quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O HOMEM, A ETERNIDADE E A VIDA ETERNA

Jo. 17: 1 a 3 - "Depois de assim falar, Jesus, levantando os olhos ao céu, disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que também o Filho te glorifique; assim como lhe deste autoridade sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos aqueles que lhe tens dado. E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste."
No texto neotestamentário há três palavras para o vocábulo 'vida'. A primeira é [βιος] 'bios' que se refere à vida no sentido biológico ou físico. A segunda é [ψυχὴ] 'psikê' que é a vida almática ou ser vivo. E a terceira é [ζωη] 'zoê' que é a vida espiritual. Das três, a mais significativa é a vida 'zoê', porque indica uma qualidade de vida plena, tanto em essência, como moralmente. A vida 'zoê' é de origem divina, sendo transferida por Deus pelo sopro do espírito. No velho testamento a palavra vida é [חָיָה] 'chayah' - lê-se 'raiá' com 'r' forte - e significa respirar. Esta vida foi transmitida por Deus ao primeiro Adão conforme Gn. 2:7 - "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente." No hebraico do texto original a palavra está no plural [חיים] 'chayim', indicando que são duas vidas: a da alma e a do espírito. Portanto, o homem foi formado do pó da terra, por isto, foi chamado Adamah, que é Adão, e quer dizer: 'barro vermelho'. Depois Deus soprou-lhe nas narinas o fôlego das vidas, a saber, deu-lhe a alma e o espírito.
Ao longo da jornada do homem na Terra, o seu maior desejo é a obtenção da vida eterna. Muitos deram tudo o que possuíam para os alquimistas do passado encontrarem a "pedra filosofal" e para atuais cientistas descobrirem o chamado "elixir da juventude." Entretanto, o fim da vida física é a única certeza que se pode ter. Ainda que muitos, atualmente, estejam congelados em Nitrogênio líquido esperando a cura de seus males, porém caminham para a morte. 
Em termos escriturísticos o homem é um ser tripartite, ou seja, possui corpo, alma e espírito. Por mais que teólogos defendam a dicotomia, mas o texto bíblico não deixa dúvidas da tricotomia humana. O corpo, como se sabe, perece desde o nascimento até o declínio e a degenerescência física e morte biológica. A alma é eterna e também o canal de comunicação entre o espírito e o corpo e, destes, com o ambiente externo. O espírito veio de Deus e a ele retorna com a morte física conforme Ec. 12:7 - "... e o pó volte para a terra como o era, e o espírito volte a Deus que o deu." O problema maior reside na alma, porque a sua vida está no sangue e, uma vez, derramado ela é libertada do corpo conforme Lv. 17:11 - "Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que faz expiação, em virtude da vida." Este era o sentido dos sacrifícios cujo sangue era espargido sobre o propiciatório no Santo dos Santos para indicar o sacrifício final e perfeito de Cristo na cruz. Desta forma o sangue de Jesus, o Cristo foi a execução da justiça de Deus sobre a natureza pecaminosa do homem. Sacrifício único, perfeito, eterno, eficiente e eficaz. Em todo o texto bíblico não se fala de salvação ou justificação do espírito, mas da alma, porque é nela que o pecado está impregnado. É a alma que é purificada na morte com Cristo! Esta é a razão porque os sacrifícios de bodes e touros não resolviam o problema da injustiça do pecado definitivamente. Apenas funcionavam como indicativo simbólico do verdadeiro e perfeito sacrifício de Cristo.
Portanto, o homem é um ser eterno e seu corpo será ressuscitado na restauração final, sua alma e espírito serão restituídos ao corpo ressuscitado neste tempo. Deus mesmo colocou o sentimento de eternidade no homem conforme Ec. 3:11 - "Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs na mente do homem a ideia da eternidade, se bem que este não possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim." Entretanto, o assunto da eternidade e da vida eterna são diferenciados, no que tange ao homem, porque nem todos ganharão a vida eterna. A morte de Cristo foi para um grupo específico de pessoas, os pecadores eleitos. Ainda que alguns teólogos insistam na universalidade da salvação, mas a realidade objetiva indica que nem todos são salvos. A morte ou sacrifício de Cristo só tem eficácia para aqueles que foram conhecidos antes dos tempos eternos conforme Rm. 8: 29 e 30 - "Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou." Verifica-se que os verbos estão todos no pretérito e que a ação é absolutamente de Deus e não do homem.
Mt. 25:46 - "E irão eles para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna." Este versículo, como diversos outros, indica que a eternidade é uma coisa e a vida eterna é algo a mais, além dela. Os não eleitos irão para o castigo ou desprezo eterno, mas os eleitos e regenerados irão para a vida eterna. Portanto, é eterno, tanto um caminho, como o outro caminho. Os justos a que alude o texto, não são os bonzinhos, corretos e cheios de méritos próprios, mas aqueles os quais foram justificados em Cristo. Tal justificação é o ato de tornar alguém justo e não uma espécie de auto-justificação. Caso o homem pudesse justificar-se a si mesmo, Jesus, o Cristo seria absolutamente dispensável. 
O texto de abertura mostra com clareza meridiana que, apenas aqueles que Deus deu a Cristo que ganharão a vida eterna. Isto é devidamente mostrado em Jo. 6:44 e 65 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.  E continuou: por isso vos disse que ninguém pode vir a mim, se pelo Pai lhe não for concedido." Vê-se que ir a Jesus depende de Deus conduzir o pecador e não depende da vontade. Não é uma questão de querer ou de escolha do homem, mas de poder ir até a cruz por concessão de Deus. Os religiosos cometem sempre o humanismo arrogante de afirmar que o pecador tem de aceitar a Jesus. Ora, é Jesus, o Cristo que aceita o pecador, e tão somente, se Deus o conduzir até a cruz para ser incluído na morte e na ressurreição de Cristo.
O texto de abertura esclarece que a vida eterna é conhecimento de Deus e não apenas um estado de consciência ou um lugar bonito e prazeroso. Quem não conhecer ao Pai como único e verdadeiro Deus e a Jesus, o Cristo como aquele a quem ele enviou, não terá a vida eterna. Portanto, viver eternamente é para todos os homens, mas ganhar a vida eterna é apenas para os eleitos e regenerados. Isto não é porque sejam melhores, mais merecedores e justos que os demais homens, apenas os fazem justificados em Cristo conforme II Co. 5:17 - "Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo." No original em grego o texto fala em "nova geração", indicando que o pecador regenerado foi gerado de novo em Cristo para uma nova disposição eterna com a vida de Deus ou vida "zoê".
Soli Deo Gloria!

