agosto 09, 2009

ESPÍRITOS ENGANADORES E RELIGIÕES ENGANADAS I


I Co. 12:10 - "E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas." Em meio a lista dos dons concedidos à Igreja, aparece o de discernir os espíritos. De todos os dons este é um dos menos confessados e praticados. Entretanto é de fundamental importância, visto que é por ele que se sabe de onde provêm os ensinos ou a doutrina.
Há no universo três naturezas de espíritos: o Espírito Santo de Deus, o espírito no homem, e o espírito do Maligno. O espírito no homem foi soprado juntamente com a alma e, por esta razão é que o texto original fala: "...e formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego das vidas; e o homem foi feito alma vivente." [Gn. 2:7]. O corpo físico foi formado do pó da terra, por isso, o primeiro homem foi chamado Adão, que provém de Adamah, ou seja, barro vermelho. Quando diz "soprou em suas narinas o fôlego da vida", no texto original fala, "fôlego das vidas" [heb. nishmat hayim] no plural de destaque, pois é uma dupla referência à vida do espírito e à vida da alma. A vida da alma está no sangue conforme Lv. 17:11 e 14 - "Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação pela alma. Pois, quanto à vida de toda a carne, o seu sangue é uma e a mesma coisa com a sua vida" Esta é a razão, porque o sangue do Cordeiro imolado antes da fundação do mundo é que justifica o pecador, pois é a alma ou a carnalidade que está contaminada pelo pecado e pelos atos pecaminosos. O espírito no homem foi proveniente de Deus, e, a ele retorna conforme Ec. 12:7 - "E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu." O espírito colocado no homem no dia em que este foi feito, está morto por causa do pecado. Morto no sentido em que aparece nas Escrituras, relativamente a este ponto, significa separado, desligado ou destituído. Por isso, o espírito no homem pode ligar-se, tanto ao espírito de Deus, quando regenerado, como também a Satanás quando em estado de pecaminosidade. É destas ligações que surgem, tanto a adoração verdadeira, como a adoração ao Diabo e aos demônios.
I Jo. 4:1 - "Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo." A instrução do apóstolo João é que não se deve dar crédito, ou seja, atribuir fé e verdade a todo espírito. Há a necessidade de verificar se os espíritos são ou não oriundos de Deus. Esta é uma referência aos espíritos ensinadores ou doutrinadores por meio de pessoas. Isto não é uma referência à incorporação de espíritos, mas apenas à inspiração daquilo que se prega como evangelho. O profeta poderá ter uma mensagem procedente do Espírito Santo, ou procedente do espírito do Maligno. A forma de diferenciá-las é no tocante ao conteúdo da doutrina, ou seja, de quem fala, e como fala em relação ao sujeito da sua comunicação. A primeira característica da ação do espírito do Maligno é a exaltação ou a centralidade no homem. Quando o foco for no homem e não na cruz, o espírito inspirador não provém de Deus.
O apóstolo João dá a senha sobre este assunto da seguinte maneira: "Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do Anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já está no mundo." Primeiramente o espírito daquele que fala ou prega a mensagem deve confessar que Jesus Cristo veio como homem histórico, mas também como o Filho Unigênito de Deus. Confessar é um verbo, que, em seu étimo, traz a noção de "com fé", e a fé é dom de Deus. Portanto, só confessa o indivíduo que está sob o controle de Deus. Os falsos pregadores, ensinadores ou doutrinadores que não se enquadram nesta categoria, apenas fazem declarações. Eles não podem confessar, porque não possuem fé oriunda de Deus. São apenas crendices! A necessidade de confessar que Jesus Cristo é Homem-Deus, persiste no sentido em que a Sua morte foi substitutiva e também inclusiva. O Jesus, homem histórico, substituiu o homem de todos os tempos, mas o Cristo eterno, substituiu o espírito decaído e corrompido pelo pecado. Assim, a morte vicária de Cristo é completa, na medida em que substitui o homem plenamente e o inclui na mesma morte para, na ressurreição, comunicar a vida eterna ao regenerado. Desta forma, quando Cristo morre na cruz o pecador está n'Ele para ter o corpo do seu pecado destruído conforme Rm. 6:6, mas quando ressuscita, é Cristo no regenerado para lhe dar a vida Zoé, ou seja, vida espiritual e eterna conforme Ef. 2:5.

