outubro 31, 2010

MORTOS QUE SEPULTAM MORTOS


Lc. 9:59 a 61 - "E a outro disse: segue-me. Ao que este respondeu: permite-me ir primeiro sepultar meu pai. Replicou-lhe Jesus: deixa os mortos sepultar os seus próprios mortos; tu, porém, vai e anuncia o reino de Deus. Jesus, porém, lhe respondeu: ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus."
O substantivo feminino morte provém do verbo morrer, e este, por sua vez, traz a significação daquilo ou daquele que perdeu o princípio vital. A palavra morte nas Escrituras pode se referir à morte física, ou à morte espiritual. Todavia, tanto em um, como no outro caso, resulta em separação, ruptura, supressão. No caso da morte física ocorre quando a alma e o espírito do homem são separados do corpo biológico; no caso da morte espiritual ocorre quando o homem, vivo ou morto, está separado da natureza de Deus por causa da sua natureza pecaminosa.
Is. 59: 1 e 2 - "Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para que não possa ouvir; mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados esconderam o seu rosto de vós, de modo que não vos ouça." O profeta Isaías está mostrando que o problema de incomunicabilidade entre o homem e Deus não está em Deus, mas no pecado que reside na natureza humana. São naturezas opostas, e, portanto, não se comunicam. O homem está separado, ou seja, morto para Deus. O pecado é uma questão de natureza, antes de ser uma questão de atos. O homem é pecador porque nasce com a natureza pecaminosa, e não apenas porque comete atos pecaminosos. Os atos pecaminosos são consequência da natureza pecaminosa, e nunca, o contrário como supõem os religiosos.
Ef. 2:1 a 7 - "Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais outrora andastes, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos de desobediência, entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo, pela graça sois salvos, e nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus, para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, pela sua bondade para conosco em Cristo Jesus." Se Cristo vivificou os que estavam mortos em delitos e pecados, logo, segue-se que estes de fato estavam mortos para Deus, visto que não estavam mortos fisicamente. Assim, são duas naturezas de morte: uma para Deus, e a outra, não apenas para Deus, mas também para si mesmo. Nos mortos para Deus opera o espírito do príncipe das potestades do ar, a saber, Satanás. Este mesmo espírito maligno é quem opera e operacionaliza nos filhos da desobediência, ou seja, naqueles que andam em sentido oposto à natureza de Deus. Eles satisfazem a carne e os pensamentos próprios, e por isso, são filhos da ira, porque sobre eles permanece a ira contra a natureza pecaminosa.
A salvação é operada e operacionalizada nos filhos da desobediência e da ira, por misericórdia e graça soberana de Deus. Não há absolutamente nada que o pecador possa fazer para merecer a salvação. Iludem-se, iludem e são iludidos os que imaginam que o homem decaído pode cooperar com Deus no processo da salvação. Quem vivifica os mortos em delitos e pecados é Cristo, porque os eleitos foram incluídos na sua morte de cruz, para com Ele ressuscitar. Tudo isto se apropria pela fé, visto que Ele morreu e ressuscitou apenas uma vez com eficácia para sempre.
No texto de abertura se vê um homem a quem Cristo chamou para segui-lo, mas que, no entanto, pediu para primeiro sepultar o seu pai. A resposta foi clara: "deixe os indiferentes à natureza de Deus, o enterrar os seus próprios defuntos." Logo, há vivos mortos para Deus, que sepultam os seus mortos fisicamente. Então, há vivos mortos, e mortos defuntos!
Os que são chamados são vivificados por Deus e anunciam o evangelho do reino. Os mortos para Deus cogitam apenas das coisas dos homens. Estão sempre voltados para as coisas dos seus próprios mortos.
Ninguém pode conduzir o arado, isto é, as coisas do reino deste mundo, e ao mesmo tempo tratar das coisas concernentes ao reino do Eterno.

outubro 18, 2010

DO MERO ASSENTIMENTO À REAL CONVERSÃO III


At. 15: 3 a 11 - "Eles, pois, sendo acompanhados pela igreja por um trecho do caminho, passavam pela Fenícia e por Samária, contando a conversão dos gentios; e davam grande alegria a todos os irmãos. E, quando chegaram a Jerusalém, foram recebidos pela igreja e pelos apóstolos e anciãos, e relataram tudo quanto Deus fizera por meio deles. Mas alguns da seita dos fariseus, que tinham crido, levantaram-se dizendo que era necessário circuncidá-los e mandar-lhes observar a lei de Moisés. E, havendo grande discussão, levantou-se Pedro e disse-lhes: Irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho e cressem. E Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo, assim como a nós; e não fez distinção alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé. Mas cremos que somos salvos pela graça do Senhor Jesus, do mesmo modo que eles também."
O capítulo 15 do livro dos atos dos apóstolos relata uma grande discussão em torno da conversão dos não judeus. Na medida em que alguns gentios foram sendo convertidos à fé cristã, os judeus que também haviam "aceito" esta mesma fé, se puseram logo a impor-lhes regras e preceitos da lei de Moisés. Paulo e Barnabé levantaram diversos argumentos contra esta imposição, porém sem muito sucesso. Por isto, foram enviados mensageiros a tomar assento no conselho da Igreja em Jerusalém, onde Pedro e Tiago foram usados para esclarecer a natureza da real conversão e da desnecessidade de imposição de regras da lei. Apontaram que a salvação é pela graça, e, que, aos não judeus foram outorgadas as mesmas bênçãos espirituais, também dadas aos judeus conversos. É sempre assim, os homens confundem conversão pela soberana vontade divina, com conversão religiosa. Ora, se os próprios judeus não conseguiram por em prática a lei de Moisés, porque esta deveria ser imposta aos não judeus? Qual o proveito da lei, se Cristo veio para cumpri-la e habilitar o homem pecador à redenção? Logo, qual a necessidade de ser convertido de uma prática religiosa à real fé, se necessitar das práticas religiosas anteriores à nova experiência libertadora? É como se eles saíssem do judaísmo, mas o judaísmo não saísse deles. Esta não é a marca da real conversão operada e operacionalizada por Deus. É um mero assentimento intelectivo que nada tem a ver com a verdade evangélica.

