quarta-feira, 29 de abril de 2015

O DIABO, VOSSO ADVERSÁRIO V

I Pd. 5: 8 a 11 - "Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, e procurando a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé, sabendo que os mesmos sofrimentos estão-se cumprindo entre os vossos irmãos no mundo. E o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e fortalecer. A ele seja o domínio para todo o sempre. Amém."
No filme "O Advogado do Diabo" o personagem que faz o papel do Diabo, em um diálogo, afirma que ele é amigo do homem e deseja o seu bem. Afirma, ainda, que faz tudo para que o homem consiga o que quer, mas Deus é o verdadeiro inimigo do homem. Usa o jogo dos antagonismos no sentido de colocar na mente do homem que ele, o Diabo, é quem quer o bem da humanidade, mas Deus quer apenas se divertir sarcasticamente. Segundo a proposta do filme Deus é mau, porque dá ao homem o desejo e a liberdade de escolha, mas não lhe permite ter tudo o que deseja e escolhe. Ora, raciocinando por esta lógica, alguém é capaz mesmo de dar razão ao Diabo, dependendo se é ou não regenerado. Entretanto, o que o Diabo não diz é que as razões para Deus agir como age no Universo nada têm a ver com escolhas ou desejos humanos. Ele tem um propósito supremo e eterno e não muda em função do homem. Deus executa os seus desígnios apesar do homem e dos seus desejos e escolhas puramente naturais e condicionados à natureza pecaminosa e decaída. O homem imagina, erroneamente, que Deus age apenas em função da humanidade decaída. Não é verdade!
Na verdade Jesus, o Cristo deixa claro que, quem cogita das coisas do homem é Satanás conforme Mc. 8:33 - "Mas ele, virando-se olhando para seus discípulos, repreendeu a Pedro, dizendo: Para trás de mim, Satanás; porque não cuidas das coisas que são de Deus, mas sim das que são dos homens." Jesus não chamou Pedro de Satanás, mas o repreendeu, porque estava agindo à serviço dos interesses de Satanás. Obviamente, Satanás não tem qualquer interesse em tratar das coisas relativas ao supremo propósito de Deus. Ele cuida em satisfazer os desejos e escolhas naturais dos homens. Tais desejos e escolhas mantêm os homens escravos de si mesmos, a saber, das suas naturezas pecaminosas e decaídas. De fato, Deus em certo sentido age para humilhar o homem a fim de que este se veja a si mesmo como pecador e se reconheça incompetente para promover sua própria libertação. Satanás, ao contrário, age invariavelmente no sentido de satisfazer os caprichos e desejos do homem para mantê-lo escravo da natureza pecaminosa. Isto faz que o homem tenha alguma alegria passageira agora, mas seja humilhado eternamente em sua condenação.
Uma das maiores mentiras e enganos que Satanás incute na mente humana é que existe um "livre arbítrio". Para que algo ou alguém seja livre é necessário que se basta a si mesmo, ou seja, não dependa de nada, nem de ninguém. Ora, sabe-se que não existe efeito sem uma causa. Portanto, o homem nem é livre, nem é árbitro de si mesmo. O que o Diabo faz é enganar os sentidos do homem, confundindo-lhe com a noção de que escolhas naturais são escolhas livres e espirituais. Escolher, comer, beber, andar, fazer necessidades fisiológicas, se defender são apenas escolhas naturais e, portanto, colocadas no homem para sua sobrevivência no mundo. Tais escolhas em nada interferem na vida eterna do homem. Escolhas espirituais só são possíveis a quem não é escravo do pecado. Jesus, o Cristo indica isto claramente em Jo. 8: 32 a 34 - "... e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: somos descendentes de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém; como dizes tu: sereis livres? Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado." Desta forma, o homem é, ao contrário, escravo do pecado e não possui "livre arbítrio" no sentido de fazer escolhas livres. O que realmente existe é o "servo arbítrio" e não o "livre arbítrio". Por esta razão, Deus não atende aos desejos e escolhas naturais contaminados do homem. Primeiramente, é necessário que o pecador seja libertado completa e definitivamente. Por isso, o Mestre afirma que, conhecendo a verdade, esta libertará o homem da escravidão do pecado. A vontade humana está escravizada à natureza pecaminosa que só se aniquila se for para a cruz e nela morrer na morte de Cristo. Obviamente, tudo isto se dá pela fé e não por atos ou atitudes. É Deus quem conduz o homem até a cruz conforme Jo. 6:44 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia." Uma vez conduzidos até Cristo, este inclui o pecador em sua morte conforme Jo. 12: 32 e 33 - "E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. Isto dizia, significando de que modo havia de morrer."
II Pd. 2:4 - "... Porque se Deus não poupou a anjos quando pecaram, mas lançou-os no inferno, e os entregou aos abismos da escuridão, reservando-os para o juízo." Então, anjos que acompanharam a rebelião do Diabo foram expulsos e presos no Tártaro para aguardar o juízo final. O homem que não foi libertado da sua natureza pecaminosa está a serviço de Satanás, mesmo não tendo consciência disso. Jo. 13:2 - "Enquanto ceavam, tendo já o Diabo posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, que o traísse ..." Portanto, se o Diabo é um mito, como poderia ter entrado no coração de Judas para que traísse Jesus? Judas era um dos doze discípulos e andava com Jesus. Entretanto foi usado para um mau desígnio.
Mt. 12: 28 - "Mas, se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, logo é chegado a vós o reino de Deus." Desta forma, a expulsão de demônios dos corpos de algumas pessoas no tempo de Jesus, tais seres não são fictícios ou apenas lendas oriundas do ideário popular. São reais e estão espalhados entre os homens, conhecendo-lhes os feitos e os passos. Então, o que acontece é que o homem possui uma natureza contaminada pelo pecado. Isto dá a Satanás o controle sobre a mente humana. É como uma seleção de futebol, o treinador não joga, mas dá todas as instruções e arma toda a tática do jogo. 
Mc. 5: 1 a 13 - "Chegaram então ao outro lado do mar, à terra dos gerasenos. E, logo que Jesus saíra do barco, lhe veio ao encontro, dos sepulcros, um homem com espírito imundo, o qual tinha a sua morada nos sepulcros; e nem ainda com cadeias podia alguém prendê-lo; porque, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e cadeias, as cadeias foram por ele feitas em pedaços, e os grilhões em migalhas; e ninguém o podia domar; e sempre, de dia e de noite, andava pelos sepulcros e pelos montes, gritando, e ferindo-se com pedras, vendo, pois, de longe a Jesus, correu e adorou-o; e, clamando com grande voz, disse: que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? conjuro-te por Deus que não me atormentes. Pois Jesus lhe dizia: sai desse homem, espírito imundo. E perguntou-lhe: qual é o teu nome? Respondeu-lhe ele: legião é o meu nome, porque somos muitos. E rogava-lhe muito que não os enviasse para fora da região. Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos. Rogaram-lhe, pois, os demônios, dizendo: manda-nos para aqueles porcos, para que entremos neles. E ele lho permitiu. Saindo, então, os espíritos imundos, entraram nos porcos; e precipitou-se a manada, que era de uns dois mil, pelo despenhadeiro no mar, onde todos se afogaram." Observa-se que, os próprios demônios reconhecem que Jesus, o Cristo é o filho de Deus e que tem poder sobre eles. O homem em seu orgulho, não reconhece aquilo que até os demônios reconhecem. Cristo chamou o demônio incorporado no homem de espírito imundo, portanto estas manifestações mediúnicas não são espíritos de quem já morreu, mas de demônios que enganam os homens com curas, orientações, conselhos, etc. 
Solo Christo!

