abril 06, 2015

O DIABO, VOSSO ADVERSÁRIO I

I Pd. 5: 8 a 10 - "Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, e procurando a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé, sabendo que os mesmos sofrimentos estão se cumprindo entre os vossos irmãos no mundo. E o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e fortalecer."
Há inumeráveis referências ao Diabo nos contextos das culturas humanas. Igualmente há diversas formas de se referir a ele e de representá-lo. Entretanto, há pouquíssima verdade sobre tais referências e representações, considerando o texto bíblico. O Diabo não é um mito, mas um ser real e inteligente. A maneira de representá-lo, na cultura ocidental, provém do domínio absoluto da igreja católica, especialmente, na Idade Média. Difundia-se a ideia de um ser feio, terrível e assombrador com o objetivo de dominar o povo pelo medo. Manter as pessoas submissas ao controle da igreja era fundamental devido às ameças dos avanços científicos do Renascimento, da grande pobreza e analfabetismo entre as massas. Então, pintá-lo rabudo, chifrudo, com pés dotados de unhas fendidas era uma forma de assombrar o ideário popular ignorante e que não tinha acesso às Escrituras.
As Escrituras não dão muitos detalhes sobre a figura de Satanás, mas o pouco que fornece é o suficiente. Ez. 28:12 a 15 - "Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-te: assim diz o Senhor Deus: tu eras o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estiveste no Éden, jardim de Deus; cobrias-te de toda pedra preciosa: a cornalina, o topázio, o ônix, a crisólita, o berilo, o jaspe, a safira, a granada, a esmeralda e o ouro. Em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados. Eu te coloquei com o querubim da guarda; estiveste sobre o monte santo de Deus; andaste no meio das pedras afogueadas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que em ti se achou iniquidade." O texto descreve um ser angelical da ordem dos querubins tipificado, inicialmente, na pessoa do rei da cidade de Tiro. Todavia percebe-se pelas descrições que não se tratava de um homem, pois selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura não combinam com um rei a quem se destina um final fúnebre que foi conquistado por Nabucodonozor. Também, nenhum rei humano esteve no Éden ou jardim de Deus. O Éden descrito no texto é mineral e não vegetal como era o Éden terrestre de Adão. Também se vê que, no dia em que foi criado por Deus, ao que parece, foi-lhe atribuída alguma habilidade musical com tambores e pífaros. Este anjo foi colocado como o chefe da guarda na presença de Deus. Tal anjo cujo nome próprio não foi declarado era perfeito em seus caminhos até que em seu coração foi achada a iniquidade. Tal iniquidade é nomeada em Is. 14: 13 e 14 - "E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo." Desejou ser um deus e ter um domínio para si.
O nome Lúcifer atribuído ao anjo caído não é verdadeiro e não se confirma nas Escrituras. Trata-se de um erro de tradução de S. Jerônimo na versão bíblica da Septuaginta do hebraico para o latim. Ao traduzir a expressão "... resplandecente estrela da manhã..." S. Jerônimo tomou uma locução adjetiva como substantivo e nome próprio. Em latim, "portador da luz" é "Lux ferris", por isso, a palavra Lúcifer em português. A expressão é uma alusão ao anjo querubim antes de entrar em rebelião contra Deus. Is. 14:12 a 14 - "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! como foste lançado por terra tu que prostravas as nações! E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo." Desta forma, a expressão 'resplandecente estrela da manhã' é uma forma gloriosa de se referir ao anjo antes de se tornar Satanás e Diabo. Também é uma das formas de se referir ao planeta Vênus, pois se parece, na Terra, a uma brilhantes estrela que é vista ao amanhecer em certas épocas do ano e ao anoitecer em outras. Os gregos chamavam de Heósforos [Ηωσφόρος] que significa Fósforo ou Tocha de Fogo. Atribuía-se o Planeta Vênus a uma divindade mitológica menor. Então, de fato, Satanás é um, Lúcifer nunca existiu e o planeta Vênus é um corpo celeste luminoso quando visto da Terra.
Por estas razões há três maneiras de se referir ao anjo caído: antes da queda era "Portador da Luz", depois da queda Satanás e Diabo. Lúcifer provém de uma expressão, não sendo, portanto, um nome próprio. Satanás provém do hebraico [שָטָן] que é transliterado como "Satã". Satanás significa em hebraico, adversário ou inimigo. Entretanto, a ideia de Satanás para os judeus não era apenas atribuída a um ser sobrenatural, mas a qualquer adversário ou inimigo humano. Diabo [διάβολος] é o equivalente grego para Satanás e significa acusador ou caluniador. Não se atribui a palavra Diabo a pessoas ou aos demais anjos caídos, porque é exclusiva de Satanás. 
II Co. 11:14 - "E não é de admirar, porquanto o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz." Vê-se que Satanás não sendo mais o anjo portador da luz, se disfarça como sendo um anjo de luz para enganar. Portanto, erram profundamente aqueles que pintam-no como um ser horrendo e feio. Ao contrário, para enganar e seduzir os homens necessita se disfarçar em anjo de luz. No livro de Apocalipse Satanás recebe outras denominações conforme Ap. 12:9 - "E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele." Tais referências estão em consonância às suas atividades maléficas ligadas ao fogo e ao engano dos primeiros ancestrais do homem no Éden.
Sola Scriptura!

