domingo, 29 de maio de 2016

IGREJA, CONGREGAÇÃO E CORPO DE CRISTO III

Ap. 3: 7 a 11 - "Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: isto diz o que é santo, o que é verdadeiro, o que tem a chave de Davi; o que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre: conheço as tuas obras (eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, que ninguém pode fechar), que tens pouca força, entretanto guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. Eis que farei aos da sinagoga de Satanás, aos que se dizem judeus, e não o são, mas mentem, eis que farei que venham, e adorem prostrados aos teus pés, e saibam que eu te amo. Porquanto guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para pôr à prova os que habitam sobre a terra. Venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa."
Em todo tipo de análise, especialmente, no tocante à fé e à verdade necessário se faz verificar as vertentes, pois há grande variedade de manifestações tidas como verdades. É muito fácil discernir onde está a verdade e com quem está a fé. Para tanto,  basta consultar a fonte única autorizada da verdade. As Escrituras são esta fonte única e correta para dirimir quaisquer dúvidas. Isto porque, se se depender apenas da livre análise para postulados dogmáticos, ninguém conseguirá chegar a bom termo. Todos os sistemas de crenças se apropriam de verdades particulares para se justificar e se impor perante as mentes humanas. Entretanto, são suas verdades e não a verdade!
É da apropriação correta da fé e da verdade que se pode chegar à compreensão da Igreja como a congregação dos justificados e corpo vivo de Cristo. Não são os anos de história, as lutas e os sofrimentos de um sistema de crença que o torna legítimo perante Deus e os homens. Muitas seitas heréticas e cultos pagãos também sofreram enormes perseguições e destruição ao longo da história. Nem por isso, os tais foram ou são autênticos e verdadeiros perante a face de Deus. 
Vê-se muito nestes tempos que se apresentam grande aceitação das práticas denominadas evangélicas. Tornou-se um clichê, ou mesmo, um estilo de vida dizer-se evangélico. Há espiritistas se auto-proclamando evangélicos; há católicos adotando estilos carismáticos evangélicos; há igrejas históricas, pentecostais e neo-pentecostais se auto-identificando como evangélicas. Qualquer que anuncia algum texto mínimo do evangelho, se coloca na perspectiva de evangélico. Ora, as maiores heresias nos últimos dois mil anos partiram do evangelho para estabelecer seus dogmas e confissões. Entretanto, tal evangelho é segundo suas próprias narrativas e não o texto evangélico por ele mesmo. Desta maneira, não basta usar o evangelho como referência para legitimar uma verdade como sendo cristã. Qualquer um, incluindo-se, ateus pode conhecer intelectualmente o evangelho e, nem por isso, o faz um cristão verdadeiro. Não é o homem que se torna cristão, mas é Cristo que o faz cristão.