sábado, 25 de abril de 2015

O DIABO, VOSSO ADVERSÁRIO IV

I Pd. 5: 8 a 10 - "Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, e procurando a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé, sabendo que os mesmos sofrimentos estão se cumprindo entre os vossos irmãos no mundo. E o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e fortalecer."
É fundamental fazer diferença entre Satanás e demônios. Satanás é o chefe dos demônios ou o maioral dos demônios. É o querubim decaído que foi expulso do Monte Santo de Deus. Os demônios são espíritos caídos que foram também anjos os quais participaram da rebelião do querubim protetor e portador da luz. Estes anjos caídos perderam todos os direitos e privilégios perante Deus. No texto sacro do Velho Testamento as palavras para demônios são "cecirim" e "syym", e por vezes, "sedim" as quais foram vertidas para o grego, na Septuaginta, como "daemonía" que é demônio em português.
Lv. 17:7 - "E nunca mais sacrificarão em seus sacrifícios aos demônios, após os quais prostituem; isto lhes ser-lhes-á por estatuto perpétuo nas suas gerações." A palavra utilizada para "demônios" por Moisés é "cecirim" que tem paralelo nas palavras "bodes peludos, hirsutos, animais horríveis". No texto bíblico, sempre que se refere a seres invisíveis e espirituais, usam-se os símiles animais de aspecto desagradável se se referir a anjos caídos. 
Sl. 96:5 - "Porque todos os deuses dos povos são demônios." Esta é uma afirmação bíblica para um fato óbvio, visto que há apenas um Deus Soberano e Eterno, qualquer outro ser que postula ser "deus" é falso e impostor. É uma espécie de antideus, porque quer estar no lugar de Deus, não o sendo. 
Sl. 106: 34 a 38 - "Serviram aos seus ídolos, que vieram a ser-lhes um laço; sacrificaram seus filhos e suas filhas aos demônios; e derramaram sangue inocente, o sangue de seus filhos e de suas filhas, que eles sacrificaram aos ídolos de Canaã; e a terra foi manchada com sangue." Neste texto aparece o termo "schedim" que também é designativo de demônios e de ídolos.
Dt. 32: 17 - "Ofereceram sacrifícios aos demônios, não a Deus, a deuses que não haviam conhecido, deuses novos que apareceram há pouco, aos quais os vossos pais não temeram." Esta é uma alusão ao fato que alguns israelitas, após a saída do Egito assimilaram diversos costumes religiosos dos povos por onde passaram. Esqueceram das recomendações divinas para que permanecessem em um culto monoteísta e puro. Sacrificavam a demônios como se deuses fossem. Este é um fato constatável mesmo nos dias atuais, quando muitos abandonaram a busca pela verdade no Cristianismo para aprofundar suas buscas pelo sobrenatural e o misterioso. Entretanto, encontram as profundezas de Satanás conforme Ap. 2: 24 - "Digo-vos, porém, a vós os demais que estão em Tiatira, a todos quantos não têm esta doutrina, e não conhecem as chamadas profundezas de Satanás, que outra carga vos não porei." É um texto escatológico para o tempo em que foi revelado a João, mas já acontecido e experimentado em muitas igrejas desde então. As tais profundezas de Satanás ocorrem com aqueles religiosos que presumem ou reivindicam para si experiências sobrenaturais de mistérios. É um tipo de experiência de busca interior pela verdade. Eles se põem na conta de pessoas especiais e únicas que conhecem alguma revelação hermética. Negam a graça do dom do Espírito, o qual concede os dons espirituais a todos os eleitos e regenerados. Os dons espirituais não são privilégios de alguns e Deus não concede dons para glorificar o homem, mas para a glória de Cristo.
Paulo doutrina aos cristãos que fujam da idolatria conforme I Co. 10:14 - "Portanto, meus amados, fugi da idolatria." e no verso 20 ele explica a razão dessa advertência: "... as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus." No grego do Novo Testamento, a palavra demônio é "daemonía". Para os gregos e os povos daquele tempo, um demônio era um espírito altamente sábio e inteligente que intermediava entre os homens mortais e os deuses. Portanto, era um ser de relevante valor e importância nos cultos não cristãos. Por esta razão é que Paulo chama Satanás de "deus deste século" conforme II Co. 4:4. Não que ele seja um "deus", mas, porque alguns homens o adoram como tal. A palavra grega "daemonía" traz a ideia de sabedoria, negando, portanto, a Cristo conforme I Co. 1: 23 e 24 - "... nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos, mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus." De fato, parece mesmo loucura que o verdadeiro Deus e a verdadeira sabedoria consiste em adorar e servir a um Deus que se deixou crucificar. Entretanto, esta é a verdadeira sabedoria de Deus, porque puniu o pecado em si mesmo para redimir os pecadores eleitos.
Os demônios conhecem a Cristo e sabem perfeitamente quem ele é conforme Mt. 8: 29 - "E eis que gritaram, dizendo: que temos nós contigo, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?" Então, fica evidente que os demônios,  não apenas sabem que é Jesus, o Cristo, como sabem qual será o destino final de si mesmos. Outro erro dessas religiões toscas pentecostais e neopentecostais é afirmar coisas que não conhecem. Quando são confrontados pelo texto bíblico, os seus agentes evocam uma revelação direta para não terem de dar nenhuma explicação. Eles falam muito em inferno e seus demônios. Alguns chegam a afirmar que foram levados ao inferno e que viram este ou aquele fulano lá. Ora, primeiro o lugar de habitação de Satanás e seus demônios ainda não é o lago de fogo e enxofre. Eles habitam a atmosfera em torno da órbita da Terra conforme Ef. 2:2 - "Em outro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência..." E nos versos 11 e 12 ajunta: "Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do Diabo. Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais." Então, é evidente que potestades, principados, príncipes das trevas e hostes da maldade são categorias de demônios, ou seja, anjos caídos. O texto ainda informa que eles têm um chefe ou príncipe, o qual é Satanás. Eles estão no espaço sideral e não no inferno. Inferno provém do grego "inferos" e quer dizer lugares inferiores ou abismos. Ora, há abismos lotados de demônios que foram aprisionados até o dia do juízo nestes lugares inferiores. Entretanto, não é o inferno retratado pelas religiões com fogo e enxofre. Este inferno é revelado no Apocalipse e está sendo preparado para o Diabo e seus anjos. É o lago de fogo e enxofre, que representa a segunda morte, a saber, a condenação eterna. O correspondente ao inferno dos demônios que estão aprisionados é o Tártaro, onde estão as almas dos mortos aguardando o juízo final. Tanto inferno como tártaro são abismos ou profundezas da Terra. 
Soli Deo Gloria !!!