agosto 08, 2009

GRAÇA E DEPENDÊNCIA PLENA DE DEUS X


II Co. 12:9 - "E disse-me: a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo." A graça de Deus é o reflexo da Sua absoluteidade na medida em que ela não sofre restrição na fraqueza humana. Precisamente quando o homem se vê e se reconhece fraco em seu próprio eu é que a graça é poderosa nele. É como o apóstolo tardio afirma em II Co. 4:7 - "Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós." Esta é, portanto, a plenitude da graça de Deus no regenerado: quando ele se apercebe de que poder é um atributo exclusivo da soberania divina. Neste ponto é que o eleito de Deus se reconhece no barro e na fragilidade deste elemento. É o conteúdo do vaso que é o tesouro excelente e não o vaso. Ainda o mesmo apóstolo dos gentios afirma em Rm. 9:21 - "Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?" O inusitado é que a graça se manifesta, tanto no vaso para honra, quanto no vaso para desonra.
É da lavra do apóstolo Paulo, a não menos solene afirmação, "porque quando estou fraco, então é que sou forte." Este é o aparente paradoxo dos que conhecem a graça e a dependência plena de Deus. São fortes, precisamente quando são fracos, pois é na fraqueza deles que a Vida de Cristo fica realçada. Ainda que haja manifestação de poder nos fracos de Deus, tal poder não é deles, mas de Cristo. A graça atua exatamente no terreno desprovido de arrimos para que a justiça d'Ele seja manifesta diante dos homens e dos anjos. Este é o sentido real de testemunho, que, no texto sacro significa martírio. O regenerado é um mártir pelo amor de Cristo e não por amor a Cristo. O eleito ama a Cristo, tão somente, porque foi primeiramente por Ele amado. Nisto consiste o aspecto mais profundo da graça e do verdadeiro amor de Deus.
Rm. 11:5 - "Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça." Vê-se que até mesmo a permanência dos eleitos neste mundo é uma operação graciosa do Eterno Oleiro que detém o direito soberano sobre o barro. Este é o aspecto pelo qual as religiões se tornam desqulificadas diante do trono do Altíssimo. Elas promovem bastardos e não filhos; inchados e não fracos; semideuses e não homens humilhados em seu pecado; pecadores com "Síndrome de Lúcifer" e não regenerados peregrinos neste mundo, na esperança do mundo vindouro.
A Ele, Cristo, pois, toda honra e toda glória e majestade eternamente.

GRAÇA E DEPENDÊNCIA PLENA DE DEUS IX


Rm. 12:3 - "Porque pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não tenha de si mesmo mais alto conceito do que convém; mas que pense de si sobriamente, conforme a medida da fé que Deus, repartiu a cada um." A graça é, em geral, o dom de Deus mais desejado, porém o mais mal compreendido. Porque, de um lado é desejada apenas como uma maneira de obter ganhos sob a chancela de Deus. Por outro lado, é uma realidade que coloca o homem diante do seu maior dilema: reconhecer-se incompetente e dependente sem reservas e sem méritos. A questão toda se prende ao fato que, o homem após a sua degenerescência, deseja ser, ele mesmo, uma espécie de 'deus' autoproclamado. O pecador sempre pensa de si mesmo além do que de fato é. Nunca pensa de si tomando por medida a fé repartida por Deus. Como pensa de si mesmo com base em um sistema de fé humanizada e contaminada pela exacerbada autoavaliação, o conceito de graça fica prejudicado. Isto ocorre porque, estando o seu espírito mortificado para Deus, a alma procura gratificar-se. 
Primeiramente a graça é uma dádiva que provém de Deus e não uma virtude originados nos atos e nas atitudes humanas. Jamais a graça poderá ser consequência das ações meritórias e humanas. Isto desqualifica absoluta e totalmente o conceito divino de graça revelado nas Escrituras. O pecado é uma deformação da fé, visto que é incredulidade conforme Jo. 16:9 - "... do pecado, porque não creem em mim." De fato, este foi o pecado do primeiro ancestral, Adão, visto ter ele dado crédito à palavra do adversário, e não à palavra de Deus. Esta, portanto, a razão porque o homem sem passar pela cruz não é capaz de receber a graça como dom de Deus, mas apenas como um pagamento divino em função dos seus méritos. A sua incredulidade o ofusca! Ele condiciona a graça à sua justiça própria, porque não possui fé recebida de Deus, mas apenas uma espécie de crendice em seus próprios esforços. Neste sentido sempre desenvolverá uma concepção de graça com base na medida da visão que possui de si mesmo.
Para o homem não regenerado por inclusão na morte de Cristo, a graça é desconcertante, precisamente porque retira-lhe o tapete vermelho dos merecimentos. Ela requer que Cristo seja tudo e o homem seja nada. Ela requer que Cristo cresça e que o homem diminua. Ela requer que Cristo seja o Rei e o homem seja o mendigo. Ela requer que Cristo seja redentor e o homem o redimido. Ela requer que Cristo seja o justificador e o homem o justificado sem mérito algum. Entretanto, este homem contaminado pela natureza pecaminosa requer participação ativa em todos os processos da salvação, para que, em sua arrogância possa atribuir a si mesmo, a responsabilidade de sua própria redenção. Neste caso, Cristo não é o seu salvador, não é o seu justificador, não é o seu rei, não é o seu senhor, não é o seu soberano, não é gracioso para com os desgraçados, não é absoluto. Este tem sido o mote de Satanás, desde o Éden, retirar a autoridade de Cristo.
Solo Christus!
Soli Deo Gloria!