A conexão entre o corpo, a Igreja, e a cabeça, Cristo, é demonstrada no ensino do apóstolo Paulo conforme Ef. 4:15 a 18 - "... antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual o corpo inteiro bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, efetua o seu crescimento para edificação de si mesmo em amor. Portanto digo isto, e testifico no Senhor, para que não mais andeis como andam os gentios, na verdade da sua mente, entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração..." Jesus, o Cristo é a cabeça da Igreja e, esta, o seu corpo. Tal corpo tem de estar ajustado à cabeça por inteiro e não em partes. Muitas igrejas são denominadas cristãs apenas por causa dos dizeres que as identificam. De fato, as partes que as compõem são absolutamente desajustadas e cada membro segue a vontade das suas mentes. Há brigas verbais, físicas e políticas por cargos e funções. Há disputas pela primazia dos destinos destas agregações, incluindo-se os bens sucessórios. 
Muitos evangélicos chamam as outras pessoas que não professam sua "fé" de mundanos, ímpios e pecadores, mas procedem em suas agregações da mesma forma que os tais aos quais condenam. Elas presumem que saíram do mundo, mas suas práticas cotidianas indicam que o mundo não as abandonou. Eles vão para as igrejas, mas continuam na verdade das suas mentes decaídas e depravadas. O que é pior, uma vez inseridas em um contexto evangélico ou religioso, estas pessoas somam as verdades das suas mentes aos seus dogmas religiosos, dando origem a uma espécie de culto abominável a Deus conforme se vê em Is. 1: 11 a 15 - "De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? diz o Senhor. Estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecerdes perante mim, quem requereu de vós isto, que viésseis pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação. As luas novas, os sábados, e a convocação de assembleias ... não posso suportar a iniquidade e o ajuntamento solene! As vossas luas novas, e as vossas festas fixas, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer. Quando estenderdes as vossas mãos, esconderei de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei; porque as vossas mãos estão cheias de sangue."
Uma das marcas mais evidentes de agregações religiosas é a leitura do texto bíblico com aplicação apenas para os que são estranhos ao seus sistemas de crenças. Eles jamais tomam os ensinos bíblicos para si, mas sempre acham que se aplicam apenas aos seus desafetos, aos incrédulos, aos mundanos, aos depravados aos pecadores. Mal sabem, que o texto sagrado fala primeiramente ao que o lê. Aliás, nenhum homem lê o texto sacro, mas é este que o lê e o esquadrinha para revelar Cristo.
A verdadeira Igreja é a reunião dos nascidos do alto, os quais foram atraídos à cruz para morrer na morte de Cristo e, juntamente com ele ressuscitar para a vida eterna. É na cruz que Cristo reconcilia o homem morto espiritualmente para Deus e o concede libertação plena e vida espiritual. Não é na proclamação de um evangelho pela metade que se forma uma Igreja Congregacional e Corpo de Cristo. É na morte da morte do pecado pela inclusão na morte de Cristo que a Igreja foi, é e sempre será forjada. O que passa disto tem procedência do maligno. Estes fatos são evidenciados em Ef. 2: 11 a 16 - "Portanto, lembrai-vos que outrora vós, gentios na carne, chamam circuncisão, feita pela mão dos homens, estáveis naquele tempo sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos pactos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos contidos em ordenanças, para criar, em si mesmo, dos dois um novo homem, assim fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um só corpo, tendo por ela matado a inimizade..."
Sola Gratia!