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O DIABO, VOSSO ADVERSÁRIO III

I Pd. 5: 8 a 10 - "Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, e procurando a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé, sabendo que os mesmos sofrimentos estão-se cumprindo entre os vossos irmãos no mundo. E o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e fortalecer."
Há um comportamento religioso predominante sobre a questão da culpa. Desde o Éden, é recorrente o fato de se transferir a culpa sempre para outro. Gn. 3: 12 e 13 - "Ao que respondeu o homem: a mulher que me deste por companheira deu-me da árvore, e eu comi. Perguntou o Senhor Deus à mulher: que é isto que fizeste? Respondeu a mulher: a serpente enganou-me, e eu comi." Obviamente, Deus indagou acerca do comportamento de Adão e Eva, não porque não o soubesse de antemão, mas para demonstrar as profundas alterações de caráter que ambos sofreram após o pecado. O resultado do pecado foi o medo e a transferência da culpa. Adão a transferiu para Eva e, esta, a transferiu para o Diabo personificado na serpente. Verifica-se que, de lá para cá, quase nada mudou neste sentido. Sempre que pressionado ou encurralado, o homem tenta desvia-se da sua culpa, jogando-a em alguém ou em algo. O Diabo é o alvo predileto da transferência de culpa, porque é um ente espiritual e invisível. Portanto, não aparece para se defender ou para, de fato, assumir alguma culpa. Não se pretende, nesse ponto, fazer a defesa da inocência do Diabo, porque direta ou indiretamente é ele o autor do pecado e do mal que persiste no mundo. É fácil e evidente a constatação do mal reinante no mundo, afetando pessoas, coisas e, até mesmo, os animais. É ele sim, a fonte de todas as iniquidades e desgraças. Entretanto, muito do mal moral que reina na sociedade não é da autoria direta de Satanás, mas da natureza maléfica colocada por ele no coração do homem. 
A regra natural do homem após a queda é a incredulidade e não a fé verdadeira. Isto fica evidente em toda extensão das Escrituras, mas muito claro em Rm. 3: 10 e 18 - "... como está escrito: não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; com as suas línguas tratam enganosamente; peçonha de áspides está debaixo dos seus lábios; a sua boca está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Nos seus caminhos há destruição e miséria; e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante dos seus olhos." Verifica-se pelo texto que se trata de uma generalização e não de um grupo específico de homens. Neste ponto alguém poderia questionar: 'mas este caso não serve para mim que sou cumpridor das leis, pertenço a determinada igreja, contribuo financeiramente, estudo a Bíblia, faço parte das atividades de evangelização, pratico a caridade aos necessitados, etc.' Ora, a abordagem das Escrituras nunca é por meios circunstanciais e evidências externas. Toda abordagem da Palavra de Deus é, antes de tudo, de cunho espiritual. Portanto, qualquer homem, por mais correto, honesto e religioso que seja, possui o poder latente da natureza pecaminosa e, como tal, é capaz de cometer qualquer mal moral. É algo que subjaz na natureza humana, mesmo naqueles que não vivem cometendo atos falhos. Aqueles homens que já receberam a graça da regeneração têm esta natureza crucificada. Sobre eles há uma nova disposição, porque suas vidas não são mais dirigidas por seus impulsos almáticos. Esta nova ordem espiritual está registrada em II Co. 5:17 e 18  - "Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. Mas todas as coisas provêm de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação." Ainda assim, por estarem ainda circunstanciados na carne e sob a influência do pecado que há no mundo, poderão cometer atos pecaminosos. Por isso, o sacrifício substitutivo e inclusivo de Cristo apaga estes atos pecaminosos, tanto quanto já aniquilou a culpa do pecado conforme Hb. 9:26 - "... doutra forma, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo."
Satanás arrastou para o seu lado, na rebelião contra Deus, um terço dos anjos celestes conforme registrado em Ap. 12: 7 a 9 - "Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na Terra, e os seus anjos foram precipitados com ele." Jesus, o Cristo faz menção da precipitação do Diabo quando foi expulso da presença de Deus conforme Lc. 10:18 - "Eu via Satanás, como raio, cair do céu."
O texto de abertura mostra que o Diabo, adversário do homem, anda ao derredor rugindo como leão para ver a quem possa tragar. O texto é claro. Ele está às espreitas para verificar a quem pode usar e controlar. Primeiramente, ele não é o leão, pois este título é dado apenas a Cristo. Ele anda como se fosse um leão, porque tudo no Diabo é artificial e falso. Secundariamente, ele precisa verificar se o homem é ou não nascido de Deus. Porque aos nascidos de Deus ele não pode tocar conforme I Jo. 5:18 e 19 - "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive pecando; antes o guarda aquele que nasceu de Deus, e o Maligno não lhe toca. Sabemos que somos de Deus, e que o mundo inteiro jaz no Maligno." Aquele que é nascido de Deus é o homem que tem experiência de novo nascimento nos moldes que Jesus doutrina a Nicodemos em Jo. 3: 3 e 5. Aquele que nasceu de Deus é uma referência a Jesus, o Cristo que passa a habitar o nascido do alto, não havendo possibilidade de o Diabo tocá-lo. Para tocar o nascido do alto, Satanás teria de tocar primeiramente em Cristo e isto lhe é impossível. Entretanto, necessário é que o homem creia nisso conforme o padrão de fé exigido pelas Escrituras, especialmente em Hb. 11:1 - "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem." Desta forma, a fé não é uma virtude humana, mas um dom de Deus, porque ninguém poderia crer no que não se pode ver e ter certeza no que ainda não está presente. Fé é algo sobrenatural e não natural. Por esta razão é que a fé espiritual é concedida ao homem por graça e misericórdia. Ela não é um exercício mental e de abstinência de coisas para alcançar algo de Deus. Não há fórmulas para a fé. As Escrituras indicam claramente que o justo viverá da fé e não pela fé como se supõe nos círculos religiosos humanistas.
Sola Gratia!

