abril 19, 2010

CRER INCONDICIONALMENTE x CRER CONVENCIONALMENTE II


Dn. 3: 15 a 20 - "Agora, pois, se estais prontos, quando ouvirdes o som da trombeta, da flauta, da harpa, da cítara, do saltério, da gaita de foles, e de toda a sorte de música, para vos prostrardes e adorardes a estátua que fiz, bom é; mas, se não a adorardes, sereis lançados, na mesma hora, dentro duma fornalha de fogo ardente; e quem é esse deus que vos poderá livrar das minhas mãos? Responderam Sadraque, Mesaque e Abednego, e disseram ao rei: ó Nabucodonosor, não necessitamos de te responder sobre este negócio. Eis que o nosso Deus a quem nós servimos pode nos livrar da fornalha de fogo ardente; e ele nos livrará da tua mão, ó rei. Mas se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste. Então Nabucodonosor se encheu de raiva, e se lhe mudou o aspecto do semblante contra Sadraque, Mesaque e Abednego; e deu ordem para que a fornalha se aquecesse sete vezes mais do que se costumava aquecer; e ordenou a uns homens valentes do seu exército, que atassem a Sadraque, Mesaque e Abednego, e os lançassem na fornalha de fogo ardente."
É próprio do homem natural, a saber, que não foi regenerado espiritualmente, crer apenas convencionalmente. Dependendo da cultura a que está inserido, tal engajamento é fundamental à sua aceitação social, ou à sua ascensão socioeconômica. Por esta razão muitas pessoas se aferram a uma religião por mero tradicionalismo, ou apenas por convenção social. A crença em um "deus", ou em seres sobrenaturais acompanha a humanidade desde os mais primevos dos tempos. Na falta de uma explicação racional, ou de uma constatação sensorial, atribui-se ao sobrenatural os fenômenos e fatos inusitados. Joga-se com estas forças a sorte e o seu destino na crença que obterá sucesso na vida. 
Há em toda sociedade os ritos de passagem, nos quais ocorre forte teor de religiosidade e crenças místicas. Muitas pessoas se afiliam a determinadas instituições para ter a garantia de sucesso e boa aceitação nos círculos sociais. Tais instituições são plenas de regras, preceitos e normas, sendo muitas delas de caráter espiritualista.
O texto que abre este artigo se insere no contexto em que os judeus haviam sido levados cativos para a Babilônia. Nesta época Deus havia conferido ao rei Nabucodonosor amplos poderes sobre os povos e nações. Em sua vacuidade e soberba, o rei babilônico construiu uma estátua de ouro e ordenou a todos, nativos e estrangeiros dentro dos seus domínios reverenciar e adorar a imagem quando se fizessem tocar trombetas e instrumentos musicais. Três homens judeus cuja adoração e fé estavam restrita ao Deus Altíssimo, não fizeram caso da tal ordem. Logo surgiram os delatores, pois os homens não regenerados detestam que os exclua de algum negócio que lhes parece diferente. Como não podiam crer em nada mais e não podiam deixar de cumprir as ordens do rei, denunciaram os jovens Sadraque, Mesaque e Abednego pelo descumprimento da ordem real. Assim, o rei mandou chamar os contraventores e lhes deixou inteirados da necessidade de cumprir aquela ordem sob pena de serem queimados vivos caso não a obedecesse. Foram tratados como subvertores da ordem real, e, como tal, deveriam sofrer as consequências prescritas.
Os jovens judeus demonstraram ao rei que estavam firmes no propósito de servir apenas ao Deus que conheciam, apesar da ordem e da gravidade dela. Eles se dispensaram de dar explicações, porque a sua fé não era apenas convencional, mas incondicional. Não haviam quaisquer precondições para a sua fé. Visto que fé é dom, ninguém possui fé de si mesmo. Eles estavam seguros que o Deus Altíssimo os poderia livrar, como também poderia não os livrar da fornalha, sem que isto modificasse a fé que receberam. Então, não havia nenhum condicionante, mas apenas a fé incondicional. Eles não estavam subordinados às convenções humanas, ainda que estas partissem do rei mais poderoso daquele quadrante da história.
Como esta categoria de fé faz falta nos dias de hoje! Justamente quando homens incautos buscam na religião apenas a satisfação das suas necessidades mediatas e imediatas; tentam barganhar com Deus o seu sucesso financeiro, a sua saúde física, o seu poder político.
O resultado da fé que receberam Sadraque, Mesaque e Abednego foi o lançamento deles na fornalha sete vezes mais aquecida que o habitual. Entretanto, o fogo não lhes fizera mal algum, como também, fora visto andando entre eles e no meio das chamas, um quarto elemento que é o Senhor de toda a glória e o todo-suficiente para livrar ou condenar qualquer homem no universo.
Sola Fidei!
Sola Gratia!

