domingo, 31 de outubro de 2010

MORTOS QUE SEPULTAM MORTOS


Lc. 9:59 a 61 - "E a outro disse: segue-me. Ao que este respondeu: permite-me ir primeiro sepultar meu pai. Replicou-lhe Jesus: deixa os mortos sepultar os seus próprios mortos; tu, porém, vai e anuncia o reino de Deus. Jesus, porém, lhe respondeu: ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus."
O substantivo feminino morte provém do verbo morrer, e este, por sua vez, traz a significação daquilo ou daquele que perdeu o princípio vital. A palavra morte nas Escrituras pode se referir à morte física, ou à morte espiritual. Todavia, tanto em um, como no outro caso, resulta em separação, ruptura, supressão. No caso da morte física ocorre quando a alma e o espírito do homem são separados do corpo biológico; no caso da morte espiritual ocorre quando o homem, vivo ou morto, está separado da natureza de Deus por causa da sua natureza pecaminosa.
Is. 59: 1 e 2 - "Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para que não possa ouvir; mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados esconderam o seu rosto de vós, de modo que não vos ouça." O profeta Isaías está mostrando que o problema de incomunicabilidade entre o homem e Deus não está em Deus, mas no pecado que reside na natureza humana. São naturezas opostas, e, portanto, não se comunicam. O homem está separado, ou seja, morto para Deus. O pecado é uma questão de natureza, antes de ser uma questão de atos. O homem é pecador porque nasce com a natureza pecaminosa, e não apenas porque comete atos pecaminosos. Os atos pecaminosos são consequência da natureza pecaminosa, e nunca, o contrário como supõem os religiosos.
Ef. 2:1 a 7 - "Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais outrora andastes, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos de desobediência, entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo, pela graça sois salvos, e nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus, para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, pela sua bondade para conosco em Cristo Jesus." Se Cristo vivificou os que estavam mortos em delitos e pecados, logo, segue-se que estes de fato estavam mortos para Deus, visto que não estavam mortos fisicamente. Assim, são duas naturezas de morte: uma para Deus, e a outra, não apenas para Deus, mas também para si mesmo. Nos mortos para Deus opera o espírito do príncipe das potestades do ar, a saber, Satanás. Este mesmo espírito maligno é quem opera e operacionaliza nos filhos da desobediência, ou seja, naqueles que andam em sentido oposto à natureza de Deus. Eles satisfazem a carne e os pensamentos próprios, e por isso, são filhos da ira, porque sobre eles permanece a ira contra a natureza pecaminosa.
A salvação é operada e operacionalizada nos filhos da desobediência e da ira, por misericórdia e graça soberana de Deus. Não há absolutamente nada que o pecador possa fazer para merecer a salvação. Iludem-se, iludem e são iludidos os que imaginam que o homem decaído pode cooperar com Deus no processo da salvação. Quem vivifica os mortos em delitos e pecados é Cristo, porque os eleitos foram incluídos na sua morte de cruz, para com Ele ressuscitar. Tudo isto se apropria pela fé, visto que Ele morreu e ressuscitou apenas uma vez com eficácia para sempre.
No texto de abertura se vê um homem a quem Cristo chamou para segui-lo, mas que, no entanto, pediu para primeiro sepultar o seu pai. A resposta foi clara: "deixe os indiferentes à natureza de Deus, o enterrar os seus próprios defuntos." Logo, há vivos mortos para Deus, que sepultam os seus mortos fisicamente. Então, há vivos mortos, e mortos defuntos!
Os que são chamados são vivificados por Deus e anunciam o evangelho do reino. Os mortos para Deus cogitam apenas das coisas dos homens. Estão sempre voltados para as coisas dos seus próprios mortos.
Ninguém pode conduzir o arado, isto é, as coisas do reino deste mundo, e ao mesmo tempo tratar das coisas concernentes ao reino do Eterno.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