sábado, 18 de abril de 2015

O DIABO, VOSSO ADVERSÁRIO II

I Pd. 5: 8 a 10 - "Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, e procurando a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé, sabendo que os mesmos sofrimentos estão-se cumprindo entre os vossos irmãos no mundo. E o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e fortalecer."
O Conselho Mundial de Ateus, os Racionalistas do Século XX e os espiritualistas, em geral, negam a existência de um ser diabólico tal como declarado nas Escrituras e no ideário religioso em geral. A maioria das pessoas considera-o apenas um mito emergido dos dramas existenciais do homem que, não tendo respostas e soluções ao mal moral, transferem a culpa dos infortúnios e mazelas humanas a um ente abstrato e invisível. É exatamente isto que o Diabo quer! Este é o legítimo satanismo, porque dá a ele a vantagem de permanecer anônimo e livre para fazer suas artimanhas. A negação ou a satirização do Diabo em nada influi na sua realidade. Agir de modo a ignorar a sua real existência é agir como a avestruz que, para se protege da tempestade, enfia a cabeça na areia e deixa o restante do corpo exposto às intempéries. Fechar os olhos à maldade e à realidade satânica, não livra o homem dos seus ardis. Ao contrário, torna a sua situação mais vulnerável e frágil.
Contrariamente à posição de alguns, as Escrituras mostram que Satanás é uma realidade e não uma ficção. Elas não o pintam de modo idealizado, mas tal como ele é, pois este não perdeu certas características pessoais pelo fato de ter sido expulso da presença de Deus. As Escrituras revelam que Deus criou por meio de Cristo todas as coisas, entre elas, seres espirituais inteligentes com funções específicas no Universo. Em Cl. 1:16 e 17 - diz: "... porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na Terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele subsistem todas as coisas." Desta forma foram criadas nove ordens de anjos com denominações e funções diferenciadas: anjos, arcanjos, tronos, dominações, potestades, querubins, serafins, principados (ao qual pertence o anjo Miguel) e Gabriel.
Jó 38: 4 a 7 - "Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da Terra? Faze-mo saber, se tens entendimento. Quem lhe fixou as medidas, se é que o sabes? ou quem a mediu com o cordel? Sobre que foram firmadas as suas bases, ou quem lhe assentou a pedra de esquina, quando juntas cantavam as estrelas da manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo?" Neste texto, Deus indaga a Jó qual era conhecimento sobre o que ele fez no Universo. Ele se refere aos filhos de Deus que bradavam com júbilo as maravilhas da sua criação. Estes 'filhos de Deus' [b'nai haElohim] eram os seres espirituais, anjos querubins e arcanjos criados. São Jerônimo traduziu esta expressão comum no Velho Testamento como "anjos de Deus" ou "meus anjos." No Novo Testamento, "filhos de Deus" é uma referência aos eleitos e regenerados em Cristo Jesus pela inclusão deles na sua morte e ressurreição. Não se faz referência a outras criaturas como filhos de Deus, exceto a Jesus, o Cristo. Ele é, realmente, o único filho de Deus. Todos os redimidos foram feitos filhos de Deus por adoção por meio de Cristo conforme Jo. 1: 12 - "Mas, a todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus." São filhos de Deus apenas aqueles que foram aceitos por Cristo e o receberam por fé. Tanto a graça de recebê-lo como a fé para recebê-lo são dons de Deus e não méritos do homem como está registrado em Ef. 2: 8 e 9
Satanás não foi criado como um ser maléfico, mas como um anjo da ordem dos querubins conforme Ez. 28:14 - "Tu eras querubim ungido para proteger..." Esta expressão: "para proteger..." em seu original no hebraico é "que conduz..." A ele foi destinado o comando dos outros anjos e a exaltação da adoração e da glória a Deus. Ele não foi criado como um ser obscuro e maléfico, mas em função da liberdade de escolha que possuía deu lugar à iniquidade e caiu da sua posição original para a condição de anjo caído e condenado eternamente ao inferno.
As Escrituras revelam que há diversas e diferentes ordens e posição de anjos criados por Deus. São nove as categorias de anjos, como por exemplo: os anjos simples conforme I Pd. 3:22 - "... que está à destra de Deus, tendo subido ao céu; havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potestades." Há também as potestades, virtudes, principados e dominações conforme Ef. 1:21 - "... muito acima de todo principado, e autoridade, e poder, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro." Também foram criados os tronos conforme Cl. 1:16 - "... porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na Terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos." Embora a palavra tenha outro sentido, mas no texto bíblico se refere a uma ordem de seres espirituais criados por Deus e não a um lugar onde alguém se assenta. Ainda as Escrituras falam de querubins conforme Gn. 3:24 - "E havendo lançado fora o homem, pôs ao oriente do jardim do Éden os querubins..." Também são mencionados os serafins conforme Is. 6:2 - "Ao seu redor havia serafins; cada um tinha seis asas; com duas cobria o rosto, e com duas cobria os pés e com duas voava." As Escrituras falam também de um único ser espiritual chamado Miguel como sendo um anjo conforme Dn. 12: 1 - "Naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, que se levanta a favor dos filhos do teu povo." O arcanjo Miguel é mencionado também em Judas verso 9, em Ap. 12:7, em I Ts. 4:16. Finalmente as Escrituras falam no anjo Gabriel em Dn. 9: 21 a 23 - "... sim enquanto estava eu ainda falando na oração, o varão Gabriel, que eu tinha visto na minha visão ao princípio, veio voando rapidamente, e tocou-me à hora da oblação da tarde. Ele me instruiu, e falou comigo, dizendo: Daniel, vim agora para fazer-te sábio e entendido. No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, pois és muito amado; considera, pois, a palavra e entende a visão."
A ordem dos querubins, da qual o Diabo fazia parte antes da queda, estão intimamente relacionados ao trono de Deus, cabendo-lhes a adoração e o louvor à glória d'Ele. Sua função era a de organizador ou mobilizador de todos os outros anjos para comunicação dos decretos e ordens de Deus. Isto fica evidente no texto de Ezequiel 28, que usa a expressão "portador de luz". Isto não significa que ele emitia luz como um fenômeno luminoso, mas que ele detinha o conhecimento, as informações, as ordens e mandados para instruir os demais seres criados no Universo. 

Soli Deo Gloria!

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O DIABO, VOSSO ADVERSÁRIO I

I Pd. 5: 8 a 10 - "Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, e procurando a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé, sabendo que os mesmos sofrimentos estão se cumprindo entre os vossos irmãos no mundo. E o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e fortalecer."
Há inumeráveis referências ao Diabo no contexto das culturas humanas. Igualmente há diversas formas de se referir a ele e de representá-lo. Entretanto, há pouquíssima verdade sobre tais referências e representações, considerando o texto bíblico. O Diabo não é um mito, mas um ser real e inteligente. A maneira de representá-lo, na cultura ocidental, provém do domínio absoluto da igreja católica, especialmente, na Idade Média. Difundia-se a ideia de um ser feio, terrível e assombrador com o objetivo de dominar o povo pelo medo. Manter as pessoas submissas ao controle da igreja era fundamental devido às ameças dos avanços científicos do Renascimento, da grande pobreza e analfabetismo entre as massas. Então, pintá-lo rabudo, chifrudo, com pés dotados de unhas fendidas era uma forma de assombrar o ideário popular ignorante e que não tinha acesso às Escrituras.
As Escrituras não dão muitos detalhes sobre a figura de Satanás, mas o pouco que fornece é o suficiente. Ez. 28:12 a 15 - "Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-te: assim diz o Senhor Deus: tu eras o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estiveste no Éden, jardim de Deus; cobrias-te de toda pedra preciosa: a cornalina, o topázio, o ônix, a crisólita, o berilo, o jaspe, a safira, a granada, a esmeralda e o ouro. Em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados. Eu te coloquei com o querubim da guarda; estiveste sobre o monte santo de Deus; andaste no meio das pedras afogueadas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que em ti se achou iniquidade." O texto descreve um ser angelical da ordem dos querubins tipificado, inicialmente, na pessoa do rei da cidade de Tiro. Todavia percebe-se pelas descrições que não se tratava de um homem, pois selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura não combinam com um rei a quem se destina um final fúnebre. Também, nenhum rei humano esteve no Éden ou jardim de Deus. O Éden descrito no texto é mineral e não vegetal como era o Éden terrestre de Adão. Também se vê que, no dia em que foi criado por Deus, foi-lhe atribuída habilidade musical com tambores e pífaros. Este anjo foi colocado como o chefe da guarda na presença de Deus. Tal anjo cujo nome não foi declarado era perfeito em seus caminhos até que em seu coração foi achada a iniquidade. Tal iniquidade é nomeada em Is. 14: 13 e 14 - "E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo." Desejou ser um deus e ter um domínio para si.
O nome Lúcifer atribuído ao anjo caído não é verdadeiro e não se confirma nas Escrituras. Trata-se de um erro de tradução de S. Jerônimo na versão bíblica da Septuaginta do hebraico para o latim. Ao traduzir a expressão "... resplandecente estrela da manhã..." S. Jerônimo tomou uma locução adjetiva como substantivo e nome próprio. Em latim, "portador da luz" é "Lux ferris", por isso, a palavra Lúcifer em porutugês. A expressão é uma alusão ao anjo querubim antes de entrar em rebelião contra Deus. Is. 14:12 a 14 - "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! como foste lançado por terra tu que prostravas as nações! E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo." Desta forma, a expressão 'resplandecente estrela da manhã' é uma forma gloriosa de se referir ao anjo antes de se tornar Satanás e Diabo. Também é uma das formas de se referir ao planeta Vênus, pois se parece, na Terra, a uma brilhantes estrela que é vista ao amanhecer em certas épocas do ano e ao anoitecer em outras. Os gregos chamavam de Heósforos [Ηωσφόρος] que significa Fósforo ou Tocha de Fogo. Atribuía-se o Planeta Vênus a uma divindade mitológica menor. Então, de fato, Satanás é um, Lúcifer nunca existiu e o planeta Vênus é um corpo celeste luminoso.
Por estas razões há três maneiras de se referir ao anjo caído: antes da queda era "Lúcifer" ou "Portador da Luz", depois da queda Satanás e Diabo. Lúcifer provém de uma expressão, não sendo, portanto, um nome próprio. Satanás provém do hebraico [שָטָן] que é transliterado como "Satã". Satanás significa em hebraico, adversário ou inimigo. Entretanto, a ideia de Satanás para os judeus não era apenas atribuída a um ser sobrenatural, mas a qualquer adversário ou inimigo humano. Diabo [διάβολος] é o equivalente grego para Satanás e significa acusador ou caluniador. Não se atribui a palavra Diabo a pessoas ou aos demais anjos caídos, porque é exclusiva a Satanás. 
II Co. 11:14 - "E não é de admirar, porquanto o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz." Vê-se que Satanás não sendo mais o anjo portador da luz, se disfarça como sendo um anjo de luz para enganar. Portanto, erram profundamente aqueles que pintam-no como um ser horrendo e feio. Ao contrário, para enganar e seduzir os homens necessita se disfarçar em anjo de luz. No livro de Apocalipse Satanás recebe outras denominações conforme Ap. 12:9 - "E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele." Tais referências estão em consonância às suas atividades maléficas ligadas ao fogo e ao engano dos primeiros ancestrais do homem no Éden.
Sola Scriptura!