março 24, 2015

VONTADE, DESEJO E LIBERDADE

Jo. 8: 32 a 36 - "... e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: somos descendentes de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém; como dizes tu: sereis livres? Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Ora, o escravo não fica para sempre na casa; o filho fica para sempre. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."
São inerentes à natureza humana decaída a ilusão e a mentira. Isto se dá porque a condição de morte espiritual para Deus coloca o homem em aparteísmo. Trata-se de uma falsa autonomia a qual o leva a presumir que é livre em função do que faz ou deixa de fazer. Tal falsidade autômata trai os sentidos humanos, dando-lhes uma capacidade de construção de realidades paralelas em relação à verdade.
A vontade não pode ser confundida com o desejo, porque, enquanto o desejo é o que emerge da natureza humana sem a capacidade de controle por parte do agente desejante, a vontade é a razão a serviço daquilo que é o correto e possível de ser feito. A razão está a serviço da moral, enquanto a vontade está a serviço da ânsia da vida por si mesma. A moral é o que uma pessoa faz ou não faz, independentemente das circunstâncias instintivas ou externas. Por exemplo, ainda que alguém pudesse ficar invisível não furtaria ou não mataria, porque furtar e matar não é moralmente correto. Ainda que alguém dispusesse de pleno poder sobre outros não forçaria as outras pessoas a lhe conceder algo reprovado pela moral. Ainda que uma pessoa não estivesse sob qualquer forma de censura alheia não adotaria uma postura obscena porque a sua moral não aceita como normal. Neste sentido a maior parte das pessoas não são pessoas morais, mas amorais e/ou imorais, visto que agem em função das circunstâncias e não de acordo com o que a razão indica como o correto a ser feito. 
A alegoria do "Anel de Giges" na obra "A República" de Platão permite extrair algum subsídio para os conceitos de moral e razão. Um pastor de ovelhas considerado um bom homem guiava o seu rebanho. Após uma tempestade e um terremoto, se deparou com um homem morto. Percebeu que o cadáver portava apenas um anel. O pastor tomou para si o anel, colocando-o no dedo seguiu ao seu labor rotineiro. Percebeu o pastor que, quando estava em um ambiente social em companhia de diversas pessoas e manipulava o engaste do anel para dentro estas não lhe percebiam. Era como se ele não estivesse presente no local. Concluiu, assim, o pastor que o anel lhe dava a invisibilidade. A partir do momento em que constatou este fato passou a usar da sua invisibilidade para trair, matar e usurpar o poder do rei. Ora, o fundamento moral é que um homem pode aparentar ser algo ou alguém apenas porque as circunstâncias não lhes são favoráveis. Exposto em seu erro ou fraqueza poderia tornar-se objeto de restrição da liberdade no sistema vigente. Poderia ser apanhado pela lei, julgado e condenado. Entretanto, quando livre de quaisquer possibilidades de juízo faz tudo o que os seus desejos impõem.
Enquanto o desejo é algo inerente à natureza instintiva e animal, a vontade é aquilo que a razão indica como o correto e justo. A razão é o que deve ser feito, independentemente dos desejos. A razão não depende do que o homem deseja para gratificar-se e ser feliz. A felicidade é a busca pelo prazer e o afastamento das dores e sofrimentos. Portanto, nem sempre quando alguém age para ser feliz age moralmente. O homem amoral é aquele que desconhece ou ignora os princípios da razão. O homem imoral é aquele que age em sentido oposto e conflitante com a razão, ainda que seja em nome da felicidade.
No texto que abre esta instância vê-se um embate entre os líderes religiosos e o Mestre Jesus, o Cristo. Ele propõe que, se o homem conhecer a verdade experimenta a verdadeira liberdade. A isto os religiosos negaram dizendo que não necessitavam da liberdade proposta, porque eram descendência de Abraão e nunca foram escravos. Primeiro, os tais religiosos reduziram a liberdade a uma questão puramente genealógica e étnica como um qualificativo. Segundo, negaram a própria história do seu povo que foi escravo por 430 anos no Egito e depois em outras épocas e lugares nas diásporas. O religioso que não experimentou o novo nascimento toma por referência apenas suposições idealizadas por uma moral determinada pela vontade natural e não pela verdade espiritual. A verdade libertadora proposta por Jesus, o Cristo não era uma concepção filosófico-religiosa. A verdade é uma pessoa, a saber, o próprio Cristo conforme Jo. 14:6 - "Respondeu-lhe Jesus: eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." Jesus, o Cristo demonstra que, além de ser ele mesmo a verdade, também, é o caminho e a vida. As implicações desta verdade é que não há redenção libertadora fora de Cristo. Tal libertação se dá quando o homem decaído é incluído na morte d'Ele, e, consequentemente, em sua ressurreição. O processo de redenção consiste na inclusão e substituição do homem contaminado pela natureza pecaminosa na cruz. Este fato, que se apropria por fé, aniquila a culpa do pecado  que o torna morto espiritualmente para Deus. A maioria dos religiosos desconhece que há três naturezas de morte: a) a morte espiritual para Deus; b) a morte física ou biológica; c) a morte para o pecado.
Fica claro que, ainda que religioso e ético, o homem continua escravo da natureza pecaminosa. Portanto, não é livre nem espiritualmente, nem racionalmente e, muito menos, moralmente. Porque tanto o desejo, a vontade e a razão estão escravizados pela natureza decaída e absolutamente depravada. Assim, o escravizado necessita de um libertador que não é contaminado por tal natureza corrompida. Este foi o projeto de Deus para libertar verdadeiramente o homem da sua condição de pecador. Incluir o pecador na morte justificadora de um libertador absolutamente puro e justo. Após tal processo, o pecador retorna à vida justificado e liberto da culpa do pecado. Ao longo da sua vida será tratado e aperfeiçoado dos atos pecaminosos até a restauração final.
Sola Gratia!

março 22, 2015

ESTADO LAICO, IGREJA E TOLERÂNCIA

Mc. 2: 14 a 17 - "Quando ia passando, viu a Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria, e disse-lhe: segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu. Ora, estando Jesus à mesa em casa de Levi, estavam também ali reclinados com ele e seus discípulos muitos publicanos e pecadores; pois eram em grande número e o seguiam. Vendo os escribas dos fariseus que comia com os publicanos e pecadores, perguntaram aos discípulos: por que ele come com os publicanos e pecadores? Jesus, porém, ouvindo isso, disse-lhes: não necessitam de médico os sãos, mas sim os enfermos; eu não vim chamar justos, mas pecadores."
O Estado é um ente político que se expressa por meio do território, do povo, do governo e do elevado nível de soberania. O Estado, como entendido hoje, existe a partir da concepção contratualista que, prevendo 'a guerra de todos contra todos', quando o homem vivia em 'estado de natureza', propôs um contrato social. O contrato social se define pelo homem abrindo mão do individualismo e liberdade em troca de garantias e proteções do Estado. Montesquieu deu um refinamento a mais na estrutura do Estado com a sua fórmula tripartite dos poderes do Estado: poder legislativo, o poder que faz as leis; poder executivo, o poder que executa o que as leis exigem e realiza a gestão da coisa pública; e o poder judiciário que zela pelo cumprimento e aplicação das leis. 
A Igreja no sentido do evangelho e da fé cristocêntrica é o conjunto de todos os regenerados pela experiência de novo nascimento em todos os tempos e lugares. Tal experiência se dá pela inclusão do pecador na morte e ressurreição de Cristo. A Igreja genuína se define como um corpo vivo formado de 'pedrinhas' edificadas sobre a Rocha Eterna que é Jesus, o Cristo o seu cabeça e o seu fundamento. Tal estrutura é definida por Jesus, o Cristo em Mt. 16:18 - "Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Nem Cristo, nem Deus jamais fundou qualquer religião ou sistema de crença institucionalizado. A Igreja não é identificada pelo exercício de uma religião exterior, ritualística e preceitual, mas pela graça mediante a fé na justificação única, perfeita, eficiente e eficaz da inclusão do pecador na morte de Cristo e na sua consequente ressurreição. Este processo de redenção aniquila a culpa do pecado e reconcilia o pecador a Deus.
O Estado laico não se define como um Estado formado por pessoas e instituições que se declaram ateias como presume a maioria das pessoas. O laicismo não é uma virtude e, portanto, não se aplica a pessoas. Aplica-se tão somente a coisas que não possuem poder de decisão moral. A laicidade é um princípio político, referindo-se à organização da sociedade e não a pessoas. O laicismo consiste em uma condição na qual o Estado não adota regras religiosas, não patrocina a religião, e não institui qualquer forma de culto em sua estrutura oficial de poder e governo. 
A tolerância é uma virtude moral e se aplica, tão somente, a pessoas e jamais a coisas as quais não podem decidir moralmente. A tolerância só pode existir em alguém que possui o poder de ser tolerante ou não ser tolerante, pois do contrário, não haveria necessidade de tolerância. A tolerância pode ser por amor ou por força moral. Por amor ocorre quando alguém ama e, portanto, tolera ideias e comportamentos do outro; por força moral a tolerância ocorre quando alguém não ama, mas tolera a ideia ou o comportamento do outro ainda que não concorda com os tais, por uma questão moral. A tolerância, portanto, pressupõe discordância de posições ideológicas e comportamentos condenatórios, porém o tolerante não age contra o outro.
Jesus, o Cristo separou perfeitamente o Estado da Igreja na expressão "... dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus..." Tal ensino revela que o Estado desenvolve sua atividade de Estado e a Igreja a sua função de Igreja sem confundir-se um com o outro. O que é do Estado é a política, a economia e a administração da coisa pública. À Igreja cabe a adoração, o anúncio do evangelho para a justificação do pecador. Visa despertar os eleitos para a reconciliação do seu espírito corrompido com Deus, trata da purificação da alma e garante a ressurreição do corpo na restauração final. São dimensões de naturezas absolutamente diferentes e até mesmo opostas. Isto não quer dizer que, em nome de Deus, da Igreja ou de uma fé qualquer alguém deve entrar em rota de conflito com o Estado e suas instituições. Uma pessoa absolutamente crente submete-se às leis do Estado sem prejuízo da sua fé. Entretanto, quando o Estado invade os liames do campo espiritual o que crê não está obrigado a violar a sua fé conforme At. 5:29 - "Respondendo Pedro e os apóstolos, disseram: importa antes obedecer a Deus que aos homens."  
O texto de abertura ensina com clareza uma questão de intolerância dos líderes religiosos e a tolerância de Jesus, o Cristo. Os religiosos questionavam o fato de Jesus comer com pecadores e publicanos. Jesus lhes ensina que a real e verdadeira tolerância não é evitar ou condenar aqueles que praticam atos e atitudes considerados em uma cultura como desaprovados. Sendo a missão redentiva de Jesus, o Cristo salvar ou redimir os injustos, não faria sentido ele pregar, ensinar e amar os que se consideram justos. Quem se vê como justo não necessita de justificação.
Solo Cristo!

