralelos ou no próprio contexto em que se acha o tema retratado. Muitos tomam os textos literais e os transformam em textos simbólicos, ou tomam o texto simbólico e o torna em literal para satisfazer seus próprios interesses humanos. A maior evidência que alguma concepção é doutrina de homens ocorre quando o ensino se transforma em tradição. Isto implica em que, tal concepção é apenas repassada e reproduzida de geração em geração sem ser confrontada com o texto escriturístico. 
O homem em seu estado decaído e absolutamente depravado é totalmente inclinado a abandonar o mandamento de Deus. Tal acontece, porque a natureza pecaminosa original no homem é avessa e oposta à natureza santa e espiritual de Deus. Na impossibilidade de conciliação entre estas duas naturezas, este constrói uma terceira via adaptada à sua própria vontade e desejo daquilo que concebe como verdade. Neste sentido, surgem verdades paralelas acerca de Deus e da verdade, porém isto não é a própria verdade de Deus. Por esta razão é que existem inumeráveis religiões e todos reivindicam para si a propriedade da verdade. Entretanto, sabe-se que a verdade não é uma concepção, mas uma pessoa, a saber, o Cristo. Invariavelmente o homem prefere as suas tradições à verdade do evangelho. Embora o homem decaído denomina seus preceitos como sendo o evangelho, mas, de fato, é apenas um evangelho qualquer, mas não é o evangelho de Cristo.
O texto de abertura do profeta Oséias mostra com meridiana clareza que há um processo de desconhecimento da verdade de Deus, ainda que haja uma intensa atividade religiosa e litúrgica. Isto ocorre, porque eles preferem apenas obter saberes acerca de Deus, da igreja, de Cristo e da bíblia. Rejeitam o conhecimento verdadeiro para expandir seus desejos próprios sobre o que concebem sobre Deus e verdade.
A consequência desta hipocrisia que inverte a verdade, transformando-a em verdades particulares é a rejeição de Deus ao povo. O cenário do mundo atual demonstra que, de fato, isto está se intensificando a cada dia. Este estado de coisas irá aumentar até o retorno do Grande Rei e o juízo sobre os povos e nações. Após estes acontecimentos sobrevirá um período de reestruturação do mundo por um governo divino durante mil anos. Ao final, haverá o julgamento e condenação de Satanás e seus seguidores. Então será estabelecido o reino eterno do Cristo.
Solo Christus!