terça-feira, 24 de março de 2015

VONTADE, DESEJO E LIBERDADE

Jo. 8: 32 a 36 - "... e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: somos descendentes de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém; como dizes tu: sereis livres? Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Ora, o escravo não fica para sempre na casa; o filho fica para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."
São inerentes à natureza humana decaída a ilusão e a mentira. Isto se dá porque a condição de morte espiritual para Deus coloca o homem em aparteísmo. Trata-se de uma falsa autonomia a qual o leva a presumir que é livre em função do que faz ou deixa de fazer. Tal falsidade autômata trai os sentidos humanos, dando-lhes uma capacidade de construção de realidades paralelas em relação à verdade.
A vontade não pode ser confundida com o desejo, porque, enquanto o desejo é o que emerge da natureza humana sem a capacidade de controle por parte do agente desejante, a vontade é a razão a serviço daquilo que é o correto e possível de ser feito. A razão está a serviço da moral, enquanto a vontade está a serviço da vida. A moral é o que uma pessoa faz ou não faz, independentemente das circunstâncias instintivas ou externas. Por exemplo, ainda que alguém pudesse ficar invisível não furtaria ou não mataria, porque furtar e matar não é moralmente correto. Ainda que alguém dispusesse de pleno poder sobre outros não forçaria a outra pessoa a lhe conceder algo reprovado pela moral. Ainda que uma pessoa não estivesse sob qualquer forma de censura alheia não adotaria uma postura obscena porque a sua moral não aceita como normal. Neste sentido a maior parte das pessoas não são pessoas morais, mas amorais e imorais, visto que agem em função das circunstâncias e não de acordo com o que a razão indica como o correto a ser feito. 
A alegoria do "Anel de Giges" na obra "A República" de Platão permite extrair algum subsídio para os conceitos de moral e razão. Um pastor de ovelhas considerado um bom homem guiava o seu rebanho. Após uma tempestade e um terremoto, se deparou com um homem morto. Percebeu que o cadáver portava apenas um anel. O pastor tomou para si o anel, colocando-o no dedo seguiu ao seu labor rotineiro. Percebeu o pastor que, quando estava em um ambiente social em companhia de diversas pessoas e manipulava o engaste do anel para dentro estas não lhe percebiam. Era como se ele não estivesse presente no local. Concluiu, assim, o pastor que o anel lhe dava a invisibilidade. A partir do momento em que constatou este fato passou a usar da sua invisibilidade para trair, matar e usurpar o poder do rei. Ora, o fundamento moral é que um homem pode aparentar ser algo ou alguém apenas porque as circunstâncias não lhes são favoráveis. Exposto em seu erro ou fraqueza poderia tornar-se objeto de restrição da liberdade no sistema vigente. Poderia ser apanhado pela lei, julgado e condenado. Entretanto, quando livre de quaisquer possibilidades de juízo faz tudo o que os seus desejos impõem.
Enquanto o desejo é algo inerente à natureza instintiva e animal, a vontade é aquilo que a razão indica como o correto e justo. A razão é o que deve ser feito, independentemente dos desejos. A razão não depende do que o homem deseja para gratificar-se e ser feliz. A felicidade é a busca pelo prazer e o afastamento das dores e sofrimentos. Portanto, nem sempre quando alguém age para ser feliz age moralmente. O homem amoral é aquele que desconhece ou ignora os princípios da razão. O homem imoral é aquele que age em sentido oposto e conflitante com a razão, ainda que seja em nome da felicidade.
No texto que abre esta instância vê-se um embate entre os líderes religiosos e o Mestre Jesus, o Cristo. Ele propõe que, se o homem conhecer a verdade experimenta a verdadeira liberdade. A isto os religiosos negaram dizendo que não necessitavam da liberdade proposta, porque eram descendência de Abraão e nunca foram escravos. Primeiro, os tais religiosos reduziram a liberdade a uma questão puramente genealógica e étnica como um qualificativo. Segundo, negaram a própria história do seu povo que foi escravo por 430 anos no Egito e depois em outras épocas e lugares nas diásporas. O religioso que não experimentou o novo nascimento toma por referência apenas suposições idealizadas por uma moral determinada pela vontade natural e não pela verdade espiritual. A verdade libertadora proposta por Jesus, o Cristo não era uma concepção filosófico-religiosa. A verdade é uma pessoa, a saber, o próprio Cristo conforme Jo. 14:6 - "Respondeu-lhe Jesus: eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." Jesus, o Cristo demonstra que, além de ser ele mesmo a verdade, também, é o caminho e a vida. As implicações desta verdade é que não há redenção libertadora fora de Cristo. Tal libertação se dá quando o homem decaído é incluído na morte d'Ele, e, consequentemente, em sua ressurreição. O processo de redenção consiste na inclusão e substituição do homem contaminado pela natureza pecaminosa na cruz. Este fato, que se apropria por fé, aniquila a culpa do pecado  que o torna morto espiritualmente para Deus. A maioria dos religiosos desconhece que há três naturezas de morte: a) a morte espiritual para Deus; b) a morte física ou biológica; c) a morte para o pecado.
Fica claro que, ainda que religioso e ético, o homem continua escravo da natureza pecaminosa. Portanto, não é livre nem espiritualmente, nem racionalmente e, muito menos, moralmente. Porque tanto o desejo, a vontade e a razão estão escravizados pela natureza decaída e absolutamente depravada. Assim, o escravizado necessita de um libertador que não é contaminado por tal natureza corrompida. Este foi o projeto de Deus para libertar verdadeiramente o homem da sua condição de pecador. Incluir o pecador na morte justificadora de um libertador absolutamente puro e justo. Após tal processo, o pecador retorna à vida justificado e liberto da culpa do pecado. Ao longo da sua vida será tratado e aperfeiçoado dos atos pecaminosos até a restauração final.
Sola Gratia!