Rubem Alves explica o fenômeno da conversão em seu livro "O Enigma da Religião". Dentre outras considerações, o autor mostra que a conversão é o oposto da conservação. Há na conversão uma mudança, e após esta ocorre uma alternação de padrões. A alternação entre o anterior e o atual exige, como ponto mais alto, a modificação total do ser convertido. O converso requer uma plausibilidade de ressocialização  porque há uma nova identidade de significações. Desta forma o converso muda de 'status quo' perante si, e perante os outros. Para Rubem Alves ocorre um colapso entre a harmonia do eu e o mundo, sendo a pré-condição a anomia do eu. Tal anomia se traduz, segundo Durkeim, como sendo o desconhecimento, ou mesmo, o não cumprimento de regras socais. Este tipo de conversão ocorre preferivelmente quando há choques culturais, ou a falta de significados para o ser em crise. Neste sentido a desestruturação da personalidade encontra em uma nova possibilidade de reorganização, produzindo um novo universo de significados. O homem se torna, ou se faz um novo ser saído de uma realidade que o negava. Nesta nova realidade o homem encontra-se seguro e sintonizado com o seu novo real. Esta é a conversão assentida pela percepção humana, como um processo de ruptura de um 'modus vivendi' para outro. Nada tem a ver com a real conversão operada pela soberana e graciosa vontade de Deus.
O texto que abre este artigo mostra, pelas palavras de Pedro, que o processo real consiste no fato de que Deus conhece os corações, dá o Espírito Santo, não faz distinção entre etnias diferentes, e purifica os corações pela fé. Toda ação é monérgica, não se viu em nenhuma instância, a cooperação do homem com a vontade de Deus. Ele escolheu dar aos que quer, o mesmo processo de conversão, independentemente da origem étnica. É neste sentido que a salvação é dada a todos os homens, e não no sentido universalista, o qual defendem os arminianos.
A real conversão se opera pela eleição antes da fundação do mundo, quando os nomes dos eleitos foram escritos no livro da vida do Cordeiro conforme Ap. 13:8 - "E adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo." Os eleitos não adorarão ao sistema universalista, gnóstico e religioso imposto pelo próprio homem sob a inspiração de Satanás. Por isto os eleitos são assim situados: "... que se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo todo seu, zeloso de boas obras." Este povo, com tais características não é o que aparece na mídia; não é o que monta igrejas entre quatro paredes; que explora a miséria humana por meio da religião; que ilude os necessitados com falsas conversões e promessas de solução dos seus dilemas.

outubro 17, 2010

DO MERO ASSENTIMENTO À REAL CONVERSÃO II


Jr. 31:18 - "... castigaste-me e fui castigado, como novilho ainda não domado; restaura-me, para que eu seja restaurado, pois tu és o Senhor meu Deus." A ação de Deus é sempre e invariavelmente monérgica. Ele não necessita do concurso do homem para realizar a Sua vontade soberana. Estas doutrinas que pretendem dar ao homem cooperação, é antes de tudo, gnósticas e puramente humanistas. Portanto, se Deus castiga, o pecador é castigado; se Deus doma, o pecador será domado; se Deus restaura, o pecador é restaurado. Isto porque, é Ele Absoluto, e não uma projeção da vontade corrompida do homem. Ainda que todos os homens deixem de existir, e que todos os anjos e seres celestes desapareçam, e o próprio espaço sideral se enrole como uma folha seca, Deus continua bastando-se a Si mesmo. Os homens, por conta, do orgulho e da soberba buscam ser sempre mais do que realmente são. Alguns supõem ser professores do próprio Deus, querendo, assim, ensinar-Lhe como deve governar o universo.
Sl. 80:3 - "Reabilita-nos, ó Deus; faze resplandecer o teu rosto, para que sejamos salvos." Quem reabilita o homem em quaisquer circunstâncias é Deus. É o resplendor da luz do rosto de Deus que permite ao homem a graça da salvação. Mesmo que, com base, em justiça própria e méritos, o homem reivindique a salvação, ela não virá sem que Deus a tenha decidido antes dos tempos eternos conforme II Tm. 1:9 - "... que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos..."
O que acontece comumente é que os intérpretes das Escrituras fazem a exegese de conformidade com o que creem e não com os fundamentos da própria Bíblia. Um dos princípios da interpretação é a harmonização dos textos em seus contextos. Portanto, além de encontrar os textos atinentes a uma ou outra doutrina, deve-se observar em quais instâncias eles estão relacionados. Assim, o texto fundamental diz em Jn. 2:9 - "Ao Senhor pertence a salvação." Logo, todos os demais textos que se referem à salvação devem ser examinados e interpretados à luz do texto fundamental. Por isto, quando Jesus disse: "em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino de Deus." Jesus não está atribuindo capacidade de promover a salvação ao pecador, e muito menos, colocando-a como opcional, porque Ele sabe que a salvação vem do Senhor, o Pai. Entretanto, Cristo está doutrinando sobre a necessidade de a salvação operar e operacionalizar no pecador uma atitude consequente e não causal. Tornar-se como uma criança é a consequência de ter recebido a graça da conversão, e não a causa dela. Entrar no reino eterno do Pai é consequência, tanto da salvação recebida por graça, como também da mudança radical da natureza humana. O religioso que não passou pelo processo do nascimento do alto, vê no ensino de Cristo uma transferência de responsabilidade da salvação, como proposta oriunda no pecador. A isto dão o nome de cooperação com o Espírito Santo, como se Ele necessitasse da cooperação de alguém absolutamente decaído e morto para Deus. Este ensino espúrio às Escrituras é chamado de sinergismo.
Há uma regra que diz: o essencial arrasta consigo o assessório. Aplica-se este mesmo princípio no tocante ao ensino das Escrituras, ou seja, os textos fundamentais, arrastam os textos derivados ou assessórios, e jamais, o contrário.
Neste sentido prevalece a máxima, o ensino fundamental, ontológico e teleológico: "converte-me a ti Senhor, e serei convertido." Neste sentido o sujeito e o objeto não se confundem, o agente e o paciente são distintos. Deus, o sujeito e o agente, o pecador o objeto e o paciente. O que passa disso, é anátema!

