terça-feira, 14 de julho de 2015

QUANDO O QUERER É OPERADO POR DEUS

Lc. 9: 22 a 24 - "... e disse-lhes: é necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, que seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e escribas, que seja morto, e que ao terceiro dia ressuscite. Em seguida dizia a todos: se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará."
É comum ouvir um adágio popular que diz: "querer é poder." Tal assertiva parte da concepção humana que o esforço é recompensado pelo ganho. É o famigerado 'no pain, no gain." Neste sentido, de fato, isto se cumpre muitas vezes. O sistema que controla a sociedade exige de cada um o emprego do esforço para dominar, controlar e tirar proveito pessoal do mundo. É uma sociedade espartana, na qual apenas os merecedores são recompensados. Quase tudo é fundamentado no desempenho e na recompensa. Entretanto, tal lei dominante gera muitos conflitos pessoais e interpessoais, porque os esforços e os desempenhos nunca ocorrem sem ferir valores e princípios naturais e morais. Para que se consiga um exímio desempenho passa-se por cima de si mesmo e de terceiros, causando um grande estrago físico e mental. 
A maior parte dos religiosos adota o princípio mundano do desempenho para mensurar a presumida espiritualidade. Acreditam que, para merecer a graça de Deus é necessário desempenhar um grande esforço. Para tanto, produzem uma espécie de teologia paralela. Quase todos já ouviram a máxima tida como bíblica que diz: "faça a tua parte que eu te ajudarei". Ou ainda, "Deus ajuda a quem cedo madruga." Primeiro, quem não nasceu do alto, não pode falar em espiritualidade, porque esta é a consequência natural da morte em Cristo e da consequente ressurreição juntamente com ele. A maioria das pessoas simples ou letradas confunde questões almáticas com espiritualidade. O homem que não experimentou o novo nascimento, permanece com o seu espírito morto para Deus. Isto nada tem a ver com pertencer ou não a uma religião. É um princípio e não um sistema de crenças. Muitos, são iludidos e enganados por um sistema teológico que os induz à ação desmedida para conseguir algum progresso material ou espiritual. Em muitos casos não conseguem, nem um, nem o outro. O reino de Deus é essencialmente monérgico, a saber, é operado e operacionalizado exclusivamente pela vontade soberana d'Ele. Não é a criatura que determina o agir de Deus, mas ele é quem determina o que acontece ou deixa de acontecer no universo. As ações humanas em seu conjunto são denominadas de sinergismo. Isto indica o conjunto dos esforços humanos e humanistas acrescentados à ação divina para alcançar algum benefício, seja nesta ou na outra vida. As Escrituras não ensinam nada disso! As ações humanas são legítimas e necessárias para a vida em sociedade, mas não para fins espirituais.
O texto que abre esta instância é um diálogo entre Jesus, o Cristo e seus discípulos já muito próximo da sua morte. Cristo revela aos seus seguidores que ele não veio para ser o rei de Israel e para libertar os judeus do domínio de Roma. Contrariamente às expectativas dos judeus daquele quadrante da História, ele afirma que iria padecer muitas coisas, iria ser rejeitado pelas autoridades religiosas e, finalmente, seria morto. Após este relato decepcionante para ouvidos treinados em uma dialética de esforço e recompensa, isto era algo estarrecedor. Tanto lá isto é verdade que, Pedro, logo se apressou em convencer o Mestre a desistir deste destino funesto.
Na sequência, Jesus, o Cristo acrescenta que, "se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me."  Aqui está o nó a ser desatado. O religioso arminiano, treinado que é para aceitar que tudo se consegue na lei do esforço, diz: "veja, o pecador tem de querer ir após Cristo, tem de negar a si mesmo, tem de tomar a cruz e tem de segui-lo." Entretanto, o nascido do alto, iluminado que é pela revelação diz: "a vontade do homem é contaminada pela natureza pecaminosa e invariavelmente não tem vontade de ir após Cristo, não nega-se a si mesmo, não toma a cruz e não o segue espontaneamente." A fala de Cristo aos discípulos indica três fatos: padecer muitas coisas, ser rejeitado, morrer e ressuscitar. Desta forma, quando ele enumera o ir após ele, negar-se a si mesmo, tomar a própria cruz e segui-lo, está absolutamente condicionado ao padecer muitas coisas, ser rejeitado, morrer e ressuscitar. O religioso arminiano sempre vê apenas uma parte da verdade. 
Na verdade a ação baseada no desempenho sem o nascimento do alto produz apenas morte sem ressurreição. O texto mostra que: "pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á." Isto porque, ao agir sinergisticamente, o religioso nega a eficiência e a eficácia da justificação na morte de Cristo. Apresenta uma alternativa centrada no próprio pecador e sua justiça própria. Assim, substitui a justiça de Deus em Cristo pela justiça humana contaminada. Contrariamente, o texto mostra que: "... mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará." Visto que o homem ama a Cristo, porque foi primeiramente amado por ele, logo, quem está operando a justificação é Deus. Trata-se, portanto, da ação monérgica no processo de redenção do pecador. Aquele que perde a vida na morte de Cristo, este a terá renascida pela ressurreição do Filho Unigênito de Deus. 
Rm. 3:10 e 11 - "... como está escrito: não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus." Esta é a resposta bíblica ao arminianismo e não uma divergência teológica. Não havendo um homem que seja justo, que entenda a verdade, que busque a Deus, como alguém poderia inclinar-se para Ele? As pessoas confundem espiritualidade com religiosidade. O homem natural não se inclina para Deus, não pode praticar atos de justiça que tenha valor espiritual, não nega-se a si mesmo, e não segue a Cristo, porque isto implica em reconhecer-se portador da natureza pecaminosa. Ninguém é capaz de tomar a sua própria cruz e seguir a Cristo voluntariamente. É neste ponto que entra o querer operado por Deus conforme Fl. 2:13 - "... porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade." Desta maneira, é Deus quem opera, tanto o querer, como o efetuar na vontade do homem. Isto ocorre, porque ele é gracioso e misericordioso para com os eleitos. Então, se alguém quer ir após Cristo padecer muitas coisas, ser rejeitado pela sociedade, assumir a cruz como um caminho a ser trilhado, e não como um símbolo religioso, seguir a Cristo, é necessário nascer do alto. O novo nascimento não é uma frase de efeito ou um discurso retórico. É antes, um ato único colocado em um momento histórico e eterno no tempo. Todos os que creram que o Salvador viria e os justificaria, antes da sua vinda, foram salvos. Todos os que creem que o Salvador já veio e os incluiu na sua morte de cruz, são justificados n'Ele. A cruz é a convergência e a centralidade da fé, tanto para os que viveram antes, como para os que viveram, vivem e viverão depois de Jesus, o Cristo. Portanto, quer creia, quer não creia "... mas Cristo é tudo em todos." É ele a centralidade e para ele convergem todas as coisas, quer na Terra, quer no céu. A maior obra satânica é criar alternativas para o pecador ser redimido fora de Cristo.
Muitos religiosos falam em novo nascimento, mas não admitem a inclusão do pecador na morte de Cristo. Portanto a fé deles é vã e puramente horizontalizada e humanizada, porque admitem apenas parte da verdade. Não possui valor espiritual algum.
Sola Fides!

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