fevereiro 16, 2015

A ESPIRITUAIS COMO ESPIRITUAIS, A CARNAIS COMO CARNAIS

I Co. 3: 1 a 3 - "E eu, irmãos não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Leite vos dei por alimento, e não comida sólida, porque não a podíeis suportar; nem ainda agora podeis; porquanto ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja e contendas, não sois porventura carnais, e não estais andando segundo os homens?"
Há nos círculos religiosos o uso recorrente de clichês para superdimensionar as crendices humanas. Reduzem a fé a uma mera questão conceitual. Cada um exalta a sua crença por meio das mais variadas hipérboles e dos mais cândidos elogios. Dão-se a si mesmos os mais honrosos títulos de grandezas. Retiram, assim, a honra e a glória de Cristo para concedê-la a homens, igrejas, seitas, crenças e seus feitos. 
Resolvem, sem o menor exame das Escrituras e de consciência, que alguém é espiritual apenas porque o tal pertence a um determinado credo religioso. Dão como espiritual alguém com base tão somente em atos e atitudes de cunho comportamental. Desta forma, se alguém é batizado, é membro de uma determinada igreja, participa de alguns dos trabalhos religiosos, contribui financeiramente, dá testemunho de honestidade social e familiar, este tal é uma pessoa espiritual. Por outro lado, se alguém teve ou tem manchas morais em sua trajetória de vida é, imediatamente, classificado como sendo mundano, carnal, incrédulo, perdido e condenado ao inferno. Neste último caso alguns, com ar de falsa piedade e de superioridade afirmam: "você precisa se converter", "você precisa aceitar a Jesus", "você precisa de Deus em seu coração". O mais trágico é um condenado condenar o outro cego, segundo Jesus, o Cristo em Lc. 6:39 - "E propôs-lhes também uma parábola: pode porventura um cego guiar outro cego? não cairão ambos no barranco?" Em outro contexto, o Mestre afirmou que meretrizes e publicanos entrariam diante dos religiosos no reino dos céus.
No trato com a sã doutrina, não se pode reduzi-la a uma questão gramatical ou semântica, pois este tratamento é de caráter puramente humanista. A primeira e principal característica da sã doutrina é que ela não pertence ao homem, mas a Deus conforme Jo. 7:16 e 17 - "Respondeu-lhes Jesus: a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo." A maioria dos religiosos toma por verdadeira a doutrina da sua igreja, do seu líder ou da sua denominação religiosa. Neste caso corre-se o perigo de dar crédito à doutrina de homens e não de Deus. Grande parte dos religiosos promove o homem a santo e piedoso apenas por seus atos, mas não pelo seu estado de relação e posição perante Deus. As Escrituras afirmam, peremptoriamente, que se deve dar a cada um o que lhe é devido conforme Rm. 13:7 - "Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra." Isto mostra que nas relações horizontais no trato social deve-se adotar o princípio da reciprocidade. Isto nada tem a ver, necessariamente, com espiritualidade!
O texto de abertura ensina que não se pode falar a todos de igual modo doutrinariamente. Isto seria, no caso dos carnais, como levar um cego para o topo de uma montanha e dizer-lhe: veja como é linda a paisagem deste ponto. O apóstolo Paulo está tratando com a igreja em Corinto. Todos ouviram a mesma pregação para justificação, porém nem todos a recebeu da mesma forma e com a mesma ênfase. A fé é um dom de Deus, por assim ser, é repartida segundo a medida d'Ele conforme Rm. 12:3 - "Porque pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não tenha de si mesmo mais alto conceito do que convém; mas que pense de si sobriamente, conforme a medida da fé que Deus, repartiu a cada um." O ensino claro desta questão dos que ouvem, mas não recebem fé acha-se em Hb. 4:2 - "Porque também a nós foram pregadas as boas novas, assim como a eles; mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não chegou a ser unida com a fé, naqueles que a ouviram."
Espiritual é o homem que, segundo a graça de Deus, recebeu fé para crer na sua inclusão na morte de Cristo, como também, na ressurreição juntamente com ele. A isto as Escrituras denominam de "nascer do alto" ou de "regeneração". Muitos religiosos tentam, ingloriamente, mensurar o grau de regeneração ou conversão dos outros pelos seus atos. Não há atitude mais incrédula e humanista que esta. Um ateu pode levar uma vida mais correta moralmente que um crente. Algumas pessoas que praticam determinados cultos chamados de diabólicos ou pagãos dão melhor testemunho moral que muitos ditos crentes. Assim, não é pelas obras que se determina a fé, como também não é pela expressão de fé que se determina as obras de justiça. Ambas devem ser paralelas e consequentes da vida de Cristo no nascido do alto, visto que, na essência, tanto uma como a outra é d'Ele. Espiritualidade é um termo que, biblicamente, só se aplica ao pecador que teve a sua velha natureza adâmica destruída na cruz. O homem espiritual é aquele em quem Deus operou o novo nascimento retirando-lhe o coração petrificado pela natureza pecaminosa. Também é o pecador justificado no qual Deus colocou um novo espírito reconciliado com ele por meio da morte e da ressurreição juntamente com Cristo conforme Ez. 36:26 - "Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne." Este processo é monérgico, ou seja, é operado e operacionalizado apenas por Deus. O pecador não pode "se converter" e, muito menos, "se arrepender" por conta própria. A justificação é por graça e não pelas obras de justiça própria. Não é uma questão meritória, mas de misericórdia e de graça soberana. Misericórdia é Deus não nos dando o que, de fato, merecemos: o inferno. Graça é Deus favorecendo a quem não possui merecimento algum. É exatamente isto que ressalta a sublimidade do amor de Deus não agindo em função do que o homem é ou faz, mas em função de sua própria compaixão. Caso a graça e a misericórdia de Deus estivessem condicionadas ao comportamento do homem, onde estaria o glória d'Ele?
O homem que não experimentou o "nascimento do alto" ou a "regeneração" não é espiritual, ainda que seja religioso ou que tenha ouvido o evangelho da graça. Uma coisa é ouvir o evangelho, porém outra coisa é o evangelho lhe ter vivificado pela graça mediante a fé conforme I Co. 2:4 e 5 - "A minha linguagem e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Espírito de poder; para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus."
Desta forma, enquanto o homem que ouviu o evangelho da verdade não for guiado pelo Espírito, permanecerá carnal e não espiritual. Este fato se aplica a qualquer homem, incluindo-se os que praticam religião e seus ritos exteriores. Após nascer de novo e ter as escamas dos olhos retiradas e os ouvidos desobstruídos, o homem vai abandonando a vida na carne e seguindo a vida no espírito. Este é o processo da formação da semelhança de Cristo nos regenerados.
Sola Gratia!