DO MERO ASSENTIMENTO À REAL CONVERSÃO I


Lm. 5:21 - "Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos; renova os nossos dias como dantes..." Conversão é o ato de mudar de rumo, de direção, ou de sentido. Provém do latim 'convertionis' que significa movimento circular, ou giro. É como se alguém seguisse o sentido horário em um círculo e, por força superior, girasse sobre os seus artelhos e passasse a seguir o sentido oposto ao anterior, isto é, o sentido anti-horário. Já o verbo convencer significa persuadir alguém, ou a si mesmo de uma ideia, ou fato por meio da razão, ou de argumentos bem fundamentados. Enquanto a conversão é um ato recebido pela graça, o convencimento é uma decisão aceita com base no assentimento racional. Por um lado a conversão é resultante da misericórdia de Deus, porém, o convencimento resulta de escolhas naturais, julgamentos racionais, ou assentimentos centrados no homem decaído.
Destarte fica evidente que o homem não pode por si mesmo "se converter", pela mesma razão que não pode "se operar". É muito comum na linguagem coloquial pessoas afirmarem: "eu me operei" de tal problema de saúde. Entretanto, o paciente não se opera, ele é operado por um médico cirurgião. De igual modo, o pecador não se converte, mas é, antes, convertido por Deus.
O texto que abre este artigo mostra com clareza que a ação da conversão é de Deus. Indica que, se a ação é de Deus, então ela de fato será concretizada. Demonstra que o resultado da genuína conversão determina a renovação dos dias, confirmando II Co. 5:17 - "Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo." A condição 'sine qua non' para alguém ser renovado é estar em Cristo. Este é o ensino sobre a inclusão do pecador na morte de Cristo, para d'Ele receber a vida nova, rompendo definitiva e cabalmente com a velha natureza adâmica, na qual havia a culpa do pecado. A consequência final é que tudo se faz novo, reconciliando a criatura ao Seu Criador espiritualmente. Assim, se o essencial para ser convertido é estar incluído em Cristo, depreende-se disto, que ninguém pode promover a sua própria salvação. A conversão, pois, é ato da estrita e soberana vontade de Deus.
O homem natural é capaz apenas de converter-se de uma crença à outra, de uma ideia à outra, de uma posição ideologica à outra, de uma situação de status quo à outra, de uma religião à outra. A real conversão é precedida do arrependimento, isto é, da 'metanóia', ou mudança de mentalidade conforme At. 3:19 - "Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos de refrigério na presença de Deus." Os arminianos de carteirinha amam estes textos que utilizam os verbos no imperativo. Afirmam eles que tais construções gramaticais confirmam que a decisão acerca da conversão é do homem. Entretanto, os imperativos nas Escrituras são para mostrar que é a vontade de Deus que impera quando Ele decide qualquer coisa no universo. O que o texto diz é que os pecadores terão arrependimento e serão convertidos a fim de que a graça de Deus possa apagar os seus pecados. É por meio da ação monérgica de Deus que os pecados originais dos homens são apagados perante Ele. Não indica uma ação sinérgica, pois do contrário a morte de Cristo seria totalmente dispensável. Como poderia um ser decaído, e absolutamente corrompido, morto para Deus promover a sua própria conversão? Como poderia um ser totalmente depravado e morto para Deus buscar a conversão e o arrependimento por si mesmo? É pela ação soberana e graciosa de Deus que o pecador é conduzido a Cristo, para, n'Ele, ser convertido conforme Jo. 6: 44 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia." Quando as Escrituras afirmam que "ninguém" pode ir a Cristo por moto próprio, é ninguém mesmo, e não uma espécie de faz de conta, como supõem os incrédulos religiosos. Então o texto mostra que é Deus quem leva o pecador até a cruz, para nela, destruir a natureza pecaminosa em Cristo. Isto porque, a natureza morta em delitos e pecados no homem se inclina sempre e invariavelmente para o lado oposto ao de Deus.