abril 13, 2010

CRER INCONDICONALMENTE x CRER CONVENCIONALMENTE I


Hb. 11:1 - "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem." Crer é um verbo oriundo do latim clássico 'credo' e disseminado pelo latim vulgar 'credere'. É um verbo transitivo direto e transitivo indireto. Significa nestes termos sintagmáticos: "tomar por verdadeiro, acreditar, confiar em, aceitar como verdadeiras palavras ou manifestações de, pensar, presumir; julgar". Crer é também um verbo intransitivo e é nesta acepção que nos interessa nesta instância, pois significa, neste caso, ter fé. Como intransitivo o verbo crer não aceita nenhum complemento, sendo suficiente em sua própria significação.
A definição bíblica para fé é o que está exposto no texto que abre este estudo. Então, a fé é o fundamento firme, a base, ou o que sustenta aquilo que ainda não existe, e, também, a certeza do que não é visível. Por si só, a fé é algo que foge absolutamente aos padrões objetivos da natureza humana. Contrariamente, o homem natural necessita ver para crer, enquanto, que, o padrão do cristianismo verdadeiro é o oposto, isto é, primeiramente se crê, para, só então ver experimentalmente. Este padrão está sucintamente colocado no texto de Rm. 4:17 - "...como está escrito: por pai de muitas nações te constituí perante aquele no qual creu, a saber, Deus, que vivifica os mortos, e chama as coisas que não são, como se já fossem." O contexto fala sobre a natureza da fé que teve Abraão, apenas com base na Palavra de Deus. Contrariamente às suas expectativas humanas, Deus, o instruiu a agir de modo oposto à sua promessa. Ao tempo em que havia prometido ser pai de uma grande nação, por meio de um filho, estando ele com mais de 90 anos e sua esposa sequer menstruava mais, depois lhe instrui que tomasse Isaque e o sacrificasse. Abraão, crendo, contra a sua esperança humana, mas confiando na esperança divina foi ao Monte Moriá. No local do sacrifício, Deus lhe manifestou o sentido de tudo e providenciou o substituto sacrificial em lugar de Isaque. Para Abraão, o que contava era a promessa e não a atitude de Deus. A fé não é circunstancial, mas incondicional.
O ensino do texto de Rm. 4:17, é que, para Deus, não há impossíveis, para Ele tanto faz a coisa existir ou não fisicamente. O que conta é o que Ele diz e não apenas se há o resultado do que Ele disse. Este texto ensina também que Deus leva o pecador morto em seus delitos e pecados para a cruz, e, nela, destrói o corpo do pecado, matando a morte do homem, na morte de Cristo, porque tal ato é por fé. Traz o eleito da morte espiritual à vida eterna e abundante por meio da ressurreição juntamente com Cristo. Este é o processo de passagem das trevas para a luz, a que alude o Senhor Jesus em Jo. 5:24 - "Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas já passou da morte para a vida."
Por todas estas razões estritamente espirituais é que, para o homem natural, estas coisas se constituem em matéria de loucura conforme I Co. 1: 18 e 19 - "Porque a palavra da cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a sabedoria o entendimento dos entendidos." Os que perecem são todos os homens desde o dia em que veem a este mundo, pois a natureza pecaminosa os fazem nascer mortos para Deus e, consequentemente, experimentarão a morte física também. A palavra da cruz é conforme o registro de I Co. 15: 3 e 4 "Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras;que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras." A morte, o sepultamento e a ressurreição de Cristo é crível apenas pela fé nas Escrituras. Não basta um mero assentimento intelectual destes fatos! Então, ou se crê incondicionalmente para ganhar a vida de Cristo, ou se crê apenas convencionalmente para se iludir com uma religião humana.
Sola Fides!

abril 04, 2010

A SÍNDROME DE JÓ XXV


Jó 42: 1 a 6 - "Então respondeu Jó ao Senhor: bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido. Quem é este que sem conhecimento obscurece o conselho? por isso falei do que não entendia; coisas que para mim eram demasiado maravilhosas, e que eu não conhecia. Ouve, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me responderas. Com os ouvidos eu ouvira falar de ti; mas agora te vêem os meus olhos. Pelo que me abomino, e me arrependo no pó e na cinza." Depois que Deus arguiu Jó, mostrando-lhe o seu real lugar como criatura decaída e dotada de uma natureza pecaminosa, ainda que moralmente elogiado, ele então conseguiu dar a resposta correta ao Senhor.
Jó reconheceu, porque conheceu, a onipotência de Deus; igualmente conheceu e reconheceu a soberania de Deus; Jó se viu na sua real perspectiva, ou seja, apenas um homem reto, íntegro, temente e que se desviava do mal, porém sem o verdadeiro conhecimento do Altíssimo. Há profunda diferença entre conhecer acerca de Deus e conhecê-Lo de fato como Deus. É Ele mesmo que se dá a conhecer conforme Mt. 11:27 - "... e ninguém conhece plenamente o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar." O homem não regenerado não possui a menor inclinação para Deus conforme Rm. 3: 10 a 12 - "... como está escrito: Não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só." Entretanto, o homem em todos os tempos e lugares é naturalmente um ser religioso, porém religião não salva.
A falta de conhecimento do Senhor é o que demonstra o estado de decadência e separação espiritual do homem. Os eleitos e regenerados recebem por misericórdia e graça a mente de Cristo conforme I Co. 2:16 - "Pois, quem jamais conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo." A presunção de conhecimento de Deus é comum entre homens naturais, pois presumem ser professores d'Ele, e, portanto, Jó não foi exceção a esta regra. Jó falou apenas do que se lhe apresentava à percepção humana, mas não do que de fato compreendia pelo seu espírito. Esta competência é possível apenas por meio do Espírito de Deus nos eleitos e regenerados. Conhecer leis naturais e saber explicá-las não implica em conhecimento espiritual. Há muitos ateus que possuem excelente conhecimento natural, porém não passa de ciência.