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

ANOMISMO, ANTINOMISMO E A ANULAÇÃO DA GRAÇA

Gl. 2: 16 a 21 - "... sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, mas sim, pela fé em Cristo Jesus, temos também crido em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não por obras da lei; pois por obras da lei nenhuma carne será justificada. Mas se, procurando ser justificados em Cristo, fomos nós mesmos também achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De modo nenhum. Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor. Pois eu pela lei morri para a lei, a fim de viver para Deus. Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim. Não faço nula a graça de Deus; porque, se a justiça vem mediante a lei, logo Cristo morreu em vão."
Há um constante antagonismo no homem desde a sua queda e depravação pelo pecado. Por pecado, no contexto presente, não se deve entender apenas o cometimento de atos falhos, ilegais, imorais e escandalosos. Fala-se, neste ponto, da natureza pecaminosa que é a incredulidade formada no coração do primeiro Adão conforme Gn. 2: 16 e 17 - "Ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: de toda árvore do jardim podes comer livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás." Após tal norma divina a qual Adão deveria crer e obedecer, surgiu outra proposta mais atraente conforme Gn. 3: 4 a 6 - "Disse a serpente à mulher: certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal. Então, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu." A serpente serviu apenas de instrumento verbalizador para Satanás nesse episódio. Foi a primeira incorporação de espírito na história da humanidade. Satanás propôs, não apenas, o oposto à norma original, mas induziu à ideia de desonestidade do Criador. Entre, "certamente morrerás" e "certamente não morrereis" o homem preferiu crer na segunda mensagem. Por esta razão tornou-se incrédulo à palavra de Deus. Jesus, o Cristo confirma que o pecado original é a incredulidade em Jo. 16: 9 - "... do pecado, porque não creem em mim." Não crer que Jesus, o Cristo é o Filho Unigênito de Deus, é redentor e justificador do pecador é a evidência clara da natureza pecaminosa inoculada no homem por Satanás. 
Desde a aurora dos tempos, após a expulsão dos primeiros ancestrais do Éden, o homem tornou-se um antagonista por natureza. Ser contraditório e rebelde não é uma questão de escolha como pretende os ensinos de caráter gnóstico, como é o caso do "livre-arbítrio." É uma questão de depravação espiritual e de destituição da glória de Deus conforme Rm. 3:23 - "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus." Todos herdaram a natureza pecaminosa dos primeiros ancestrais, a saber, não podem crer à verdade. Estão destituídos da glória de Deus, ou seja, estão separados da natureza d'Ele. A única forma de reconciliar-se é pela graça mediante a fé na inclusão na morte de Cristo, bem como na sua consequente ressurreição. Assim, há uma constante dualidade que se opõe entre alma e espírito, ou se preferir, entre a carne e o espírito.
A anomia é uma anomalia patológica subjacente no homem que o faz perder a identidade pela ruptura dos valores perante a sociedade. É como se cada pessoa fosse perdendo cada vez mais e intensamente a noção de referencial dos valores consagrados em uma sociedade. Tal tendência é perceptível até mesmo na música popular que diz: "... deixa a vida me levar..." É um estilo de vida à deriva e à margem dos sistemas de valores. Tal processo vai se potencializando e aumentando a cada nova geração, levando a sociedade como um todo e os indivíduos de per si a um obscurecimento da consciência e da identidade como pessoa e grupo. 
Émile Durkeim tratou a anomia como uma patologia social. Afirmava que há uma crescente falta de harmonia na sociedade. Aos poucos, a anomia vai estabelecendo um caos social pela tendência ao não cumprimento dos códigos. O anomismo ocorre pela substituição das regras consagradas por outras regras que promovem o isolamento e, até mesmo, a eliminação dos valores já estabelecidos. Robert Merton trata a anomia com uma incapacidade de atingir os fins da vida em sociedade. Para Merton, a incapacidade de atingir os fins culturais, leva o indivíduo a adotar uma conduta desviante. Ele demonstra que, tal desvio das finalidades e objetivos da sociedade leva os indivíduos das classes menos favorecidas ao marginalismo. Tais indivíduos perdem as referências e se põem em um caminho de auto-destruição pelo alcoolismo, pelo uso de drogas tóxicas, violência e rebeliões. O resultado da anomia é a degradação do indivíduo e da sociedade como um todo.
O antinomismo é, de fato, uma controvérsia já resolvida, mas sustentada e mantida por legalistas para justificar suas posições maniqueístas. Em Filosofia, antinomismo é a oposição de dois argumentos coerentes e críveis, porém antagônicos. Portanto, trata-se de um recurso de confronto crítico e não uma anomalia social.
No campo da doutrina jurídico-política, ao pé da letra, antinomismo significa "contra a lei" ou "anti-lei." Os anarquistas dizem que, "Se uma lei é injusta, um homem está não apenas certo em desobedecê-la, ele é obrigado a fazê-lo." Na teoria doutrinária de John Rawls há forte ensino sobre a desobediência civil no caso de a lei ser injusta. Também Mahatma Gandhi afirma a necessidade da desobediência de leis injustas. A desobediência civil é uma forma de protesto político, feito pacificamente, que se opõe a alguma ordem que possui um comportamento de injustiça ou contra um governo visto como opressor pelos desobedientes. Foi um conceito formulado originalmente por Henry David Thoreau e aplicado com sucesso por Mahatma Gandhi no processo de independência da Índia e do Paquistão e por Martin Luther King na luta pelos direitos civis e o fim da segregação racial nos Estados Unidos.
Porém, na esfera religiosa, o antinomismo é algo mais específico e alegado como sendo heresia. Marcião foi um rico construtor de navios convertido ao Cristianismo por volta de 140 d.C. Marcião considerava o velho testamento e a lei irrelevantes após o advento de Cristo. Para ele, Cristo veio estabelecer uma nova relação com os homens. Entretanto, Marcião não advogava que a partir de Cristo os homens justificados pela graça mediante a fé estavam liberados para cometer todo e qualquer tipo de pecado. Quem afirmou que ele defendia isto foram religiosos, mas nunca apresentaram nenhuma prova concreta, até porque, elas não existem. Marcião foi excomungado em 144 d. C. por crer que apenas a justificação pela fé em Cristo era suficiente ao pecador. Ora, Lutero e os reformadores também foram acusados de hereges por esta mesma razão.
No século XVI, Johannes Agricola, discípulo de Lutero afirmava que o homem, uma vez justificado em Cristo, não perderia a sua salvação. Ele afirmava que a lei não era fundamental para santificar o cristão. Este foi o "pecado" de João Agrícola, pelo qual é considerado herege por muitos religiosos hoje. Mesmo após ir a Berlim onde expôs sua maneira de interpretar as Escrituras e dizer que não pretendia incentivar o pecado ou o erro, os religiosos continuam chamando-o de herege. É óbvio que muitas pessoas dizem por aí que a lei não justifica o pecador, o que é confirmado por Paulo em Romanos. Ora, se pela lei o regenerado morreu para a lei, logo, ela não tem mais domínio sobre ele. Até porque o papel da lei não era justificar o pecador, mas tão somente evidenciar a gravidade do pecado. A lei foi dada para que o homem percebesse a sua incapacidade para se livrar da natureza pecaminosa sem um justificador. Entretanto, a maioria dos religiosos preferem dar à lei apenas um papel de regulação moral na sociedade. Esta é uma falácia, pois com ou sem lei o homem continuou pecador e cometendo toda sorte de erros morais desde o antigo testamento até os dias de hoje. Segundo as Escrituras esta tendência pecaminosa irá aumentar cada vez mais até o retorno do Grande Rei Jesus, o Cristo. 
Rm. 8:7 e 8 - "Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser; e os que estão na carne não podem agradar a Deus." Ora, o texto mostra com clareza que a inclinação da natureza humana é inimizade contra Deus, porque não se sujeita à lei de Deus. Quem está na carne não pode jamais cumprir a lei e, muito menos, agradar a Deus, porque ele é Espírito e apenas recebe adoração dos que estão em espírito. Quem torna o pecador apresentável aos olhos de Deus é Cristo, porque Deus olha para ele no pecador que foi por ele regenerado. Desta forma, o antinomismo enquanto explicação que a lei não justifica e não torna ninguém santo não é heresia. Entretanto, se alguém postular que o cristão não deve considerar a lei e as ordenanças para ficar livre e cometer todo tipo de pecado, erro moral, desobediência e rebelião, aí sim, é um incrédulo. Ora, incrédulos sequer podem ser considerados hereges, porque não creem em nada, salvo em si mesmos e em seus ventres.
Portanto, a sustentação destas posições antagônicas entre Lei e Graça interessa aos legalistas que, por não conhecerem a Graça, preferem amarrar e arrastar a todos para debaixo da lei. Imaginam em seus corações tolos que a justiça própria apaziguará a ira de Deus contra a natureza pecaminosa ao tentarem produzir a própria santificação pela lei. No velho testamento foi dito que, "creu Abraão e isto lhe foi imputado por justiça."  Assim, Abraão foi justificado, primeiramente, pela fé e foi obediente em obras de justiça pela mesma razão. Jamais ao contrário como querem arminianos e religiosos de todo gênero.
Sola Scriptura!