domingo, 22 de março de 2015

ESTADO LAICO, IGREJA E TOLERÂNCIA

Mc. 2: 14 a 17 - "Quando ia passando, viu a Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria, e disse-lhe: segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu. Ora, estando Jesus à mesa em casa de Levi, estavam também ali reclinados com ele e seus discípulos muitos publicanos e pecadores; pois eram em grande número e o seguiam. Vendo os escribas dos fariseus que comia com os publicanos e pecadores, perguntaram aos discípulos: por que ele come com os publicanos e pecadores? Jesus, porém, ouvindo isso, disse-lhes: não necessitam de médico os sãos, mas sim os enfermos; eu não vim chamar justos, mas pecadores."
O Estado é um ente político que se expressa por meio do território, do povo, do governo e do elevado nível de soberania. O Estado, como entendido hoje, existe a partir da concepção contratualista que, prevendo 'a guerra de todos contra todos', quando o homem vivia em 'estado de natureza', propôs um contrato social. O contrato social se define pelo homem abrindo mão do individualismo e liberdade em troca de garantias e proteções do Estado. Montesquieu deu um refinamento a mais na estrutura do Estado com a sua fórmula tripartite dos poderes do Estado: poder legislativo, o poder que faz as leis; poder executivo, o poder que executa o que as leis exigem e realiza a gestão da coisa pública; e o poder judiciário que zela pelo cumprimento e aplicação das leis. 
A Igreja no sentido do evangelho e da fé cristocêntrica é o conjunto de todos os regenerados pela experiência de novo nascimento em todos os tempos e lugares. Tal experiência se dá pela inclusão do pecador na morte e ressurreição de Cristo. A Igreja genuína se define como um corpo vivo formado de 'pedrinhas' edificadas sobre a Rocha Eterna que é Jesus, o Cristo o seu cabeça e o seu fundamento. Tal estrutura é definida por Jesus, o Cristo em Mt. 16:18 - "Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Nem Cristo, nem Deus jamais fundou qualquer religião ou sistema de crença institucionalizado. A Igreja não é identificada pelo exercício de uma religião exterior, ritualística e preceitual, mas pela graça mediante a fé na justificação única, perfeita, eficiente e eficaz da inclusão do pecador na morte de Cristo e na sua consequente ressurreição. Este processo de redenção aniquila a culpa do pecado e reconcilia o pecador a Deus.
O Estado laico não se define como um Estado formado por pessoas e instituições que se declaram ateias como presume a maioria das pessoas. O laicismo não é uma virtude e, portanto, não se aplica a pessoas. Aplica-se tão somente a coisas que não possuem poder de decisão moral. A laicidade é um princípio político, referindo-se à organização da sociedade e não a pessoas. O laicismo consiste em uma condição na qual o Estado não adota regras religiosas, não patrocina a religião, e não institui qualquer forma de culto em sua estrutura oficial de poder e governo. 
A tolerância é uma virtude moral e se aplica, tão somente, a pessoas e jamais a coisas as quais não podem decidir moralmente. A tolerância só pode existir em alguém que possui o poder de ser tolerante ou não ser tolerante, pois do contrário, não haveria necessidade de tolerância. A tolerância pode ser por amor ou por força moral. Por amor ocorre quando alguém ama e, portanto, tolera ideias e comportamentos do outro; por força moral a tolerância ocorre quando alguém não ama, mas tolera a ideia ou o comportamento do outro ainda que não concorda com os tais, por uma questão moral. A tolerância, portanto, pressupõe discordância de posições ideológicas e comportamentos condenatórios, porém o tolerante não age contra o outro.
Jesus, o Cristo separou perfeitamente o Estado da Igreja na expressão "... dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus..." Tal ensino revela que o Estado desenvolve sua atividade de Estado e a Igreja a sua função de Igreja sem confundir-se um com o outro. O que é do Estado é a política, a economia e a administração da coisa pública. À Igreja cabe a adoração, o anúncio do evangelho para a justificação do pecador. Visa despertar os eleitos para a reconciliação do seu espírito corrompido com Deus, trata da purificação da alma e garante a ressurreição do corpo na restauração final. São dimensões de naturezas absolutamente diferentes e até mesmo opostas. Isto não quer dizer que, em nome de Deus, da Igreja ou de uma fé qualquer alguém deve entrar em rota de conflito com o Estado e suas instituições. Uma pessoa absolutamente crente submete-se às leis do Estado sem prejuízo da sua fé. Entretanto, quando o Estado invade os liames do campo espiritual o que crê não está obrigado a violar a sua fé conforme At. 5:29 - "Respondendo Pedro e os apóstolos, disseram: importa antes obedecer a Deus que aos homens."  
O texto de abertura ensina com clareza uma questão de intolerância dos líderes religiosos e a tolerância de Jesus, o Cristo. Os religiosos questionavam o fato de Jesus comer com pecadores e publicanos. Jesus lhes ensina que a real e verdadeira tolerância não é evitar ou condenar aqueles que praticam atos e atitudes considerados em uma cultura como desaprovados. Sendo a missão redentiva de Jesus, o Cristo salvar ou redimir os injustos, não faria sentido ele pregar, ensinar e amar os que se consideram justos. Quem se vê como justo não necessita de justificação.
Solo Cristo!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A ESPIRITUAIS COMO ESPIRITUAIS, A CARNAIS COMO CARNAIS