domingo, 29 de maio de 2016

IGREJA, CONGREGAÇÃO E CORPO DE CRISTO III

Ap. 3: 7 a 11 - "Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: isto diz o que é santo, o que é verdadeiro, o que tem a chave de Davi; o que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre: conheço as tuas obras (eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, que ninguém pode fechar), que tens pouca força, entretanto guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. Eis que farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não o são, mas mentem, eis que farei que venham, e adorem prostrados aos teus pés, e saibam que eu te amo. Porquanto guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para pôr à prova os que habitam sobre a terra. Venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa."
Em toda análise, especialmente, no tocante à fé e à verdade necessário se faz verificar as vertentes, pois há grande variedade de manifestações tidas como verdade. É muito fácil discernir onde está a verdade e com quem está a fé, para tanto,  basta consultar a única fonte autorizada da verdade. As Escrituras são esta fonte única e correta para dirimir quaisquer dúvidas. Isto porque se se depender apenas da livre análise para postulados dogmáticos, ninguém conseguirá chegar a bom termo. Todos os sistemas de crenças se apropriam de verdades particulares para se justificar e se impor perante as mentes humanas. 
É da apropriação correta da fé e da verdade que se pode chegar à compreensão da Igreja como a congregação dos justificados e corpo vivo de Cristo. Não são os anos de história, as lutas e os sofrimentos de um sistema de crença que o torna legítimo perante Deus e os homens. Muitas seitas heréticas e cultos pagãos também sofreram enormes perseguições e destruição ao longo da história. Nem por isso, os tais são autênticos e verdadeiros perante a face de Deus. 
Vê-se muito nestes tempos que se apresentam grande aceitação das práticas denominadas evangélicas. Tornou-se um clichê, ou mesmo, um estilo de vida dizer-se evangélico. Há espiritistas se auto-proclamando evangélicos; há católicos adotando estilos carismáticos evangélicos; há igrejas históricas, pentecostais e neo-pentecostais se auto-identificando como evangélicas. Qualquer que anuncia algum texto mínimo do evangelho, se coloca na perspectiva de evangélico. Ora, as maiores heresias nos últimos dois mil anos partiram do evangelho para estabelecer seus dogmas e confissões. Entretanto, tal evangelho é segundo suas próprias narrativas e não o texto evangélico por ele mesmo. Desta maneira, não basta usar o evangelho como referência para legitimar uma verdade como sendo cristã. Qualquer um, incluindo-se, ateus pode conhecer intelectualmente o evangelho e, nem por isso, o faz um cristão verdadeiro. Não é o homem que se torna cristão, mas é Cristo que o faz cristão.