Jó, como muitos homens de excelente caráter, possuía apenas um conhecimento de segunda mão. Conhecia pelo que ouvira falar, então, era um conhecimento de segunda mão. Desta categoria de conhecimento o mundo está repleto, porque as religiões são meras reprodutoras de doutrinas, preceitos, dogmas, regras e normas elaboradas para reformar moralmente a sociedade. Querem concertar o homem para obter uma melhora no mundo. Entretanto, a verdade de Deus quer mais do que isto, quer fazer uma nova criatura conforme II Co. 5: 17 - "
Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo." Porém, operou-se e operacionalizou-se em Jó o milagre do nascimento do alto ou da regeneração segundo a ação monérgica de Deus. Agora ele via com os próprios olhos ao Senhor. De fato, quem não nascer do alto, não vê e não entra no domínio espiritual conforme Jo. 3: 3, 5 e 6 - "Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito." Então, nascimento espiritual é obra de Deus, enquanto nascimento biológico é obra de leis naturais preordenadas por Deus. 




O resultado do nascimento do alto é o homem, ainda que ético, se reconhecer abominável e arrependido até o pó e à cinza. Isto equivale dizer que o homem iluminado pela graça se vê e se reconhece na sua real posição e na sua real relação com Deus. A partir daí, sim, Deus inicia o processo de desconstrução do homem natural e de reconstrução da semelhança de Cristo no novo nascido.




Seja Deus engrandecido e adorado em espírito e em verdade eternamente.




Amém!

abril 03, 2010

A SÍNDROME DE JÓ XXIV


Jó 41: 33 - "Na terra não há coisa que se lhe possa comparar; pois foi feito para estar sem pavor." O capítulo 41 do livro de Jó traz uma longa descrição das características do crocodilo [heb.לויתן] 'leviathan', cuja tradução é 'monstro marinho'. Ao longo de todo o capítulo Deus tece comparações à força do crocodilo e a insignificância dos esforços humanos em querer dominá-lo. É uma referência a uma espécie de crocodilo marinho, que alguns supõem ter sido extinto.
Deus mostra que o homem sequer possui destreza para compreender a natureza por Ele criada e sustentada, quanto mais para discutir ou arguir com Ele em um debate. No texto são revelados ricos detalhes da natureza e habilidade deste animal, como em alguns capítulos anteriores, de outros animais. Tais riquezas e características diversificadas mostram claramente a eterna sabedoria divina. Desta forma a conclusão é que o homem deve se submeter à soberana vontade de Deus, como parte de uma criação pensada e controlada por Ele. O homem sempre se põe acima da criação e à parte dela como se fosse o seu criador. Despreza a soberania e o eterno desígnio de Deus que tudo fez, tudo controla sem que nada e ninguém lhe escape por um só segundo que seja.
Aplica-se neste texto o princípio moral: se a criatura é por si mesma complexa e perfeita, quanto mais o Criador que é bendito eternamente conforme Rm. 1:25 - "... pois trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador, que é bendito eternamente. Amém." Deus se basta a Si mesmo, não necessitando de nada que venha do homem ou de qualquer outra criatura. Deus, ao fazer qualquer concessão no universo, não perde absolutamente nada, porque Ele É. Assim, nenhum homem, por mais reto, íntegro, temente e que se desvie do mal, como era o caso de Jó, poderá exigir absolutamente nada d'Ele. Contrariamente, o homem deve proceder como aconselha Paulo em I Ts. 5:18 - "Em tudo dai graças; porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco." O cético, indaga, então, devemos dar graças mesmo nos momentos ruins? Sim, mesmo nos piores momentos, pois se alguém admite que Deus de fato é soberano, justo, amoroso, perfeito e tudo o mais, é perfeitamente admissível que Ele esteja controlando tudo e não apenas o que interessa ao homem decaído e absolutamente depravado em sua natureza.
Toda a fala de Deus nos últimos capítulos de Jó foi determinada pela arrogância deste em se achar merecedor de uma sorte melhor. Colocou-se na posição de vítima de Deus, impingindo injustiça aos atos d'Ele e justiça ao seu estilo de vida puramente religioso. Jó alegou, inclusive, que sua mente não o reprovava por nenhum dos seus dias conforme capítulo 27:6 - "À minha justiça me apegarei e não a largarei; o meu coração não reprova dia algum da minha vida." Entretanto, Deus em nenhum momento e sob nenhuma circunstância atribui a Jó justiça. Logo, ele falava de sua justiça própria. O conceito de justiça do homem é de caráter forense e não se aplica à Justiça de Deus que é, em suma, Cristo. Foi em Cristo que a injustiça do pecado foi anulada em sua morte de cruz e não em atos humanos.
Rm. 5:1 e 2 - "Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem obtivemos também nosso acesso pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e gloriemo-nos na esperança da glória de Deus." Justificados é uma classe gramatical que implica em um objeto que tornou-se justo pela ação de um sujeito que o justificou. Então, mediante a fé, que é dom de Deus, os eleitos são tornados justos em Cristo Jesus, porque apenas Ele é Justo. Ser Justo não é acidental, mas essencial, ou seja, Ele não tem apenas justiça, mas Ele mesmo é a Justiça. A partir desse ponto o eleito e regenerado obtém acesso pela fé à graça que o mantém na perseverança santa.