fevereiro 10, 2015

AS GUERRAS INVISÍVEIS E A SOBERANIA DE DEUS

Dn. 10: 1 a 15 - "No ano terceiro de Ciro, rei da Pérsia, foi revelada uma palavra a Daniel, cujo nome se chama Beltessazar, uma palavra verdadeira concernente a um grande conflito; e ele entendeu esta palavra, e teve entendimento da visão. Naqueles dias eu, Daniel, estava pranteando por três semanas inteiras. Nenhuma coisa desejável comi, nem carne nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com unguento, até que se cumpriram as três semanas completas. No dia vinte e quatro do primeiro mês, estava eu à borda do grande rio, o Tigre; levantei os meus olhos, e olhei, e eis um homem vestido de linho e os seus lombos cingidos com ouro fino de Ufaz; o seu corpo era como o berilo, e o seu rosto como um relâmpago; os seus olhos eram como tochas de fogo, e os seus braços e os seus pés como o brilho de bronze polido; e a voz das suas palavras como a voz duma multidão. Ora, só eu, Daniel, vi aquela visão; pois os homens que estavam comigo não a viram: não obstante, caiu sobre eles um grande temor, e fugiram para se esconder. Fiquei pois eu só a contemplar a grande visão, e não ficou força em mim; desfigurou-se a feição do meu rosto, e não retive força alguma. Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo o som das suas palavras, eu caí num profundo sono, com o rosto em terra. E eis que uma mão me tocou, e fez com que me levantasse, tremendo, sobre os meus joelhos e sobre as palmas das minhas mãos. E me disse: Daniel, homem muito amado, entende as palavras que te vou dizer, e levanta-te sobre os teus pés; pois agora te sou enviado. Ao falar ele comigo esta palavra, pus-me em pé tremendo. Então me disse: não temas, Daniel; porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras, e por causa das tuas palavras eu vim. Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias; e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu o deixei ali com os reis da Pérsia. Agora vim, para fazer-te entender o que há de suceder ao teu povo nos derradeiros dias; pois a visão se refere a dias ainda distantes. Ao falar ele comigo estas palavras, abaixei o rosto para a terra e emudeci."
Profeta como indicado nos textos bíblicos é a pessoa a qual fala ou profere palavras em nome de Deus. Não é alguém que se coloca na perspectiva de interlocutor entre o homem e Deus, mas aquele a quem Deus ordena proclamar o que ele diz. No velho testamento era considerado falso profeta aquele que errasse uma única predição. Era apedrejado segundo a lei de Moisés, ainda que em mil predições acertasse novecentos e noventa e nove. Nos cultos pagãos, profeta era a pessoa que fazia previsões, proferia acontecimentos futuros ou se apresentava como intérprete dos 'deuses'. Neste caso, a profecia, tinha caráter adivinhatório e não como ensinado nas Escrituras. Hoje se vê muitos destes profetas que se fazem profetas por conta própria mentindo e engando.
O profeta Daniel viveu entre os séculos V e VI a. C. Ele estava entre os judeus levados cativos á Babilônia quando o rei Nabucodonosor invadiu Israel. Devido ao seu caráter, sua juventude e origem nobre, Daniel foi selecionado pelo rei para servir no palácio real, juntamente com outros três jovens hebreus. O nome Daniel provém do hebraico 'דָּנִיּאֵל' que significa 'Deus é meu juiz.' A ele foi dado um nome babilônico, o qual era Beltessazar. A profecia de Daniel narra os acontecimentos ligados às nações e o desenvolvimento dos fatos históricos até o fim dos tempos. Daniel foi uma das poucas pessoas elogiadas por Deus e morreu aos 72 anos. Atuou, segundo os propósitos de Deus, com sabedoria e diligência durante toda a vida.
O texto de abertura mostra Daniel no cativeiro babilônico no reinado de Ciro. Estava muito abatido pela demora na libertação do seu povo. Daniel se dirigiu às margens do rio Tigre para orar e confessar o seu pecado e o pecado do seu povo. Com ele estavam outros homens, porém não suportaram a revelação e fugiram. Daniel jejuou por três semanas e buscou entendimento de Deus sobre os acontecimentos. Após a sua oração olhou para o céu e viu um anjo ou mensageiro celeste vestido de roupas de linho cingido por ouro puro. O anjo foi descrito como tendo corpo como o berilo, o rosto resplandecia como um relâmpago, os braços e pés reluziam como bronze polido, os olhos como tochas de fogo e a voz como o som de uma multidão. Diante desta visão celestial, Daniel perdeu todas as suas forças físicas e caiu em sono profundo ao ouvir o som das suas palavras. Prostrado em terra desfalecido, ouviu a ordem do anjo para que se levantasse e ouvisse a mensagem de Deus. Trêmulo Daniel ouviu que era um homem mui amado e que suas orações haviam sido ouvidas por Deus desde o momento em que se colocou a orar e confessar.
A despeito do poder do mensageiro divino e da sublimidade da visão de Daniel foi relatada uma batalha invisível no espaço: "Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias..." Ora, sempre que uma mensagem faz referência à Satanás e seus demônios usa-se uma tipificação com algum dominador tirano terrestre. Desta forma, a referência ao 'príncipe do reino da Pérsia' não é uma referência ao rei Ciro, mas a um poder espiritual satânico que detinha o controle da Pérsia. Tal força espiritual do mal resistiu entre o mensageiro enviado e o profeta Daniel. Por causa desta interferência no mundo espiritual, um dos anjos mais poderosos na hierarquia celeste veio para ajudar. Muitos intérpretes afirmam que o anjo Gabriel é o responsável pela proteção e condução do povo judeu ou de Israel como nação. 
Assim, Daniel recebeu a revelação sobre os acontecimentos futuros acerca do povo judeu. Não era uma visão para aqueles dias e para atender aos desejos dos judeus de retornar à Jerusalém, mas para os últimos dias da história da Terra. O fato é que, embora o homem carnal não possa ver há movimento constante no mundo espiritual. Portanto, não devemos andar ansiosos ou amedrontados conforme ensinado em Mt. 28:20 "...e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.
Soli Deo Gloria!