A conexão entre o corpo, a Igreja, e a cabeça, Cristo, é demonstrada no ensino do apóstolo Paulo conforme Ef. 4:15 a 18 - "... antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual o corpo inteiro bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, efetua o seu crescimento para edificação de si mesmo em amor. Portanto digo isto, e testifico no Senhor, para que não mais andeis como andam os gentios, na verdade da sua mente, entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração..." Jesus, o Cristo é a cabeça da Igreja e, esta, o seu corpo. Tal corpo tem de estar ajustado à cabeça por inteiro e não em partes. Muitas igrejas são denominadas cristãs apenas por causa dos dizeres que as identificam. De fato, as partes que as compõem são absolutamente desajustadas e cada membro segue a vontade das suas mentes. Há brigas verbais, físicas e políticas por cargos e funções. Há disputas pela primazia dos destinos destas agregações, incluindo-se os bens sucessórios. 
Muitos evangélicos chamam as outras pessoas que não professam sua "fé" de mundanos, ímpios e pecadores, mas procedem em suas agregações da mesma forma que os tais aos quais condenam. Elas presumem que saíram do mundo, mas suas práticas cotidianas indicam que o mundo não as abandonou. Eles vão para as igrejas, mas continuam na verdade das suas mentes decaídas e depravadas. O que é pior, uma vez inseridas em um contexto evangélico ou religioso, estas pessoas somam as verdades das suas mentes aos seus dogmas religiosos, dando origem a uma espécie de culto abominável a Deus conforme se vê em Is. 1: 11 a 15 - "De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? diz o Senhor. Estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecerdes perante mim, quem requereu de vós isto, que viésseis pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação. As luas novas, os sábados, e a convocação de assembleias ... não posso suportar a iniquidade e o ajuntamento solene! As vossas luas novas, e as vossas festas fixas, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer. Quando estenderdes as vossas mãos, esconderei de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei; porque as vossas mãos estão cheias de sangue."
Uma das marcas mais evidentes de agregações religiosas é a leitura do texto bíblico com aplicação apenas para os que são estranhos ao seus sistemas de crenças. Eles jamais tomam os ensinos bíblicos para si, mas sempre acham que se aplicam apenas aos seus desafetos, aos incrédulos, aos mundanos, aos depravados aos pecadores. Mal sabem, que o texto sagrado fala primeiramente ao que o lê. Aliás, nenhum homem lê o texto sacro, mas é este que o lê e o esquadrinha para revelar Cristo.
A verdadeira Igreja é a reunião dos nascidos do alto, os quais foram atraídos à cruz para morrer na morte de Cristo e, juntamente com ele ressuscitar para a vida eterna. É na cruz que Cristo reconcilia o homem morto espiritualmente para Deus e o concede libertação plena e vida espiritual. Não é na proclamação de um evangelho pela metade que se forma uma Igreja Congregacional e Corpo de Cristo. É na morte da morte do pecado pela inclusão na morte de Cristo que a Igreja foi, é e sempre será forjada. O que passa disto tem procedência do maligno. Estes fatos são evidenciados em Ef. 2: 11 a 16 - "Portanto, lembrai-vos que outrora vós, gentios na carne, chamam circuncisão, feita pela mão dos homens, estáveis naquele tempo sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos pactos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos contidos em ordenanças, para criar, em si mesmo, dos dois um novo homem, assim fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um só corpo, tendo por ela matado a inimizade..."
Sola Gratia!

