domingo, 2 de março de 2008

A DOUTRINA DA ELEIÇÃO CONFORME AS ESCRITURAS II

Historicamente, e tão somente neste sentido, a "Eleição Incondicional", é uma doutrina calvinista, fazendo parte dos assim chamados "Cinco Pontos do Calvinismo". Segundo esta doutrina, ao criar o mundo, Deus escolheu ou elegeu algumas pessoas para a salvação, de acordo com os Seus propósitos e sem levar em conta virtudes, méritos, ou crenças dessas pessoas. Entretanto, biblicamente, a eleição é uma doutrina real e conforme a Palavra de Deus em todos os seus contextos, portanto, anterior ao Calvinismo.
Historicamente, tal doutrina foi, primeiramente, registrada na Confissão Belga (1561), reafirmada nos "Cânones de Dort" (1618) e aparece em diversas confissões reformadas. A partir do século XVII tal doutrina começou a ser suprimida ou abrandada em algumas confissões de fé. Neste ponto deu-se início à supressão da doutrina essencialmente bíblica por adaptações humanistas de origem gnósticas.
Na teologia protestante, a eleição é considerada como um dos elementos da predestinação, em que Deus determinou que alguns indivíduos seriam salvos. Os eleitos recebem a misericórdia e a graça, enquanto aqueles que não foram eleitos recebem apenas a justiça que lhes é destinada como consequência do pecado. Assim, o excepcional, não é o homem pecador ser condenado por seu pecado, mas sim, Deus ter resolvido soberanamente salvar alguns conforme a sua livre vontade. Logo, não há nenhuma injustiça por parte d'Ele nesse ato soberano, visto que todos são pecadores por natureza e, como tal, estão destituídos da Sua glória. Ainda que Deus não necessite de ninguém para justificá-lo em sua decisão soberana, é fundamental reafirmar que a eleição é parte integrante da justa justiça d'Ele, visto que o homem injusto, o acusa de injustiça por causa desta justiça.
No Calvinismo, esta eleição é chamada de "incondicional", pois a escolha de Deus para salvar alguém não depende de qualquer coisa inerente à pessoa, de qualquer ato que a pessoa realize ou deixe de realizar, como também da crença que a pessoa professa. Outrossim, segundo a doutrina da "Depravação Total do Homem", - o primeiro dos Cinco Pontos do Calvinismo -, a abrangência do pecado foi tão profunda no indivíduo, que ninguém está disposto ou é capaz de se voltar para Deus, se ele mesmo não o regenerar primeiro, a fim de conferir-lhe a capacidade de amá-lo. Assim, a escolha por eleição é baseada exclusivamente na vontade soberana de Deus, e não mediante as ações previstas ou previsíveis no homem. Não foi com base na presciência de Deus acerca dos atos de justiça dos homens, mas com base apenas na Sua livre, soberana e santa vontade.
A posição reformada da eleição é combatida pela doutrina arminiana da "Eleição Condicional", na qual a escolha de Deus para salvar uma pessoa é condicionada ao pré-conhecimento divino de eventos futuros, a saber, que alguns indivíduos exerceriam a fé e a confiança em resposta a oferta de salvação de Deus. Esta posição é por si só desprovida de sentido, pois coloca Deus condicionado à vontade do homem, como também dependente das suas ações no tempo e no espaço. Além do que, se Deus escolhesse apenas os que o escolheria, não seria eleição ou predestinação, mas recompensa.
Ao que parece, os que se opõem à eleição bíblica, são os que não conseguem compreender o que é a soberania de Deus. Quando se tem revelação para crer que Deus é absolutamente soberano, tal dificuldade reduz-se a zero. Isto porque, a inclinação do homem decaído é acreditar que toda ação de Deus no universo, gira em torno apenas da queda do homem. A queda não apanhou Deus de surpresa, e portanto, Ele permanece soberano para fazer o que Lhe apraz. Não é o homem objeto único e exclusivo da ação de Deus, mas a Sua soberania que é a causação da redenção do homem. Independentemente daquilo que o homem viesse a fazer, o supremo propósito de Deus permaneceria firme, como de fato, permanece.
A "Síndrome de querer ser Deus" despertada no homem pela queda é tão forte, que o faz pensar que o Criador se curva aos interesses humanos, como uma espécie de obrigatoriedade divina. Não é isto  que ensinam as Escrituras, quando consultadas em espírito e em verdade. Não se pode utilizar das Escrituras como um manual de religião e, a partir disto, produzir uma teologia humanista para satisfação do ego decaído pelo pecado.
Rm. 8: 29 e 30 - "Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou." Este texto é profundamente revelador, pois inicia-se dando a clara noção da vontade soberana de Deus: "porque os que dantes conheceu". Esta é uma expressão que indica uma categoria de conhecimento específico. Não é apenas uma forma de saber da existência e da condição de alguém, mas de conhecê-lo com íntimo e determinado grau de interesse. A idéia de conhecimento neste texto é como alguém que fica detidamente observando algo ou alguém, e a seguir, resolve adotar um ação concreta em relação ao objeto da sua observação. Assim, Deus conheceu os seus predestinados antes deles cometerem o pecado, os delitos, ou ainda os atos pecaminosos decorrentes da natureza decaída. Não foi com base no que o homem faria ou deixaria de fazer, mas com base no conhecimento e escolha dos eleitos antes da própria existência deles. Verifica-se no texto que os verbos estão todos no tempo pretérito e não no tempo futuro.
Assim, Deus os conheceu, os predestinou, os chamou, os justificou e, finalmente os glorificou. Isto implica em que Deus os escolheu, os despertou para conhecê-Lo, os tornou justos em Cristo e os concedeu a glória da vida do Seu Filho Unigênito e da reconciliação n'Ele.

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