agosto 02, 2009

GRAÇA E DEPENDÊNCIA PLENA DE DEUS VIII


I Rs. 17: 4 e 6 - "E há de ser que beberás do ribeiro; e eu tenho ordenado aos corvos que ali te sustentem. E os corvos lhe traziam pão e carne pela manhã; como também pão e carne à noite; e bebia do ribeiro." Em alguns segmentos religiosos, quando alguém se acha pressionado por dívidas, doenças e desespero, imediatamente faz uma promessa. Segundo esta crendice, sendo a graça alcançada, paga-se a promessa ou o voto. Bem, primeiramente demonstra-se profunda falta de fé genuína, pois Deus dá dons e bênçãos sem nada exigir em troca. Secundariamente, não se trata de graça no sentido bíblico, pois se foi condicionada ao cumprimento de algum tipo de esforço em troca já não é mais graça, mas uma negociata.
O profeta Elias acabara de se envolver em um confronto de natureza espiritual contra o rei Acabe e sua iníqua mulher Jesabel. Por causa da idolatria e maldade destes governantes, Deus resolvera cessar a chuva e trazer disciplina àquela região. Então, para proteção do profeta Deus ordenou ao mesmo que se retirasse para o oriente e ali habitasse, sendo dessedentado pelas águas do ribeiro de Querite e os corvos o alimentariam com pão e carne duas vezes ao dia. Assim, o profeta Elias se retirou para aquele lugar crendo na Palavra de Deus e não nas possibilidades circunstanciais. Ficou ali até que o ribeiro secou, então, recebeu nova ordem para se retirar para Sarepta, em Sidon, no que é hoje o Líbano. Ali Deus ordenarara a uma viúva que tinha apenas um filho, um punhado de farinha e um fundo de botija sujo de azeite. Esta era toda a provisão da mulher que Deus escolhera para sustentar o profeta. Esta palavra mostra o que de fato é graça, como dom de Deus, e o que é dependência plena do que a Palavra d'Ele diz e não o que os olhos e sentidos humanos podem perceber e aperceber. Este é o padrão de fé verdadeiramente bíblico, pois não é ver para crer, mas crer para ver.
Nos versos 14 a 16 diz: "porque assim diz o Senhor Deus de Israel: a farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não faltará até ao dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra. E ela foi e fez conforme a palavra de Elias; e assim comeu ela, e ele, e a sua casa muitos dias. Da panela a farinha não se acabou, e da botija o azeite não faltou; conforme a palavra do Senhor, que ele falara pelo ministério de Elias." Dependeram exclusivamente da Palavra de Deus e não das possibilidades naturais e sensoriais. É este padrão de fé que não se vê nos tempos atuais, nem mesmo entre os mais "fervorosos" crentes que propalam aos quatro ventos do mundo a sua suposta fé. O homem em seu estado decaído não pode crer por conta própria, e, por isso, não recebe a graça plena de Deus. A religião, no máximo, produz crendice e dependência nos esforços com base na justiça própria e nos méritos humanos.
Sola Fide!
Sola Scriptura!