fevereiro 07, 2015

A GUERRA NO CÉU E AS REALIDADES ESPIRITUAIS INVISÍVEIS

Ap. 12: 7 a 9 - "Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele."
As Escrituras não possuem muitos registros sobre Satanás, mas o pouco que falam é o suficiente para entendermos a origem e o caráter deste arcanjo da ordem dos querubins. Querubim provém do hebraico 'כרובים' ou 'keruvim' uma ordem de anjos, ocupando o segundo nível hierárquico abaixo de Deus e dos serafins. Cada ordem de anjos possui funções específicas no universo. Os querubins eram comandados por um arcanjo com funções de organizar a adoração, a guarda e a comunicação das ordens divinas entre os demais anjos.
O profeta Ezequiel fez menção ao arcanjo querubim comandante das forças angelicais. É um texto por meio de uma metáfora usando a figura de um rei terrestre. Deste texto retiram-se as seguintes palavras Ez. 28: 12 a 15 - "Tu eras o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estiveste no Éden, jardim de Deus; cobrias-te de toda pedra preciosa: a cornalina, o topázio, o ônix, a crisólita, o berilo, o jaspe, a safira, a granada, a esmeralda e o ouro. Em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados. Eu te coloquei com o querubim da guarda; estiveste sobre o monte santo de Deus; andaste no meio das pedras afogueadas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que em ti se achou iniquidade." Então, o arcanjo da ordem dos querubins era perfeito, sábio, belo. Achava-se no Éden Celestial, andava coberto de pedras preciosas e de ouro. A ele foi dado o comando da música para louvor de Deus. Ele era o guarda na capital do universo e andava em meio ao esplendor das pedras preciosas. Entretanto, um dia surgiu a iniquidade em seu coração, provando que o pecado não é uma questão de prosperidade, mas de incredulidade. 
O profeta Isaías revela o tipo de iniquidade que surgiu no coração do arcanjo chefe da guarda conforme Is. 14: 12 a 14 - "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! como foste lançado por terra tu que prostravas as nações! E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo." Por ser um ser espiritual criado livre para pensar e agir, o arcanjo querubim protetor desejou para si mesmo um trono acima das estrelas, assemelhando-se a Deus em poder e glória. Desta forma o anjo querubim não desejava mais adorar a Deus espontaneamente, mas queria adoração a si mesmo. Muitos, ingenuamente, pensam que Deus foi surpreendido por tal atitude. Ora, Deus tudo sabe conforme Is. 29:15 - "Ai dos que escondem profundamente o seu propósito do Senhor, e fazem as suas obras às escuras, e dizem: quem nos vê? e quem nos conhece?" Este foi o primeiro engano do querubim cobridor. Não creu na onisciência de Deus!
O arcanjo querubim violou os princípios imutáveis das leis de Deus conforme Sl. 111: 7 e 8 - "As obras das suas mãos são verdade e justiça; fiéis são todos os seus preceitos; firmados estão para todo o sempre; são feitos em verdade e retidão." Assim, não há nas obras de Deus quaisquer possibilidades de mentiras e injustiças. Os princípios são firmados eternamente e não oscilam em função das vontades dos seres criados. Estes princípios estão contidos nos dez mandamentos quando analisados como lei divina. 
Outra questão que se divulga erroneamente sobre este arcanjo querubim é o seu nome. Muitos afirmam com base em tradições religiosas que ele se chama Lúcifer. Primeiramente isto decorre de um erro de tradução de São Jerônimo do texto hebraico para o latim da Septuaginta. O profeta Isaías diz: "... ó estrela da manhã ...", entretanto este não é um nome próprio, mas apenas uma forma figurada de se referir ao arcanjo querubim. No hebraico tal expressão figurada é 'הילל בן שחר', ou seja, 'heilel ben shachar'. Jerônimo traduziu para o grego como 'heosphoros' e para o latim foi traduzido como 'lucem ferre'. Estas expressões significam apenas 'portador da luz', sendo portanto, um adjetivo e não um nome próprio. Trata-se, portanto, de uma função e não de um nome. O arcanjo querubim era o portador do conhecimento a ser disseminado entre os demais anjos sob seu comando. Luz em termos bíblicos indica sempre conhecimento e não apenas o fenômeno óptico. Os tradutores tomaram a expressão latina 'lucem ferre' e passaram ao português como o nome próprio Lúcifer. Posteriormente, o identificaram à Estrela D'Alva que é, de fato, o planeta Vênus. Nada tem a ver com o arcanjo da ordem dos querubins.
Na verdade o texto de Ap. 12 mostra os atuais nomes do arcanjo querubim caído: "E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás..." Diabo significa caluniador e acusador, enquanto Satanás provém do hebraico 'shai'tan' que significa adversário ou inimigo. Desta forma o antigo arcanjo chefe da guarda no céu passou a ser o dragão, antiga serpente, Diabo e Satanás. O nome original anterior a sua queda, não foi dito em nenhum texto das Escrituras.
Muitos pensam que Deus simplesmente poderia ter destruído Satanás para servir de exemplo. Todavia, Deus optou por deixar as coisas fluírem a fim de o caráter de Satanás pudesse ser revelado. A simples eliminação de Satanás poderia gerar uma adoração dos demais anjos apenas por medo e não por amor espontâneo. No ensino de Jesus, o Cristo isto fica explicado conforme Mt. 13:30 - "Deixai crescer ambos juntos até a ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro." O joio é tão semelhante ao trigo que, se o agricultor retirá-lo da plantação danificará toda a safra. Assim, espera-se o amadurecimento, porque então, é revelado o que é trigo e o que é joio.
Sola Gratia!

fevereiro 05, 2015

O EVANGELHO ANUNCIADO, AS ESCRITURAS CONFIRMADAS, E A TRAGÉDIA DO ENGANO

I Co. 15: 1 a 19 - "Ora, eu vos lembro, irmãos, o evangelho que já vos anunciei; o qual também recebestes, e no qual perseverais, pelo qual também sois salvos, se é que o conservais tal como vo-lo anunciei; se não é que crestes em vão. Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que apareceu a Cefas, e depois aos doze; depois apareceu a mais de quinhentos irmãos duma vez, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormiram; depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos; e por derradeiro de todos apareceu também a mim, como a um abortivo. Pois eu sou o menor dos apóstolos, que nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus que está comigo. Então, ou seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim crestes. Ora, se prega que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição de mortos? Mas se não há ressurreição de mortos, também Cristo não foi ressuscitado. E, se Cristo não foi ressuscitado, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não são ressuscitados. Porque, se os mortos não são ressuscitados, também Cristo não foi ressuscitado. E, se Cristo não foi ressuscitado, é vã a vossa fé, e ainda estais nos vossos pecados. Logo, também os que dormiram em Cristo estão perdidos. Se é só para esta vida que esperamos em Cristo, somos de todos os homens os mais dignos de lástima."
O anúncio do evangelho foi uma ordem dada aos discípulos pelo Mestre Jesus, o Cristo. Não é um imperativo, mas uma ação contínua e participativa da natureza dos nascidos de Deus. É como está doutrinado em II Co. 4:13 - "Ora, temos o mesmo espírito de fé, conforme está escrito: cri, por isso falei; também nós cremos, por isso também falamos..." Àquele que crê, não é dada a opção de silenciar sobre a verdade.
Em língua portuguesa o texto que trata deste tema foi traduzido com o verbo no imperativo 'ide', porque a tradução é arminiana. De fato o texto original utiliza o verbo no particípio contínuo. Portanto, o que as Escrituras afirmam em Mc. 16: 15 e 16 é "E disse-lhes: indo por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado." A raiz do verbo usado por Cristo provém de 'poreía' que é o substantivo para caminho, jornada, caravana. A forma verbal utilizada no texto é 'poreythentes', significando que, ao longo do caminho ou da jornada da vida, os discípulos de Cristo anunciam o evangelho. O mesmo verbo é utilizado em Mt. 28:19 e em outros contextos correlatos. A forma verbal utilizada no grego koinê está no modo particípio circunstancial ou aoristo e não no imperativo. O sentido mais simplificado do 'poreythentes' é 'indo' ou 'enquanto vão'. É óbvio que o verbo indica mobilidade geográfica, mas não é um imperativo como querem os defensores de missões. É uma ação contínua nos caminhos do dia a dia de cada um dos eleitos e regenerados por todo o mundo. Há oportunidades para quem se prepara, é chamado e recebe a incumbência de pregar em qualquer parte do muando, como para quem prega em sua vizinhança e em seu bairro. Uma coisa não anula a outra, mas o fato é que se trata de uma ação contínua dada a todos e não a uma casta de pessoas especiais designadas para uma obra misteriosa. Tal urgência missionária alegada por muitas igrejas se justifica pelo suposto poder de arrebatar almas do inferno. Entretanto, as Escrituras ensinam que as almas predestinadas e eleitas  têm os  seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro, antes da fundação do mundo. O 'indo' é destinado apenas a despertar os predestinados e eleitos conforme Rm. 8:29 e 30 - "Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou." Deus não trabalha 'a posteriori', mas 'a priori'. Os que foram conhecidos de antemão e predestinados serão salvos, independentemente do envio de missionários.
No texto de abertura, Paulo traz à memória dos discípulos em Corinto que o evangelho da verdade já lhes havia sido anunciado. Relembra-lhes que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. O apóstolo Paulo não elabora um evangelho alternativo, mas entrega o mesmo evangelho recebido diretamente do Cristo. A essência do evangelho verdadeiro é que Cristo morreu para aniquilar os pecados dos eleitos, foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. O evangelho não é uma fórmula mágica elaborada para impressionar os pecadores como se vê hoje. O método para a redenção do pecador foi decidido por Deus antes dos tempos eternos conforme II Tm. 1:9 - "... que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos..." Paulo ainda apela ao testemunho e autenticidade da morte, sepultamento e ressurreição de Cristo por grande número de pessoas que presenciaram todos os eventos.
Na igreja de Corinto estavam "crentes" que receberam o mesmo evangelho, da mesma fonte e com a mesma autenticidade. Todavia, os que não puderam crer à verdade criaram para si verdades alternativas. Naquela igreja havia os que afirmavam que não há ressurreição dos mortos. Estes "cristãos" não nascidos do alto, tentavam mesclar o judaísmo ao ensino do evangelho puro. Tal situação de incredulidade determina na mente contaminada pela natureza pecaminosa grande necessidade de um evangelho adaptativo às exigências da alma não regenerada. Ora, se não há ressurreição dentre os mortos, Jesus, o Cristo não ressuscitou. Sua morte se torna absurda e absolutamente desqualificada em sua finalidade última. A morte de Cristo foi para matar a morte do pecador eleito, a saber, aniquilar  o pecado que tornou o homem morto para Deus. A ressurreição de Cristo é o coroamento e a prova que ele venceu a morte, o inferno e o poder do pecado conforme Ef. 4:  8 a 10  - "Por isso foi dito: subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens. Ora, isto, ele subiu que é, senão que também desceu às partes mais baixas da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu muito acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas."
A tragédia do engano religioso é pior que a tragédia do ateísmo, pois, neste caso o homem tem consciência da sua rejeição da verdade. No caso do religioso que crê no engano, o torna um praticante de ritos e preceitos, mantendo a natureza pecaminosa que os condena perante Deus. Falar das Escrituras, de Cristo, de Deus e realidades espirituais, nem sempre é anunciar o evangelho.
Sola Gratia!