sexta-feira, 27 de maio de 2016

IGREJA, CONGREGAÇÃO E CORPO DE CRISTO II

Ez. 33: 30 a 33 - "Quanto a ti, ó filho do homem, os filhos do teu povo falam de ti junto às paredes e nas portas das casas; e fala um com o outro, cada qual a seu irmão, dizendo: vinde, peço-vos, e ouvi qual seja a palavra que procede do Senhor. E eles vêm a ti, como o povo costuma vir, e se assentam diante de ti como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois com a sua boca professam muito amor, mas o seu coração vai após o lucro. E eis que tu és para eles como uma canção de amores, canção de quem tem voz suave, e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra. Quando suceder isso (e há de suceder), saberão que houve no meio deles um profeta."
Como já comentado no estudo anterior, é perfeitamente possível haver uma agregação ou ajuntamento de pessoas em nome de uma determinada crença, ordem filosófica ou ideologia, mas isto pode não ter qualquer vínculo espiritual e congregacional. A Igreja bíblica é aquela instituída por Cristo conforme o registro de Mt. 16:18 e 19 - "Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares, pois, na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus." Pedro não é a rocha sobre a qual a verdadeira Igreja foi edificada, mas é apenas uma das pedrinhas com as quais tal Igreja foi e é edificada até que o Grande Rei retorne. O texto original grego deixa isto bem claro quando diz: "... tu és Pedro...", ou seja, você é 'petros', uma pedrinha. Na sequência o Cristo diz: "... e sobre esta pedra...", ou seja, sobre esta rocha edificarei a minha Igreja. No texto grego koinê Pedro é "petros", enquanto Cristo é "petra." A diferença é que "petros" é pedrinha ou fragmento de pedra e "petra" é rocha firme. Logo, Jesus, o Cristo não afirma que Pedro é a rocha sobre a qual a Igreja seria edificada, mas que Pedro era apenas uma pequena fração desta edificação. Também, o pronome demonstrativo "esta" indica que Jesus, o Cristo se referia a si mesmo e não a Pedro. Caso a referência fosse a Pedro teria utilizado o pronome "essa."
O próprio apóstolo Pedro nunca mencionou a si mesmo como a pedra sobre a qual a Igreja seria edificada. Ao contrário, apontou sempre que tal rocha é Cristo conforme I Pd. 2: 4 a 8 - "... e, chegando-vos para ele, pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas, para com Deus eleita e preciosa, vós também, quais pedras vivas, sois edificados como casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo. Por isso, na Escritura se diz: eis que ponho em Sião uma principal pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido. E assim para vós, os que credes, é a preciosidade; mas para os descrentes, a pedra que os edificadores rejeitaram, esta foi posta como a principal da esquina, e: como uma pedra de tropeço e rocha de escândalo; porque tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados." Veja, nesta epístola, o apóstolo diz claramente: "... e, chegando-vos para ele..." e não: "e, chegando-vos a mim..." Outra vez diz: "... pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas para Deus, eleita e preciosa..." Desta forma fica evidente que não é uma referência a um homem, mas ao Cristo. No texto de Mateus é utilizado o termo 'petra' como sendo rocha. No texto petrino é utilizado o termo 'lithon', significando a mesma coisa. No verso oito Pedro utiliza, tanto 'litos', como 'petra', indicando a rejeição do Messias encarnado no homem Jesus e a rejeição do Cristo como Deus e redentor.
Novamente Pedro demonstra que Jesus, o Cristo é a Rocha Eterna em At. 4: 8 a 12 - "Então Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse: autoridades do povo e vós, anciãos, se nós hoje somos inquiridos acerca do benefício feito a um enfermo, e do modo como foi curado, seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, nesse nome está este aqui, são diante de vós. Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta como pedra angular. E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos." Novamente, não se vê o apóstolo Pedro se auto-afirmando como sendo a Rocha Eterna, a qual é Cristo. Novamente foi utilizado o termo grego 'lithos' e não 'petros'.
O próprio Jesus, o Cristo se referiu à 'pedra angular' como sendo ele mesmo conforme Mt. 21:42 - "Disse-lhes Jesus: nunca lestes nas Escrituras: a pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como pedra angular; pelo Senhor foi feito isso, e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto eu vos digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que dê os seus frutos. E quem cair sobre esta pedra será despedaçado; mas aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó." Este povo a quem foi dada a graça para crer e receber a verdade é a Igreja verdadeira e não religiões humanas. No verso 43 Jesus mostra que os judeus perderiam a primazia da religião e dos oráculos. O fundamento da Igreja, a saber, a Congregação dos Justificados em Cristo pela inclusão na sua morte e ressurreição é formada pelos pecadores eleitos e regenerados. Não se trata de um ajuntamento de religiosos para buscar a salvação com base em preceitos, dogmas, méritos e esforços de justiça própria, como mostra no texto de abertura do estudo. Estes que assim se iludem, ajuntando-se ou agregando-se para ouvir uma mensagem como canção de amores, jamais verão a face do Grande Rei.
Solo Christus!