A Cristo, o Justo, Honra, Força e Majestade!

março 31, 2010

A SÍNDROME DE JÓ XXIII



Jó 40: 1 a 9 - "Disse mais o Senhor a Jó: contenderá contra o Todo-Poderoso o censurador? Quem assim argui a Deus, responda a estas coisas. Então Jó respondeu ao Senhor, e disse: eis que sou vil; que te responderia eu? Antes ponho a minha mão sobre a boca. Uma vez tenho falado, e não replicarei; ou ainda duas vezes, porém não prosseguirei. Então, do meio do redemoinho, o Senhor respondeu a Jó: cinge agora os teus lombos como homem; eu te perguntarei a ti, e tu me responderás. Farás tu vão também o meu juízo, ou me condenarás para te justificares a ti? Ou tens braço como Deus; ou podes trovejar com uma voz como a dele?" No capítulo 39, Deus continua no processo de iluminação da mente e do coração de Jó por confutação. Mostra-lhe a simplicidade das Suas ordenanças e da falta de conhecimento do homem decaído, por mais que seja reto, íntegro, temente e que se desvie do mal. É como afirma Benjamin Warfield em uma mensagem sobre a justificação pela fé: "As obras de um homem pecador serão, naturalmente, tão pecaminosas quanto ele é, e nada além da condenação pode ser construída sobre elas."Ele mostra que se o homem pecador pudesse construir sua própria justificação ela para nada serviria, pois tem a sua origem na natureza pecaminosa. Assim são os religiosos que se afirmam em seus sistemas de justiça própria por meio de comportamento ético e moral. Nada, por melhor que seja sociologicamente, que se origina de uma natureza defeituosa poderá ser perfeito.
Aos olhos de Deus o homem não-regenerado é apenas um resmungão e censurador. Ávido por justificar-se, torna-se contendedor, ou seja, que tenta arguir Deus com base em si mesmo e na percepção pessoal sobre a verdade. O procedimento do homem é sempre o mesmo, desde o Éden após a queda: para se afirmar na posição de autossuficiência  apresenta suas justiças próprias como moeda de troca. Deus, por seu lado, mostra ao homem que ele nada sabe sobre as determinações e ordenanças divinas, e, que, portanto, não pode arguir, contender ou reivindicar nada nestas condições. É necessário nascer do alto primeiro! E, mesmo depois do novo nascimento, o faz por meio de Cristo.
Após todo o processo de conscientização de Jó por meio dos argumentos de Deus, ele, então, recebe a graça da fé para reconhecer-se o que de fato era. Afirma por suas próprias palavras que era um homem vil e que a partir de agora não mais falaria, mas, antes, colocaria a mão sobre a boca para não repetir torpeza diante do Todo-Poderoso. Esta sim deveria ser a postura de todo homem diante de Deus. As Escrituras afirmam que na multidão de palavras há tolice!
Mediante a humilhação de Jó, Deus então o convida a se colocar na posição de homem, porque até então, ele havia se colocado na posição de "deus", acusando o Senhor de ter contra ele uma questão e de lhe ser injusto. Esta tem sido a posição de muitos homens, quer por palavras, quer por atos, quer por relação, quer por posição. Quando as coisas lhes são favoráveis, julgam que assim o são por mérito seus, quando desfavoráveis, julgam que são vítimas de um Deus cruel e sarcástico que se diverte as custas da desgraça humana. Reivindicam o direito de serem abençoados com base em meros comportamentos moral e ético. Comportamentos, estes, moldados e refinados com base em crenças, ritos, regras, normas, dogmas, preceitos, os quais Deus não requer de nenhum homem. O único quesito exigido por Ele é que o nome deste pecador esteja escrito no livro da vida do Cordeiro que foi morto antes da fundação do mundo conforme Ap. 13:8 - "... esses cujos nomes não estão escritos no livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo." Aqueles cujos nomes não estão arrolados no livro da vida, adorarão à besta que é a fiel representante de Satanás na Terra. Eles não têm parte e nem sorte na vida eterna como filhos de Aba. Esta é uma afirmação escriturística e não produzida pela vontade de quem quer que seja. Entretanto, a maioria dos homens não crê nas Escrituras como palavra de Deus, mas tão-somente como manual de religião.
O homem fora da regeneração, ou do nascimento do alto, se arvora de ser "deus" e ousa condenar o próprio Deus por exercer o seu direito de "Oleiro Eterno" sobre o barro conforme Rm. 9: 20 a 22 - "Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso? E que direis, se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição."
Sola Scriptura!
Solo Christus!
Sola Fide!
Sola Gratia!
Soli Deo Gloria!