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

OS ESCÂNDALOS, A FÉ E OS SERVOS INÚTEIS

Lc. 17: 1 a 10 - "Disse Jesus a seus discípulos: é impossível que não venham escândalos, mas ai daquele por quem vierem! Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho e fosse lançado ao mar, do que fazer tropeçar um destes pequeninos. Tende cuidado de vós mesmos; se teu irmão pecar, repreende-o; e se ele se arrepender, perdoa-lhe. Mesmo se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes vier ter contigo, dizendo: arrependo-me; tu lhe perdoarás. Disseram então os apóstolos ao Senhor: aumenta-nos a fé. Respondeu o Senhor: se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: desarraiga-te, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria. Qual de vós, tendo um servo a lavrar ou a apascentar gado, lhe dirá, ao voltar ele do campo: chega-te já, e reclina-te à mesa? Não lhe dirá antes: prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me, até que eu tenha comido e bebido, e depois comerás tu e beberás? Porventura agradecerá ao servo, porque este fez o que lhe foi mandado? Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: somos servos inúteis; fizemos somente o que devíamos fazer."
Escândalo é definido como fato ou sentimento que ofende e contraria sentimentos, crenças, convenções morais, sociais e religiosas. É também aquilo que pode conduzir ao erro, mau procedimento e ao pecado. Este substantivo masculino se insere na esfera dos fatos revoltantes, inaceitáveis e na quebra da ordem estabelecida pela civilidade. É uma violação dos códigos de conduta aceitos e praticados por uma determinada sociedade, em determinado período histórico.
Jesus, o Cristo afirma que é impossível que não venham os escândalos. Isto porque ele conhece a natureza pecaminosa que subjaz no homem e que o inclina, invariavelmente, aos escândalos e tropeços. I Rs. 8: 46 - "...Quando pecarem contra ti, pois não há homem que não peque..." Embora nem todos os homens são apanhados em escândalos e atos pecaminosos, todos guardam latente dentro de si a natureza pecaminosa que os pode gerar. Os atos pecaminosos não são apenas atos e atitudes de tropeços exteriores e perceptíveis. Não se restringem apenas ao que pode ser constatado e julgado pelas pessoas. Há atos pecaminosos ocultos na mente, pelos desejos e pensamentos conforme Mt. 5:28 - "Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela." Trata-se de uma referência que, ampliada e aplicada a outras áreas da vida a conclusão é a mesma. Muitos homens se dizem fieis às suas esposas, porque nunca consumou o ato sexual com outra mulher. Entretanto, tomando por parâmetro a afirmação de Jesus, o Cristo não há homem que não olhe para alguma mulher sem incorrer em desejos. Então, os atos pecaminosos são também de caráter subjetivo. Por esta razão é que ao homem não é possível libertar-se sozinho.
A libertação verdadeira é, primeiramente, no campo espiritual e depois na esfera almática e carnal. Por esta razão Jesus, o Cristo afirma em Jo. 8:36 - "Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres." O autocontrole e a disciplina servem para manter os padrões ético-morais em equilíbrio, garantindo uma convivência pacífica e respeitosa entre os homens. Entretanto, em se tratando da esfera espiritual o homem carece de um salvador superior a ele e que tenha o absoluto controle sobre o pecado. É nesse ponto que surge a diferença entre a impossibilidade humana e a possibilidade divina conforme Mt. 19: 24 a 26 - "E outra vez vos digo que é mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus. Quando os seus discípulos ouviram isso, ficaram grandemente maravilhados, e perguntaram: quem pode, então, ser salvo? Jesus, fixando neles o olhar, respondeu: aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível." Vê-se que, os discípulos sentiram a total incompetência humana para lidar com a questão da redenção. A citação mostra, com clareza que, não é do campo das possibilidades do homem o libertar-se, mas tão somente da competência divina. 
A fé, no sentido bíblico, não é uma virtude humana. É um dom de Deus aos que ele deseja concedê-la para os devidos fins. A fé não é algo momentâneo e determinado pelas circunstâncias desesperadas. É algo concedido por Deus para sempre conforme Jd. 3 - "... exortando-vos a pelejar pela fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos". Desta maneira a fé não se confunde com determinados comportamentos efervescentes vistos na religião exterior em certos arraiais religiosos. Pulam, gritam, cantam, dançam, pronunciam palavras incompreensíveis, afirmando ser isto demonstração de fé. Na verdade, é apenas exteriorização da emocionalidade almática. Deus não está nisto e não necessita disto para ser longânimo e gracioso para com os que sofrem. A fé é o sólido fundamento daquilo que não se pode ver e que não está em substância diante dos olhos nos termos de Hb. 11:1. A fé não é um exercício mental e corporal demonstrável por aparência de exultação, resignação e humilhação. É antes algo que o próprio homem não pode desenvolver e demonstrar. É um estado de total e absoluta dependência e confiança em Deus. A verdadeira fé se consolida, exatamente, quando não há a menor possibilidade da intervenção humana. Quando Jesus, o Cristo disse aos discípulos que deveriam perdoar os seus inimigos sete vezes ao dia, desesperados, disseram: "aumenta-nos a fé." Ou seja, para que alguém seja capaz deste desprendimento é necessário agir exclusivamente pela fé, porque a natureza carnal não nos dá esta capacidade. Também o Mestre disse que, se alguém tiver fé do tamanho do grão de mostarda dirá a uma amoreira, desarraiga-te e planta-te no mar e ela os obedeceria. Entretanto, nestes últimos 2.000 anos, não se viu ninguém fazendo amoreiras se transferir da terra para o mar. 
Finalmente, Jesus, o Cristo ensina que, quando alguém faz tudo o que lhe é determinado, consegue alcançar o honroso posto de servo inútil. Este ensino demonstra, com clareza, a diferença entre os filhos e herdeiros do reino e os servos. Os servos são apenas cumpridores de ordens por recompensas, mas sem a graça. Isto implica naquela classe de religioso que se põe apenas na perspectiva de servo e não de filho. Alguns fazem menção de outros homens como "grandes servos de Deus." Porém, alguém afirmou sobre isto que, "se é servo não é grande, se é grande não é servo." Servo, até Satanás é, pois está sob o controle soberano de Deus. O maravilhoso é ganhar a filiação divina por meio do novo nascimento. Visto que nenhum homem é naturalmente filho de Deus, ele então, resolveu fazer alguns homens como filhos adotivos por meio da inclusão deles na morte com Cristo. Isto fica evidente em Jo. 1:12 e 13 - "Mas, a todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus." A filiação divina se dá pela graça mediante a fé e isto não procede da descendência, nem da geração biológica, nem do desejo do homem. É uma obra absolutamente soberana!
Soli Deo Gloria!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