GRAÇA E DEPENDÊNCIA PLENA DE DEUS VII


I Sm. 2: 6 a 9 - "O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela. O Senhor empobrece e enriquece; abaixa e também exalta. Levanta o pobre do pó, e desde o monturo exalta o necessitado, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono de glória; porque do Senhor são os alicerces da terra, e assentou sobre eles o mundo. Os pés dos seus santos guardará, porém os ímpios ficarão mudos nas trevas; porque o homem não prevalecerá pela força." O mundo entregue aos sistemas religiosos, com base em suas crenças humanistas, filosóficas, sociológicas não aceita as Escrituras como válidas, porque elas veem para desmontar toda uma tese de autoendeusamento do homem. Quando alguém concorda com o fato que Deus é soberano, geralmente, o faz por tradição, por retórica, ou mesmo para ser aceito como uma pessoa engajada aos costumes e valores supostamente cristãos. No geral os homens, especialmente, aqueles que professam religiões, não confessam as coisas que estão escritas no texto que abre este artigo. Quando o fazem, fazem-no como mera declaração e não como confissão que expressa a real fé obtida de Deus no nascimento espiritual.
O conteúdo do retromencionado texto é essencialmente baseado na graça, a qual procede da misericórdia divina; foi Deus quem levou o Seu Filho Unigênito à cruz, para nela, tirar a Sua vida, para que, no terceiro dia trazê-la de volta na ressurreição; foi Deus quem empobreceu o Seu Unigênito Filho, fazendo-o descer ao mundo desprovido de Sua Deidade, conformando-o à condição humana, para depois exaltá-lo elevando-o à destra do seu sublime trono; é Deus quem realiza, tanto o querer, como o efetuar segundo a Sua santa vontade. Esta é, portanto, a dimensão e a abrangência da soberania d'Ele. O homem, por mais reto, íntegro, temente e que se desvie do mal, não pode alterar a morte, a miséria, a pobreza, e o pecado por si mesmo.
Tudo o que existe no universo é regido pela soberna e monérgica graça de Deus, recebendo isto ou não o homem. Porque, independentemente, das ilações e injunções humanas com base em seus sistemas contaminados pelo pecado, Deus permanece o mesmo, ontem, hoje e eternamente. Esta é a razão de o pecador não ser consumido e extinguido da face da Terra. As misericórdias de Deus se renovam a cada manhã, precisamente, porque a natureza pecaminosa no homem é abundante na produção de atos pecaminosos. Por esta mesma razão é que o nascido de Deus leva o morrer diário de Cristo. Ele foi crucificado com Cristo para destruição do corpo do pecado, para dar fim à natureza do primeiro Adão. A natureza adâmica foi incluída na morte de Cristo para retirar o primeiro homem e ganhar a natureza do segundo, pois aquele é terreno, enquanto este é celeste. Para Cristo todas as coisas se convergem, porque Ele é tudo em todos os eleitos. Por fim, Cristo pessoalmente restaurará todas as coisas e o universo voltará ao supremo propósito do Pai, o qual deseja formar para si uma família. Esta é, portanto, a extensão da graça de Deus: trazer à vida abundante, o homem que estava morto em delitos e pecados; enriquecer espiritualmente o homem necessitado e pobre de espírito; criar no homem feito do pó, não só a imagem, mas também a semelhança de Cristo; tornar o homem destituído da glória de Deus, co-herdeiro da glória junto ao trono do Grande Rei; guardará os pés dos seus eleitos e regenerados para sempre e eternamente.
Sola Gratia!

