domingo, 8 de maio de 2016

LIVRE ARBÍTRIO x SERVO ARBÍTRIO III

Mt. 22: 1 a 14 - "Então Jesus tornou a falar-lhes por parábolas, dizendo: o reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho. Enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas, e estes não quiseram vir. Depois enviou outros servos, ordenando: dizei aos convidados: eis que tenho o meu jantar preparado; os meus bois e cevados já estão mortos, e tudo está pronto; vinde às bodas. Eles, porém, não fazendo caso, foram, um para o seu campo, outro para o seu negócio; e os outros, apoderando-se dos servos, os ultrajaram e mataram. Mas o rei encolerizou-se; e enviando os seus exércitos, destruiu aqueles homicidas, e incendiou a sua cidade. Então disse aos seus servos: as bodas, na verdade, estão preparadas, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, pelas encruzilhadas dos caminhos, e a quantos encontrardes, convidai-os para as bodas. E saíram aqueles servos pelos caminhos, e ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e encheu-se de convivas a sala nupcial. Mas, quando o rei entrou para ver os convivas, viu ali um homem que não trajava veste nupcial; e perguntou-lhe: amigo, como entraste aqui, sem teres veste nupcial? Ele, porém, emudeceu. Ordenou então o rei aos servos: amarrai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes. Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos."
O verbete livre arbítrio afirma o seguinte: "possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante." Por tal definição é induzida a ideia que o homem possui capacidade moral para decidir, escolher em função apenas da vontade própria, independentemente de qualquer fator determinante externo. Nota-se que esta afirmação é uma falácia, visto que ninguém é absolutamente livre no exercício da vontade. A própria vontade é determinada e não determinante em absoluto. Por exemplo, beber água, comer e defecar são vontades condicionadas e determinadas por fatores fisiológicos e não porque a pessoa decide executá-las a qualquer momento, sob qualquer pretexto e em qualquer lugar. Desta forma o que há é uma confusão entre escolhas mecânicas e naturais com livre vontade. Assim como, também há confusão entre escolhas morais, condicionadas pela cultura, e escolhas espirituais.
"Livre arbítrio" é uma expressão que quer dizer: juízo livre. Seria uma capacidade de julgamento livre absolutamente de qualquer evento ou fato determinante, bem como, de qualquer necessidade. Isto colocaria o homem na categoria de um "deus" auto-suficiente e não de criatura dependente. O homem seria bastante a si mesmo e perfeito em todos os seus atos. Portanto, é uma heresia introduzida pelo Gnosticismo a partir do século II d. C. no seio do Cristianismo. Atualmente ganhou corpo na filosofia, tanto popular, quanto na sistematizada.
A expressão "livre arbítrio" não se acha no texto bíblico, mas o que a torna inverosímel não é este fato. Na verdade, não é uma doutrina escriturística, mas apenas o fruto de deduções lógicas de teólogos, filósofos e estudiosos que não conhecem a verdade. O "livre arbítrio" é incompatível com os ensinos de Jesus, o Cristo, visto que a total e absoluta liberdade de escolha do homem decaído dispensaria o plano redentor de Deus em Cristo e sua morte vicária. Caso a salvação resultasse do fruto das escolhas livres do homem pecador, não faria sentido Deus enviar o seu Filho Unigênito para pagar o preço do pecado e das escolhas erradas do homem. O próprio homem teria de ser redentor de si mesmo. É exatamente esta posição que desejam os gnósticos: o homem é senhor e "deus" de si mesmo. O homem presume traçar o próprio caminho no universo livre e independente de qualquer coisa ou de outro ser. Isto, por si só é ridículo, bastando imaginar que ninguém pode sequer determinar onde iria nascer, a que família iria pertencer ou qual status social iria ter.
No texto que abre esta instância vê-se claramente que Jesus, o Cristo rechaça a possibilidade de o homem escolher por conta própria sem ter sido escolhido. O penetra que entrou na festa sem as vestes apropriadas e sem ser convidado foi posto para fora. O significado de tal parábola é que não é o homem quem determina o que escolhe espiritualmente. Ele é escolhido conforme a soberania de Deus e não segundo suas decisões contaminadas pela natureza pecaminosa residente e imanente. As vestes nupciais referenciadas no texto da parábola é o revestimento da justiça de Cristo e não a justiça própria ou os méritos do homem. Até mesmo os convidados que se recusaram a ir às bodas, o fizeram, não porque tivessem "livre arbítrio," mas porque suas naturezas os inclinaram à recusa.
Charles Haddon Spurgeon escreveu o livro: "Livre Arbítrio: Um Escravo." Nesta obra Spurgeon utiliza o versículo de Jo. 5:40 - "Mas vós não quereis vir a mim para terdes vida." Ele demonstra que os arminianos, os quais defendem a necessidade da livre vontade do pecador para escolher ou rejeitar a salvação, usam tal texto para justificar seus ensinos errôneos. Os arminianos subdividem o texto da seguinte forma: a) o homem tem uma vontade; b) a vontade é inteiramente livre; c) o homem tem que querer por si mesmo. Spurgeon explica que não é porque ocorrem as palavras "querer" ou "não querer" que faz do homem um ser absolutamente livre. Primeiramente, o homem está morto espiritualmente, portanto não pode arbitrar ou julgar nada livremente. A sua morte é a separação espiritual de Deus e o coloca como um ser decaído e absolutamente depravado. Desta forma o suposto "livre arbítrio" do homem é um escravo do pecado, conforme ensina Jesus, o Cristo em Jo. 8:34 - "Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado." Portanto, ou é livre ou é escravo!
Secundariamente, o homem decaído está debaixo da lei da morte, portanto, como quem está julgado e condenado por uma lei irrevogável poderia ser juiz de si mesmo e dos outros? Rm. 8:2 - "Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte." O que dá ao homem a redenção e a plena liberdade, não são suas escolhas comprometidas pela morte espiritual, mas a plena graça em Cristo. A lei do pecado e da morte por causa da natureza decaída foi justificada pela lei do Espírito da Vida em Cristo, a saber, na inclusão do pecador na morte com Cristo para destruição da sua morte. Portanto, um morto em delitos e pecados não é livre para executar qualquer juízo, salvo, o da sua própria condenação. Por esta razão é que Cristo afirma: "... e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará... Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."
Quando o texto de João capítulo oito diz que os líderes religiosos judeus não queriam ir a Cristo para ganhar a vida, não os imputa plena liberdade ou poder de escolha livre. Eles não queriam, porque suas naturezas pecaminosas não os permitiam ir. Seus espíritos mortos para Deus não os impeliam a ir a Cristo para recebê-lo como o redentor deles. Eles estavam nutridos com o engano que a religião deles os garantia a salvação. Isto os cegava e impedia de querer ir a Cristo para ganhar a vida eterna ou espiritual. Apenas a graça e a misericórdia de Deus pode levar o pecador cego e escravo da natureza pecaminosa à plena liberdade em Cristo conforme Jo. 6:44 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia."
Sola Gratia"

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