sexta-feira, 27 de maio de 2016

IGREJA, CONGREGAÇÃO E CORPO DE CRISTO II

Ez. 33: 30 a 33 - "Quanto a ti, ó filho do homem, os filhos do teu povo falam de ti junto às paredes e nas portas das casas; e fala um com o outro, cada qual a seu irmão, dizendo: vinde, peço-vos, e ouvi qual seja a palavra que procede do Senhor. E eles vêm a ti, como o povo costuma vir, e se assentam diante de ti como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois com a sua boca professam muito amor, mas o seu coração vai após o lucro. E eis que tu és para eles como uma canção de amores, canção de quem tem voz suave, e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra. Quando suceder isso (e há de suceder), saberão que houve no meio deles um profeta."
Como já comentado no estudo anterior, é perfeitamente possível haver uma agregação ou ajuntamento de pessoas em nome de uma determinada crença, ordem filosófica ou ideologia, mas isto pode não ter qualquer vínculo espiritual e congregacional. A Igreja bíblica é aquela instituída por Cristo conforme o registro de Mt. 16:18 e 19 - "Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares, pois, na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus." Pedro não é a rocha sobre a qual a verdadeira Igreja foi edificada, mas é apenas uma das pedrinhas com as quais tal Igreja foi e é edificada até que o Grande Rei retorne. O texto original grego deixa isto bem claro quando diz: "... tu és Pedro...", ou seja, você é 'petros', uma pedrinha. Na sequência o Cristo diz: "... e sobre esta pedra...", ou seja, sobre esta rocha edificarei a minha Igreja. No texto grego koinê Pedro é "petros", enquanto Cristo é "petra." A diferença é que "petros" é pedrinha ou fragmento de pedra e "petra" é rocha firme. Logo, Jesus, o Cristo não afirma que Pedro é a rocha sobre a qual a Igreja seria edificada, mas que Pedro era apenas uma pequena fração desta edificação. Também, o pronome demonstrativo "esta" indica que Jesus, o Cristo se referia a si mesmo e não a Pedro. Caso a referência fosse a Pedro teria utilizado o pronome "essa."
O próprio apóstolo Pedro nunca mencionou a si mesmo como a pedra sobre a qual a Igreja seria edificada. Ao contrário, apontou sempre que tal rocha é Cristo conforme I Pd. 2: 4 a 8 - "... e, chegando-vos para ele, pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas, para com Deus eleita e preciosa, vós também, quais pedras vivas, sois edificados como casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo. Por isso, na Escritura se diz: eis que ponho em Sião uma principal pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido. E assim para vós, os que credes, é a preciosidade; mas para os descrentes, a pedra que os edificadores rejeitaram, esta foi posta como a principal da esquina, e: como uma pedra de tropeço e rocha de escândalo; porque tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados." Veja, nesta epístola, o apóstolo diz claramente: "... e, chegando-vos para ele..." e não: "e, chegando-vos a mim..." Outra vez diz: "... pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas para Deus, eleita e preciosa..." Desta forma fica evidente que não é uma referência a um homem, mas ao Cristo. No texto de Mateus é utilizado o termo 'petra' como sendo rocha. No texto petrino é utilizado o termo 'lithon', significando a mesma coisa. No verso oito Pedro utiliza, tanto 'litos', como 'petra', indicando a rejeição do Messias encarnado no homem Jesus e a rejeição do Cristo como Deus e redentor.
Novamente Pedro demonstra que Jesus, o Cristo é a Rocha Eterna em At. 4: 8 a 12 - "Então Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse: autoridades do povo e vós, anciãos, se nós hoje somos inquiridos acerca do benefício feito a um enfermo, e do modo como foi curado, seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, nesse nome está este aqui, são diante de vós. Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta como pedra angular. E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos." Novamente, não se vê o apóstolo Pedro se auto-afirmando como sendo a Rocha Eterna, a qual é Cristo. Novamente foi utilizado o termo grego 'lithos' e não 'petros'.
O próprio Jesus, o Cristo se referiu à 'pedra angular' como sendo ele mesmo conforme Mt. 21:42 - "Disse-lhes Jesus: nunca lestes nas Escrituras: a pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como pedra angular; pelo Senhor foi feito isso, e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto eu vos digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que dê os seus frutos. E quem cair sobre esta pedra será despedaçado; mas aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó." Este povo a quem foi dada a graça para crer e receber a verdade é a Igreja verdadeira e não religiões humanas. No verso 43 Jesus mostra que os judeus perderiam a primazia da religião e dos oráculos. O fundamento da Igreja, a saber, a Congregação dos Justificados em Cristo pela inclusão na sua morte e ressurreição é formada pelos pecadores eleitos e regenerados. Não se trata de um ajuntamento de religiosos para buscar a salvação com base em preceitos, dogmas, méritos e esforços de justiça própria, como mostra no texto de abertura do estudo. Estes que assim se iludem, ajuntando-se ou agregando-se para ouvir uma mensagem como canção de amores, jamais verão a face do Grande Rei.
Solo Christus!