agosto 01, 2009

GRAÇA E DEPENDÊNCIA PLENA DE DEUS VI


II Sm. 4:4 e 9:1 a 13 - "E Jônatas, filho de Saul, tinha um filho aleijado de ambos os pés; era da idade de cinco anos quando as novas de Saul e Jônatas vieram de Jizreel, e sua ama o tomou, e fugiu; e sucedeu que, apressando-se ela a fugir, ele caiu, e ficou coxo; e o seu nome era Mefibosete. E disse Davi: há ainda alguém que tenha ficado da casa de Saul, para que lhe faça benevolência por amor de Jônatas? E havia um servo na casa de Saul cujo nome era Ziba; e o chamaram à presença de Davi. Disse-lhe o rei: és tu Ziba? E ele disse: servo teu. E disse o rei: não há ainda alguém da casa de Saul para que eu use com ele da benevolência de Deus? Então disse Ziba ao rei: ainda há um filho de Jônatas, aleijado de ambos os pés. E disse-lhe o rei: onde está? E disse Ziba ao rei: eis que está em casa de Maquir, filho de Amiel, em Lo-Debar. Então mandou o rei Davi, e o tomou da casa de Maquir, filho de Amiel, de Lo-Debar. E Mefibosete, filho de Jônatas, o filho de Saul, veio a Davi, e se prostrou com o rosto por terra e inclinou-se; e disse Davi: Mefibosete! E ele disse: eis aqui teu servo. E disse-lhe Davi: não temas, porque decerto usarei contigo de benevolência por amor de Jônatas, teu pai, e te restituirei todas as terras de Saul, teu pai, e tu sempre comerás pão à minha mesa. Então se inclinou, e disse: quem é teu servo, para teres olhado para um cão morto tal como eu? Então chamou Davi a Ziba, moço de Saul, e disse-lhe: tudo o que pertencia a Saul, e a toda a sua casa, tenho dado ao filho de teu senhor. Trabalhar-lhe-ás, pois, a terra, tu e teus filhos, e teus servos, e recolherás os frutos, para que o filho de teu senhor tenha pão para comer; mas Mefibosete, filho de teu senhor, sempre comerá pão à minha mesa. E tinha Ziba quinze filhos e vinte servos. E disse Ziba ao rei: conforme a tudo quanto meu senhor, o rei, manda a seu servo, assim fará teu servo. Quanto a Mefibosete, disse o rei, comerá à minha mesa como um dos filhos do rei. E tinha Mefibosete um filho pequeno, cujo nome era Mica; e todos quantos moravam em casa de Ziba eram servos de Mefibosete. Morava, pois, Mefibosete em Jerusalém, porquanto sempre comia à mesa do rei, e era coxo de ambos os pés."
Comumente nos círculos religiosos, especialmente, os de cunho arminiano, quando se fala de graça, nunca é plena e conforme as Escrituras. Sempre adicionam os esforços humanos para dar-lhe mais brilho e falsa espiritualidade. Ora, qualquer ato ou atitude as quais dependem de esforços, já não é graça no sentido escriturístico desta. Se a graça é um dom da exclusiva competência de Deus, logo, não pode haver de forma alguma a participação ativa do homem na sua consecução. É fundamental entender a diferença entre graça e barganha!
É notório, todavia, que a graça de Deus seja invariavelmente destinada aos desgraçados, desvalidos, deserdados pela sociedade, recriminado pelos valores positivos de uma civilização imediatista. É precisamente isto que torna a graça um ato soberano e monérgico, pois se o objeto dela pudesse ser digno de recebê-la, certamente esta não seria dom, mas uma mera recompensa ou salário.
A forma que o mundo, especialmente, o mundo religioso recebe a graça é, no mínimo, curiosa, pois veem-na apenas como um benefício do qual se pode obter alguma ou muitas vantagens segundo a vontade e o interesse do homem. É como algo que lhe chega como resultante da sua dedicação, fidelidade, tempo de banco de igreja, tempo de oração, jejum e serviços à igreja. Esta é uma modalidade de graça resultante da teologia elaborada pela mente humana absolutamente fora do que preconizam as Escrituras.
O texto que vem de ser lido na abertura deste artigo, coloca as coisas no seu devido lugar em matéria de graça bíblicamente ensinada. Mefibosete cujo nome significa vergonha destruidora era o filho de Jônatas, e neto do rei Saul, ambos mortos. Tornou-se aleijado de ambos os pés aos cinco anos, quando da fuga de sua babá, por ocasião da notícia da derrota e morte do seu pai e do seu avô em batalha. Mefibosete é o tipo do homem em sua queda e restauração diante da santidade de Deus. Em toda extensão das Escrituras se vê o uso de tipos e símbolos. Este é apenas mais um utilizado na doutrina da verdade bíblica.
Vinte anos depois, quando já não se ouvia falar mais em Saul ou quaisquer dos seus descendentes, o rei Davi, perguntou se havia algum descendente dele, para que pudesse usar-lhe da graça de Deus. A palavra utilizada por Davi no texto hebraico foi 'hessedh', isto é, graça, benevolência, amor, bondade ou misericórdia. Isto porque, quando Jônatas ainda vivia houve um acordo entre ele e Davi conforme I Sm. 15: 13 a 17.
A misericórdia busca exatamente aquele que não tem méritos. Mefibosete foi apontado como alguém inserido naquilo a que se propunha o rei Davi, posto ser neto de Saul, e filho de Jônatas. Era coxo dos pés e vivia longe do centro de poder. Foi neste cenário que apareceu Ziba, um antigo servo de Saul como a pessoa que poderia localizar Mefibosete. Legalista, e, quando indagado, respondeu ao rei: sim há um descendente de Saul que ainda vive, porém é aleijado. O rei sem tergiversar sobre a deficiência de Mefibosete indaga: onde está? Ziba diz: está em casa de Maquir, na terra de Lo-Debar. Maquir significa em hebraico, vendido como escravo, e Lo-Debar significa, terra árida e sem pasto. Ora, tudo isto é uma simbologia do homem e da sua situação após a queda, se tornando aleijado espiritualmente, perdendo a graça e a comunhão, tendo sido vendido como escravo do pecado e expulso do paraíso. A atitude do rei Davi representa a ação graciosa de Deus buscando o homem pecador, e restaurando-lhe a graça por misericórdia, bondade e amor.
A atitude de Mefibosete, como o tipo do homem desgraçado, foi a de se colocar na perspectiva do pecador que se rende ante a graciosa e soberana vontade de Deus. Se reconheceu desprovido de qualquer mérito conforme os versos 6 e 8 - "eis aqui o teu servo... cão morto" - Assim, foi restituída a nobreza e o convívio de Mefibosete que, continuou coxo, porém sob a graça do rei. Quanto a Ziba, o legalista e que vinha explorando os bens de Saul sem partilhar os resultados ao verdadeiro herdeiro foi colocado pelo rei no seu devido lugar, a saber um servo.
Por símile, Mefibosete viveu até os cinco anos no palácio real, porém o julgamento errôneo de sua ama, imaginando que este seria morto pelo novo rei, fê-lo cair na pressa da fuga; Satanás, por seu turno fez o homem, o qual vivia no paraíso de Deus supor que não morreria comendo do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, fê-lo cair no pecado da incredulidade e, por isso, morreu para Deus sendo vendido ao pecado e levado para o deserto árido da vida sem a graça.
Soli Deo Gloria !