março 28, 2010

A SÍNDROME DE JÓ XXII



Jó 38: 1 a 3 - "Depois disso o Senhor respondeu a Jó dum redemoinho, dizendo: quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento? Agora cinge os teus lombos, como homem; porque te perguntarei, e tu me responderás." Nos capítulos 36 e 37, Eliú, o mais moço, além dos três pretensos amigos de Jó, após o início do processo de tratamento dispensado a este por Deus, prossegue aquele em sua avaliação correta em relação à Deus, mas equivocada em relação a Jó. Ele teceu uma série de considerações moralmente corretas acerca de Deus e do seu eterno poder, mas não conseguiu ver que todas as ações d'Ele não eram causadas por conta de alguma má conduta de Jó, pois todo homem nasce pecador e Deus não trata os pecadores com base no que fazem, mas com base no que são por natureza. Ainda hoje os religiosos, especialmente os arminianos, confundem a natureza pecaminosa com os atos pecaminosos dela decorrentes.
A partir do capítulo 38, do livro de Jó, Deus interrompe os discursos humanos e toma a palavra para si, realizando o processo final de comunicação da verdade. Por extensão, tal processo é o mesmo a todos os eleitos ao longo dos tempos. O máximo que o homem decaído consegue com seus discursos, suas doutrinas, seus preceitos, suas normas e suas regras religiosas é obscurecer o conselho de Deus. Quando mais falam, menos entendem e conhecem. As palavras originadas em uma mente corrompida pelo pecado são, no mínimo, sem conhecimento. Não possuem luz do alto, mas apenas o saber humano ofuscado pela natureza pecaminosa que limita e escraviza a inteligência, a mente e o coração humano. Por isso, Paulo afirma em Rm. 1:22 - "Dizendo-se sábios, tornaram-se estultos..." Também em I Co. 1:25 - "Porque a loucura de Deus é mais sábia que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte que os homens." Entretanto, o orgulho e a soberba, especialmente a religiosa não permitem ao homem perceber estas verdades simples e cristalinas.
No capítulo 38, Deus tece uma série de indagações a Jó, para evidenciar o quanto ele estava distante de conhecer o verdadeiro soberano Senhor e dominador dos céus e da Terra. Mostra-lhe as leis naturais que foram postas para dar termo as coisas e fazê-las obedecer a vontade de Deus.
Nos versos 22 e 23 Deus faz profecia de acontecimentos reservados para o tempo do fim. Nos versos seguintes Ele transfere as indagações para o espaço sideral acerca das ordenanças do céu. Tudo isto para mostrar a Jó a sua infinita pequenez diante da grandiosidade da criação e das leis que a rege. A soberba humana decaída e separada da glória de Deus, não permite ao homem reconhecer, confessando estas verdades. Quando as reconhecem são meras declarações sem fé. Por esta razão é que Paulo mostra em Rm. 3:23 - "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus." A única maneira de ser restituído à glória de Deus é por meio do nascimento do alto conforme Jo. 3: 3 e 5 - "Respondeu-lhe Jesus: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Jesus respondeu: em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus." Entretanto, para nascer do alto, como está no original grego, é necessário crer que foi crucificado com Cristo e que com Ele ressuscitou. Quando cremos que morremos em Cristo, na Sua morte de cruz, significa que nosso pecado original foi destruído conforme Rm. 6:6 - "... sabendo isto, que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado fosse desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado." Igualmente, quando cremos que ressuscitamos juntamente com Ele, significa que ganhamos a sua vida eterna e abundante conforme Cl. 2: 13 - "... e a vós, quando estáveis mortos nos vossos delitos e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-nos todos os delitos."
A Cristo, pois, honra, força e majestade eternamente.
Sola Fide!