sábado, 14 de maio de 2016

IGREJA, CONGREGAÇÃO E CORPO DE CRISTO I

Hb. 10: 19 a 25 - "Tendo pois, irmãos, ousadia para entrarmos no santíssimo lugar, pelo sangue de Jesus, pelo caminho que ele nos inaugurou, caminho novo e vivo, através do véu, isto é, da sua carne, e tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé; tendo o coração purificado da má consciência, e o corpo lavado com água limpa, retenhamos inabalável a confissão da nossa esperança, porque fiel é aquele que fez a promessa; e consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras, não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia."
Congregar é um verbo transitivo e pronominal, o qual traz os seguintes significados: "unir-se inteiramente, ficar junto ou juntar-se, reunir-se, convocar, ligar-se, misturar-se." Deste verbo provém o substantivo congregação, como sendo o ato ou efeito de congregar-se. Consequentemente, tal ato implica em diversos aspectos: "assembleia de fieis, reunião de pessoas em função de uma fé única, conclave, congresso et coetera."
Já o verbete agregação traz os seguintes significados: "conjunto de objetos, pessoas, reunião, aglomeração." Portanto, difere substancialmente um grupo de pessoas ajuntar-se em um determinado lugar, data e hora, sem necessariamente, haver uma fé una e única. Ajuntar-se para comemorar alguma efeméride não é congregar. Uma reunião de pessoas pode ocorrer até mesmo sem uma razão específica ou justificada. Aglomerar-se pode ser até mesmo para se agredir e se ofender mutuamente. Um conjunto de pessoas em um mesmo local não significa unidade de pensamento, objetivos e fé. Há muitas razões por que as pessoas se aglomeram, se ajuntam e formam grupos.
Por diversas vezes se ouve no contexto de igrejas institucionais a justificativa que alguém se afastou ou está desviado da congregação. Outros preferem usar do eufemismo que os tais estão frios na fé. Ainda outros preferem culpar Satanás pelo afastamento daqueles que não querem mais se aglomerar em uma determinada crença. Aqueles que se põem na perspectiva de muito espirituais chegam a dizer, citando a bíblia: "saíram dentre nós, porque não eram dos nossos." Tais santarrões isolam parte de um versículo sem percorrer toda a sua extensão, propositadamente. O verso completo de I Jo. 2:19 diz - "Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos." Primeiramente, os que saíram não eram definitivamente membros do corpo de Cristo. Quem não possui natureza recriada em Cristo não suporta muito tempo na congregação dos eleitos e regenerados. Tal congregação é pouco atraente, pois não exalta o homem e suas inclinações. O texto é muito claro quando diz: "saíram dentre nós". Isto é profundamente diferente de dizer: "saíram dos nossos." Quando o nascido de Deus é confrontado ele sempre é vencido pelo que diz as Escrituras em Jo. 6: 68 e 69 - "Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós já temos crido e bem sabemos que tu és o Santo de Deus." O que faz os nascidos do alto se congregar são as palavras da vida eterna. É a fé produzida pelo ouvir a Palavra de Deus e a firme convicção que Cristo é Deus.
Atualmente, muitas igrejas são meras agregações de pessoas em busca de alívio dos problemas financeiros, de saúde e de falta de afeto. Quando não ouvem o que desejam saem à cata de outra agregação que oferece mais resultados. Neste sentido, são meros barganhadores cuja fé é na própria fé e não no autor e consumador da fé. 
Na revista da CPAD "Cristianismo Hoje", edição 51, ano 9, página 31 publicou-se uma entrevista de um jovem que abandonou a igreja a qual pertencia. O entrevistado é economista, jornalista e consultor editorial. Na entrevista o referido moço aponta dez razões que o faria retornar à igreja. As mudanças exigidas por ele são as seguintes:
  1. Respeito às minorias.
  2. Respeito a outras crenças.
  3. Fim dos dogmas.
  4. Emancipação da mulher.
  5. Manifestação política.
  6. Ação social e defesa dos direitos humanos.
  7. Sermões inteligentes.
  8. Excelência artística.
  9. Fim do gueto.
  10. Laicidade.
O entrevistado afirma o seguinte em suas declarações: "cheguei a um ponto em que, simplesmente, cansei da cultura evangélica, das atitudes descriminatórias dos crentes e da hipocrisia generalizada." Olhando com mais acuidade as colocações do entrevistado percebem-se dois aspectos: a) ele não quer uma igreja, mas uma assembleia de ativistas políticos e de ações afirmativas; b) ele está profundamente decepcionado com a qualidade moral, cultural e espiritual dos membros da igreja. Conclui-se, assim, que, tanto ele, como a igreja em que frequentara estão fora da cruz e do Cristo crucificado e ressurreto. Em uma congregação puramente bíblica e fundada na fé de Cristo não seria necessário reivindicar qualquer destas queixas. Os nascidos de Deus têm a natureza de Cristo e cumpre todas estas coisas sem que ninguém os ensine ou diga para cumpri-las. Ocorrem por uma mudança na disposição espiritual e não por meio de práticas preceituais. Não é por meio de exercício de piedade imposto e orientado que faz um cristão autêntico. Não é a religião exterior que determina o nível ou caráter da fé. A fé é um dom e não uma virtude humana.