sábado, 14 de maio de 2016

IGREJA, CONGREGAÇÃO E CORPO DE CRISTO I

Hb. 10: 19 a 25 - "Tendo pois, irmãos, ousadia para entrarmos no santíssimo lugar, pelo sangue de Jesus, pelo caminho que ele nos inaugurou, caminho novo e vivo, através do véu, isto é, da sua carne, e tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé; tendo o coração purificado da má consciência, e o corpo lavado com água limpa, retenhamos inabalável a confissão da nossa esperança, porque fiel é aquele que fez a promessa; e consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras, não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia."
Congregar é um verbo transitivo e pronominal, o qual traz os seguintes significados: "unir-se inteiramente, ficar junto ou juntar-se, reunir-se, convocar, ligar-se, misturar-se." Deste verbo provém o substantivo congregação, como sendo o ato ou efeito de congregar-se. Consequentemente, tal ato implica em diversos aspectos: "assembleia de fieis, reunião de pessoas em função de uma fé única, conclave, congresso et coetera."
Já o verbete agregação traz os seguintes significados: "conjunto de objetos, pessoas, reunião, aglomeração." Portanto, difere substancialmente um grupo de pessoas ajuntar-se em um determinado lugar, data e hora, sem necessariamente, haver uma fé una e única. Ajuntar-se para comemorar alguma efeméride não é congregar. Uma reunião de pessoas pode ocorrer até mesmo sem uma razão específica ou justificada. Aglomerar-se pode ser até mesmo para se agredir e se ofender mutuamente. Um conjunto de pessoas em um mesmo local não significa unidade de pensamento, objetivos e fé. Há muitas razões por que as pessoas se aglomeram, se ajuntam e formam grupos.
Por diversas vezes se ouve no contexto de igrejas institucionais a justificativa que alguém se afastou ou está desviado da congregação. Outros preferem usar do eufemismo que os tais estão frios na fé. Ainda outros preferem culpar Satanás pelo afastamento daqueles que não querem mais se aglomerar em uma determinada crença. Aqueles que se põem na perspectiva de muito espirituais chegam a dizer, citando a bíblia: "saíram dentre nós, porque não eram dos nossos." Tais santarrões isolam parte de um versículo sem percorrer toda a sua extensão, propositadamente. O verso completo de I Jo. 2:19 diz - "Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos." Primeiramente, os que saíram não eram definitivamente membros do corpo de Cristo. Quem não possui natureza recriada em Cristo não suporta muito tempo na congregação dos eleitos e regenerados. Tal congregação é pouco atraente, pois não exalta o homem e suas inclinações. O texto é muito claro quando diz: "saíram dentre nós". Isto é profundamente diferente de dizer: "saíram dos nossos." Quando o nascido de Deus é confrontado ele sempre é vencido pelo que diz as Escrituras em Jo. 6: 68 e 69 - "Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós já temos crido e bem sabemos que tu és o Santo de Deus." O que faz os nascidos do alto se congregar são as palavras da vida eterna. É a fé produzida pelo ouvir a Palavra de Deus e a firme convicção que Cristo é Deus. Não é a beleza estética da igreja, não é o murmúrio dos cânticos, não é a confraria dos que se colocam como iguais, não é a efervescência dos que buscam barganhar com Deus.
Atualmente, muitas igrejas são meras agregações de pessoas em busca de alívio dos problemas financeiros, de saúde e de falta de afeto. Quando não ouvem o que desejam saem à cata de outra agregação que oferece mais resultados. Neste sentido, são meros barganhadores cuja fé é na própria fé e não no autor e consumador da fé. 
Na revista da CPAD "Cristianismo Hoje", edição 51, ano 9, página 31 publicou-se uma entrevista de um jovem que abandonou a igreja a qual pertencia. O entrevistado é economista, jornalista e consultor editorial. Na entrevista o referido moço aponta dez razões que o faria retornar à igreja. As mudanças exigidas por ele são as seguintes:
  1. Respeito às minorias.
  2. Respeito a outras crenças.
  3. Fim dos dogmas.
  4. Emancipação da mulher.
  5. Manifestação política.
  6. Ação social e defesa dos direitos humanos.
  7. Sermões inteligentes.
  8. Excelência artística.
  9. Fim do gueto.
  10. Laicidade.
O entrevistado afirma o seguinte em suas declarações: "cheguei a um ponto em que, simplesmente, cansei da cultura evangélica, das atitudes descriminatórias dos crentes e da hipocrisia generalizada." Olhando com mais acuidade as colocações do entrevistado percebem-se dois aspectos: a) ele não quer uma igreja, mas uma assembleia de ativistas políticos e de ações afirmativas; b) ele está profundamente decepcionado com a qualidade moral, cultural e espiritual dos membros da igreja. Conclui-se, assim, que, tanto ele, como a igreja em que frequentara estão fora da cruz e do Cristo crucificado e ressurreto. Em uma congregação puramente bíblica e fundada na fé de Cristo não seria necessário reivindicar qualquer destas queixas. Os nascidos de Deus têm a natureza de Cristo e cumpre todas estas coisas sem que ninguém os ensine ou diga para cumpri-las. Ocorrem por uma mudança na disposição espiritual e não por meio de práticas preceituais. Não é por meio de exercício de piedade imposto e orientado que faz um cristão autêntico. Não é a religião exterior que determina o nível ou caráter da fé. A fé é um dom e não uma virtude humana.