ANTINOMISMO, LEGALISMO E AS ESCRITURAS


Rm. 3: 19 a 28 - "Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que se cale toda boca e todo o mundo fique sujeito ao juízo de Deus; porquanto pelas obras da lei nenhum homem será justificado diante dele; pois o que vem pela lei é o pleno conhecimento do pecado. Mas agora, sem lei, tem-se manifestado a justiça de Deus, que é atestada pela lei e pelos profetas; isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos os que creem; pois não há distinção. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs como propiciação, pela fé, no seu sangue, para demonstração da sua justiça por ter ele na sua paciência, deixado de lado os delitos outrora cometidos; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e também justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde está logo a jactância? Foi excluída. Por que lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé. concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei."
Religiosos de quase todos os matizes gostam de duas coisas: polemizar e acusar os que não professam seus sistemas de crença de praticar heresias. Apontam heresia em qualquer afirmação que não coincida com o código dogmático defendido por suas seitas e denominações religiosas. Há algo muito anômalo nisto, pois a verdade é una e uma só, posto que é uma pessoa e não um conceito. A verdade é Cristo e ele mesmo se auto-define como tal em Jo. 14:6 - "Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." Do texto se pode entender, sem qualquer interpretação, que Jesus não tem porções de verdade para borrifar seus servos. Ele mesmo é a verdade personificada, como também é o caminho que significa método, e também é a vida. Ele não tem coisas para dar aos seus eleitos e regenerados. Ele próprio é o doador e a doação. Desta forma, como se explica tantas religiões e todas alegarem para si a posse da verdade?
O mau hábito de polemizar resulta da insegurança pessoal a qual leva o religioso a buscar confirmação, pelo confronto, para certificar-se que suas crenças são válidas. Muitos destes polêmicos são versados em fazer eisegese nos textos bíblicos. Eisegese é o oposto de exegese e consiste em inserir no texto bíblico o pensamento originado nos conceitos humanistas. Tais pessoas não permitem, porque não podem, que as Escrituras os esquadrinhem e os revelem como pecadores. Jesus, o Cristo os confrontou conforme Jo. 5: 39 e 40 - "Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de mim; mas não quereis vir a mim para terdes vida!" Estas pessoas têm o seu querer entenebrecido pelo 'deus' deste século e não podem ver Jesus como revelado nas Escrituras. A religião destes toma o lugar de Cristo e se torna, para eles, como uma divindade adorada. Os religiosos legalistas se sentem incomodados com a liberdade dos eleitos e regenerados. O medo de sofrer consequências, não permite largar seu sistema de crença, os mantêm atados à lei moral e à lei cerimonial. Desta maneira, nem cumprem a lei, porque nenhum homem a pode cumprir, nem adoram a Cristo em espírito e em verdade, porque não nasceram do alto. Vivem uma dupla escravidão: religiosa e legalista.
É comum quando um eleito e regenerado afirma que não está debaixo da lei, mas da graça, os tais religiosos polemizadores dizem que o tal é herege. Eles afirmam isso sem qualquer piedade ou misericórdia exigida ao cristão pelo próprio Cristo. Isto se dá por duas razões básicas: não conhecem a graça plena e porque têm medo de soltar as amarras da lei e dos preceitos e naufragarem em atos pecaminosos. Temem cair em uma espécie de buraco negro e perderem o referencial da verdade que, de fato, não possuem. Alguns chegam ao ponto de defender que, quem se afasta da igreja ou abandona os dogmas e preceitos acabam sucumbindo aos prazeres e acenos do mundo. Ora, quem sucumbe e cede a qualquer coisa fora de Cristo, nunca foi conhecido por ele conforme Mt. 7:21 e 23 - "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramente: nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade." Estes religiosos citados por Jesus, o Cristo estavam praticando boas coisas: profetizando, fazendo milagres e curando. Entretanto, Jesus declarou abertamente que não os conhecia. Solicitou-lhes que se apartassem d'Ele, porque estavam praticando a iniquidade. Por que era iniquidade? Por que qualquer ato ou atitude de obras de justiça própria fora de Cristo, não possui valor espiritual. Possui apenas valor sociológico e são coisas desejadas pelos homens.
O texto de abertura deixa muito claro que, o que a lei prescreve, prescreve-o para os que estão debaixo dela. Os que estão debaixo dos ditames da lei, estão debaixo do juízo de Deus e não da graça em Cristo. Tanto a lei cerimonial, como a lei moral funcionavam, respectivamente, para indicar a morte de Cristo na cruz pelos ritos simbólicos e para evidenciar a natureza pecaminosa no homem. Por esta razão, a lei não possui poder de salvar e, muito menos, de santificar o pecador. A salvação é um ato exclusivo da soberania de Deus e a santificação é um processo em que os eleitos e regenerados ganham a semelhança de Cristo. Não há justificação pela lei, mas apenas o pecado sendo revelado por ela. A aniquilação da natureza pecaminosa foi realizada na cruz conforme Hb. 9:26 - "... doutra forma, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo." Os religiosos não conseguem diferenciar a natureza pecaminosa dos atos pecaminosos. Generalizam tudo e dizem: 'pecado é pecado diante de Deus'. O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo é Jesus, o Cristo. Ele veio para aniquilar a natureza pecaminosa que é a incredulidade e para purificar os eleitos dos atos falhos de moralidade. Jesus esclarece isso em Jo. 16:9 - "... do pecado, porque não creem em mim." De fato a queda do homem se deu no Éden por ter sido incrédulo à ordem de Deus e crédulo à mentira de Satanás. Os atos pecaminosos são consequências do pecado e não a causa dele. No texto grego original quando se refere à natureza pecaminosa ou ao pecado original utiliza-se do termo 'hamartiós' que significa 'errar o alvo." Ao homem foi exigido crer na sentença de Deus: "... porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás." Tal fé o levaria ao alvo de tornar-se semelhante a Cristo e viver eternamente. Muitos religiosos pensam que o homem é pecador porque comete atos pecaminosos. É exatamente o oposto, pois comete atos pecaminosos porque possui natureza pecaminosa, isto é, possui a incredulidade. Isto nada tem a ver com religiosidade, pois há inúmeros religiosos que são incrédulos. É uma questão de nascer do alto conforme Jo. 3: 3 e 5 - "Respondeu-lhe Jesus: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Jesus respondeu: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus." Quem não nascer do alto, não vê. Quem não nascer pela fé ao ouvir a Palavra de Deus pelo convencimento do pecado pelo Espírito Santo, não entra. Não vê e não entra! A água nas escrituras simbolizam a Palavra de deus e o Espírito Santo é o que convence o homem do pecado, da justiça e do juízo.
A justiça de Deus contra a injustiça do pecado, a saber, da natureza de incredulidade, foi executada e satisfeita plenamente na cruz, onde Jesus, o Cristo incluiu os pecadores eleitos em sua morte e os substituiu espiritualmente para torná-los aceitáveis diante de Deus. Assim, Deus é o Justo e o Justificador por meio de Cristo. Paulo pergunta: onde está a jactância? Ou seja a arrogância, a presunção de si mesmo como o promotor da sua própria justificação e santificação? Pela lei das obras de justiça própria? Não! Pela fé, entretanto, até a fé é dom de Deus e não virtude do homem. Assim, qual é a participação do homem no processo? Nenhuma, ele apenas recebe pela graça. 
Obviamente que, todos os eleitos e regenerados não autorizam e não estão autorizados por ninguém a cometer pecados contra si, contra outros homens e contra Deus em nome da graça. Ao contrário, os eleitos e regenerados foram libertos da culpa do pecado pela inclusão na morte com Cristo, estão sendo libertos da influência do pecado pela santificação, e serão libertos da presença do pecado na restauração final. Esta é a essência do ensino de Romanos e das Escrituras como um todo. 
Os religiosos confundem legalismo, que é absolutamente anti-cristão, com santificação, desqualificando a obra de Cristo na cruz. Confundem antinomismo com anomia que são coisas absolutamente diferentes. O antinomismo foi uma forma de entendimento de João Agrícola discípulo de Lutero. Entretanto, ele não se opunha à lei por desejar praticar atos pecaminosos à vontade. Ele apenas afirmava que o cristão genuíno não precisa de se preocupar com a lei para sua justificação e santificação. A prova que João Agrícola não se apoiava numa posição doutrinária anti-lei, é que, pouco tempo depois, abandonou tal questão em uma reunião em Berlim. Tal atitude é típica de um nascido de Deus, pois não visa trazer controvérsia sobre questões desnecessárias. Assim, o que chamam de Antinomismo ou 'anti-lei', na verdade é a Anomia, uma patologia social retratada por Durkeim e por Robert Merton. Nada tem a ver com questões espirituais, mas apenas sociológicas. 
Sola Scriptura!