DO MERO ASSENTIMENTO À REAL CONVERSÃO III


At. 15: 3 a 11 - "Eles, pois, sendo acompanhados pela igreja por um trecho do caminho, passavam pela Fenícia e por Samária, contando a conversão dos gentios; e davam grande alegria a todos os irmãos. E, quando chegaram a Jerusalém, foram recebidos pela igreja e pelos apóstolos e anciãos, e relataram tudo quanto Deus fizera por meio deles. Mas alguns da seita dos fariseus, que tinham crido, levantaram-se dizendo que era necessário circuncidá-los e mandar-lhes observar a lei de Moisés. E, havendo grande discussão, levantou-se Pedro e disse-lhes: Irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho e cressem. E Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo, assim como a nós; e não fez distinção alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé. Mas cremos que somos salvos pela graça do Senhor Jesus, do mesmo modo que eles também."
O capítulo 15 do livro dos atos dos apóstolos relata uma grande discussão em torno da conversão dos não judeus. Na medida em que alguns gentios foram sendo convertidos à fé cristã, os judeus que também haviam "aceito" esta mesma fé, se puseram logo a impor-lhes regras e preceitos da lei de Moisés. Paulo e Barnabé levantaram diversos argumentos contra esta imposição, porém sem muito sucesso. Por isto, foram enviados mensageiros a tomar assento no conselho da Igreja em Jerusalém, onde Pedro e Tiago foram usados para esclarecer a natureza da real conversão e da desnecessidade de imposição de regras da lei. Apontaram que a salvação é pela graça, e, que, aos não judeus foram outorgadas as mesmas bênçãos espirituais, também dadas aos judeus conversos. É sempre assim, os homens confundem conversão pela soberana vontade divina, com conversão religiosa. Ora, se os próprios judeus não conseguiram por em prática a lei de Moisés, porque esta deveria ser imposta aos não judeus? Qual o proveito da lei, se Cristo veio para cumpri-la e habilitar o homem pecador à redenção? Logo, qual a necessidade de ser convertido de uma prática religiosa à real fé, se necessitar das práticas religiosas anteriores à nova experiência libertadora? É como se eles saíssem do judaísmo, mas o judaísmo não saísse deles. Esta não é a marca da real conversão operada e operacionalizada por Deus. É um mero assentimento intelectivo que nada tem a ver com a verdade evangélica.

Rubem Alves explica o fenômeno da conversão em seu livro "O Enigma da Religião". Dentre outras considerações, o autor mostra que a conversão é o oposto da conservação. Há na conversão uma mudança, e após esta ocorre uma alternação de padrões. A alternação entre o anterior e o atual exige, como ponto mais alto, a modificação total do ser convertido. O converso requer uma plausibilidade de ressocialização  porque há uma nova identidade de significações. Desta forma o converso muda de 'status quo' perante si, e perante os outros. Para Rubem Alves ocorre um colapso entre a harmonia do eu e o mundo, sendo a pré-condição a anomia do eu. Tal anomia se traduz, segundo Durkeim, como sendo o desconhecimento, ou mesmo, o não cumprimento de regras socais. Este tipo de conversão ocorre preferivelmente quando há choques culturais, ou a falta de significados para o ser em crise. Neste sentido a desestruturação da personalidade encontra em uma nova possibilidade de reorganização, produzindo um novo universo de significados. O homem se torna, ou se faz um novo ser saído de uma realidade que o negava. Nesta nova realidade o homem encontra-se seguro e sintonizado com o seu novo real. Esta é a conversão assentida pela percepção humana, como um processo de ruptura de um 'modus vivendi' para outro. Nada tem a ver com a real conversão operada pela soberana e graciosa vontade de Deus.
O texto que abre este artigo mostra, pelas palavras de Pedro, que o processo real consiste no fato de que Deus conhece os corações, dá o Espírito Santo, não faz distinção entre etnias diferentes, e purifica os corações pela fé. Toda ação é monérgica, não se viu em nenhuma instância, a cooperação do homem com a vontade de Deus. Ele escolheu dar aos que quer, o mesmo processo de conversão, independentemente da origem étnica. É neste sentido que a salvação é dada a todos os homens, e não no sentido universalista, o qual defendem os arminianos.
A real conversão se opera pela eleição antes da fundação do mundo, quando os nomes dos eleitos foram escritos no livro da vida do Cordeiro conforme Ap. 13:8 - "E adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo." Os eleitos não adorarão ao sistema universalista, gnóstico e religioso imposto pelo próprio homem sob a inspiração de Satanás. Por isto os eleitos são assim situados: "... que se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo todo seu, zeloso de boas obras." Este povo, com tais características não é o que aparece na mídia; não é o que monta igrejas entre quatro paredes; que explora a miséria humana por meio da religião; que ilude os necessitados com falsas conversões e promessas de solução dos seus dilemas.