janeiro 30, 2010

A SÍNDROME DE JÓ XXI


Jó 35: 1 a 8 - "Disse mais Eliú: tens por direito dizeres: maior é a minha justiça do que a de Deus? Porque dizes: que me aproveita? Que proveito tenho mais do que se eu tivera pecado? Eu te darei respostas, a ti e aos teus amigos contigo. Atenta para os céus, e vê; e contempla o firmamento que é mais alto do que tu. Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás com isso? Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá ele da tua mão? A tua impiedade poderia fazer mal a outro tal como tu; e a tua justiça poderia aproveitar a um filho do homem." Esta é uma constatação real e válida para todos os tempos, a saber, tanto o pecado, como as justiças humanas não afetam a soberana pessoa de Deus. Elas causam, outrossim, resultados apenas aos próprios homens. Questões comportamentais estão na esfera horizontal, ou seja, no campo das relações sociológicas e não das teológicas. Entretanto, é natural que a pessoa regenerada tenha prazer em viver de modo digno, porém ela recebe isto de Deus por meio do processo da produção da semelhança de Cristo no nascido do alto. O que acontece comumente na religião é uma inversão: condicionam a moralidade à obtenção da salvação, ou de alguma vantagem material perante Deus. Observa-se, portanto, que em todas as religiões há uma enorme ênfase em reformar o homem moralmente. Tomam as transformações morais e éticas como evidências de regeneração espiritual. Porém, nestes casos, elas estão apenas no campo das mudanças psicológicas e sociológicas. Acrescenta-se que o querer ser bom sem ter sido regenerado é afronta espiritual contra a santidade e a justiça de Deus em Cristo. São aqueles que tentam se apoderar do reino à força como está escrito nos evangelhos. O homem que pretende ser bom sem Cristo desqualifica a sua obra na cruz.
É evidente pelo texto que abre este artigo, que a responsabilidade pelos atos pecaminosos é do homem. Entretanto, a concepção de Eliú é de que Deus não ouve os ímpios, porque estes não têm fé. Ora, os justos segundo as suas justiças próprias, não têm-na igualmente, porque a fé é dom de Deus. Obviamente a busca por justiça, retidão, integridade, temor e o desviar-se do que é mal é uma obrigação moral do homem. Entretanto, a sua natureza pecaminosa não o permite viver dessa forma todo o tempo. Por esta razão é que as justiças humanas foram reputadas como "panos podres de menstruação", porque isto é o que consta no texto original de Is. 64:6a - "Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia..."
O que se confunde no senso religioso comum é que o homem consiga mover a vontade de Deus em seu favor, por conta das suas justiças próprias. Porém, a natureza adâmica, velha natureza ou natureza decaída não o permite fazê-Lo inclinar-se para lhe conceder favores quaisquer. Ao contrário, as Escrituras dizem em Is. 59:2 - "Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça." Qualquer prática de virtudes e justiças são muito boas, mas não podem salvar o homem do seu estado de decadência e degenerescência. A única forma de solucionar este dilema é recebendo graça e fé conforme Ef. 2: 8 e 9 - "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie."
Então, o modelo proposto pelo homem não serve, porque a ação é monérgica, isto é, se inicia sempre e invariavelmente em Deus. A religião humana, por seu turno, sempre e invariavelmente tenta estabelecer uma ação sinérgica, isto é, focada no esforço humano. Muitos reconhecem que o Espírito Santo é quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo, mas dizem que o homem pecador, decaído e depravado espiritualmente coopera com o Ele neste processo. Logo, isto retira a plena veracidade das Escrituras que ensinam monergismo e não sinergismo. No mesmo texto de Efésios diz no verso 10: "porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas." Assim, os regenerados são o resultado da ação monérgica de Deus, porque foram feitos por Ele em Cristo, a saber, na inclusão em Sua morte e ressurreição; foram regenerados para realizar boas obras, e estas, foram preparadas por Deus para que os seus eleitos andassem nelas. Veja é exatamente o oposto do que postulam as religiões dominantes e predominantes no mundo cuja base é meritória.

Nos versos 14 a 16 é colocado que Jó poderia escolher o caminho da confiança em Deus, para obter perdão, ou rebeldia a fim de merecer mais castigo. Entretanto, é desconhecido pelo homem natural, ou mesmo religioso, que a confiança em Deus é produto da fé, e, esta é o meio para que a graça d'Ele opere o querer e o efetuar no pecador. Conclui-se, então, que não é a justiça de Deus que deve ser questionada ou testada, mas as falsas justiças humanas. Não é a escassez de bênçãos, ou a abundância delas que evidenciam, nem a ausência, nem o excesso do zelo de Deus. Em qualquer dos casos a ação de Deus é sempre justa, porque Ele é Justiça.

Sola Scriptura!

janeiro 10, 2010

A SÍNDROME DE JÓ XX


Jó 33: 1 a 3 - "Assim, na verdade, ó Jó, ouve as minhas razões, e dá ouvidos a todas as minhas palavras. Eis que já abri a minha boca; já falou a minha língua debaixo do meu paladar. As minhas razões provam a sinceridade do meu coração, e os meus lábios proferem o puro saber." Eliú, aquele outro amigo de Jó possuía uma retórica pomposa, rebuscada, porém redundante. Ele fala, basicamente, a mesma coisa todo o tempo. Insiste em afirmar e reafirmar os atributos de Deus, porém insiste também em imputar à causa do sofrimento de Jó, a um, ou diversos pecados por este cometidos e ocultados. Eliú era alguém mais chegado a Jó, porque é o único que o chama pelo nome, por isso, alguns intérpretes acreditam que ele seria um parente.
Por seu lado Jó reclamava o direito de se defender perante Deus, visto que o Todo-Poderoso o houvera alvejado em Sua ira. Jó desejava justificar-se com base em sua noção preceituada de justiça. Esta posição só dificultava as coisas para Jó, visto que a ação de Deus, neste caso, objetiva, por meio da dor, regenerá-lo e não julgá-lo por faltas ou atos pecaminosos. Isto é o óbvio, visto que o próprio Deus o declarara integro, reto, temente e abstêmio do que era mal. Muitos religiosos sofrem por anos a fio em suas crenças, porque não conseguem diferençar entre natureza pecaminosa e atos pecaminosos. Deus está, em princípio, preocupado em resolver o que o homem é, e não apenas, o que ele faz, porque como já foi dito, inumeráveis vezes, o que o homem faz é consequência do que ele é. No verso 9, Eliú traz à memória do seu amigo, as suas próprias afirmações que estava limpo, sem transgressão, e que era puro e sem iniquidade. Ora, o homem natural não existe com estes atributos reclamados por Jó, porque, o fato de não cometer determinados delitos, não implica em uma natureza sem pecado. O pecado original mantém dentro de qualquer homem, e, potencialmente, este possui a condição para cometer qualquer delito. Entretanto, em função dos freios culturais, uma pessoa pode atravessar toda a sua existência sem cometer certos deslizes. Isto não torna ninguém perfeito e merecedor do céu, como se supõe comumente nos círculos religiosos. Isto é claro em toda extensão das Escrituras, entretanto, evidencia-se em Rm. 3:23 -"Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus."
No verso 10, Jó chega ao cúmulo de acusar Deus de ter algum pretexto para prejudicá-lo. Acusa-o de tomá-lo por inimigo seu. Muitos religiosos excessivamente ciosos e zelosos dos seus deveres, quando caem em alguma desgraça afirmam a mesma coisa por outras letras: "o que fiz para merecer isto?", ou ainda, "em que errei para ser castigado?".
No capítulo 34, Eliú continua em sua defesa de Deus. De fato tudo quanto ele declara acerca d'Ele é verdadeiro, mas não respondia, e não aliviava o sofrimento de Jó, porque a operação do querer e do efetuar de Deus, no caso em tela, eram outras. A ação monérgica de Deus não se circunscreve a uma mera punição de um homem em função dos seus atos. Deus realizou em Jó a destruição do corpo do seu pecado original para gerar uma nova criatura. Jó tipifica o homem pecador, decaído e corrompido que busca desenvolver a sua salvação com base no que pratica e não com base no que Deus preordenara desde os tempos eternos conforme Rm. 8: 29 a 31 - "Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou. Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?" Ora, o que poderiam dizer os amigos de Jó para alterar estas realidades esplêndidas da eleição do Todo-Poderoso?
Eliú rememora as palavras de Jó contra Deus mais uma vez nos versos 5 e 6 do capítulo 34. Ele alega ser justo e que Deus o castigava duramente por mero capricho. É como se Deus fosse um sádico a se divertir com o sofrimento das suas criaturas. Esta é a visão de muitos homens ao longo da história. Jó se apega a um ordenamento jurídico constituído, validado e positivado por ele mesmo, porque, ao que se sabe, pelas Escrituras, homem algum pode postular direitos perante Deus, salvo tendo Cristo como mediador.
Sola Scriptura!