domingo, 9 de agosto de 2015

A IGREJA APROVADA POR CRISTO

Mt. 16:13 a 19 - "Tendo Jesus chegado às regiões de Cesaréia de Felipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: quem dizem os homens ser o Filho do homem? Responderam eles: uns dizem que é João, o Batista; outros, Elias; outros, Jeremias, ou algum dos profetas. Mas vós, perguntou-lhes Jesus, quem dizeis que eu sou? Respondeu-lhe Simão Pedro: tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Disse-lhe Jesus: bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares, pois, na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus."
Jesus, o Cristo mencionou a palavra igreja apenas duas vezes, uma delas encontra-se no texto que abre este estudo e a outra em Mateus 18. A palavra igreja provém do grego koinê no qual o Novo Testamento foi escrito. São Jerônimo a traduziu, para a Vulgata, da expressão hebraica 'Qehal Yahweh' ou 'Congregação do Senhor' como sendo 'ekklesía'. O termo grego [εκκλησία] 'ekklesía' significa 'chamado para fora'. Tal vocábulo na língua grega tinha caráter político e se referia à assembléia que se reunia para tomar decisões na polis grega. No texto neotestamentário, a palavra grega 'ekklesía' provém de 'ek' (para fora) + 'klesía' (chamado). Desta forma a palavra igreja, quando aplicada biblicamente, significa um conjunto de pessoas que se reúne fora dos padrões e dos interesses político-econômicos do Estado. Esta é a primeira evidência que deve fazer separação entre Igreja e Estado. A Igreja verdadeira e aprovada não serve a nenhum propósito fora de Cristo. Não é uma confraria para satisfazer egos, grupos, desejos humanos e para enriquecer homens incrédulos.
Em termos bíblicos Igreja é um conjunto de pessoas que se reúne para adorar e cultuar a Deus pela intermediação de Jesus, o Cristo. Uma igreja não está, necessariamente, associada a uma edificação chamada templo. As demais funções da Igreja decorrem das contingências humanas. Entretanto, sua função precípua é adorar a Deus. Até o século IV d. C. não haviam templos ou edificações como locais de reuniões cristãs. Os templos surgiram da necessidade de espaços maiores para abrigar grande quantidades de pessoas que se ajuntavam após a falsa adesão do Império Romano. A partir do século X d. C. com a mudança do império para Bizâncio, as Basílicas foram adaptadas ao culto cristão nos moldes do cristianismo romano. As basílicas romanas eram espaços multifuncionais, destacando-se as questões judiciais e políticas no Império Romano. Antes desta fase, as Igrejas eram pequenos grupos que se reuniam em casas uns dos outros, em catacumbas nos períodos de perseguição, em cavernas, e nas Sinagogas judaicas no denominado protocristianismo.
Ap. 3: 7 a 13 - "Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: isto diz o que é santo, o que é verdadeiro, o que tem a chave de Davi; o que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre: conheço as tuas obras (eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, que ninguém pode fechar), que tens pouca força, entretanto guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. Eis que farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não o são, mas mentem, eis que farei que venham, e adorem prostrados aos teus pés, e saibam que eu te amo. Porquanto guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para pôr à prova os que habitam sobre a terra. Venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, donde jamais sairá; e escreverei sobre ele o nome do meu Deus, e o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém, que desce do céu, da parte do meu Deus, e também o meu novo nome. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." É interessante que, das sete igrejas descritas no Apocalipse, apenas duas não foram objeto de reprimendas por erros doutrinários. A Igreja em Filadélfia foi a mais elogiada. O anjo da igreja, não é um ente espiritual que guarda ou vigia a igreja, mas é uma referência ao mensageiro dela. É o presbítero, ancião, bispo ou pastor designado para presidir e conduzir o anúncio e o ensino das Escrituras. A palavra anjo provém do grego [ἄγγελος] 'aggelos' que significa mensageiro. As Igrejas descritas no Apocalipse eram igrejas reais, mas também são igrejas tipos das igrejas que surgiriam ao longo da História. Verifica-se que sempre são referidas como: "... da Igreja que está em..." Logo, não eram templos suntuosos com centenas ou milhares de membros. Eram grupos que se reuniam em uma determinada cidade da Ásia Menor.
Quem fala ao mensageiro da Igreja é o Senhor Jesus, o Cristo e isto se vê pelos seus títulos: santo, verdadeiro, possui a chave de Davi e que abre e ninguém fecha, fecha e ninguém abre. É Cristo que possui todo o conhecimento do exterior e do interior dos homens. Ele afirma que colocou uma porta aberta diante da Igreja, mesmo sabendo que ela tinha pouca força. Isto indica que não é a quantidade de membros e o poder econômico da Igreja que a torna mais eficiente. O que conta é o cabeça da Igreja colocar a porta aberta diante dela. Não é a Igreja que abre ou fecha a porta, mas o Senhor dela. A Igreja fiel é aquela que, mesmo tendo pouca força, guarda a Palavra e não nega o nome de Cristo. A Igreja verdadeira faz, pelo poder da palavra, que os homens decaídos e portadores da natureza pecaminosa venham e adorem. Mesmo aqueles que odeiam a Cristo sabem que ele ama a sua verdadeira igreja. A perseverança no guardar a verdade tem como recíproca a constante vigilância de Cristo na hora da perseguição e da provação. Cristo não diz que a Igreja não passará por provações, apenas afirma que a guardará na hora da angústia. Hoje é muito comum religiosos destilarem discursos triunfalistas e de agressão contra o mundo, o qual consideram incrédulo. Entretanto, a verdadeira Igreja sofre a provação na dependência da Graça de Deus. A vitória da Igreja é espiritual e não política ou econômica. 
Ao questionar qualquer membro dessas igrejas institucionais e denominacionais se a sua igreja é aprovada por Cristo dirão que sim. Para tanto, dão uma enorme lista de características. Por vezes, são opiniões baseadas apenas em preceitos e regras de moralidade, por vezes, citam algum texto bíblico. Entretanto, a Igreja aprovada pode não se enquadrar em nenhum destes parâmetros apresentados. Isto porque, ao se enquadrar nos parâmetros estritamente bíblicos, uma Igreja foge quase totalmente dos modelos tidos como verdadeiros e aprovados. Não se pode confundir agregação de pessoas que se dizem fiéis a uma determinada doutrina com a congregação onde Cristo de fato preside e é adorado. Não é pelo muito falar, pela cantoria e pelo barulho na oração que Cristo é adorado. Na verdade, ele é adorado em espírito e em verdade. É Igreja a partir do padrão estabelecido em Mt. 18:20 - "Pois onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles."
Há diversas promessas aos que perseverarem até o fim em meio às perseguições e provações. Contar vitórias em tempos de bonança é muito fácil, mas continuar adorando e sendo fiel na perseguição é por graça. Hoje o que se vê é uma igreja ativista, adorando coisas e valorizando o homem no pecado. Funcionam como agências de auto-ajuda e de culto ao egoísmo. A centralidade é o homem e suas exigências e não a cruz como um princípio interior a ser desenvolvido. Tentam se impor pela força do voto e das barganhas políticas. Abandonam a porta aberta colocada diante de si pelo jogo político e pela ambição de construir templos suntuosos. Seus líderes são homens desprovidos da sabedoria do alto e do conhecimento de Cristo. Sabem tudo sobre qualquer assunto, menos sobre a "palavra da fé" ou da "palavra da cruz."
No texto de abertura Jesus, o Cristo afirma que ele é a rocha sobre a qual a Igreja verdadeira é construída. Não é Pedro a rocha, porque é utilizado o pronome demonstrativo 'esta' e não 'essa' ou 'aquela'. Jesus mudou o nome de Pedro que era Simão. Pedro provém de Cefas que significa, em aramaico, 'pedrinha', enquanto 'pedra' provém de 'petra' que é rocha firme. De fato, não faria qualquer sentido Cristo edificar a sua Igreja sobre uma pedrinha. As chaves do reino dos céus é dada à verdadeira Igreja e não a um homem em particular. A Igreja, corpo de Cristo, liga e desliga na medida em que anuncia o evangelho da cruz, porque ao ouvi-lo o pecador ou recebe a graça da redenção, ou se mantém em sua natureza pecaminosa latente. O evangelho produz sempre dois efeitos: a redenção ou a condenação.
Sola Scriptura!

sábado, 8 de agosto de 2015

PARA QUEM É A SALVAÇÃO? V

Jo. 10: 14 a 17 e 24 a 29 - "Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco; a essas também me importa conduzir, e elas ouvirão a minha voz; e haverá um rebanho e um pastor. Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida para a retomar. Rodearam-no, pois, os judeus e lhe perguntavam: até quando nos deixarás perplexos? Se tu és o Cristo, dize-no-lo abertamente. Respondeu-lhes Jesus: já vo-lo disse, e não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai, essas dão testemunho de mim. Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem; eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão; e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai.
A primeira conclusão simples a que se pode chegar sobre o universalismo da salvação é, se ela fosse para todos, a condenação eterna seria desnecessária. Visto que todos os homens seriam irrevogavelmente salvos pela obra de Cristo na cruz, o inferno, tal como popularmente pregado, não se justifica. Outra questão é, se Deus intentou em seu plano eterno salvar todos os homens, todos os homens deveriam ser salvos, porque os seus eternos decretos não podem ser contraditados. Desta forma, o argumento universalista cai por terra, posto que, muitos homens são, sabidamente, condenados à separação eterna conforme palavras do profeta Daniel em Dn. 12:2 - "E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno.
A salvação é pela graça mediante a fé conforme Ef. 2: 8 a 10 - "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas." Graça, segundo Phillip Yancey, é Deus fazendo tudo por quem nada merece. Obviamente que, se entrasse qualquer traço de mérito humano, não seria graça, mas recompensa. Fé é simplesmente crer no que diz a palavra de Deus sem qualquer evidência ou sinal exterior. Portanto, graça e fé são operações sobrenaturais, não necessitando do concurso do homem, pois este se acha absolutamente contaminado pela natureza pecaminosa.
Outro erro doutrinário amplamente disseminado pelas religiões ditas cristãs é que o eleito e regenerado poderá perder a salvação. Este engodo é mantido, especialmente, em grupos que apelam para a emocionalidade e a moralidade. Entretanto, as Escrituras não ensinam tal falsa doutrina. Rm. 8: 33 a 39 - "Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica; Quem os condenará? Cristo Jesus é quem morreu, ou antes quem ressurgiu dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós; quem nos separará do amor de Cristo? a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o dia todo; fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor." Ou seja, nem as angústias e provações experimentadas pelas pressões externas, nem as pressões internas da própria alma podem separar os eleitos e regenerados ao amor de Deus. 
I Ts. 4: 16 e 17 - "Porque o Senhor mesmo descerá do céu com grande brado, à voz do arcanjo, ao som da trombeta de Deus, e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos seremos arrebatados juntamente com eles, nas nuvens, ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor." O mistério guardado nos séculos e revelado em Jesus, o Cristo é este: "... e os que morreram em Cristo..." Quando o homem caiu pelo pecado, o seu espírito se tornou morto para Deus, porque ele só se comunica com o espírito. Esta foi a primeira morte! Portanto, para matar a morte do homem é que Cristo se manifestou. Ele atraiu a todos os eleitos para a cruz conforme Jo. 12: 32 e 33 - "E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. Isto dizia, significando de que modo havia de morrer." É este o sentido de "morrer em Cristo". Após a destruição da condenação do pecado na cruz, Cristo ressuscitou, trazendo todos os eleitos em sua ressurreição conforme Cl. 3:1 - "Se, pois, fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus." Desta forma os eleitos e regenerados experimentam a morte da morte, na morte com Cristo. Este é o sentido de 'novo nascimento' que, no texto original é 'nascimento do alto" conforme Jo. 3: 3 - "Respondeu-lhe Jesus: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus."
O texto de abertura não deixa qualquer dúvida que a morte inclusiva e substitutiva de Cristo na cruz foi para um grupo de pessoas em especial. Ele se identifica como o bom pastor. Ele fiz que conhece as suas ovelhas e não todas as ovelhas. Ele afirma que as suas ovelhas ouvem a sua voz e o segue. Ele deixa claro que dá a sua vida por estas ovelhas e não por todas as ovelhas. Jesus, o Cristo respondeu aos que o interrogavam, dizendo que ele era o Salvador, mas disse-lhes eles não podiam crer nele, porque não era das suas ovelhas. É Cristo quem dá a vida eterna que não permite que suas ovelhas pereçam e morram eternamente. É Cristo a garantia que ninguém pode arrebatar as suas ovelhas da sua mão. Ele reafirma que foi Deus quem deu as suas ovelhas para que fossem salvas e guardadas. Logo, onde está qualquer forma de concurso do homem pecador em sua salvação?
Sola Gratia!
Sola Fides!
Sola Scriptura!
Solo Christus!
Soli Deo Gloria!