domingo, 17 de outubro de 2010

DO MERO ASSENTIMENTO À REAL CONVERSÃO II


Jr. 31:18 - "... castigaste-me e fui castigado, como novilho ainda não domado; restaura-me, para que eu seja restaurado, pois tu és o Senhor meu Deus." A ação de Deus é sempre e invariavelmente monérgica. Ele não necessita do concurso do homem para realizar a Sua vontade soberana. Estas doutrinas que pretendem dar ao homem cooperação, é antes de tudo, gnósticas e puramente humanistas. Portanto, se Deus castiga, o pecador é castigado; se Deus doma, o pecador será domado; se Deus restaura, o pecador é restaurado. Isto porque, é Ele Absoluto, e não uma projeção da vontade corrompida do homem. Ainda que todos os homens deixem de existir, e que todos os anjos e seres celestes desapareçam, e o próprio espaço sideral se enrole como uma folha seca, Deus continua bastando-se a Si mesmo. Os homens, por conta, do orgulho e da soberba buscam ser sempre mais do que realmente são. Alguns supõem ser professores do próprio Deus, querendo, assim, ensinar-Lhe como deve governar o universo.
Sl. 80:3 - "Reabilita-nos, ó Deus; faze resplandecer o teu rosto, para que sejamos salvos." Quem reabilita o homem em quaisquer circunstâncias é Deus. É o resplendor da luz do rosto de Deus que permite ao homem a graça da salvação. Mesmo que, com base, em justiça própria e méritos, o homem reivindique a salvação, ela não virá sem que Deus a tenha decidido antes dos tempos eternos conforme II Tm. 1:9 - "... que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos..."
O que acontece comumente é que os intérpretes das Escrituras fazem a exegese de conformidade com o que creem e não com os fundamentos da própria Bíblia. Um dos princípios da interpretação é a harmonização dos textos em seus contextos. Portanto, além de encontrar os textos atinentes a uma ou outra doutrina, deve-se observar em quais instâncias eles estão relacionados. Assim, o texto fundamental diz em Jn. 2:9 - "Ao Senhor pertence a salvação." Logo, todos os demais textos que se referem à salvação devem ser examinados e interpretados à luz do texto fundamental. Por isto, quando Jesus disse: "em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino de Deus." Jesus não está atribuindo capacidade de promover a salvação ao pecador, e muito menos, colocando-a como opcional, porque Ele sabe que a salvação vem do Senhor, o Pai. Entretanto, Cristo está doutrinando sobre a necessidade de a salvação operar e operacionalizar no pecador uma atitude consequente e não causal. Tornar-se como uma criança é a consequência de ter recebido a graça da conversão, e não a causa dela. Entrar no reino eterno do Pai é consequência, tanto da salvação recebida por graça, como também da mudança radical da natureza humana. O religioso que não passou pelo processo do nascimento do alto, vê no ensino de Cristo uma transferência de responsabilidade da salvação, como proposta oriunda no pecador. A isto dão o nome de cooperação com o Espírito Santo, como se Ele necessitasse da cooperação de alguém absolutamente decaído e morto para Deus. Este ensino espúrio às Escrituras é chamado de sinergismo.
Há uma regra que diz: o essencial arrasta consigo o assessório. Aplica-se este mesmo princípio no tocante ao ensino das Escrituras, ou seja, os textos fundamentais, arrastam os textos derivados ou assessórios, e jamais, o contrário.
Neste sentido prevalece a máxima, o ensino fundamental, ontológico e teleológico: "converte-me a ti Senhor, e serei convertido." Neste sentido o sujeito e o objeto não se confundem, o agente e o paciente são distintos. Deus, o sujeito e o agente, o pecador o objeto e o paciente. O que passa disso, é anátema!