julho 25, 2009

GRAÇA E DEPENDÊNCIA PLENA DE DEUS V


Jd. v. 4 - "Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo." Falam-se em duas categorias de graça: a) a graça atual que é o conjunto das inspirações e moções trasitórias concedidas por Deus a uma pessoa, grupo ou situação; b) a graça habitual que é o estado de benevolência ou dom permanente que estabelece a paz com Deus. Desta forma, independentemente dos feitos e efeitos do homem, Deus concede dons ou carismas, porque Ele é amor. Não são as disposições dos homens que forçam a graça de Deus, mas a graça de Deus que altera as disposições do coração empedernecido do pecador. Por isso, as Escrituras mostram como esta graça é operada em Ez. 36:26 e 27 - "E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis." A ação é absolutamente de Deus, pois é Ele quem concede, tanto o coração novo, como também coloca o espírito novo. Logo, tudo é por misericórdia e graça d'Ele e não dos esforços humanos, por mais bem intencionados que sejam.
Converter em dissolução a graça de Deus é exatamente tentar atribuir ao homem aquilo que é da exclusiva competência soberana de Deus. A dissolução da graça, isto é, misturar a ela as ações humanas tem como efeito a negação da soberania de Deus e do domínio de Jesus, o Cristo. Neste sentido, as igrejas ditas cristãs estão repletas de dissolutos e ímpios, pois direta ou indiretamente elas estão cheias de homens, lideres, pregadores e mestres que ensinam doutrinas que colocam o foco no homem e não na cruz. A doutrina mais absurda que se propaga no seio da cristandade nominal é a do "livre arbítrio". Confundem eles, a autonomia apostatada de fazer escolhas naturais, com liberdade e arbítrio. Se todos foram encerrados debaixo do pecado, logo quem é livre?
II Pd. 1:2 - "Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor." A graça produz a pacificação, pois após a justificação já não há nenhuma condenação. A graça realiza uma multiplicação por meio do conhecimento de Deus e de Cristo. A esta iluminação dá-se o nome de processo de santificação ou de produção da santidade de Cristo na vida do regenerado. Ela não é exterior e não é para servir de referência aos homens, mas é uma experiência espiritual que só se discerne espiritualmente. Contrariamente, os diluidores da graça de Deus buscam exteriorizar suas experiências sensoriais como se espirituais fossem, justamente porque não compreendem o que é a verdadeira graça.
II Pd. 3:18 - "Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém." crescer na graça não é prioritariamente cair na aceitação dos outros homens, mas conhecer mais e mais ao Senhor e Salvador Jesus, o Cristo. O texto mostra que é a Ele que se deve dar glória, agora e no dia da eternidade. Em um mundo onde os homens, inclusive os religiosos, buscam glória para si mesmos e recebem a glória dos outros homens, como poderia a graça de Deus ser compreendida?
Enquanto a natureza humana contaminada pelo pecado não é substituída pela natureza santa de Cristo, o pecador não pode conhecer a graça e, por esta mesma razão, não pode depender plenamente de Deus. Ou Cristo é o foco e a cruz a centralidade, ou o homem é o produtor de sua prória verdade. Não há espaço para diluir a graça de Deus com uma criatura morta para o Espírito Santo e viva para si mesma.