domingo, 8 de maio de 2016

LIVRE ARBÍTRIO x SERVO ARBÍTRIO III

Mt. 22: 1 a 14 - "Então Jesus tornou a falar-lhes por parábolas, dizendo: o reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho. Enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas, e estes não quiseram vir. Depois enviou outros servos, ordenando: dizei aos convidados: eis que tenho o meu jantar preparado; os meus bois e cevados já estão mortos, e tudo está pronto; vinde às bodas. Eles, porém, não fazendo caso, foram, um para o seu campo, outro para o seu negócio; e os outros, apoderando-se dos servos, os ultrajaram e mataram. Mas o rei encolerizou-se; e enviando os seus exércitos, destruiu aqueles homicidas, e incendiou a sua cidade. Então disse aos seus servos: as bodas, na verdade, estão preparadas, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, pelas encruzilhadas dos caminhos, e a quantos encontrardes, convidai-os para as bodas. E saíram aqueles servos pelos caminhos, e ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e encheu-se de convivas a sala nupcial. Mas, quando o rei entrou para ver os convivas, viu ali um homem que não trajava veste nupcial; e perguntou-lhe: amigo, como entraste aqui, sem teres veste nupcial? Ele, porém, emudeceu. Ordenou então o rei aos servos: amarrai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes. Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos."
O verbete livre arbítrio afirma o seguinte: "possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante." Por tal definição é induzida a ideia que o homem possui capacidade moral para decidir, escolher em função apenas da vontade própria, independentemente de qualquer fator determinante externo. Nota-se que esta afirmação é uma falácia, visto que ninguém é absolutamente livre no exercício da vontade. A própria vontade é determinada e não determinante em absoluto. Por exemplo, beber água, comer e defecar são vontades condicionadas e determinadas por fatores fisiológicos e não porque a pessoa decide executá-las a qualquer momento, sob qualquer pretexto e em qualquer lugar. Desta forma o que há é uma confusão entre escolhas mecânicas e naturais com livre vontade. Assim como, também há confusão entre escolhas morais, condicionadas pela cultura, e escolhas espirituais.
"Livre arbítrio" é uma expressão que quer dizer: juízo livre. Seria uma capacidade de julgamento livre absolutamente de qualquer evento ou fato determinante, bem como, de qualquer necessidade. Isto colocaria o homem na categoria de um "deus" auto-suficiente e não de criatura dependente. O homem seria bastante a si mesmo e perfeito em todos os seus atos. Portanto, é uma heresia introduzida pelo Gnosticismo a partir do século II d. C. no seio do Cristianismo. Atualmente ganhou corpo na filosofia, tanto popular, quanto na sistematizada.
A expressão "livre arbítrio" não se acha no texto bíblico, mas o que a torna inverosímel não é este fato. Na verdade, não é uma doutrina escriturística, mas apenas o fruto de deduções lógicas de teólogos, filósofos e estudiosos que não conhecem a verdade. O "livre arbítrio" é incompatível com os ensinos de Jesus, o Cristo, visto que a total e absoluta liberdade de escolha do homem decaído dispensaria o plano redentor de Deus em Cristo e sua morte vicária. Caso a salvação resultasse do fruto das escolhas livres do homem pecador, não faria sentido Deus enviar o seu Filho Unigênito para pagar o preço do pecado e das escolhas erradas do homem. O próprio homem teria de ser redentor de si mesmo. É exatamente esta posição que desejam os gnósticos: o homem é senhor e "deus" de si mesmo. O homem presume traçar o próprio caminho no universo livre e independente de qualquer coisa ou de outro ser. Isto, por si só é ridículo, bastando imaginar que ninguém pode sequer determinar onde iria nascer, a que família iria pertencer ou qual status social iria ter.