DO MERO ASSENTIMENTO À REAL CONVERSÃO I


Lm. 5:21 - "Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos; renova os nossos dias como dantes..." Conversão é o ato de mudar de rumo, de direção, ou de sentido. Provém do latim 'convertionis' que significa movimento circular, ou giro. É como se alguém seguisse o sentido horário em um círculo e, por força superior, girasse sobre os seus artelhos e passasse a seguir o sentido oposto ao anterior, isto é, o sentido anti-horário. Já o verbo convencer significa persuadir alguém, ou a si mesmo de uma ideia, ou fato por meio da razão, ou de argumentos bem fundamentados. Enquanto a conversão é um ato recebido pela graça, o convencimento é uma decisão aceita com base no assentimento racional. Por um lado a conversão é resultante da misericórdia de Deus, porém, o convencimento resulta de escolhas naturais, julgamentos racionais, ou assentimentos centrados no homem decaído.
Destarte fica evidente que o homem não pode por si mesmo "se converter", pela mesma razão que não pode "se operar". É muito comum na linguagem coloquial pessoas afirmarem: "eu me operei" de tal problema de saúde. Entretanto, o paciente não se opera, ele é operado por um médico cirurgião. De igual modo, o pecador não se converte, mas é, antes, convertido por Deus.
O texto que abre este artigo mostra com clareza que a ação da conversão é de Deus. Indica que, se a ação é de Deus, então ela de fato será concretizada. Demonstra que o resultado da genuína conversão determina a renovação dos dias, confirmando II Co. 5:17 - "Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo." A condição 'sine qua non' para alguém ser renovado é estar em Cristo. Este é o ensino sobre a inclusão do pecador na morte de Cristo, para d'Ele receber a vida nova, rompendo definitiva e cabalmente com a velha natureza adâmica, na qual havia a culpa do pecado. A consequência final é que tudo se faz novo, reconciliando a criatura ao Seu Criador espiritualmente. Assim, se o essencial para ser convertido é estar incluído em Cristo, depreende-se disto, que ninguém pode promover a sua própria salvação. A conversão, pois, é ato da estrita e soberana vontade de Deus.
O homem natural é capaz apenas de converter-se de uma crença à outra, de uma ideia à outra, de uma posição ideologica à outra, de uma situação de status quo à outra, de uma religião à outra. A real conversão é precedida do arrependimento, isto é, da 'metanóia', ou mudança de mentalidade conforme At. 3:19 - "Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos de refrigério na presença de Deus." Os arminianos de carteirinha amam estes textos que utilizam os verbos no imperativo. Afirmam eles que tais construções gramaticais confirmam que a decisão acerca da conversão é do homem. Entretanto, os imperativos nas Escrituras são para mostrar que é a vontade de Deus que impera quando Ele decide qualquer coisa no universo. O que o texto diz é que os pecadores terão arrependimento e serão convertidos a fim de que a graça de Deus possa apagar os seus pecados. É por meio da ação monérgica de Deus que os pecados originais dos homens são apagados perante Ele. Não indica uma ação sinérgica, pois do contrário a morte de Cristo seria totalmente dispensável. Como poderia um ser decaído, e absolutamente corrompido, morto para Deus promover a sua própria conversão? Como poderia um ser totalmente depravado e morto para Deus buscar a conversão e o arrependimento por si mesmo? É pela ação soberana e graciosa de Deus que o pecador é conduzido a Cristo, para, n'Ele, ser convertido conforme Jo. 6: 44 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia." Quando as Escrituras afirmam que "ninguém" pode ir a Cristo por moto próprio, é ninguém mesmo, e não uma espécie de faz de conta, como supõem os incrédulos religiosos. Então o texto mostra que é Deus quem leva o pecador até a cruz, para nela, destruir a natureza pecaminosa em Cristo. Isto porque, a natureza morta em delitos e pecados no homem se inclina sempre e invariavelmente para o lado oposto ao de Deus.