julho 24, 2009

GRAÇA E DEPENDÊNCIA PLENA DE DEUS IV


At. 20: 24 e 32 - "Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus. Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a Deus e à palavra da sua graça; a ele que é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os santificados." A graça dá a devida dimensão do que o homem regenerado é, e de quem Deus de fato é. Este, absolutamente soberano, enquanto aquele, absolutamente dependente. O evangelho é a expressão concreta da graça de Deus, porque Ele mesmo se doou na cruz para conceder a maior doação ao pecador, a saber, a salvação. A palavra de Deus, ou seja, as Escrituras são a verbalização eloquente da Sua graça. É Deus quem santifica o homem decaído e o faz herança Sua na construção da semelhança de Cristo em sua vida.
O pecado é ausência de fé na Palavra de Deus, tendo sido inciado no Éden quando o primeiro homem não deu crédito a ela. Preferiu, outrossim, dar crédito à palavra do maligno, porque desenvolveu o desejo de ser independente de Deus. Neste ponto o seu espírito foi desligado do Espírito de Deus, causando-lhe a morte espiritual, a qual não significa destruição do espírito. A partir da sua expulsão do Paraíso, foram sendo desenvolvidos os atos pecaminosos com base na natureza destituída da glória de Deus. A graça concretizada historicamente na morte de Cristo e decidida antes dos tempos eternos pelo próprio Deus que imolou o Cordeiro antes da fundação do mundo. Por isso, a doutrina bíblica afirma: "...e havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz." O pecado original foi cravado na cruz, e, para tanto, o pecador também foi incluído na morte de Cristo, para com Ele também ressuscitar e ganhar a Sua vida eterna. Isto se apropria por fé conforme a definição de fé escriturística e não mística.
Esta é, portanto, a mais alta instância da graça de Deus, executando a sentença contra o pecado em Seu Filho Unigênito para justificar o pecador sem méritos e sem justiça própria. Este é, portanto, o verdadeiro ensino das Escrituras sobre dependência plena da graça de Deus. Não é ensino religioso, o qual coloca o homem portador da natureza pecaminosa como cooperador na obra da redenção. Enquanto graça é dádiva de Deus ao que nada merece, misericórdia é Ele não dando ao desgraçado, exatamente o que ele merece como tal, a saber, a condenação eterna. São termos intercambiáveis, pois ambos conduzem à plena dependência do pecador em relação a Deus. Por esta razão, a melhor significação para misericórdia é compaixão para com a miséria dos outros. Neste sentido, Deus olha para os seus eleitos conforme a impossibilidade deles em se redimir, e segundo a Sua superabundante graça, a qual cobre todo pecado, exceto o pecado da incredulidade que é o pecado contra o Espírito Santo.
A graça é ambígua, pois causa profunda decepção ao homem cheio de sua falsa autonomia edificada sobre a falsa doutrina do livre arbítrio, porém é a mais elevada expressão da bandade de Deus. Como ser absoluto e soberano que é, Deus poderia simplesmente não salvar ninguém, e isto, não Lhe causaria qualquer diminuição ou injustiça. O inusitado e maravilhoso é Ele usar de misericórdia e graça para com os que quer conforme Rm. 9:18 - "Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer."
A Ele, pois, honra, força e majestade eternamente!

GRAÇA E DEPENDÊNCIA PLENA DE DEUS III


Ex. 33: 12, 13, 16 e 17 - "E Moisés disse ao Senhor: eis que tu me dizes: faze subir a este povo, porém não me fazes saber a quem hás de enviar comigo; e tu disseste: conheço-te por teu nome, também achaste graça aos meus olhos. Agora, pois, se tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que me faças saber o teu caminho, e conhecer-te-ei, para que ache graça aos teus olhos; e considera que esta nação é o teu povo. Como, pois, se saberá agora que tenho achado graça aos teus olhos, eu e o teu povo? Acaso não é por andares tu conosco, de modo a sermos separados, eu e o teu povo, de todos os povos que há sobre a face da terra? Então disse o Senhor a Moisés: farei também isto, que tens dito; porquanto achaste graça aos meus olhos, e te conheço por nome."
A graça é algo que se acha, logo, não é inata ao homem. Ela não é o resultado dos esforços, penitências, renúncias e sacrifícios de alguém, pois neste caso seria uma negociata. Deus conhece o homem não apenas pelo nome, mas principalmente pelo que ele é. A certeza de estar incluído na graça de Deus é o fato d'Ele andar com o homem. Não são os pecadores que escolhem andar com Deus. Eles não possuem natureza para tanto, ao contrário, toda a inclinação do homem decaído é contrária à natureza divina. Portanto, este só se inclina para Deus, quando Ele o faz achar a graça diante dos Seus olhos.
Ao tempo em que Cristo andou pela Terra, especificamente em Israel, verificava-se uma profunda religiosidade. Julgavam serem os únicos guardiões dos oráculos de Deus e povo exclusivo. Agiam em relação aos outros povos com profundo desdém e aparteísmo. Cumpriam inumeráveis ritos e leis morais e cerimoniais. Entretanto, Jesus afirmou por repetidas vezes a seguinte expressão: "...vendo as multidões teve compaixão deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor." Vê-se, portanto, que não é religiosidade, tradição e heranças rituais que faz Deus se curvar ao homem para lhe dar a graça. Como já foi exposto em outra instância, graça para ser de fato graça é um dom imerecido. É de Phllip Yancey a assertiva largamente adotada por alguns cristãos: "graça é Deus fazendo tudo por quem nada merece."
É bastante comum ouvir religiosos expressarem um sentimento de gratidão ou de ternura quando ouvem uma pregação sobre a graça. Todavia, na maior parte dos casos, estes desenvolvem um entendimento errôneo sobre o que ela de fato é. Imaginam que estão cobertos pela graça em função do que fazem. Colocam-na na esfera das ações compensatórias à semelhança dos procedimentos jurisforenses e constitucionais. A graça não é uma ação resultante de esforços, quaisquer que sejam eles. Não é pelo agir corretamente, ser reto, íntegro, temente e desviar-se do mal que torna o homem objeto da graça. Em Ex. 34:9, Moisés teve a real dimensão do que é a graça após Deus ter-lhe revelado os Seus propósitos - "E disse: Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, vá agora o Senhor no meio de nós; porque este é povo de dura cerviz; porém perdoa a nossa iniquidade e o nosso pecado, e toma-nos por tua herança." Deus foi e é gracioso com aqueles a quem Ele decide ser, segundo a Sua misericórdia e soberania, independentemente da dureza, iniquidade e pecado. Este é o aspecto que deixa o religioso arminiano fora da graça, pois ele julga que possui o controle da soberania de Deus.