janeiro 08, 2010

A SÍNDROME DE JÓ IXX


Jó 32: 1 a 5 - "Então aqueles três homens cessaram de responder a Jó; porque era justo aos seus próprios olhos. E acendeu-se a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; contra Jó se acendeu a sua ira, porque se justificava a si mesmo, mais do que a Deus. Também a sua ira se acendeu contra os seus três amigos, porque, não achando que responder, todavia condenavam a Jó. Eliú, porém, esperou para falar a Jó, porquanto tinham mais idade do que ele. Vendo, pois, Eliú que já não havia resposta na boca daqueles três homens, a sua ira se acendeu." Na sequência de capítulos, ao chegar no 32, vê-se uma situação interessante: três acusadores legalistas e um acusado igualmente legalista em uma espécie de impasse. Três contra um e um contra três em arranjos diferenciados: ora os três amigos de Jó contra ele, ora um dos amigos de Jó contra os outros dois e contra o próprio Jó. Assim sucede, sempre que se coloca a centralidade no homem e na lei. Geram-se apenas imposições de vontades, preceitos, regras e normas puramente humanas.
Dois dos três amigos de Jó cessaram de replicá-lo, porque este se declarava justo aos seus próprios olhos. Jó ascendeu a sua ira contra os três amigos, porque o condenavam sem apresentar uma causa determinante ou eficiente do seu sofrimento. Um dos amigos de Jó, e que não pertencia à tríade de contestadores, se levantou contra ele, insistindo em aspectos lógicos da religião: o homem não pode ser castigado sem ter pecado contra Deus. Não conheciam de fato o que é soberania de Deus e a diferença entre pecado e pecados.
Eliú, preso às formalidades culturais do seu tempo falou por último. Prolixo, pois gasta a maior parte da sua fala em apresentar aquilo que pretendia dizer. Todavia, no conteúdo em si, nada de novo acrescentara ao que todos já houvera dito. De certa forma, Eliú estava mesmo interessado em apresentar a validade do seu direito à fala. Ele atribuiu à avançada idade dos amigos, a razão da incompetência deles em levar Jó ao reconhecimento do seu erro, ou pecado. Assim, pretendia Eliú sobressair-se como o grande convencedor do amigo Jó, como se fora a virtude de Deus na Terra.
Ainda que com base na tradição oral, Eliú reconhece que o espírito que vive no homem foi o resultado do sopro do Todo-Poderoso. Isto é verdade conforme Gn. 2:7 - "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida; e o homem foi feito alma vivente." As palavras hebraicas para "...fôlego de vida" significam de fato: "fôlego das vidas", referindo-se à alma e ao espírito. Porém, faltou conhecimento ou luz para mostrar-lhe que este espírito está morto para Deus, por conta do pecado. É verdade também que Eliú reconhece que a sabedoria é um dom de Deus e não das elaborações humanas.
Eliú agiu como todos os religiosos ao longo dos tempos: julga que o falar é mais imperioso do que buscar o significado da real soberana vontade de Deus para com Jó. O foco do seu discurso irado continua sendo jogado sobre o homem e suas práticas. Ainda que teça uma elegante e profunda peça de retórica em nome de Deus, isto não é necessariamente o conhecimento de Deus. Ele, em sua ira, demonstra tremendo orgulho espiritual e promove auto-exaltação. Para ele era imperioso que Jó reconhecesse que merecia o castigo. Eliú prometeu argumentos repletos de novidades, superioridade e loquacidade. Todavia, nada disso se vê em sua fala. Ele reproduz o mesmo modelo produzido pela crença comum, pela religião dominante e pela natureza presunçosa de conhecer os desígnios de Deus para a vida dos outros.
Eliú desejava tão-somente desabafar a sua opinião conforme suas próprias palavras no verso 20. Se encheu de dureza e se afastou das lisonjas comuns em negociações inter-humanas. Todavia, age como muitos líderes religiosos em nome de Deus, e de Jesus, mas que, no fundo, agem em seus próprios nomes decaídos e corrompidos pela natureza pecaminosa que não morreu na cruz com Cristo, e, muito menos, com Ele ressuscitou ao terceiro dia pela fé.
Sola Fide!