domingo, 3 de outubro de 2010

"LIVRE ARBÍTRIO" UMA VELHA HERESIA


Jo. 8: 32 a 36 - "Dizia, pois, Jesus aos judeus que nele creram: se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: somos descendentes de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém; como dizes tu: sereis livres? Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Ora, o escravo não fica para sempre na casa; o filho fica para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."
A liberdade é, talvez, a maior aspiração do homem em todos os tempos e lugares. Não depender de nada, nem de ninguém é uma posição desejada, buscada, e, supostamente executada, em diversos aspectos da vida. Entretanto, a única liberdade completa e verdadeira é a que Cristo oferece, posto que eterna. Arbitrar é, grosso modo, julgar com base apenas na vontade, portanto, o homem busca ser livre e exercer juízo voluntário em quase tudo o que se apresenta à sua percepção. Esta inclinação natural foi amplamente reforçada por Satanás no Éden, quando este afirmou à mulher: "...no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal." Fazer distinção entre o que é o bem, e o que é o mal confere ao homem um certo poder de julgar entre partes constitutivas de um todo com atributo de valoração. Neste sentido, a criatura passou a ter habilidade semelhante a habilidade divina para discernir entre o bem e o mal. Os olhos do homem estavam abertos fisicamente, porém não, espiritualmente. Assim, liberdade e arbítrio são categorias que se inserem na dimensão objetiva e na dimensão subjetiva.
O "livre arbítrio", ou "livre alvedrio" é a crença ou doutrina filosófica que propõe ao homem o poder de fazer escolhas por meio da livre vontade. No caso da concepção objetivista indica que a ação de um agente, não é, necessariamente determinada por fatores externos e por antecedentes. No caso da concepção subjetivista indica que a percepção do agente teve início em sua vontade expressando, assim, uma experiência de liberdade.
O conceito de "livre arbítrio" traz no seu bojo implicações filosóficas, religiosas, psicológicas e científicas. Na esfera religiosa, o "livre arbítrio" pode implicar que uma divindade onipotente não impõe o seu poder sobre a vontade e as escolhas do homem. Em psicologia o "livre arbítrio" implica em que a mente humana controla as ações do homem, enquanto em ética, o "livre arbítrio" propõe que o homem é moralmente responsável por suas ações.
Há o Determinismo Mecanicista e o Determinismo Teleológico, estes são doutrinas que afirmam que todos os acontecimentos, incluindo-se as vontades e as escolhas humanas, são causados por acontecimentos anteriores ou posteriores, portanto, situa o homem como um ser destituído de liberdade de decidir e de influir nos fenômenos em que toma parte. O Determinismo Mecanicista e o Determinismo Teleológico rejeitam, portanto, a concepção de que os homens tenham algum "livre arbítrio". Em oposição aos dois tipos de determinismo encontra-se o Libertarianismo, posição esta que defende que os homens têm "livre arbítrio" pleno e, por isso, rejeita o determinismo. O Indeterminismo é também uma forma de Libertarianismo, a qual defende a visão que as pessoas têm "livre arbítrio", e que as ações apoiadas nele são efeitos sem causas. Há ainda o Compatibilismo que é a visão que o "livre arbítrio" surge mesmo em um universo sem incerteza metafísica. Compatibilistas podem definir o "livre arbítrio" como emergindo de uma causa interior, por exemplo os pensamentos, as crenças e os desejos. Seria sucintamente o "livre arbítrio" aquilo que respeita as ações, ou pressões, internas e externas. A filosofia que aceita, tanto o determinismo, quanto a liberdade de escolhas é chamada de “Soft Determinism”, expressão cunhada por Williams James para designar o que hoje chama-se de "Livre Arbítrio Compatibilista". O Incompatibilismo é a visão que não há maneira de reconciliar a crença em um universo determinístico com um "livre arbítrio" verdadeiro. Entre os compatibilistas encontram-se Thomas Hobbes e David Hume.
Observa-se, assim, que, não há ponto de conciliação entre as diferentes concepções, e, mesmo no mérito interno de cada uma delas, não há argumentação definitiva ou plausível sobre esta questão. Realmente é infundada a ideia de que o universo e seus fenômenos seja determinístico e o homem, seja absolutamente livre nele. É como se o homem estivesse acima do universo, ou fora da realidade. Neste caso recai-se no conceito de 'oxímoro', ou seja, um ato causado não pode ser livre, e um ato não-causado não pode ser desejado. Trata-se de uma figura de retórica, na qual dois conceitos opostos são reunidos numa só expressão que depende da interpretação de quem lê. Por exemplo: silêncio eloquente, lúcida loucura, ilustre desconhecido, etc.
Ora, para se considerar algo, ou alguém como absolutamente livre, necessário é que não haja nenhum fato ou evento determinantes anterior e externo ao agente. Assim, para haver o "livre arbítrio", o homem obrigatoriamente deve bastar-se a si mesmo em todos os sentidos, e aspectos. Neste caso, o homem seria o próprio Deus com todos os seus atributos. Jesus afirma aos líderes religiosos e políticos do seu tempo o seguinte: "Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado." Logo, um escravo não é livre, e, como todos os homens pecaram por herança adâmica, logo nenhum homem é livre, ou possui "livre arbítrio". O que acontece comumente é que os que defendem tal posição confundem escolhas mecânicas e condicionadas pelas necessidades biológicas e psicológicas, com liberdade de ação e de escolha espiritual. O próprio fato de o homem estar relativizado no tempo e no espaço já o limita absolutamente e lhe retira a possibilidade do "livre arbítrio". Na realidade a condição do homem é de "Servo Arbítrio"!
Maranata!