outubro 03, 2010

"LIVRE ARBÍTRIO" UMA VELHA HERESIA


Jo. 8: 32 a 36 - "Dizia, pois, Jesus aos judeus que nele creram: se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: somos descendentes de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém; como dizes tu: sereis livres? Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Ora, o escravo não fica para sempre na casa; o filho fica para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."
A liberdade é, talvez, a maior aspiração do homem em todos os tempos e lugares. Não depender de nada, nem de ninguém é uma posição desejada, buscada, e, supostamente executada, em diversos aspectos da vida. Entretanto, a única liberdade completa e verdadeira é a que Cristo oferece, posto que eterna. Arbitrar é, grosso modo, julgar com base apenas na vontade, portanto, o homem busca ser livre e exercer juízo voluntário em quase tudo o que se apresenta à sua percepção. Esta inclinação natural foi amplamente reforçada por Satanás no Éden, quando este afirmou à mulher: "...no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal." Fazer distinção entre o que é o bem, e o que é o mal confere ao homem um certo poder de julgar entre partes constitutivas de um todo com atributo de valoração. Neste sentido, a criatura passou a ter habilidade semelhante a habilidade divina para discernir entre o bem e o mal. Os olhos do homem estavam abertos fisicamente, porém não, espiritualmente. Assim, liberdade e arbítrio são categorias que se inserem na dimensão objetiva e na dimensão subjetiva.
O "livre arbítrio", ou "livre alvedrio" é a crença ou doutrina filosófica que propõe ao homem o poder de fazer escolhas por meio da livre vontade. No caso da concepção objetivista indica que a ação de um agente, não é, necessariamente determinada por fatores externos e por antecedentes. No caso da concepção subjetivista indica que a percepção do agente teve início em sua vontade expressando, assim, uma experiência de liberdade.
O conceito de "livre arbítrio" traz no seu bojo implicações filosóficas, religiosas, psicológicas e científicas. Na esfera religiosa, o "livre arbítrio" pode implicar que uma divindade onipotente não impõe o seu poder sobre a vontade e as escolhas do homem. Em psicologia o "livre arbítrio" implica em que a mente humana controla as ações do homem, enquanto em ética, o "livre arbítrio" propõe que o homem é moralmente responsável por suas ações.
Há o Determinismo Mecanicista e o Determinismo Teleológico, estes são doutrinas que afirmam que todos os acontecimentos, incluindo-se as vontades e as escolhas humanas, são causados por acontecimentos anteriores ou posteriores, portanto, situa o homem como um ser destituído de liberdade de decidir e de influir nos fenômenos em que toma parte. O Determinismo Mecanicista e o Determinismo Teleológico rejeitam, portanto, a concepção de que os homens tenham algum "livre arbítrio". Em oposição aos dois tipos de determinismo encontra-se o Libertarianismo, posição esta que defende que os homens têm "livre arbítrio" pleno e, por isso, rejeita o determinismo. O Indeterminismo é também uma forma de Libertarianismo, a qual defende a visão que as pessoas têm "livre arbítrio", e que as ações apoiadas nele são efeitos sem causas. Há ainda o Compatibilismo que é a visão que o "livre arbítrio" surge mesmo em um universo sem incerteza metafísica. Compatibilistas podem definir o "livre arbítrio" como emergindo de uma causa interior, por exemplo os pensamentos, as crenças e os desejos. Seria sucintamente o "livre arbítrio" aquilo que respeita as ações, ou pressões, internas e externas. A filosofia que aceita, tanto o determinismo, quanto a liberdade de escolhas é chamada de “Soft Determinism”, expressão cunhada por Williams James para designar o que hoje chama-se de "Livre Arbítrio Compatibilista". O Incompatibilismo é a visão que não há maneira de reconciliar a crença em um universo determinístico com um "livre arbítrio" verdadeiro. Entre os compatibilistas encontram-se Thomas Hobbes e David Hume.
Observa-se, assim, que, não há ponto de conciliação entre as diferentes concepções, e, mesmo no mérito interno de cada uma delas, não há argumentação definitiva ou plausível sobre esta questão. Realmente é infundada a ideia de que o universo e seus fenômenos seja determinístico e o homem, seja absolutamente livre nele. É como se o homem estivesse acima do universo, ou fora da realidade. Neste caso recai-se no conceito de 'oxímoro', ou seja, um ato causado não pode ser livre, e um ato não-causado não pode ser desejado. Trata-se de uma figura de retórica, na qual dois conceitos opostos são reunidos numa só expressão que depende da interpretação de quem lê. Por exemplo: silêncio eloquente, lúcida loucura, ilustre desconhecido, etc.
Ora, para se considerar algo, ou alguém como absolutamente livre, necessário é que não haja nenhum fato ou evento determinantes anterior e externo ao agente. Assim, para haver o "livre arbítrio", o homem obrigatoriamente deve bastar-se a si mesmo em todos os sentidos, e aspectos. Neste caso, o homem seria o próprio Deus com todos os seus atributos. Jesus afirma aos líderes religiosos e políticos do seu tempo o seguinte: "Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado." Logo, um escravo não é livre, e, como todos os homens pecaram por herança adâmica, logo nenhum homem é livre, ou possui "livre arbítrio". O que acontece comumente é que os que defendem tal posição confundem escolhas mecânicas e condicionadas pelas necessidades biológicas e psicológicas, com liberdade de ação e de escolha espiritual. O próprio fato de o homem estar relativizado no tempo e no espaço já o limita absolutamente e lhe retira a possibilidade do "livre arbítrio". Na realidade a condição do homem é de "Servo Arbítrio"!
Maranata!

setembro 29, 2010

A TEMPO E FORA DE TEMPO


II Tm. 4: 2 a 5 - "... prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos, e não só desviarão os ouvidos da verdade, mas se voltarão às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério."