I Co. 3: 1 a 3 - "E eu, irmãos não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Leite vos dei por alimento, e não comida sólida, porque não a podíeis suportar; nem ainda agora podeis; porquanto ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja e contendas, não sois porventura carnais, e não estais andando segundo os homens?"
Há nos círculos religiosos o uso recorrente de clichês para superdimensionar as crendices humanas. Reduzem a fé a uma mera questão conceitual. Cada um exalta a sua crença por meio das mais variadas hipérboles e dos mais cândidos elogios. Dão-se a si mesmos os mais honrosos títulos de grandezas. Retiram, assim, a honra e a glória de Cristo para concedê-la a homens, igrejas, seitas, crenças e seus feitos. 
Resolvem, sem o menor exame das Escrituras e de consciência, que alguém é espiritual apenas porque o tal pertence a um determinado credo religioso. Dão como espiritual alguém com base tão somente em atos e atitudes de cunho comportamental. Desta forma, se alguém é batizado, é membro de uma determinada igreja, participa de alguns dos trabalhos religiosos, contribui financeiramente, dá testemunho de honestidade social e familiar, este tal é uma pessoa espiritual. Por outro lado, se alguém teve ou tem manchas morais em sua trajetória de vida é, imediatamente, classificado como sendo mundano, carnal, incrédulo, perdido e condenado ao inferno. Neste último caso alguns, com ar de falsa piedade e de superioridade afirmam: "você precisa se converter", "você precisa aceitar a Jesus", "você precisa de Deus em seu coração". O mais trágico é um condenado condenar o outro cego, segundo Jesus, o Cristo em Lc. 6:39 - "E propôs-lhes também uma parábola: pode porventura um cego guiar outro cego? não cairão ambos no barranco?" Em outro contexto, o Mestre afirmou que meretrizes e publicanos entrariam diante dos religiosos no reino dos céus.
No trato com a sã doutrina, não se pode reduzi-la a uma questão gramatical ou semântica, pois este tratamento é de caráter puramente humanista. A primeira e principal característica da sã doutrina é que ela não pertence ao homem, mas a Deus conforme Jo. 7:16 e 17 - "Respondeu-lhes Jesus: a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo." A maioria dos religiosos toma por verdadeira a doutrina da sua igreja, do seu líder ou da sua denominação religiosa. Neste caso corre-se o perigo de dar crédito à doutrina de homens e não de Deus. Grande parte dos religiosos promove o homem a santo e piedoso apenas por seus atos, mas não pelo seu estado de relação e posição perante Deus. As Escrituras afirmam, peremptoriamente, que se deve dar a cada um o que lhe é devido conforme Rm. 13:7 - "Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra." Isto mostra que nas relações horizontais no trato social deve-se adotar o princípio da reciprocidade. Isto nada tem a ver, necessariamente, com espiritualidade!
O texto de abertura ensina que não se pode falar a todos de igual modo doutrinariamente. Isto seria, no caso dos carnais, como levar um cego para o topo de uma montanha e dizer-lhe: veja como é linda a paisagem deste ponto. O apóstolo Paulo está tratando com a igreja em Corinto. Todos ouviram a mesma pregação para justificação, porém nem todos a recebeu da mesma forma e com a mesma ênfase. A fé é um dom de Deus, por assim ser, é repartida segundo a medida d'Ele conforme Rm. 12:3 - "Porque pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não tenha de si mesmo mais alto conceito do que convém; mas que pense de si sobriamente, conforme a medida da fé que Deus, repartiu a cada um." O ensino claro desta questão dos que ouvem, mas não recebem fé acha-se em Hb. 4:2 - "Porque também a nós foram pregadas as boas novas, assim como a eles; mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não chegou a ser unida com a fé, naqueles que a ouviram."
Espiritual é o homem que, segundo a graça de Deus, recebeu fé para crer na sua inclusão na morte de Cristo, como também, na ressurreição juntamente com ele. A isto as Escrituras denominam de "nascer do alto" ou de "regeneração". Muitos religiosos tentam, ingloriamente, mensurar o grau de regeneração ou conversão dos outros pelos seus atos. Não há atitude mais incrédula e humanista que esta. Um ateu pode levar uma vida mais correta moralmente que um crente. Algumas pessoas que praticam determinados cultos chamados de diabólicos ou pagãos dão melhor testemunho moral que muitos ditos crentes. Assim, não é pelas obras que se determina a fé, como também não é pela expressão de fé que se determina as obras de justiça. Ambas devem ser paralelas e consequentes da vida de Cristo no nascido do alto, visto que, na essência, tanto uma como a outra é d'Ele. Espiritualidade é um termo que, biblicamente, só se aplica ao pecador que teve a sua velha natureza adâmica destruída na cruz. O homem espiritual é aquele em quem Deus operou o novo nascimento retirando-lhe o coração petrificado pela natureza pecaminosa. Também é o pecador justificado no qual Deus colocou um novo espírito reconciliado com ele por meio da morte e da ressurreição juntamente com Cristo conforme Ez. 36:26 - "Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne." Este processo é monérgico, ou seja, é operado e operacionalizado apenas por Deus. O pecador não pode "se converter" e, muito menos, "se arrepender" por conta própria. A justificação é por graça e não pelas obras de justiça própria. Não é uma questão meritória, mas de misericórdia e de graça soberana. Misericórdia é Deus não nos dando o que, de fato, merecemos: o inferno. Graça é Deus favorecendo a quem não possui merecimento algum. É exatamente isto que ressalta a sublimidade do amor de Deus não agindo em função do que o homem é ou faz, mas em função de sua própria compaixão. Caso a graça e a misericórdia de Deus estivessem condicionadas ao comportamento do homem, onde estaria o glória d'Ele?
O homem que não experimentou o "nascimento do alto" ou a "regeneração" não é espiritual, ainda que seja religioso ou que tenha ouvido o evangelho da graça. Uma coisa é ouvir o evangelho, porém outra coisa é o evangelho lhe ter vivificado pela graça mediante a fé conforme I Co. 2:4 e 5 - "A minha linguagem e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Espírito de poder; para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus."
Desta forma, enquanto o homem que ouviu o evangelho da verdade não for guiado pelo Espírito, permanecerá carnal e não espiritual. Este fato se aplica a qualquer homem, incluindo-se os que praticam religião e seus ritos exteriores. Após nascer de novo e ter as escamas dos olhos retiradas e os ouvidos desobstruídos, o homem vai abandonando a vida na carne e seguindo a vida no espírito. Este é o processo da formação da semelhança de Cristo nos regenerados.
Sola Gratia!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

AS GUERRAS INVISÍVEIS E A SOBERANIA DE DEUS

Dn. 10: 1 a 15 - "No ano terceiro de Ciro, rei da Pérsia, foi revelada uma palavra a Daniel, cujo nome se chama Beltessazar, uma palavra verdadeira concernente a um grande conflito; e ele entendeu esta palavra, e teve entendimento da visão. Naqueles dias eu, Daniel, estava pranteando por três semanas inteiras. Nenhuma coisa desejável comi, nem carne nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com unguento, até que se cumpriram as três semanas completas. No dia vinte e quatro do primeiro mês, estava eu à borda do grande rio, o Tigre; levantei os meus olhos, e olhei, e eis um homem vestido de linho e os seus lombos cingidos com ouro fino de Ufaz; o seu corpo era como o berilo, e o seu rosto como um relâmpago; os seus olhos eram como tochas de fogo, e os seus braços e os seus pés como o brilho de bronze polido; e a voz das suas palavras como a voz duma multidão. Ora, só eu, Daniel, vi aquela visão; pois os homens que estavam comigo não a viram: não obstante, caiu sobre eles um grande temor, e fugiram para se esconder. Fiquei pois eu só a contemplar a grande visão, e não ficou força em mim; desfigurou-se a feição do meu rosto, e não retive força alguma. Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo o som das suas palavras, eu caí num profundo sono, com o rosto em terra. E eis que uma mão me tocou, e fez com que me levantasse, tremendo, sobre os meus joelhos e sobre as palmas das minhas mãos. E me disse: Daniel, homem muito amado, entende as palavras que te vou dizer, e levanta-te sobre os teus pés; pois agora te sou enviado. Ao falar ele comigo esta palavra, pus-me em pé tremendo. Então me disse: não temas, Daniel; porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras, e por causa das tuas palavras eu vim. Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias; e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu o deixei ali com os reis da Pérsia. Agora vim, para fazer-te entender o que há de suceder ao teu povo nos derradeiros dias; pois a visão se refere a dias ainda distantes. Ao falar ele comigo estas palavras, abaixei o rosto para a terra e emudeci."
Profeta como indicado nos textos bíblicos é a pessoa a qual fala ou profere palavras em nome de Deus. Não é alguém que se coloca na perspectiva de interlocutor entre o homem e Deus, mas aquele a quem Deus ordena proclamar o que ele diz. No velho testamento era considerado falso profeta aquele que errasse uma única predição. Era apedrejado segundo a lei de Moisés, ainda que em mil predições acertasse novecentos e noventa e nove. Nos cultos pagãos, profeta era a pessoa que fazia previsões, proferia acontecimentos futuros ou se apresentava como intérprete dos 'deuses'. Neste caso, a profecia, tinha caráter adivinhatório e não como ensinado nas Escrituras. Hoje se vê muitos destes profetas que se fazem profetas por conta própria mentindo e engando.
O profeta Daniel viveu entre os séculos V e VI a. C. Ele estava entre os judeus levados cativos á Babilônia quando o rei Nabucodonosor invadiu Israel. Devido ao seu caráter, sua juventude e origem nobre, Daniel foi selecionado pelo rei para servir no palácio real, juntamente com outros três jovens hebreus. O nome Daniel provém do hebraico 'דָּנִיּאֵל' que significa 'Deus é meu juiz.' A ele foi dado um nome babilônico, o qual era Beltessazar. A profecia de Daniel narra os acontecimentos ligados às nações e o desenvolvimento dos fatos históricos até o fim dos tempos. Daniel foi uma das poucas pessoas elogiadas por Deus e morreu aos 72 anos. Atuou, segundo os propósitos de Deus, com sabedoria e diligência durante toda a vida.
O texto de abertura mostra Daniel no cativeiro babilônico no reinado de Ciro. Estava muito abatido pela demora na libertação do seu povo. Daniel se dirigiu às margens do rio Tigre para orar e confessar o seu pecado e o pecado do seu povo. Com ele estavam outros homens, porém não suportaram a revelação e fugiram. Daniel jejuou por três semanas e buscou entendimento de Deus sobre os acontecimentos. Após a sua oração olhou para o céu e viu um anjo ou mensageiro celeste vestido de roupas de linho cingido por ouro puro. O anjo foi descrito como tendo corpo como o berilo, o rosto resplandecia como um relâmpago, os braços e pés reluziam como bronze polido, os olhos como tochas de fogo e a voz como o som de uma multidão. Diante desta visão celestial, Daniel perdeu todas as suas forças físicas e caiu em sono profundo ao ouvir o som das suas palavras. Prostrado em terra desfalecido, ouviu a ordem do anjo para que se levantasse e ouvisse a mensagem de Deus. Trêmulo Daniel ouviu que era um homem mui amado e que suas orações haviam sido ouvidas por Deus desde o momento em que se colocou a orar e confessar.
A despeito do poder do mensageiro divino e da sublimidade da visão de Daniel foi relatada uma batalha invisível no espaço: "Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias..." Ora, sempre que uma mensagem faz referência à Satanás e seus demônios usa-se uma tipificação com algum dominador tirano terrestre. Desta forma, a referência ao 'príncipe do reino da Pérsia' não é uma referência ao rei Ciro, mas a um poder espiritual satânico que detinha o controle da Pérsia. Tal força espiritual do mal resistiu entre o mensageiro enviado e o profeta Daniel. Por causa desta interferência no mundo espiritual, um dos anjos mais poderosos na hierarquia celeste veio para ajudar. Muitos intérpretes afirmam que o anjo Gabriel é o responsável pela proteção e condução do povo judeu ou de Israel como nação. 
Assim, Daniel recebeu a revelação sobre os acontecimentos futuros acerca do povo judeu. Não era uma visão para aqueles dias e para atender aos desejos dos judeus de retornar à Jerusalém, mas para os últimos dias da história da Terra. O fato é que, embora o homem carnal não possa ver há movimento constante no mundo espiritual. Portanto, não devemos andar ansiosos ou amedrontados conforme ensinado em Mt. 28:20 "...e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.
Soli Deo Gloria!

