domingo, 25 de maio de 2008

O QUERER E O EFETUAR IV

Sempre quando se discute a questão do querer, isto é, da vontade humana em relação a salvação, os religiosos são rápidos em dizer que o homem pode aceitar ou rejeitar a graça de Deus em função do uso do "livre arbítrio". Tudo é compreendido intuitivamente por meio de uma análise desprovida de revelação e baseada em falsos ensinos arminianos, gnósticos e na força do intelecto. O religioso, que é por natureza, um arminiano, invariavelmente inverte e perverte a verdade, as vezes, até mesmo em nome de Cristo. Eles seguem padrões repetitivos, como se fora leis em seus corações, porque suas naturezas decaídas elaboram estes padrões para validar suas crenças e esperanças. Na verdade, eles lançam mão de argumentos que partem de premissas falsas e, com isso, chegam a resultados igualmente falsos.
Uma das questões mais cruciais no texto sagrado é o uso e a interpretação dos verbos no modo imperativo. São compreendidos pelos religiosos apenas pela ótica gramatical, mas, neste caso, acabam se transformando em uma espécie de armadilha. Tais verbos, na maior parte das vezes, são imperativos por força de quem os pronunciou e não por força de quem os recebe como ordens. Por exemplo em Gn. 12:2 - "Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu, sê uma bênção." Neste caso, se não ler o texto com as lentes do espírito, pensa-se que Abraão teria uma contra-partida na ação de Deus. Isto é, se ele não procurasse ser uma bênção, a ação de Deus ficaria incompleta ou interrompida. Ora, não é isto que o texto ensina! Basta fazer a leitura de trás para frente que fica perceptível que Abraão seria uma bênção, porque fora abençoado primeiramente por Deus. Logo, a ação é monérgica e o imperativo se faz justificar, porque Deus assim o determinou. Se Abraão pudesse ser uma bênção sozinho, Deus seria absolutamente desnecessário neste caso. Uma tradução livre deste texto seria: "Eu farei que você se multiplique em uma numerosa nação, abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome por meio dessa nação; e você, é uma bênção a partir de agora." Ou seja, você é uma bênção, porque eu te abençoarei e não porque você possa ser uma bênção por si mesmo. O verbo "ser" neste contexto é imperativo afirmativo, ou seja, você é e será continuamente uma bênção, porque Eu, Deus, estou afirmando que serás. Em língua portuguesa não existe o presente contínuo nos verbos, por isso, são traduzidos como se fossem imperativos. Assim, se alguém disser: "Deus é" não parece ter sentido, porque o verbo ser exige um complemento. Entretanto, é o caso do presente continuo, pois o que é, sempre será indefinidamente. Ele é o que é em sua essência e não pelo que faz ou deixa de fazer.
Mc. 8: 34 - "E chamando a si a multidão com os discípulos, disse-lhes: se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me." O mesmo acontece ao conteúdo do texto em questão. Muitos tomam isoladamente o verbo "querer" no texto que vem de ser lido e faz sobre ele um compêndio de teologia focada tão somente no homem. Ora, se Jesus estava se dirigindo a pecadores, o querer deles estava escravizado pelo pecado, logo, não poderia jamais querer ir após Ele. Não é uma questão de opção ou escolha! A vontade ou o querer do homem no pecado é invariavelmente contrário a Deus. conforme Rm. 3: 10 a 12 - "...como está escrito: não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só." Também os antropoteólogos deixam de considerar o texto todo. Neste caso a partícula "se" é fundamental, pois ela dá uma conotação de dúvida. É como se o Senhor estivesse dizendo: 'se é que alguém tem inclinação, vontade ou liberdade para andar no meu caminho, há de negar o seu próprio "eu", tomar a cruz que lhe pertence por causa da maldição do pecado, e seguir-me para a morte.'
Obviamente, quando alguém prega o ensino bíblico da redenção por inclusão na morte de Cristo, causa uma profunda decepção no homem. Isto porque, este, enquanto portador da natureza pecaminosa é sempre inclinado a produzir os meios para a sua própria salvação. O pecado é algo tão hediondo, que cria no homem a falsa ideia que ele é livre até mesmo para produzir sua própria salvação. Não é isso que o evangelho ensina. Em Jo. 6: 44 e 45 diz: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: e serão todos ensinados por Deus. Portanto todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim." O texto, sem prejuízo do seu contexto, mostra com clareza que "ninguém pode" ir a Jesus se o Pai não o conduzir por meio da revelação na Palavra. Não é uma questão de não querer, mas de não poder! É pelo pregar das Escrituras que o Espírito Santo ensina o nosso espírito que a salvação é pela graça por meio da fé. Esta graça é a própria doação do Filho de Deus que foi levantado na cruz, e, nela, atraiu os eleitos para perderem os seus "eus" pecaminosos. Após a destruição do corpo do pecado, da velha natureza, do velho homem, da natureza adâmica é que ocorre a plena justificação conforme Rm. 6. Só possui disposição para ir a Jesus, aqueles aos quais Deus compungiu pela Palavra e que neles operou o querer e o efetuar da fé que faz o justificado viver, isto é, ganhar a vida de Cristo na ressurreição.

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