O tempo é uma variável que decorre de movimento, portanto, o homem não pode controlá-lo. Há basicamente três categorias de tempo: o tempo cronológico, o tempo como um momento exato de um evento, e o tempo psicológico. Como substantivo masculino é a duração relativa das coisas que cria no homem a noção de passado, presente e futuro, sendo, portanto, um período contínuo no qual os fatos se sucedem. O homem está relativizado ao tempo nesta dimensão da sua existência, e disto, não tem controle, ou como escapar. Esta é uma das razões porque o conceito de "livre arbítrio" não encontra fundamentação. Deus, contrariamente, não está relativizado ao tempo, tendo perfeito controle sobre ele.
O apóstolo Paulo está instruindo o seu discípulo na fé, Timóteo, acerca dos princípios e práticas do ministério. É dito a Timóteo, primeiramente, que ele pregue a palavra, sendo esta a tarefa precípua de um evangelista. Há muitos pregadores que estão substituindo o anúncio do evangelho pelos manuais de atuo-ajuda, por programação neurolinguística, por sessões de regressão hipnótica, por sessões de espiritismo, por superstições e misticismos, por ocultismo, por engodo de prosperidade, curas, sinais, e maravilhas. Estas coisas não servem para conduzir o homem à Cristo. No máximo, levam incrédulos para dentro das igrejas, e neste caso, elas se tornam cada vez mais agências do inferno. A cada dia as igrejas institucionais mais se assemelham a empresas, agremiações, sociedades limitadas, bancos, supermercados, e escolas de fazer desajustados. Isto porque, o indivíduo, que, ouvindo as Escrituras, e, não podendo crer que nasceu de Deus, entra em profundo conflito de consciência. Não é atoa que pesquisas indicaram que 80% dos que buscam ajuda psiquiátrica são crentes. Viver em contradição é muito perigoso!
Por todas estas razões é que o evangelista deve pregar apenas a Palavra de Deus, e não a sua palavra, a sua tese, o seu ponto de vista sobre Deus, Cristo, a vida e a eternidade. Doutrinas não salvam, mas quando oriundas da Palavra, são para os que já são salvos. Há, na verdade, uma inversão do processo pelos religiosos: doutrinam incrédulos, e evangelizam os crentes. Os pregadores estão mais preocupados em trazer conforto material aos seus ouvintes; porém, o que lhes causa desconforto é exatamente a incredulidade, a saber o pecado. Primeiro é necessário pregar-lhes a palavra da verdade, para que creiam e tenham as escamas dos olhos retiradas e sejam convertidos. Depois deve-se intar a tempo e fora de tempo para o seu progresso espiritual.
Na sequência, o apóstolo Paulo ordena a Timóteo que "insta a tempo e fora de tempo". Instar é um verbo que possui regência múltipla, portanto, pode ser: pedir com instância, com insistência; solicitar reiteradamente; insistir. Estas significações não se referem à pregação do evangelho, mas ao ensino doutrinário aos que já creem. É necessário o amadurecimento no conhecimento de Deus após o novo nascimento. É imperioso que haja muita insistência, porque o ranço das práticas e dos hábitos pecaminosos são fortemente arraigados na natureza humana. É nestas circunstâncias que penetram na Igreja os lobos, os mercenários os falsos profetas cujas práticas confundem e desviam do caminho de Cristo a muitos. É necessário admoestar, repreeder, e exortar, porém com longanimidade e ensino. A ausência destes processos não permite aos evangelizados amadurecer e ganhar a revelação da vida de Cristo. O resultado desta falha é trágico para as Igrejas, pois se tornam verdadeiras sucursais do gnosticismo, do ateismo, do misticismo e da incredulidade.
Por estas falhas no ministério é que já estamos no tempo em que os próprios crentes não suportam a sã doutrina, e acabam por tê-la por herética, e tomam a mentira por verdade, e a verdade por mentira. Desejam ouvir apenas o que lhes agrada e, para tanto, procuram contratar pregadores que lhes sejam aceitáveis, que possuam títulos, fama, sucesso material e inteligência emocional. O resultado disto tudo é o desvio da verdade, a saber, de Cristo. Voltam às fábulas, ou seja, às lendas e experiências sobrenaturais como forma de sublimar suas mentes cauterizadas pelo príncipe deste mundo, o qual cega-lhes o entendimento. Neste sentido se tornam mais incrédulos do que os incrédulos que não estão em suas igrejas. Inventam doutrinas e teologias para encobrir a ausência de Cristo, tornando-se cada vez mais cínicos espiritualmente.
Então, a primeira sentença é: "prega a palavra", porque é desta atitude que se manifestam os eleitos de Deus. Uma vez tocados pela graça por meio da fé, deve-se instar em todas as ocasiões para que cresçam no conhecimento de Cristo, e manifestem a Sua vida, levando o Seu morrer diário. A cruz não é apenas um símbolo é um caminho a ser trilhado ao longo do deserto da vida até que seja dia perfeito e o eleito de Deus seja, não só à imagem, mas também à semelhança do Filho de Deus.
Maranata!