sábado, 7 de fevereiro de 2015

A GUERRA NO CÉU E AS REALIDADES ESPIRITUAIS INVISÍVEIS

Ap. 12: 7 a 9 - "Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele."
As Escrituras não possuem muitos registros sobre Satanás, mas o pouco que falam é o suficiente para entendermos a origem e o caráter deste arcanjo da ordem dos querubins. Querubim provém do hebraico 'כרובים' ou 'keruvim' uma ordem de anjos, ocupando o segundo nível hierárquico abaixo de Deus e dos serafins. Cada ordem de anjos possui funções específicas no universo. Os querubins eram comandados por um arcanjo com funções de organizar a adoração, a guarda e a comunicação das ordens divinas entre os demais anjos.
O profeta Ezequiel fez menção ao arcanjo querubim comandante das forças angelicais. É um texto por meio de uma metáfora usando a figura de um rei terrestre. Deste texto retiram-se as seguintes palavras Ez. 28: 12 a 15 - "Tu eras o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estiveste no Éden, jardim de Deus; cobrias-te de toda pedra preciosa: a cornalina, o topázio, o ônix, a crisólita, o berilo, o jaspe, a safira, a granada, a esmeralda e o ouro. Em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados. Eu te coloquei com o querubim da guarda; estiveste sobre o monte santo de Deus; andaste no meio das pedras afogueadas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que em ti se achou iniquidade." Então, o arcanjo da ordem dos querubins era perfeito, sábio, belo. Achava-se no Éden Celestial, andava coberto de pedras preciosas e de ouro. A ele foi dado o comando da música para louvor de Deus. Ele era o guarda na capital do universo e andava em meio ao esplendor das pedras preciosas. Entretanto, um dia surgiu a iniquidade em seu coração, provando que o pecado não é uma questão de prosperidade, mas de incredulidade. 
O profeta Isaías revela o tipo de iniquidade que surgiu no coração do arcanjo chefe da guarda conforme Is. 14: 12 a 14 - "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! como foste lançado por terra tu que prostravas as nações! E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo." Por ser um ser espiritual criado livre para pensar e agir, o arcanjo querubim protetor desejou para si mesmo um trono acima das estrelas, assemelhando-se a Deus em poder e glória. Desta forma o anjo querubim não desejava mais adorar a Deus espontaneamente, mas queria adoração a si mesmo. Muitos, ingenuamente, pensam que Deus foi surpreendido por tal atitude. Ora, Deus tudo sabe conforme Is. 29:15 - "Ai dos que escondem profundamente o seu propósito do Senhor, e fazem as suas obras às escuras, e dizem: quem nos vê? e quem nos conhece?" Este foi o primeiro engano do querubim cobridor. Não creu na onisciência de Deus!
O arcanjo querubim violou os princípios imutáveis das leis de Deus conforme Sl. 111: 7 e 8 - "As obras das suas mãos são verdade e justiça; fiéis são todos os seus preceitos; firmados estão para todo o sempre; são feitos em verdade e retidão." Assim, não há nas obras de Deus quaisquer possibilidades de mentiras e injustiças. Os princípios são firmados eternamente e não oscilam em função das vontades dos seres criados. Estes princípios estão contidos nos dez mandamentos quando analisados como lei divina. 
Outra questão que se divulga erroneamente sobre este arcanjo querubim é o seu nome. Muitos afirmam com base em tradições religiosas que ele se chama Lúcifer. Primeiramente isto decorre de um erro de tradução de São Jerônimo do texto hebraico para o latim da Septuaginta. O profeta Isaías diz: "... ó estrela da manhã ...", entretanto este não é um nome próprio, mas apenas uma forma figurada de se referir ao arcanjo querubim. No hebraico tal expressão figurada é 'הילל בן שחר', ou seja, 'heilel ben shachar'. Jerônimo traduziu para o grego como 'heosphoros' e para o latim foi traduzido como 'lucem ferre'. Estas expressões significam apenas 'portador da luz', sendo portanto, um adjetivo e não um nome próprio. Trata-se, portanto, de uma função e não de um nome. O arcanjo querubim era o portador do conhecimento a ser disseminado entre os demais anjos sob seu comando. Luz em termos bíblicos indica sempre conhecimento e não apenas o fenômeno óptico. Os tradutores tomaram a expressão latina 'lucem ferre' e passaram ao português como o nome próprio Lúcifer. Posteriormente, o identificaram à Estrela D'Alva que é, de fato, o planeta Vênus. Nada tem a ver com o arcanjo da ordem dos querubins.
Na verdade o texto de Ap. 12 mostra os atuais nomes do arcanjo querubim caído: "E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás..." Diabo significa caluniador e acusador, enquanto Satanás provém do hebraico 'shai'tan' que significa adversário ou inimigo. Desta forma o antigo arcanjo chefe da guarda no céu passou a ser o dragão, antiga serpente, Diabo e Satanás. O nome original anterior a sua queda, não foi dito em nenhum texto das Escrituras.
Muitos pensam que Deus simplesmente poderia ter destruído Satanás para servir de exemplo. Todavia, Deus optou por deixar as coisas fluírem a fim de o caráter de Satanás pudesse ser revelado. A simples eliminação de Satanás poderia gerar uma adoração dos demais anjos apenas por medo e não por amor espontâneo. No ensino de Jesus, o Cristo isto fica explicado conforme Mt. 13:30 - "Deixai crescer ambos juntos até a ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro." O joio é tão semelhante ao trigo que, se o agricultor retirá-lo da plantação danificará toda a safra. Assim, espera-se o amadurecimento, porque então, é revelado o que é trigo e o que é joio.
Sola Gratia!