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

PARA QUEM É A SALVAÇÃO? IV

Mc. 4: 2 a 12 - "Então lhes ensinava muitas coisas por parábolas, e lhes dizia no seu ensino: ouvi: eis que o semeador saiu a semear; e aconteceu que, quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram. Outra caiu no solo pedregoso, onde não havia muita terra: e logo nasceu, porque não tinha terra profunda; mas, saindo o sol, queimou-se; e, porque não tinha raiz, secou-se. E outra caiu entre espinhos; e cresceram os espinhos, e a sufocaram; e não deu fruto. Mas outras caíram em boa terra e, vingando e crescendo, davam fruto; e um grão produzia trinta, outro sessenta, e outro cem. E disse-lhes: quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Quando se achou só, os que estavam ao redor dele, com os doze, interrogaram-no acerca da parábola. E ele lhes disse: a vós é confiado o mistério do reino de Deus, mas aos de fora tudo se lhes diz por parábolas; para que vendo, vejam, e não percebam; e ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam e sejam perdoados."
As teorias teológico-religiosas que afirmam que a salvação é para todos os homens são denominadas universalistas. Elas têm forte influência de ensinos exotéricos originados do gnosticismo. Todas elas possuem um mesmo eixo, a saber, a salvação é para todos. Entretanto, como nem todos são salvos, invetam que o homem possui capacidade para fazer escolhas livres. A esta suposta capacidade dão o nome pomposo e, não menos antropocêntrico, de 'livre-arbítrio'. Todavia, o conceito humanista de 'livre-arbítrio' não se sustenta sequer na análise filosófica, pois esbarra na realidade do mal moral no mundo. Também é negado pela impossibilidade de o homem bastar-se a si mesmo e não depender da necessidade e de fatores determinantes.
Alguns religiosos tentam encontrar o meio termo, afirmando que embora a justificação em Jesus, o Cristo seja para todos, mas nem todos são alcançados, porque não creem. Isto é, no mínimo, contraditório, pois se a expiação de Cristo foi para salvar a todos e não salvou, logo seria uma farsa. Acontece, porém, que a fé não é virtude humana, mas um dom de Deus. Logo, eles não creem porque não podem e não porque não querem. Há este ensino em abundância nas Escrituras, como por exemplo, II Ts. 3:2 - " ... e para que sejamos livres de homens perversos e maus; porque a fé não é de todos." A fé que é o meio para receber a graça da vivificação é dom conforme Jd. verso 3 - "Amados, enquanto eu empregava toda a diligência para escrever-vos acerca da salvação que nos é comum, senti a necessidade de vos escrever, exortando-vos a pelejar pela fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos." Assim que, a fé não é virtude humana que Jesus, o Cristo afirma o seguinte em Lc. 18:8 - "Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Contudo quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?" Caso a fé fosse uma virtude humana, no retorno do Grande Rei a mesma seria achada na Terra.
O texto de abertura revela um recurso pedagógico de anunciar o evangelho da verdade por Cristo. Trata-se da parábola, ou seja, falar por enigmas ou por meio de ilustrações para anunciar uma verdade. A parábola do semeador é uma retratação de como Deus anuncia o evangelho por meio da pregação da palavra que é a semente. Os que estão junto ao caminho representam a classe de pecadores que, ao ouvir a palavra não a retêm, porque suas mentes são controladas por Satanás representado pelas aves. A semente que foi semeada no pedregal representa aquela pregação onde a verdade não cria raízes profundas, porque os ouvintes são superficiais. Eles ouvem com entusiasmo, mas ficam apenas na superficialidade das emoções, porque veem o evangelho apenas como uma forma de aliviar suas dores e angústias. A semente que caiu no meio do espinheiro representa aquela classe de pecadores que estão tão aturdidos com seus afazeres para ganhar o mundo, que não percebem a profundidade da mensagem da verdade. O mundo é mais interessante e urgente para eles. A semente semeada em boa terra representa a pregação do evangelho àqueles cujos corações foram preparados de antemão para que ouvindo, cressem. A boa terra representa o coração fértil para gerar resultados espirituais. Isto confirma a promessa de Deus em Ez. 36:26 - "Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne.
Na sequência, quando a multidão havia se retirado e a sós com os discípulos Jesus, o Cristo foi interpelado por eles. A questão era: porque o Mestre fala por parábolas? Cristo, então, respondeu-lhes: "... a vós é confiado o mistério do reino de Deus, mas aos de fora tudo se lhes diz por parábolas." A partir do momento em que um mistério é confiado a alguém, deixa de ser mistério e passa a ser revelação. Desta forma, aos eleitos e predestinados, é dado conhecer o mistério de Deus, mas aos outros, cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro, não é dado ou confiado o mistério de Deus. O mistério é revelado em Cl. 1: 24 a 27 - "Agora me regozijo no meio dos meus sofrimentos por vós, e cumpro na minha carne o que resta das aflições de Cristo, por amor do seu corpo, que é a igreja; da qual eu fui constituído ministro segundo a dispensação de Deus, que me foi concedida para convosco, a fim de cumprir a palavra de Deus, o mistério que esteve oculto dos séculos, e das gerações; mas agora foi manifesto aos seus santos, a quem Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, a esperança da glória." Este mistério, o anúncio do evangelho aos eleitos estava oculto em Deus por milhões de anos conforme Ef. 3: 8 a 12 - "A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar aos gentios as riquezas inescrutáveis de Cristo, e demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou, para que agora seja manifestada, por meio da igreja, aos principados e potestades nas regiões celestes, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor, no qual temos ousadia e acesso em confiança, pela nossa fé nele."
Finalmente, é revelado aos discípulos que há uma categoria de homens aos quais não é dado conhecer o mistério que esteve oculto em Deus, a saber, a justificação por meio da morte na morte de Cristo. Isto fica claro e sem qualquer interpretação conforme: ".. mas aos de fora tudo se lhes diz por parábolas; para que vendo, vejam, e não percebam; e ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam e sejam perdoados." Podem ver e ouvir o evangelho, mas não podem crê-lo com o coração e confessá-lo com a boca para que sejam salvos. Se alguém acha isto injusto, antipático ou desumano, marque uma audiência com Deus e questiona-o, pois ele assim o decidiu.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!
Soli Deo Gloria!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