setembro 28, 2010

EVANGELHO COM MAIS EXATIDÃO


At. 18:24 a 26 - "Ora, chegou a Éfeso certo judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloquente e poderoso nas Escrituras. Era ele instruído no caminho do Senhor e, sendo fervoroso de espírito, falava e ensinava com precisão as coisas concernentes a Jesus, conhecendo entretanto somente o batismo de João. Ele começou a falar ousadamente na sinagoga: mas quando Priscila e Áquila o ouviram, levaram-no consigo e lhe expuseram com mais precisão o caminho de Deus."
Nos últimos tempos de Cristo fisicamente entre os homens, ele incluiu acerca do evangelho uma ordenança que deveria ser o princípio norteador de todo regenerado. É dito em Mt. 28:19 e 20 - "Portanto indo, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos." Esta ordem não fora dada apenas aos discípulos daquele tempo, e aos doze apóstolos, mas a todos os nascidos do alto em todos os tempos. Entretanto, o verbo ir no texto grego original não está no imperativo, mas no gerúndio, logo, é "... indo, fazei discípulos de todas as nações...", e não "ide", como traduzido em língua portuguesa propositadamente. Isto se explica porque nem todos os eleitos e regenerados deixam os afazeres para sair pregando o evangelho nos moldes que se faz comumente entre alguns religiosos que se auto-intitulam missionários. O verbo no gerúndio quer dizer que é uma exigência adimensional no espaço e no tempo, ou seja, na medida em que os eleitos forem caminhando pela vida, em sucessivas gerações, deverão anunciar o evangelho, e não apenas em certas ocasiões, lugares e circunstâncias. Também o texto não autoriza afirmar que todos os homens, de todas as etnias seriam convertidos pela pregação do evangelho. O sentido de todos, na quase totalidade das vezes em que aparece no novo testamento, é no sentido de haver escolhidos entre todos os povos, nações, tribos e etnias. Esta visão universalista de que a salvação é para todos é um tanto humanista e distorcida do ensino das Escrituras. Verifica-se, ainda, que a ordem é bem mais abrangente do que a simples pregação do evangelho. Ela inclui também, o ensino, a fim de que os alcançados pela graça sejam instruídos na observação de tudo quanto é ordenado nas Escrituras, no tocante ao evangelho de Cristo. A experiência cristã verdadeira exige pregação da palavra da cruz aos que não conhecem e ensino da doutrina aos que já foram alcançados pela graça.
Mt. 13:44 - "O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo, que um homem, ao descobri-lo, esconde; então, movido de gozo, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo." O ensino deste texto é muito simples, exatamente por esta razão o Cristo se utilizava das parábolas, para simplificar ao nível do homem a comunicação da verdade. O texto não ensina que o homem comprou todo o campo pelo valor dele todo, mas apenas pelo valor de um tesouro que nele havia. Os pecadores eleitos que estão no campo, a saber, nas tribos, nações e povos representam este grande tesouro. O homem que o comprou é Cristo, e Ele o faz para garimpar este tesouro escondido no campo que é o mundo. Cristo abriu mão da sua deidade, e de todos os privilégios dela ao lado do Pai no céus para pagar o resgate do tesouro, a saber, os eleitos que seriam atraídos a Ele na cruz, e com Ele ressuscitariam ao terceiro dia para a vida eterna.
O evangelista Apolo foi grandemente elogiado no texto de Atos. Acerca dele fora dito que era poderoso nas Escrituras, eloquente, e fervoroso no espírito. Diz, ainda, que no tocante as coisas concernentes a Jesus, ele era preciso. Isto não é pouca coisa, considerando as limitações humanas, especialmente de quem conhecia apenas o ensino de João, o batista. Entretanto, ao tomar da palavra para pregar, Priscila e Aquila, fiéis servos do Senhor Jesus Cristo, se aperceberam que lhe faltava mais exatidão na doutrina. Percebeu-se que ele era apenas instruído no caminho do Senhor, e que pregava apenas com base no ensino de João, o batista. Priscila e Aquila instruíram Apolo no "Caminho de Deus", isto é, em Cristo como o caminho, e este é o caminho da cruz, pois em Jo. 14:6, Jesus se declara como sendo "o caminho, a verdade, e a vida". Saber acerca de Jesus, não é o suficiente, necessário é andar n'Ele, a saber, ganhar a Sua vida nos moldes de Gl. 2: 19 e 20 - "Pois eu pela lei morri para a lei, a fim de viver para Deus. Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim." É fundamental dizer que, uma coisa é saber acerca de Jesus, e afirmar que Ele é o caminho, outra coisa é andar n'Ele por consequência de ter sido n'Ele incluído. Acerca de Cristo, Deus, evangelho, doutrinas, religião, até um ateu pode discursar com eloquência. Isto não lhe acrescenta nada, além é óbvio, do mero saber intelectivo. Há pregadores que são exímios teólogos, conhecedores profundos do Cristianismo histórico, mas não estão incluídos em Cristo. Vivem suas próprias vidas almáticas e religiosas sem a vida de Cristo.
Este é um grave problema hoje, basta alguém saber falar em público, ler a Bíblia, e ter coragem para falar acerca de Jesus, é imediatamente consagrado e elevado ao grau de grande virtuose de Deus na Terra. Em muitos casos não possuem sequer exatidão em nada, quanto mais, "mais exatidão no Caminho de Deus". Priscila e Aquila, ao ouvir Apolo, logo constataram a falta de mais exatidão, e, ao invés de criticá-lo, escorraçá-lo da sinagoga, expô-lo à execração pública, o tomou à parte e levando-o com eles em amor, o instrui mais exatamente no ensino do evangelho da cruz. Isto prova que eloquência, conhecimento bíblico, e teológico, não são suficientes para ser mais exato no ensino da verdade. É necessário passar pela experiência do "novo nascimento", ou "nascimento do alto" conforme o ensino de Jesus em Jo. 3: 3, 5 e 6 - "Respondeu-lhe Jesus: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Jesus respondeu: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito." Quem não nascer do alto, não vê, e não entra no reino de Deus.
Maranata!

setembro 26, 2010

A LINGUAGEM INCOMPREENSÍVEL


Jo. 8:43 - "Por que não compreendeis a minha linguagem? É porque não podeis ouvir a minha palavra."
No processo de assimilação de qualquer conhecimento é imprescindível que se façam as devidas análises semânticas, a saber, o estudo sincrônico ou diacrônico das significações em relação aos seus significantes.
Em um sistema linguístico a semântica é o componente do sentido das palavras e da interpretação das sentenças e dos enunciados. Desta forma é fundamental e urgente que se vejam alguns significantes e seus significados. O verbo compreender é transitivo direto e intransitivo, trazendo a ideia de apreender algo intelectualmente, utilizando a capacidade de compreensão, de entendimento; perceber, atinar para algo, alguém, ou alguma coisa.

Jesus lança uma questão aos líderes e principais de Israel em seu tempo. Ele os inquire retoricamente sobre o fato de os mesmos não compreender a sua linguagem. Ora, linguagem é qualquer meio sistemático de comunicar ideias ou sentimentos através de signos convencionais, sonoros, gráficos, gestuais. Então, o que Jesus, o Cristo estava a lhes comunicar não era absolutamente nada surrealista ou incompreensível intelectualmente. A questão é que há uma linguagem aceita e praticada em um dado momento, e outra, recebida e percebida apenas pelo espírito. A esta última dá-se o nome de revelação. Destarte, de nada adianta ao homem conhecer, ou mesmo, compreender intelectualmente, logicamente, ou emocionalmente, se não receber o dom da compreensão espiritual. É quando se vai além da mera letra, ocorrendo uma profunda vivificação para uma verdade espiritual. Nos dizeres do apóstolo Paulo, isto é colocado assim: "...não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, o qual também nos capacitou para sermos ministros dum novo pacto, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica." II Co. 3: 5 e 6. Este é um dos principais problemas do cristianismo nominal e histórico, pensar por si mesmo e não receber a inspiração que do alto vem.


Os religiosos e políticos de Israel, bem como os dos dias atuais, invariavelmente pretendem encontrar uma solução para os dilemas do homem a partir de si mesmos e de suas meras concepções acerca de Deus e da verdade. Por esta razão houve, e ainda há enorme incompatibilidade natural na compreensão da linguagem de Cristo. Tal incongruência acaba por jogar lama sobre a verdade evangélica, que de resto, é absolutamente desprezada e escamoteada pelos próprios cristãos. Desta maneira o cristianismo que aí está não passa de mais uma lenda histórica construída sobre doutrinas sofismáticas e conflituosas entre si.