janeiro 26, 2015

A CRUZ, A CRUCIFICAÇÃO E OS CRUCIFICADOS

Mt. 26: 1 e 2 - "E havendo Jesus concluído todas estas palavras, disse aos seus discípulos: sabeis que daqui a dois dias é a páscoa; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado."
Conquanto haja diferentes tipos de cruzes, a cruz mais simples é uma figura geométrica em duas peças que se cruzam horizontal e verticalmente, formando ângulos de noventa graus. A cruz nunca fez parte do judaísmo, mas era utilizada como símbolo religioso por diversas crenças antigas na Ásia. O Império Romano adotou a cruz como instrumento de execução bem antes da condenação de Jesus, o Cristo. A palavra cruz provém do latim 'cruces' e do grego 'stauros' indicando um objeto concreto. Até o final do primeiro século da Era Cristã, raramente, os cristãos usavam a cruz como símbolo por medo dos judeus. Usavam para simbolizar e identificar sua fé um peixe com a inscrição 'Ichthys' que é um acróstico das palavras gregas "Iesus Christos Theos Yios Soter" - significando: "Jesus Cristo, Filho de Deus, o Salvador". Há muita discussão sobre o formato da cruz que Jesus carregou pelas vielas de Jerusalém até os arredores desta cidade, onde foi crucificado. Entretanto, é possível que ele tenha carregado apenas a parte menor que seria, no ato da crucificação, encaixada à parte vertical. Há textos extrabíblicos os quais descrevem o método romano de crucificar desta maneira.
Há cerca de 2.000 anos o cristianismo nominal debate diversos aspectos dos evangelhos. Entretanto, se apegam ao que é histórico e periférico, deixando de considerar o que é profundo e central. No tocante à crucificação, por exemplo, debate-se muito sobre de quem foi a responsabilidade pelo processo da crucificação de Jesus, o Cristo. Entretanto, discutem apenas a moralidade superficial do fato e não a sua profundidade espiritual. Alguns culpam os judeus, outros os romanos e, outros ainda, culpam Satanás. Ora, a crucificação de Jesus, o Cristo seria o ato final da derrota de Satanás conforme Gn. 3:15. Portanto, contrariamente, o maior desejo de Satanás era que Cristo não fosse crucificado. Ele usou diversas pessoas para tentar dissuadir o Cristo do seu destino conforme Mc. 8:31 e 32 - "Começou então a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem padecesse muitas coisas, que fosse rejeitado pelos anciãos e principais sacerdotes e pelos escribas, que fosse morto, e que depois de três dias ressurgisse. E isso dizia abertamente. Ao que Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo." A reação de Pedro era tão somente humana e emocional, pois ainda não havia sido convertido espiritualmente. Por isso a resposta de Cristo a Pedro foi a seguinte: "Mas ele, virando-se olhando para seus discípulos, repreendeu a Pedro, dizendo: para trás de mim, Satanás; porque não cuidas das coisas que são de Deus, mas sim das que são dos homens." Jesus, não estava dizendo que Pedro era Satanás, mas que Satanás o estava usando. Muitos que passavam pelo local da crucificação diziam: "... se és Filho de Deus, desce da cruz." Um dos malfeitores também crucificado afirmou: "Não és tu o Cristo? salva-te a ti mesmo e a nós." A não aceitação da morte de Jesus, o Cristo é típica da incredulidade dos que não experimentaram o novo nascimento. Por não terem recebido a graça da revelação sobre a obra e natureza do Cristo, analisam os fatos à luz apenas de uma lógica humana ou forense. Veem a cruz apenas como um símbolo religioso e não como um caminho interior a ser seguido como o apóstolo Paulo em Gl. 2: 20.
De fato a decisão de redimir o homem da sua natureza pecaminosa é anterior à própria existência do mundo e do homem. É afirmado em Apocalipse que o Cordeiro de Deus foi imolado antes da fundação do mundo conforme Ap. 13:8 - "... esses cujos nomes não estão escritos no livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo." A forma de justificar o pecador foi decidida por Deus antes dos tempos eternos conforme II Tm. 1: 9 e 10 - "... mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos, e que agora se manifestou pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho..." Os pecadores predestinados e eleitos foram incluídos na morte de Jesus, o Cristo antes que o mundo existisse e eles mesmos tivessem cometido qualquer pecado conforme Ef. 1: 4 e 5 - "... como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade ..." 
Desta forma ficam claros alguns fatos: a) Deus quem determinou a morte de Jesus, o Cristo; b) Deus sabia que o homem haveria de pecar e providenciou o meio da redenção; c) Deus escreveu os nomes dos predestinados e eleitos no livro da vida do seu filho, antes dos tempos eternos; d) Deus resolveu redimir apenas alguns para adotá-los como filhos e não a todos os homens. Judeus e romanos foram apenas instrumentos no processo por força das suas naturezas pecaminosas e maléficas. Não foram eles que decidiram matar Jesus, pois nada pode acontecer no Universo sem que Deus autorize conforme palavras do próprio Jesus ao governador romano em Jo. 19:10 e 11 - "Disse-lhe, então, Pilatos: não me respondes? não sabes que tenho autoridade para te soltar, e autoridade para te crucificar? Respondeu-lhe Jesus: nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fora dado..." Uma coisa é a autoridade espiritual de Deus, outra é a autoridade moral humana condicionada ao pecado.
A crucificação de Jesus, o Cristo foi profetizada séculos antes do seu nascimento conforme Sl. 22: 16 - "... traspassaram-me as mãos e os pés." O método romano de castigar era a crucificação, onde os pés e mãos eram pregados no madeiro da cruz com pregos compridos. O peso do corpo e a desidratação levavam o crucificado à morte em algumas horas. Todo o salmo vinte e dois é uma profecia que dá detalhes da morte de Jesus, o Cristo.
No local da crucificação foram levadas três pessoas: Jesus, o Cristo e dois malfeitores. Jesus, como se sabe, foi crucificado para expiar a culpa pecaminosa dos predestinados e eleitos, pois ele mesmo não  havia cometido qualquer delito moral ou espiritual. Também, ali estavam dois homens apanhados em seus crimes e condenados. Estes representam a humanidade, pois todos são pecadores conforme Rm. 3:23 - "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus." Isto é confirmado em inúmeros textos escriturísticos, destacando-se Rm. 5: 12 - "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram." Esta é a chamada natureza adâmica ou natureza pecaminosa herdada de Adão. Por isso, Jesus é o último Adão, pois n'Ele a raça de Adão é terminada na cruz. O malfeitor que blasfemava e desafiava Jesus a descer da cruz salvar-se a si mesmo e a ele é o lado da humanidade que, além de possuir a natureza decaída e depravada, não se reconhece pecador e culpado. O outro malfeitor, ao contrário, ainda que também fosse portador da mesma natureza pecaminosa, reconheceu-a e suplicou o perdão, além de confessar Jesus, como Deus. Assim, fica evidente que, quem matou Jesus, foi o próprio Deus para oferecê-lo em expiação pelo pecado de muitos. Estes muitos são os que se reconhecem pecadores e confessam o seu estado pecaminoso. Recebem a graça para crer e, por isso, são feitos filhos de Deus por inclusão na morte de Jesus, o Cristo conforme Jo. 12:32 e 33.
Sola Scriptura!