No texto que abre esta instância vê-se claramente que Jesus, o Cristo rechaça a possibilidade de o homem escolher por conta própria sem ter sido escolhido. O penetra que entrou na festa sem as vestes apropriadas e sem ser convidado foi posto para fora. O significado de tal parábola é que não é o homem quem determina o que escolhe espiritualmente. Ele é escolhido conforme a soberania de Deus e não segundo suas decisões contaminadas pela natureza pecaminosa residente e imanente. As vestes nupciais referenciadas no texto da parábola é o revestimento da justiça de Cristo e não a justiça própria ou os méritos do homem. Até mesmo os convidados que se recusaram a ir às bodas, o fizeram, não porque tivessem "livre arbítrio," mas porque suas naturezas os inclinaram à recusa.
Charles Haddon Spurgeon escreveu o livro: "Livre Arbítrio: Um Escravo." Nesta obra Spurgeon utiliza o versículo de Jo. 5:40 - "Mas vós não quereis vir a mim para terdes vida." Ele demonstra que os arminianos, os quais defendem a necessidade da livre vontade do pecador para escolher ou rejeitar a salvação, usam tal texto para justificar seus ensinos errôneos. Os arminianos subdividem o texto da seguinte forma: a) o homem tem uma vontade; b) a vontade é inteiramente livre; c) o homem tem que querer por si mesmo. Spurgeon explica que não é porque ocorrem as palavras "querer" ou "não querer" que faz do homem um ser absolutamente livre. Primeiramente, o homem está morto espiritualmente, portanto não pode arbitrar ou julgar nada livremente. A sua morte é a separação espiritual de Deus e o coloca como um ser decaído e absolutamente depravado. Desta forma o suposto "livre arbítrio" do homem é um escravo do pecado, conforme ensina Jesus, o Cristo em Jo. 8:34 - "Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado." Portanto, ou é livre ou é escravo!
Secundariamente, o homem decaído está debaixo da lei da morte, portanto, como quem está julgado e condenado por uma lei irrevogável poderia ser juiz de si mesmo e dos outros? Rm. 8:2 - "Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte." O que dá ao homem a redenção e a plena liberdade, não são suas escolhas comprometidas pela morte espiritual, mas a plena graça em Cristo. A lei do pecado e da morte por causa da natureza decaída foi justificada pela lei do Espírito da Vida em Cristo, a saber, na inclusão do pecador na morte com Cristo para destruição da sua morte. Portanto, um morto em delitos e pecados não é livre para executar qualquer juízo, salvo, o da sua própria condenação. Por esta razão é que Cristo afirma: "... e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará... Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."
Quando o texto de João capítulo oito diz que os líderes religiosos judeus não queriam ir a Cristo para ganhar a vida, não os imputa plena liberdade ou poder de escolha livre. Eles não queriam, porque suas naturezas pecaminosas não os permitiam ir. Seus espíritos mortos para Deus não os impeliam a ir a Cristo para recebê-lo como o redentor deles. Eles estavam nutridos com o engano que a religião deles os garantia a salvação. Isto os cegava e impedia de querer ir a Cristo para ganhar a vida eterna ou espiritual. Apenas a graça e a misericórdia de Deus pode levar o pecador cego e escravo da natureza pecaminosa à plena liberdade em Cristo conforme Jo. 6:44 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia."
Sola Gratia"