Se um cristão não vê Cristo em sua vida, ele não pode ser considerado cristão, pois as Escrituras sentenciam claramente: "Pois eu pela lei morri para a lei, a fim de viver para Deus. Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim." Gl. 2: 19 a 20. Aqueles religiosos, e a grande maioria dos cristãos nominais de hoje, querem um Cristo desenhado a partir dos seus sistemas de crenças, e não Aquele que é revelado no evangelho da graça. Não compreendem a linguagem da morte por inclusão na cruz, como também da ressurreição juntamente com Cristo para ganhar a Sua vida eterna. Tudo isto se apropria por fé no Filho Unigênito e Primogênito de Deus. Não é a doutrina maior que o que a criou! Este tem sido o maior erro entre o homem pecador e a revelação de Deus em Cristo, ou seja, a inversão da verdade. Substituem o doador pela doação; o conteúdo pelo continente; o doutrinador pela doutrina. Querem colocar o barro no vaso de ouro, sendo o ensino, exatamente o oposto: o vaso é de barro, mas o seu conteúdo que é de ouro conforme II Co. 4:7 - "Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não da nossa parte." Assim, o que importa é o Cristo que habita nos regenerados e não o que o mundo imagina e afirma sobre eles e seus comportamentos morais. A questão comportamental é da competência e da esfera de Cristo somente. É Ele quem disciplina e corrige os que são d'Ele.














Desta forma, Jesus, o Cristo arremata a questão inicial e responde à Sua própria pergunta retórica: 'vocês não podem ouvir a minha palavra'. Fica demonstrado que não é uma questão de querer, de exercício intelectivo, ou mesmo de usar do famigerado "livre arbítrio", mas de não poder mesmo. Aqueles cujos nomes não estão escritos no livro do Cordeiro, não podem ouvir a palavra de Deus. Ainda que ouçam-na com os ouvidos físicos, não a internalizam por meio dos ouvidos do espírito. Isto só acontece quando recebem a graça da vivificação para crer.
Maranata!

setembro 25, 2010

O MISTÉRIO DA INIQUIDADE JÁ OPERA V


Mt. 23:28 - "Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade." A operação da iniquidade é um fenômeno ambíguo aos olhos dos homens. No aspecto exterior possui aparência de justiça, entretanto, no aspecto interior possui a real dimensão do pecado. Os homens veem uns aos outros pelo lado errado, ou seja, avaliam-se apenas pelo que se pode ver exteriormente. O verdadeiro ser humano não é o que se apresenta na exterioridade, mas o que vive em seu interior. Segundo o texto, este homem interior é repleto de hipocrisia e iniquidade. É neste sentido que a iniquidade se torna um mistério operacional no mundo, pois é como um inimigo sem rosto. Age sob o disfarce da hipocrisia latente na alma do pecador religioso. O problema da sociedade não é o ateu ou a pessoa que pratica toda sorte de males. Estes são declarados e visíveis aos olhos de todos. O maior inimigo da sociedade é o que apresenta-se como justos exteriormente, mas por dentro são sepulcros caiados, nos dizeres do Mestre Jesus, o Cristo.
Há uma grande corrente humanista que pretende conferir ao homem um alto grau de dignidade, justiça e ética, entretanto, em sua natureza, este não é nem um pouco digno, justo e ético. Toda a concepção de justiça, dignidade e ética no homem é apenas circunstancial, pois quando surge uma situação adversa, estas virtudes desaparecem rapidamente. Assim, fica evidente que a questão do mistério da iniquidade operante é por natureza adâmica, e não, uma mera questão moral, relacional ou social. As religiões, apesar de todo o alarde em pretender reformar o homem moralmente, não conseguem grandes resultados. Este é um mal que se extirpa na raiz, a saber, aniquilando a culpa do pecado, por fé que o pecador morre em Cristo na cruz, e com Ele ressuscita para a vida eterna. Tudo é uma questão de receber graça e fé para ser vivificado. Isto nada tem a ver com religião exterior, ética e posturas comportamentais. Um ateu, em muitos casos, possui um comportamento ético-moral melhor do que muitos religiosos. Logo, não é uma questão de cunho moral, mas de caráter espiritual. Sem o caráter de Cristo no novo nascimento, todo homem é, em si mesmo, uma farsa!
Hipocrisia é um substantivo feminino que pode significar: ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções; fingimento, falsidade. Então, por um lado, o homem não regenerado apresenta-se exteriormente como quem é justo, mas pelo seu lado verdadeiro, é dissimulado, fingido, falso em suas intenções e sentimentos. Este, é, portanto, o lado verdadeiro do homem. Nisto não há nenhuma dignidade, justiça, ou ética. É preferível um violento, desbocado, agressivo e grosseiro, a um dissimulado. Por que deste não se sabe exatamente o que é, mas daquele, se sabe logo o que de fato é. A iniquidade consiste em ausência de equidade, que, por extensão de sentido é a falta do que é equânime. O pior tido de hipócrita é aquele que é hipócrita consigo mesmo.
O mistério da iniquidade opera no homem desde a sua queda no Éden, e continuou ao longo da história se aperfeiçoando de acordo com os requintes dos métodos e permissões de cada época história. Entretanto, o pior tipo de iniquidade é a religiosa, pois se ufana de ser verdadeira, quando de fato o sujeito dela é falso. Isto porque a religião é uma invenção humana para tentar ser "deus" sem Cristo, sem a cruz, sem a morte, e sem a ressurreição. Logo, sem regeneração ninguém verá o Reino de Deus conforme Jo. 3: 3 e 5 - "Respondeu-lhe Jesus: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Jesus respondeu: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus." Nascer de novo no texto original é "nascer do alto", posto que toda ação de regeneração é monérgica. Já nascer da água é uma referência à fé obtida pela pregação e pelo ouvir da Palavra de Deus; o nascer do Espírito é perder o espírito corrompido pelo pecado, e ganhar um novo espírito conforme Ez. 36:26 - "Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne." Estas palavras foram ditas por Deus ao profeta, portanto, não se tratam de ilações e conjecturas humanistas e piegas. O texto ezequeliano é claro ao demonstrar que, quem dá o coração novo, e coloca o espírito novo no regenerado é Deus. Este é o mistério da fé que esteve oculto nos séculos, mas que agora está revelado e efetivado em Cristo Jesus, Senhor de toda a glória.
Maranata!