janeiro 10, 2015

A ORDO SALUTIS E O EVANGELHO PROCLAMÁVEL

Rm. 8: 29 e 35 - "Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou. Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica; Quem os condenará? Cristo Jesus é quem morreu, ou antes quem ressurgiu dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós; quem nos separará do amor de Cristo? a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?"
'Ordo salutis' é um conceito cristão, mas não se acha grafado na Bíblia desta forma. Entretanto, existe uma ordem da salvação amplamente caracterizada nas Escrituras. Tal ordem, não é um imperativo, mas uma sequência dos eventos que determinam a salvação de pecadores. Trata-se apenas de uma expressão técnica para demonstração de como Deus amou alguns pecadores de antemão, os predestinou, e os elegeu para a redenção, criando todos os meios para que tal ação ocorresse conforme a sua vontade soberana. Tais elementos envolvem sua vontade, sua graça, sua misericórdia, o justificador, a fé, o momento histórico e o espaço geográfico. É o que se chama de 'kairós' de Deus!
O evangelho é a proclamação de boas novas para a salvação de pecadores, portanto é o resultado do poder soberano de Deus para redimir aos que amou em sua presciência, predestinou, elegeu, chamou, justificou e glorificou por meio de Jesus, o Cristo. Por esta razão está doutrinado em Rm. 1: 16 e 17 - "Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque no evangelho é revelada, de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: Mas o justo viverá da fé." Vê-se que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. E quem é aquele que crê? Aquele a quem é dado crer, pois a fé não é uma virtude do homem decaído, mas um dom de Deus. Os todos a que se referem alguns textos bíblicos, não são todos os homens, mas todos aqueles aos quais é dada a graça para crer e receber. São homens de todas as nações, tribos e línguas, os quais foram preordenados para crer. O judeu e o grego são termos puramente tipológicos: o judeu é o tipo dos que receberam a lei, as profecias e as promessas do Salvador; o grego é o tipo daqueles que seriam chamados dentre as outras nações. São homens de todas as etnias e não todos os homens. 
O ensino escriturístico da predestinação e eleição causa reações bastante adversas, especialmente entre religiosos "igrejificados", ou seja, confinados, conformados e subordinados a um sistema religioso o qual herdou por tradição ou foi estimulado a pertencer por forças circunstanciais. Estas pessoas estão conformadas aos padrões a elas  ensinados, porque foram persuadidas a acreditar que, se um sistema  afirma ser cristão, cita as Escrituras, fala sobre Deus, sobre Jesus e fala sobre o amor, a caridade e os bons costumes, logo, é a verdade. Ora, muitas seitas satânicas citam todas estas coisas. Neste sentido há demônios mais crentes que muitos religiosos, pois além de crer, eles estremecem diante da realidade de que há um só Deus conforme Tg. 2:18 - "Crês tu que Deus é um só? Fazes bem; os demônios também o creem, e estremecem." Entretanto, e apesar das tentativas de arranjar textos para negar a doutrina da eleição e predestinação tal como está nas Escrituras, o apóstolo Paulo diz que é Deus quem justifica os seus eleitos. Portanto, ainda que intentem acusações, que os condenem e levantem dúvidas sobre questões morais, nada mudará esta verdade. Por terem escamas nos olhos e cera nos ouvidos, não veem e não ouvem que é Deus quem os justificou. Tal justificação não dependeu de méritos ou justiças próprias, mas de Cristo os ter incluído em sua morte de cruz e também na sua gloriosa ressurreição dentre os mortos. A morte de Cristo foi para habilitar os eleitos, matando as suas naturezas pecaminosa. Na sua ressurreição ao terceiro dia mostrou a sua vitória sobre a morte e o inferno. Portanto, sendo a obra da regeneração atribuída apenas a Cristo e não ao pecador, nada o separará do seu amor.
As religiões não conseguem a unidade da fé, porque seguem uma base de crenças humanistas. Tais crenças são apenas adaptações feitas por teólogos para a gratificação das suas almas decaídas e satisfação dos seus anseios. Por tal razão é que há inumeráveis crendices, igrejas e seitas. No Catolicismo Romano, por exemplo, dizem que a ordem da salvação é: 'batismo, confirmação, eucaristia, penitência e extrema unção'. É, na verdade, apenas um conjunto de dogmas sacramentais, alguns das quais sequer estão nas Escrituras como ensino. No Luteranismo, um dos ramos da reforma protestante, a ordem é: 'chamada, iluminação, arrependimento, regeneração, justificação, união mística, santificação e conservação'. No Arminianismo a ordem é: 'presciência, predestinação, eleição, graça preveniente, chamada externa, arrependimento e fé, regeneração, justificação, santificação e glorificação'. No Calvinismo tal ordem é: 'predestinação, eleição, chamada, regeneração, fé, arrependimento, justificação, santificação, perseverança e glorificação'. Observa-se que não há unanimidade sobre algo que está perfeitamente doutrinado nas Escrituras.
Ora, esta necessidade de ordenar os elementos constitutivos da ação monergística de Deus é puramente humana. Na verdade, muitos destas etapas são sucessivas ou mesmo simultâneas. Não necessariamente, numa ordem lógica conforme o entendimento humano. Estas etapas são operadas e operacionalizadas objetivamente por Deus e recebidas subjetivamente pelo homem. Tudo se dá pela graça mediante a fé e, ambas são dom de Deus conforme Ef. 2:8 a 10 - "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas." Assim, o elemento iniciador e desencadeador do processo é a graça. Por graça entende-se que é Deus realizando no pecador uma obra impossível ao homem. Portanto, é Deus fazendo tudo por quem nada merece. Para tanto, ele executa a exigência da lei contra o pecado em si mesmo, na pessoa do seu filho unigênito na cruz. Ao morrer na cruz, todos os pecadores eleitos estavam incluídos nele para aniquilação da culpa do pecado. Ao ressuscitar, trouxe todos os eleitos e regenerados de volta à vida e à comunhão com Deus. Em Cristo na cruz a raça do primeiro Adão foi encerrada e dado o início de uma nova raça em Cristo, o último Adão. É neste sentido que Adão era um tipo de Cristo, pois um deu origem a uma linhagem de pecadores, o outro deu origem a uma ração de novas criaturas justificadas e imortais. 
Portanto, o evangelho proclamável é o que mostra com simplicidade o modus operandi de Deus para remissão do pecado conforme Rm. 15: 3 e 4 - "Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras."
Muitos homens inchados em sua arrogância pecaminosa se sentem ofendidos quando confrontados com estas verdades. Entretanto, aos nascidos de Deus é dada a seguinte ordem sobre o evangelho proclamável: "portanto indo, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo." Esta ordenança foi dada aos eleitos e regenerados, que são homens comuns e sujeitos a erros. Não são perfeitos como querem alguns cegos espiritualmente, porque exigem dos eleitos aquilo que eles mesmos não são. A obra do Diabo é exatamente esta: fazer o pecador rejeitar a mensagem por causa do mensageiro. Ora, basta ler as Escrituras e verificar-se-á que os homens mais usados por Deus eram de péssima qualidade moral. Todavia, foram eles regenerados e as obras deles falam ainda hoje. Eles foram conhecidos de antemão, predestinados, chamados, justificados e glorificados.
Sola Gratia!