GRAÇA E DEPENDÊNCIA PLENA DE DEUS II


Rm. 5:20 - "Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça." Graça é um significante com diversos significados. No contexto a que se destina este estudo, traz sempre a ideia de favor imerecido, benevolência, amor, bondade, mercê, dádiva. O texto bíblico acima informa que a lei, isto é, as regras, preceitos e princípios morais e cerimoniais vieram para expor o pecado ou a ofensa do homem. Todavia, o mesmo texto mostra, que, onde o pecado abundou, a graça foi mais abundante, superando-o. Logo, a graça é maior que o pecado, justamente para ter o 'munos' de eliminá-lo. Do contrário, este jamais poderia ser aniquilado nos moldes de Hb. 9: 26 - "De outra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo."
A morte substitutiva e inclusiva de Cristo na cruz é o aspecto supremo da graça. Porque, n'Ele, tanto o pecado, como os atos pecaminosos são aniquilados. Aquele, no ato da justificação na morte de Cristo, e estes, no processo de santificação na vida d'Ele até a restauração final.
Desta forma, a graça se constitui em superabundante,  precisamente porque o dom de Deus é superior à ofensa pecaminosa do homem. Sabe-se que a justiça humana é em sua essência distributiva, ou seja, a cada um segundo o que lhe é de direito. Entretanto, a justiça de Deus é retributiva, isto é, a cada ofensa, a graça é retribuída em superioridade ao agravo. Este é o maior paradoxo para o homem religioso, pois a sua mente reage com base na justiça forense e não na justificação graciosa. Deus age retributivamente, porque é ciente que, pela lei, isto é, pelo cumprimento de normas, regras e preceitos, nenhum homem poderá obter salvação. Assim, Ele retribui ao pecado de modo desproporcional em graça. Porém, não deixa de executar a sua justiça contra o pecado ao destruir a natureza pecaminosa do homem, incluindo-o na morte de cruz conforme Jo. 12: 32 e 33 - "E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. E dizia isto, significando de que morte havia de morrer."
Paradoxalmente a graça é um dom muito difícil de ser recebido pelo homem, especialmente o religioso. Isto porque a sociedade e, sobretudo, a religião cria na mente humana uma lei compensatória. Configura-se esta norma no princípio da recompensa, ou seja, quanto mais o homem fizer, mais merecedor se tornará; quanto mais se esforçar, maior o seu sucesso; quanto maior a sua eficiência e desempenho, maior a eficácia e recompensa; quanto mais realizar e operar, mais será aceito e reconhecido. Por isso, embora todos concordam que graça é uma boa coisa, todos querem produzi-la por seus próprios esforços, méritos e justiças próprias. Não é este o padrão da graça ensinada nas Escrituras. O que das sagradas letras se pode depreender é que a graça verdadeira, gera como contraponto a plena dependência de Deus. Ou é Ele o operador e o operacionalizador da graça, ou o homem viverá com base na lei. Sabe-se, entretanto, que pela lei nenhuma carne se salva consoante a pena do apóstolo Paulo.
Em alguns aspectos as práticas político-administrativas e judiciais tomam a graça por base. É o caso, por exemplo, do poder executivo brasileiro, usa figura jurídica que toma a graça como um ato de clemência do poder público, que favorece individualmente um condenado em definitivo por crime comum ou por contravenção, extinguindo-lhe, reduzindo-lhe ou comutando-lhe a pena. Neste caso, houve uma anistia, clemência ou indulto.
Na Primeira Guerra Mundial um soldado foi executado, porque acendeu fogo em sua trincheira durante a noite. Isto, segundo o código de guerra, permitiria aos inimigos localizar e atacar as bases dos aliados. Imagine se Deus fosse tratar com o homem pecador nas mesmas bases da justiça distributiva?