PARA QUEM É A SALVAÇÃO? III

Rm. 10: 11 a 16 - "Porque a Escritura diz: ninguém que nele crê será confundido. Porquanto não há distinção entre judeu e grego; porque o mesmo Senhor o é de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como pois invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram falar? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? assim como está escrito: quão formosos os pés dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos deram ouvidos ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem deu crédito à nossa mensagem?"
Um dos aspectos mais perturbadores no tocante à salvação é saber se ela é definitiva e incondicional ou condicionada à moralidade humana. Caso Deus tivesse condicionado a salvação do pecador à sua moralidade, ninguém seria salvo. Isto porque, o pecador é pecador por natureza e não apenas por atos falhos. Há nas religiões, grosso modo, o mecanismo maniqueísta, o qual instiga na mente dos seguidores que, se se afastarem da igreja poderão acontecer coisas ruins. Também metem medo nos ditos fiéis que o desvio poderá acarretar a perda da salvação. Tal mecanismo visa manter controle psicológico sobre os seguidores a fim de não sofrer redução numérica. Neste sentido, tais religiões se tornam cangas como aquelas que se colocam sobre os pescoços dos bois para que puxem a carga. Caracterizam-se pela multiplicação de preceitos, regras e normas, causando grande peso sobre os ombros dos seguidores. Torna-se em duplo fardo pesado, porque, nem os liberta da natureza pecaminosa, e os mantêm escravizados a um sistema religioso que os controla e manipula. A maior parte dos religiosos são amargos e sempre prontos a condenar e excluir os que não professam a mesma religião deles.
Jesus acusou os líderes religiosos do seu tempo da prática abominável do maniqueísmo conforme Mt. 23: 2 a 11 - "Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus. Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam. Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los. Todas as suas obras eles fazem a fim de serem vistos pelos homens; pois alargam os seus filactérios, e aumentam as franjas dos seus mantos; gostam do primeiro lugar nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações nas praças, e de serem chamados pelos homens: Rabi. Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi; porque um só é o vosso Mestre, e todos vós sois irmãos. E a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem queirais ser chamados guias; porque um só é o vosso Guia, que é o Cristo. Mas o maior dentre vós há de ser vosso servo." Os escribas eram chamados doutores da lei, porque, de tanto copiar as Escrituras decoraram-nas. Os fariseus formavam uma seita político-religiosa muito influente que detinha grande controle sobre o Sinédrio e a sociedade. Juntos ditavam o que era certo e o que era errado. Eles impunham muitas normas a serem seguidas, mas eles mesmos, sequer movia um dedo para cumpri-las. Há grande semelhança dos líderes dos dias atuais. Ainda hoje os que se fazem autoridade sobre outros gostam mesmo é de receber a glória dos homens e de obter privilégios. Jesus, o Cristo está dizendo aos discípulos: tudo o que eles disser a vocês no tocante as Escriturais fazei, mas não se comportem conforme seus padrões ético-morais. Ou seja, a mensagem da verdade nada tem a ver com o mensageiro. Rabi em hebraico significa "mestre", "meu mestre", ou "grande mestre". Portanto, nenhum homem está autorizado a se fazer de mestre perante os outros. Era, igualmente, costume destacar alguns homens sábios segundo a sabedoria humana e a posição social e chamá-los de pai. Entretanto, o Grande Rei também veda este costume, porque somente Deus é pai dos eleitos e regenerados. Também está desautorizado o costume de constituir determinadas pessoas como guias, pois como poderia um cego guiar outro cego?
O texto de abertura afirma categoricamente que ninguém que crê em Cristo será confundido. Isto equivale dizer que, uma vez recebendo a fé como dom de Deus o eleito jamais perderá a sua redenção. Jamais perderá a confiança na salvação recebida de uma vez para sempre. A distinção que os homens criam entre classes sociais, níveis de intelectualidade, origem étnica, cor da pele e gênero é tratada no texto. Jesus, o Cristo afirma que, a partir do momento em que o pecador é regenerado todas as distinções desaparecem. Quando tais distinções persistem é porque o homem ainda não teve experiência de novo nascimento. 
Outro aspecto bastante sensível no texto de abertura é a afirmação: "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo." Tal afirmação não pode ser genérica ou universal, pois está condicionada ao que vem na sequência, a saber, aquele que invocar o nome do Senhor, porque recebeu o dom da fé por meio do evangelho. Não é, como já foi dito, uma simples emissão de voz afirmando que Deus é seu pai, que Jesus é seu Senhor. Isto qualquer pessoa pode fazer sem gerar qualquer consequência espiritual. 
Desta forma é Deus quem envia os mensageiros e não eles mesmos que se auto-enviam. Os mensageiros têm uma única mensagem a ser anunciada, a saber, a "palavra da cruz" ou "palavra da fé". Ao ouvir a mensagem os ouvidos dos pecadores são abertos pela ação monérgica de Deus por meio do Espírito Santo. Tal ação desperta os pecadores eleitos para a vivificação que, por sua vez, gera a regeneração. Assim, se cumpre o que está em I Pd. 2:9 - "Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz." Um eleito é alguém que foi preordenado pela soberana vontade de Deus e não alguém que se auto-elege por meio de justiça própria. Assim, o conjunto dos eleitos e regenerados segundo a vontade soberana de Deus forma um povo adquirido pela morte inclusiva e substitutiva de Jesus, o Cristo. Tudo o que passa disto é anátema!
Sola Gratia!

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

PARA QUEM É A SALVAÇÃO? II

Rm. 10: 8 a 12 - "Mas que diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé, que pregamos. Porque, se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo; pois é com o coração que se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: ninguém que nele crê será confundido."
Indagar para quem é a salvação, por si só, traz enorme polêmica. Entretanto, não se faz isto por mera polêmica. A polêmica sempre é do lado que não concorda que a salvação não é para todos os homens. Há inumeráveis argumentos utilizados pelos arminianos e universalistas para contradizer tal assertiva. Porém, nas Escrituras há outros tantos e inumeráveis textos dando conta que Jesus, o Cristo morreu para um grupo de pessoas e não por todas as pessoas, ou mesmo para cada homem em particular. 
O maior entrave para que religiosos tenham o mínimo de compreensão, pelo menos intelectual, sobre o assunto são seus pressupostos conceituais. Não adianta tomar do texto sagrado fazendo adaptações conceituais. A salvação não é uma questão de moralidade, mas de soberania de Deus conforme ele mesmo afirma em Rm. 9:15 e 16 - "Porque diz a Moisés: terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia." No contexto, o apóstolo Paulo está doutrinando sobre eleição e não de bondade natural de Deus. Por amor, ele usa de misericórdia e graça até com o mais vil pecador. O que está sendo colocado doutrinariamente no texto é graça e misericórdia salvíficas.
Viu-se no estudo anterior que os judeus estavam sobrepondo suas próprias justiças à justiça de Deus. Isto implica dizer que, Deus está oferecendo a redenção pela graça mediante a fé na obra de Cristo na cruz, mas os religiosos preferem "garantir" a salvação pelo cumprimento da lei moral e cerimonial, desenvolvendo um sistema de justiça própria. Esta é a maior cilada satânica na percepção da verdade, porque, colocando o homem como cooperador no processo da salvação, isto lhe confere mérito na causa e nos efeitos desta. Portanto, Deus não seria suficiente e eficiente em Cristo para salvar o pecador. É esta a mensagem subliminar que o Diabo coloca no coração dos religiosos a fim de que não entrem e não vejam o reino de Deus conforme Jo. 3: 3 e 5 - "Respondeu-lhe Jesus: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Jesus respondeu: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus." Nascer de novo é, no texto original, nascer do alto. Isto implica em que a regeneração não pode ser operada e operacionalizada pelo homem. Trata-se de uma ação puramente monérgica e, jamais, sinérgica. É uma ação soberana e sobrenatural sem o concurso do homem. O homem é passivo, pois é ele portador da natureza pecaminosa que o separa de Deus. Logo, como poderia ter qualquer participação na sua própria salvação? Nascer da água e do Espírito segue a mesma ação monérgica, pois a água simboliza o evangelho e o Espírito é quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo. Portanto, em nada o pecador pode modificar, cooperar ou participar de tal operação e operacionalização.
O texto de abertura mostra que Deus opera a vivificação para salvação por meio da Palavra e não por sinais e evidências externas. Hoje, as religiões invertem esta verdade, pois seus seguidores são atraídos pelo que se vê ou o que se consegue em troca de algum ritualismo que não é culto racional. A 'palavra da fé' a que alude o texto é a palavra da cruz conforme I Co. 1:18 - "Porque a palavra da cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus." Por que a mensagem da cruz é loucura para os que se deterioram para a morte eterna? Porque ela mostra que a salvação é pela graça mediante a fé e não por obras de justiça própria e de méritos. Para os que já foram alcançados pela cruz, tal palavra é o poder de Deus e não o poder de um pregador, de uma religião, de uma seita. 
A segunda verdade exposta claramente no texto de abertura é que a 'palavra da fé' exige que se confesse a Jesus como Senhor e que Deus o ressuscitou dentre os mortos. Lendo superficialmente, não se percebe a profundidade destas palavras, porque elas só podem ser compreendidas espiritualmente. Confessar é um vocábulo que deriva da junção de 'com' + '', portanto, a salvação depende da fé que Jesus, o Cristo é o Filho Unigênito e Primogênito de Deus. Não é uma mera emissão de som declarativa, mas uma confissão, e, como tal, é algo procedente do sobrenatural. Provém do espírito vivificado e reconciliado com Deus por meio de Cristo. A confissão de Jesus como Senhor decorre da fé que procede do coração que, como já foi dito, é a sede da dimensão espiritual do homem. A boca confessa o que foi apreendido pela espírito por meio da pregação da Palavra de Deus. Não se trata, portanto, de um enunciado repetitivo de doutrinas defendidas por um líder, uma igreja, uma seita ou denominação religiosa. A fé não é o subproduto de um legado religioso herdado culturalmente, mas um dom de Deus.
Finalmente, é fundamental aperceber-se que é com a boca que se faz confissão daquilo que já foi internalizado espiritualmente ao ouvir a mensagem da cruz conforme Rm. 10:17 - "Logo a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo." Sendo a fé um dom e não uma virtude humana, depende da graça e da misericórdia de Deus e não de méritos e de justiça própria. Não é o repetir de textos bíblicos ou mesmo declarar princípios e declarações de fé de uma denominação religiosa que produz a vivificação. Muitos leem as palavras: "... pois é com o coração que se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação." Imaginam em suas mentes naturais que basta reafirmar que creem e dizer isso uns aos outros e, pronto, estão salvos. Ao contrário, alguém só é capaz de crer no coração e confessar com os lábios aquilo que foi operado e operacionalizado pela ação monérgica de Deus no espírito. Do contrário, fazem apenas declarações procedentes da mente intelectiva. Não há qualquer valor espiritual se não houver primeiro o novo nascimento. É este ato soberano iniciado, executado e concluído em Deus que salva. É Deus quem conduz o pecador eleito até a cruz conforme Jo. 6:44 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia." O texto é taxativo ao afirmar que ninguém pode ir a Cristo se Deus não o conduzir. Não se trata de querer, mas de poder, justamente, porque o homem natural não pode por conta própria se inclinar para a verdade. O homem portador da natureza pecaminosa não discerne espiritualmente, porque seu espírito está morto para Deus. Isto é claramente ensinado em I Co. 2:14 - "Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente." O homem natural a que alude o texto é aquele que vive conforme sua natureza não regenerada. Não podendo entender as operações das leis espirituais, cria para si um sistema de crença substitutivo para chamar de verdade. Irão todos para a condenação eterna com toda a religião e esforço de justiça própria.
Sola Gratia!