A PORTA ESTREITA, OS FALSOS PROFETAS E AS ÁRVORES FRUTÍFERAS

Mt. 7:13 a 23 - "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram. Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade."
A condição existencial humana está intimamente atrelada à relação moral do certo e do errado. Entretanto, não é o erro ou o acerto moral que determina a relação espiritual do homem, mas a sua posição e relação  espiritual que são determinantes dos resultados morais. Comumente, uma pessoa é tida e recebida como correta e aprovada conforme os valores ético-morais que a faz notória perante a sociedade. Por esta razão, quando alguém tido e recebido como correto e aprovado cai em algum falha grave é altamente repudiado. Quando mais necessita  da compaixão e da graça é rejeitado, exatamente porque está sendo guiado pela lei do esforço próprio e não pelo Espírito.
A espiritualidade é algo determinado pela vontade soberana e monérgica de Deus. Não  é obtida como prêmio ou recompensa por quaisquer práticas de justiça própria. O ensino bíblico diz: "assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: somos servos inúteis; fizemos somente o que devíamos fazer." A maioria dos homens, especialmente os religiosos, imagina, erroneamente, que espiritualidade é a consequência de prática ou exercício exterior do que é moralmente correto. Este é um dos mais terríveis enganos pregado, sustentado, aceito e praticado pelas religiões humanas. 
O espírito do homem foi nele inoculado por Deus, portanto, veio d'Ele e a ele retorna após a morte física conforme Ec. 12:7b - " ... e o pó volte para a terra como o era, e o espírito volte a Deus que o deu." Então, o que sobra entre o corpo físico que retorna ao pó e o espírito que retorna ao criador é a alma. A alma é a sede das emoções, volições e decisões que opera após a queda do homem. Como o espírito ficou desligado ou "morto" para Deus, a alma assume o controle dos atos e atitudes humanas por meio da sensorialidade. A soma da alma e do corpo forma o que as Escrituras chamam de carne ou carnalidade. Tal carnalidade é o conjunto dos desejos e inclinações da alma contaminada pela natureza pecaminosa. Não há em toda extensão das Escrituras qualquer menção à salvação do espírito, mas sempre se refere à alma. Portanto, a maior parte dos feitos interpretados como atos de espiritualidade, no homem são de fato atos almáticos. Só podem ser tidos como espiritualidade, os atos e atitudes guiados pelo Espírito de Deus que é o único que se comunica com o espírito humano regenerado pela justificação na morte de Cristo. O espírito do homem só se comunica com o Espírito de Deus e vice-versa e aquele  necessita ter sido reconciliado a Deus novamente pela justificação em Cristo. É este o sentido de "pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus."
O texto de abertura é o ensino puro e direto de Jesus, o Cristo. É uma forma metafórica de ensinar a trajetória dos homens ao longo da vida. Tal caminho passa por uma porta que poderá ser larga ou estreita. A porta larga conduz a um caminho largo, fácil e prazeroso de ser percorrido. Por isto, o texto afirma que muitos andarão por ele. Entretanto, a porta estreita, o caminho apertado e difícil, poucos o encontram. A porta estreita e o caminho apertado são exatamente que conduzem à vida. Vida no texto original se refere à vida 'zoé', ou seja, a vida eterna e abundante prometida por Cristo.
O texto previne os eleitos e regenerados sobre a existência de falsos profetas. Tais profetas são falsos, não pela aparência exterior, mas pelo que são e ensinam por suas naturezas pecaminosas. O que contamina o homem é o que procede do coração e não a sua aparência exterior. A forma de conhecer e discernir entre o falso e o verdadeiro são os frutos. Ninguém consegue plantar uma videira e dela colher figos mais tarde. Ou ela produz uvas, ou não é uma videira. É neste ponto que surge a confusão religiosa entre causa e  efeito e vice-versa. Ora, a videira produz uvas invariavelmente, porque é da sua natureza genética produzi-las e não porque alguém deseja que produza outro fruto. Por semelhante modo, a ovelha produz lã, porque é da sua natureza. O lobo jamais produzirá lã, ainda que produza pelos. Deus já preordenou as árvores e os seus fruto antes dos tempos eternos, quando nem o mundo ainda houvera sido criado conforme II Tm. 1:9 - "...que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos..." O que define a árvore e os seus frutos é a graça concedida em Cristo antes dos tempos eternos. A santa vocação é o chamamento da parte de Deus para a separação da natureza pecaminosa. A salvação e o chamamento ocorreram pela vontade soberana de Deus e não pelas obras de justiça que alguém praticara. Deus tem os seus propósitos que não podem ser alterados e refutados por quem quer que seja.
Finalmente, o texto mostra que muitas pessoas chamam Cristo de 'senhor' repetidamente, no entanto, ele não lhes é por Senhor. O que determina o senhorio de Cristo sobre uma pessoa é a eleição antes da fundação do mundo conforme Ef. 1:4 - "... como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade..." Assim, os regenerados foram eleitos nele, ou seja, por inclusão em sua morte de cruz e ressurreição. Muitos imaginam que o "ser santo e irrepreensível diante dele" é uma questão de exercício comportamental. Não o é! De fato, o texto diz que tal condição é em amor, ou seja, a santidade e a irrepreensibilidade diante de Deus é por meio do amor de Cristo. Isto se dá pela operação e a operacionalização da graça de Deus antes que os eleitos houvessem nascido ou praticado o bem ou o mal. É um processo segundo "o beneplácito da sua vontade." Os eleitos não foram escolhidos com base no que haveriam de fazer ou deixariam de fazer, esta seria uma eleição falaciosa. No caso, Deus escolheria alguém pelo prévio conhecimento do que tal pessoa o escolheria também. Logo, isto não é eleição e, muito menos, predestinação, visto que coloca a escolha no homem decaído. Este erro doutrinário  é ensinado pelos lobos vestidos de cordeiros para encobrir as suas naturezas devoradoras. É a oferta da porta larga e do caminho espaçoso, porque coloca a centralidade no homem e sua suposta bondade.
Observa-se que o texto ensina que muitos dirão: senhor, senhor, nós profetizamos, expulsamos demônios e realizamos muitos milagres em teu nome. Todavia, Jesus lhes afirma: "então lhes direi claramente: nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade." A expressão: "nunca vos conheci" no texto grego original é 'homologueso', ou seja, 'eu não homologo ou confirmo' a autoridade de vocês. Homologar é confirmar que um documento ou objeto é autêntico e verdadeiro. Neste caso, Jesus, o Cristo está afirmando que não havia compatibilidade entre ele e os que o chamavam de Senhor. Jesus lhes diz para apartarem-se dele, pois praticavam a iniquidade. Ora, como pode ser pregar  o evangelho, expulsar demônios e fazer milagres a iniquidade? Simplesmente porque foram praticados por homens cujos espíritos não foram reconciliados com Deus por meio da inclusão na morte de Cristo e também na sua ressurreição. Eles não praticaram atos de espiritualidade, mas apenas atos almáticos contaminados pela natureza pecaminosa residente e persistente neles.
Sola Scriptura!