setembro 12, 2010

O MISTÉRIO DA INIQUIDADE JÁ OPERA IV


I Co. 5: 9 a 13 - "Já por carta vos escrevi que não vos comunicásseis com os que se prostituem; com isso não me referia à comunicação em geral com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevo que não vos comuniqueis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal nem sequer comais. Pois, que me importa julgar os que estão de fora? Não julgais vós os que estão de dentro? Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai esse iníquo do meio de vós."
O mistério da iniquidade é tão antigo, como antigo é o mundo. Observa-se pelo texto paulino, que a Igreja, já se encontrava infiltrada pelos tais mistérios da iniquidade em Corinto. Vê-se também que a ordem de Paulo é clara: não se trata de separar-se do mundo, ou de não se comunicar com os pecadores não regenerados, trata-se, outrossim, de não agir como os tais pecadores. A oração de Cristo, como o sacerdote eterno, é que os seus não fossem retirados do mundo, mas que fossem libertos do maligno. Percebe-se no texto de abertura, que o problema é com os que se dizem "irmãos", os quais, na verdade, são escravos da iniquidade. Estes são como uma contradição, porque negam a regeneração por meio das suas práticas. Cristo afirma no evangelho de João, capítulo 8, que todo aquele que vive na prática do pecado é escravo do pecado. Estes a que se refere o apóstolo Paulo, não são pecadores sem a iluminação do evangelho, mas são os que, portando a iniquidade permanecem como se nascidos do alto fossem. Não há ponto de conciliação entre o nascimento do alto e a operação da iniquidade.
O mistério da iniquidade esteve, está e estará em ação no sentido em que algumas pessoas que se auto-intitulam cristãs, continuam com suas naturezas pecaminosas dentro das igrejas, sendo aclamadas como grandes virtuoses de Deus. Eles estão cristãos, mas não são cristãos, por que não ganharam a vida de Cristo. Isto se constitui em matéria de mistério iníquo, porque estas tais pessoas estão participando do corpo de Cristo sem ter morrido e ressuscitado com Ele, assim, negam a eficácia da morte e da ressurreição d'Ele em suas vidas conforme II Tm. 3: 5 e 7 - "... tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o poder. Afasta-te também desses... sempre aprendendo, mas nunca podendo chegar ao pleno conhecimento da verdade." Na fé cristã genuína, não basta ter aparência! Há muitos casos em que a aparente superficialidade comportamental é apenas para obter a aceitação das outras pessoas e não porque houve, de fato, regeneração. O joio é, em quase tudo, semelhante ao trigo, entretanto, continua joio.
O nascido de Deus não sente prazer na iniquidade, e, portanto, esta não encontra nele permanente morada. O fato de alguém conhecer teologia, seguir regras comportamentais, preceitos cerimoniais e práticas de religião exterior, não o habilita e o promove a regenerado e filho de Deus. Aprender é uma capacidade apenas intelectual, porém poder chegar ao pleno conhecimento da verdade é dom de Deus. Uma coisa é a regeneração comportamental, outra é a regeneração espiritual. Aquela é possível até a um ateu, mas está é obra soberana, misericordiosa e graciosa de Deus. Quando alguém abandona o vício das drogas houve regeneração apenas social, mas quando alguém tem experiência de nascimento do alto houve regeneração espiritual. Não é a mudança moral o fator determinante da experiência espiritual, mas aquela é apenas decorrente desta.
Há uma série de práticas em "igrejas" ditas cristãs que mostram o quanto a religião é uma habilidade puramente humana. Entre elas se pode afirmar que há uma forte tendência à condenação das pessoas que não professam a crença defendida por tais "igrejas". Assim, os membros de uma determinada denominação não recebem e não consideram outros de outras denominações, porque acreditam que somente a sua "igreja" é autêntica. Fecham-se hermeticamente dentro dos limites da sua religião, considerando todas as demais como heréticas. Mal sabem que a heresia existe dentro de todas as religiões, considerando que a diversidade delas é causada por discordâncias nas interpretações das Escrituras. Desta forma consideram a adivinhação de uma cartomante, quiromante, necromante ou vidente como prática diabólica, entretanto se tais práticas forem de uma "irmã fulana de tal" são aceitas como dons e revelações de Deus. Ora, a origem do fenômeno é a mesma, a saber, o poder latente da alma. Deus não se utiliza destes métodos e expedientes para comunicar a verdade ao homem. As Escrituras são a revelação compendiada d'Ele, não sendo necessário mais nada a acrescentar, ou a retirar como fazem nas religiões. Hb. 1:1 - "Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho..." O Filho Unigênito de Deus é Cristo, o qual fala, porque é Ele mesmo a Palavra, ou o Logos Eterno. Por ele, dele e para ele convergem todas as coisas no universo.
Há profunda diferença entre cometer erros por contingencialidades e circunstâncias externas, e ser devasso, avarento, idólatra, maldizente, beberrão, ou roubador. Aquele que é assim, o é por princípio e por natureza. Aquele que recai em alguns atos pecaminosos por fraqueza, por interferência de terceiros, porém contra os seus princípios e desejos, não é pecador por hábito. E ainda que o justificado cometa tais atos, Deus o levanta, porque Ele sabe que tais fatos ocorrem por razões contrárias ao espírito do regenerado. Enquanto o não regenerado comete a iniquidade por prazer, o regenerado comete atos pecaminosos, por viver em um meio tentador e contaminado pelo pecado. Os eleitos e regenerados têm arrependimento, os não regenerados têm apenas remorso. É como doutrina, genericamente, o apóstolo Paulo na carta aos Romanos, que, segundo De Vern Fromke: "fui liberto da culpa do pecado, estou sendo liberto da influência do pecado, e serei liberto da presença do pecado." Isto significa que, Cristo é o Cordeiro de Deus que retira o pecado do mundo, a saber, está purificando a natureza pecaminosa dos eleitos, afastando-os das influências externas do pecado, e os libertará definitivamente da presença da iniquidade, quando restaurar todas as coisas na Seu glorioso retorno.
Maranata!