terça-feira, 1 de março de 2016

LIVRE ARBÍTRIO x SERVO ARBÍTRIO II

Jo. 8: 31 a 36 - "Dizia, pois, Jesus aos judeus que nele creram: se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: somos descendentes de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém; como dizes tu: sereis livres? Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Ora, o escravo não fica para sempre na casa; o filho fica para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."
No estudo anterior foram levantadas, ainda que superficialmente, algumas questões sobre as origens e a natureza da doutrina do "livre arbítrio." Isto se faz necessário, porque muitas pessoas recebem os ensinos sem questioná-los e, principalmente, sem criticá-los à luz do juízo das Escrituras. Ora, pela própria proposta contida nesta doutrina, vê-se que a tal não se sustenta por suas próprias premissas básicas. Como pode algo ou alguém ser absolutamente livre se possui inumeráveis dependências psíquicas, fisiológicas, genéticas, financeiras, parentais? Para que algo ou alguém seja livre, o tal deve bastar-se a si mesmo, ou seja, não pode ter absolutamente nenhuma causa determinante e necessária atuando sobre si. Terá de ser sem início e sem fim. Não poderá ser refém do tempo e do espaço. Não pode ser detido ou limitado por nada e ninguém. Portanto, não há nada e ninguém livre nos termos propostos por este ensino. Não sendo total e absolutamente livre, também não pode arbitrar sobre nada com isenção e perfeito juízo. 
Muitos religiosos de diferentes crenças acreditam que são livres para fazer escolhas. Acreditam ainda que tais escolhas determinam sua vida diária e o seu futuro, inclusive, o espiritual. Confundem, os tais religiosos, escolhas naturais e mecânicas, as quais foram programadas para que possam existir relativamente ao mundo e as coisas. Portanto, escolher comer, beber, defecar, fazer sexo, vestir esta ou aquela roupa, ir a este ou aquele lugar são escolhas naturais impostas pelas circunstâncias existenciais. Não são escolhas livres, pois são determinadas pelas necessidades e algo que é necessário está determinado e não é livre. Escolhas morais, por exemplo, são determinadas por fatores culturais, religiosos, legais e recaem no campo dos usos e costumes. Algo que era altamente condenável na Idade Média, hoje  não o é mais e vice-versa. O homem é um ser moral, porém o que deixam de considerar é que até mesmo a moralidade está circunvalada por diversas necessidades determinadas pelas circunstâncias dominantes em dado momento histórico, psicológico e legal.
Outro aspecto relevante na questão das escolhas é que elas estão subordinadas a uma natureza dada no homem. Tal natureza está absolutamente contaminada pela natureza pecaminosa, portanto, não é livre e qualquer juízo advindo dela está igualmente contaminado pelo relativismo procedente da corrupção.
O texto de abertura é parte de um diálogo maior entre Jesus, o Cristo e a liderança religiosa de Israel daquele tempo. Jesus sentencia aos judeus que, se permanecessem em sua palavra, a saber, no seu ensino, doutrina ou evangelho seriam seus discípulos e seriam livres. A reação dos interlocutores que, exteriormente haviam declarado crer no Cristo, foi avassaladora e contraditória. De fato, não criam em Jesus, o Cristo, porque responderam à sua assertiva com a alegação de que nunca foram escravos e que tinham uma linhagem étnica pura da casa do patriarca Abraão. A natureza pecaminosa é tão determinante do estado de dependência e relativização que, os judeus apelaram para origem étnica e negaram sua própria história pregressa. Ora, foram escravos no Egito por 400 anos, na Babilônia por 70 anos, na Assíria por mais 40 anos e, finalmente, sofreram a última grande diáspora do ano 70 d.C. até o ano de 1948. Portanto, a cegueira espiritual deturpa a cegueira moral, levando o homem a não ver-se a si mesmo como dependente de circunstâncias. À época do referido diálogo, os judeus se achavam dominados pelo Império Romano em uma forma mais branda de escravidão. Logo, não eram livres, nem politica, nem espiritualmente.
Bem, Jesus, o Cristo diante da reação dos judeus religiosos não teve alternativa, a não ser conduzi-los à uma dimensão maior: a escravidão espiritual.  O Cristo os relembrou que, qualquer que comete pecado é escravo do pecado. Portanto, não é livre como sua presunção e arrogância supõe. O pecado a que alude o Cristo é a naturezas pecaminosa, além, obviamente, dos atos pecaminosos cometidos por atos e intenções. Muitos religiosos não têm revelação para discernir tais diferenças. Esta é uma falha do sistema religioso que, não conhecendo a verdade vende meias verdades nos púlpitos das igrejas. O pecado que separa e escraviza o homem ao domínio das trevas é a incredulidade, estando isto definido por Jesus, o Cristo em Jo. 16:9 - "... do pecado, porque não creem em mim." Foi exatamente isto que determinou o pecado original aos pais ancestrais no Éden: descreram na Palavra de Deus e deram crédito à palavra de Satanás. Esta foi a razão da queda e decadência cujas consequências se estenderam a toda humanidade conforme Rm. 5:12 - "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram."
A libertação plena e absoluta é aquela obtida na cruz por fé que o pecador foi incluído na morte de Cristo, bem como na sua consequente ressurreição. Por este método determinado por Deus antes dos tempos eternos é que se dá a perfeita liberdade. Jesus, o Cristo é o método divino concretizado e executado conforme Jo. 14:6 - "Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." Portanto, não há outro caminho fora de Cristo. A própria palavra caminho significa método. Jesus, o Cristo é o método de Deus para libertar totalmente o homem da sua escravidão espiritual. 
Desta forma, nem o homem é livre, e, muito menos, pode arbitrar sendo escravo de sua própria natureza decaída. 
Sola Gratia!