domingo, 2 de agosto de 2015

PARA QUEM É A SALVAÇÃO? I

Rm. 10: 1 a 4 - "Irmãos, o bom desejo do meu coração e a minha súplica a Deus por Israel é para sua salvação. Porque lhes dou testemunho de que têm zelo por Deus, mas não com entendimento. Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à justiça de Deus. Pois Cristo é o fim da lei para justificar a todo aquele que crê."
Qualquer dicionário em língua portuguesa traz as sinonímias do verbete 'salvação' como: "ação ou efeito de salvar-se ou de libertar-se", "resgate", "redenção", "remissão." Isto porque, no sentido espiritual, a salvação é o resgate do pecador de sua natureza pecaminosa. Portanto, é a libertação, a redenção e a remissão dos eleitos cujos nomes foram escritos no livro da vida do Cordeiro antes da fundação do mundo conforme Ap. 13:8.
Desta forma, a salvação é um ato e não um processo gradual. Biblicamente a salvação destina-se à pessoas e coisas que estão contaminadas pelo mal e necessitam ser reconciliadas. A natureza e as coisas inanimadas serão purificadas na restauração final. O homem é salvo pela justiça executada por Deus na cruz, sendo, portanto, justificado por ela. A justificação do pecador só é possível pela execução da sentença de Deus contra o pecado conforme Ez. 18:4 - "Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá." A morte a que alude o versículo, não é apenas a morte física, mas também a separação de Deus. Na morte eterna, o corpo volta ao pó e lá permanecerá, a alma no lago de fogo e enxofre e o espírito retornará a Deus de onde veio. Portanto, a dimensão tripartite do homem ficará eternamente separada e não será restaurada plenamente. Será um ser esfacelado, pois não terá a plena integridade.
Alguns fundamentos do verdadeiro evangelho se acham extremamente banalizadas por causa das religiões apartadas das Escrituras. Os ensinos sobre pecado, condenação, salvação, bíblia e inferno, não causam qualquer reação na maioria das pessoas. Contrariamente, grande parte delas se opõe a tais princípios, e alguns até as odeiam ostensivamente, porque os erros das religiões transfiguraram a verdade em algo superficial, ineficaz e humanizado. Por natureza todo homem não possui inclinação para Deus e para a verdade. Logo, o problema não está na mensagem verdadeira, mas no mensageiro não vivificado e no ouvinte morto para Deus. Muitos mensageiros necessitam de salvação, então, como poderia suas mensagens possuir eficácia? Uma mensagem religiosa pode até ter eficiência para ajuntar pessoas, reformá-las moralmente, mas poderá não ter eficácia alguma na redenção delas. A eficiência satisfaz apenas aos objetivos de uma igreja, crença ou religião, mas pode não satisfazer plenamente à exigência da justiça de Deus:"... a alma que pecar, essa morrerá."
A pregação religiosa apenas como desejo do coração do homem poderá ter enorme eficiência em ajuntar pessoas em torno de uma denominação religiosa ou sistema de crença. Um grande número de pessoas reunidas cantando, lendo textos bíblicos, praticando ritos, obedecendo preceitos legais e praticando bom comportamento, não significa verdade e salvação. Se a ação para tudo isto não for monérgica, será apenas religião. Muitos confundem o ensino sobre a necessidade de congregar-se com a prática religiosa do agregar-se. Uma congregação se compõe de pessoas eleitas e regeneradas sob a mesma fé e prática operadas pela ação de Deus monergisticamente. Uma agregação é um conjuntos de pessoas reunidas em torno de um desejo, projeto, ideal ou rituais que satisfazem suas carências e medos sinergisticamente. Por esta razão a doutrina diz em Hb. 10: 19 a 25 - "Tendo pois, irmãos, ousadia para entrarmos no santíssimo lugar, pelo sangue de Jesus, pelo caminho que ele nos inaugurou, caminho novo e vivo, através do véu, isto é, da sua carne, e tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé; tendo o coração purificado da má consciência, e o corpo lavado com água limpa, retenhamos inabalável a confissão da nossa esperança, porque fiel é aquele que fez a promessa; e consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras, não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia."
O eleito e regenerado tem acesso a Deus, não por méritos, mas porque Jesus, o Cristo abriu o véu que o separava de Deus. O caminho novo é o evangelho, isto é, as boas novas em Cristo. Isto permite que o homem salvo tenha uma nova disposição, achegando-se a Deus pela fé. O coração, ou seja, a alma e o espírito do homem regenerado foi purificado na cruz. O corpo impregnado de atos pecaminosos foi lavado pela água limpa, a saber, a pregação da verdade. A partir desta nova disposição, os eleitos e regenerados têm uma inabalável confissão da esperança na salvação. A marca dos regenerados é a consideração uns aos outros, estimulando-se ao amor, às boas obras, e não abandonando a congregação. Ao contrário, quando se percebe algum desvio da verdade, admoestam-se uns aos outros para correção e orientação. Entretanto, nas crenças religiosas, quando alguém discorda dos rituais, regras e preceitos estabelecidos, o discordante é desprezado, pressionado e, por vezes, excluído e condenado. Enquanto os membros de tais religiões permanecem concordantes e cooperam em trabalhos e finanças é tido como um exemplo. Quando cai em algum ato falho ou desvio, é rechaçado e muitos viram-lhe o rosto. Onde está o ensino da verdade? Amar a quem é amável é fácil, mas amar a quem é detestável é impossível ao homem sem Cristo.
O texto de abertura mostra que o homem sobrepõe sua justiça própria no lugar da justiça perfeita de Deus. Eles preferem dar continuidade à lei de mandamentos e ordenanças do antigo pacto, à receber a verdade que Cristo a cumpriu e concluiu na cruz. A justiça de Deus é Cristo levantado na cruz para atrair os pecadores eleitos, enquanto a justiça própria do homem se constitui de preceito sobre preceito, regra sobre regra. Enquanto Deus em Cristo atrai o pecador para destruição da natureza pecaminosa, a justiça humana impõe ao pecador carga que ele jamais poderá suportar. Isto porque o homem portador da natureza pecaminosa não possui inclinação para Deus conforme Rm. 3: 10 a 12 - "... como está escrito: não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só." O incrédulo lê este texto e imagina: 'eu não me enquadro neste caso, porque pertenço a tal igreja, sou batizado, deixei de beber, fumar, prostituir, adulterar, mentir, etc.' Entretanto, ele se apega a comportamento moral, enquanto as Escrituras se firmam em princípios espirituais. Por isso, permanecem religiosos, porém incrédulos, pois religião não salva, mas a execução da justiça de Deus na cruz. A cruz não é apenas um emblema simbólico da morte de Jesus, o Cristo, mas um princípio interior a ser vivido. A morte de Jesus, o Cristo não foi apenas substitutiva, mas também inclusiva. Os pecadores eleitos estavam nele em sua morte e em sua ressurreição.
Sola Fides!