janeiro 03, 2010

A SÍNDROME DE JÓ XVIII


Jó 31: 1 a 4 - "Fiz aliança com os meus olhos; como, pois, os fixaria numa virgem? Que porção teria eu do Deus lá de cima, ou que herança do Todo-Poderoso desde as alturas? Porventura não é a perdição para o perverso, o desastre para os que praticam iniquidade? Ou não vê ele os meus caminhos, e não conta todos os meus passos?" No capítulo 30 Jó se põe a lamentar as suas misérias, demonstrando uma enorme preocupação com a opinião dos outros homens. Esta é uma constante na vida do religioso não regenerado. Há uma grande preocupação com a aparência exterior, com a ética comportamental ou situacional. É como se a espiritualidade fosse algo produzido pelo comportamento moral do homem. Não é assim que ensinam as Escrituras. Elas doutrinam que a moralidade e a ética surgem como consequência da ação de Deus no homem. Quando se inverte esta realidade, se é que se inverte, coloca-se o foco no homem e não em Deus por meio de Cristo. Isto é heresia e falta de temor diante da justiça eterna executada na cruz.
No capítulo 31, Jó condiciona a ação de Deus à sua integridade e retidão, apresentando suas excelsas qualidades como credenciais a uma boa resposta d'Ele. Não são nossas alianças que nos garantem uma boa relação e uma boa posição perante Deus, mas as Suas misericórdias e a Sua graça. Jó vê Deus como "o Deus lá de cima", e não como um Deus pessoal e presente; define Deus, como o "Todo-Poderoso desde as alturas" e não o Deus cuja glória enche os céus e a Terra; vê a salvação em termos das ações humanas com base na prática do bem e do mal, sendo estes subprodutos da natureza humana, porém se esquece que esta é decaída e corrompida.
O culto racional a que alude Paulo em Rm. 12:1 é o culto resultante da geração de uma nova criatura, produzindo como consequência uma vida voltada à plena vontade de Deus. É a razão humana regenerada, a qual se volta para agradar ao Criador como consequência do fato de que é nova criatura conforme II Co. 5:17 - "Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo." A novidade de vida vem, porque alguém está em Cristo e não que ele esteja em alguém, por este apresentar novidade de vida. Isto não é possível, porque o homem decaído não pode produzir sua própria regeneração. Ele não é salvador de si mesmo, pois isto anularia a graça de Deus manifestada em Cristo e na Sua morte de cruz. As coisas velhas já se foram e tudo se faz novo diante dos olhos de Deus, porque Ele vê a nova criatura em Cristo Seu Filho Unigênito e Primogênito dentre os mortos. O grande erro do religioso é achar que seu bom comportamento moral, sua ética, suas justiças próprias e seus supostos méritos convencem a Deus a lhes ser inclinado ou favorável. Ao contrário é a condição de novidade de vida no nascimento ou geração do alto que torna o pecador decaído aceitável perante Deus.
Pela última vez Jó declara a sua integridade no capítulo 31, fazendo um discurso dialético, no qual confronta as suas justiças e boas práticas com o estado de calamidade a que estava submetido. Jó alega a sua absoluta inocência, porém creditou-a às coisas, fatos, comportamentos, moralidade e ética. Deus realizava uma ação espiritual, porém Jó via apenas ações exteriores, ética situacional e comportamento relacional. Deus está extirpando a natureza pecaminosa residente e persistente em Jó, mas ele insiste em que é reto, íntegro, temente e afasta-se do que é mal. Jó não era pecador, porque cometia atos pecaminosos, mas porque todo homem já nasce pecador por natureza e herança adâmica conforme Rm. 5:12 - "Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso, que todos pecaram." Veja, o texto fala que entrou o pecado, e não os pecados. Isto significa algo para você? Se não pode começar a pedir a sabedoria do alto! O pecado como um princípio ou natureza dominante no homem é uma questão de DNA e não apenas de atos e atitudes ruins.
Não haveria necessidade de Jó declarar e alegar a sua integridade perante Deus, pois Ele próprio já declarara isto nos capítulos 1 e 2 perante os anjos e perante Satanás que ele era reto, íntegro, temente e desviava-se do mal. Então fica evidente que não são estes comportamentos e culto exterior que regeneram o pecador.
Tal como Jó, o homem religioso, e que não passou pelo nascimento do alto reivindica tudo diante de Deus com base no que faz e não com base no que é por natureza. Neste sentido a religião humana nada mais é que uma moeda de troca e uma mercadoria de escambo. Deus não está nisso!
Sola Gratia!
Sola Fide!