domingo, 8 de maio de 2016

LIVRE ARBÍTRIO x SERVO ARBÍTRIO III

Mt. 22: 1 a 14 - "Então Jesus tornou a falar-lhes por parábolas, dizendo: o reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho. Enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas, e estes não quiseram vir. Depois enviou outros servos, ordenando: dizei aos convidados: eis que tenho o meu jantar preparado; os meus bois e cevados já estão mortos, e tudo está pronto; vinde às bodas. Eles, porém, não fazendo caso, foram, um para o seu campo, outro para o seu negócio; e os outros, apoderando-se dos servos, os ultrajaram e mataram. Mas o rei encolerizou-se; e enviando os seus exércitos, destruiu aqueles homicidas, e incendiou a sua cidade. Então disse aos seus servos: as bodas, na verdade, estão preparadas, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, pelas encruzilhadas dos caminhos, e a quantos encontrardes, convidai-os para as bodas. E saíram aqueles servos pelos caminhos, e ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e encheu-se de convivas a sala nupcial. Mas, quando o rei entrou para ver os convivas, viu ali um homem que não trajava veste nupcial; e perguntou-lhe: amigo, como entraste aqui, sem teres veste nupcial? Ele, porém, emudeceu. Ordenou então o rei aos servos: amarrai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes. Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos."
O verbete livre arbítrio afirma o seguinte: "possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante." Por tal definição é induzida a ideia que o homem possui capacidade moral para decidir, escolher em função apenas da vontade própria, independentemente de qualquer fator determinante externo. Nota-se que esta afirmação é uma falácia, visto que ninguém é absolutamente livre no exercício da vontade. A própria vontade é determinada e não determinante em absoluto. Por exemplo, beber água, comer e defecar são vontades condicionadas e determinadas por fatores fisiológicos e não porque a pessoa decide executá-las a qualquer momento, sob qualquer pretexto e em qualquer lugar. Desta forma o que há é uma confusão entre escolhas mecânicas e naturais com livre vontade. Assim como, também há confusão entre escolhas morais, condicionadas pela cultura, e escolhas espirituais.
"Livre arbítrio" é uma expressão que quer dizer: juízo livre. Seria uma capacidade de julgamento livre absolutamente de qualquer evento ou fato determinante, bem como, de qualquer necessidade. Isto colocaria o homem na categoria de um "deus" auto-suficiente e não de criatura dependente. O homem seria bastante a si mesmo e perfeito em todos os seus atos. Portanto, é uma heresia introduzida pelo Gnosticismo a partir do século II d. C. no seio do Cristianismo. Atualmente ganhou corpo na filosofia, tanto popular, quanto na sistematizada.
A expressão "livre arbítrio" não se acha no texto bíblico, mas o que a torna inverosímel não é este fato. Na verdade, não é uma doutrina escriturística, mas apenas o fruto de deduções lógicas de teólogos, filósofos e estudiosos que não conhecem a verdade. O "livre arbítrio" é incompatível com os ensinos de Jesus, o Cristo, visto que a total e absoluta liberdade de escolha do homem decaído dispensaria o plano redentor de Deus em Cristo e sua morte vicária. Caso a salvação resultasse do fruto das escolhas livres do homem pecador, não faria sentido Deus enviar o seu Filho Unigênito para pagar o preço do pecado e das escolhas erradas do homem. O próprio homem teria de ser redentor de si mesmo. É exatamente esta posição que desejam os gnósticos: o homem é senhor e "deus" de si mesmo. O homem presume traçar o próprio caminho no universo livre e independente de qualquer coisa ou de outro ser. Isto, por si só é ridículo, bastando imaginar que ninguém pode sequer determinar onde iria nascer, a que família iria pertencer ou qual status social iria ter.
No texto que abre esta instância vê-se claramente que Jesus, o Cristo rechaça a possibilidade de o homem escolher por conta própria sem ter sido escolhido. O penetra que entrou na festa sem as vestes apropriadas e sem ser convidado foi posto para fora. O significado de tal parábola é que não é o homem quem determina o que escolhe espiritualmente. Ele é escolhido conforme a soberania de Deus e não segundo suas decisões contaminadas pela natureza pecaminosa residente e imanente. As vestes nupciais referenciadas no texto da parábola é o revestimento da justiça de Cristo e não a justiça própria ou os méritos do homem. Até mesmo os convidados que se recusaram a ir às bodas, o fizeram, não porque tivessem "livre arbítrio," mas porque suas naturezas os inclinaram à recusa.
Charles Haddon Spurgeon escreveu o livro: "Livre Arbítrio: Um Escravo." Nesta obra Spurgeon utiliza o versículo de Jo. 5:40 - "Mas vós não quereis vir a mim para terdes vida." Ele demonstra que os arminianos, os quais defendem a necessidade da livre vontade do pecador para escolher ou rejeitar a salvação, usam tal texto para justificar seus ensinos errôneos. Os arminianos subdividem o texto da seguinte forma: a) o homem tem uma vontade; b) a vontade é inteiramente livre; c) o homem tem que querer por si mesmo. Spurgeon explica que não é porque ocorrem as palavras "querer" ou "não querer" que faz do homem um ser absolutamente livre. Primeiramente, o homem está morto espiritualmente, portanto não pode arbitrar ou julgar nada livremente. A sua morte é a separação espiritual de Deus e o coloca como um ser decaído e absolutamente depravado. Desta forma o suposto "livre arbítrio" do homem é um escravo do pecado, conforme ensina Jesus, o Cristo em Jo. 8:34 - "Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado." Portanto, ou é livre ou é escravo!
Secundariamente, o homem decaído está debaixo da lei da morte, portanto, como quem está julgado e condenado por uma lei irrevogável poderia ser juiz de si mesmo e dos outros? Rm. 8:2 - "Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte." O que dá ao homem a redenção e a plena liberdade, não são suas escolhas comprometidas pela morte espiritual, mas a plena graça em Cristo. A lei do pecado e da morte por causa da natureza decaída foi justificada pela lei do Espírito da Vida em Cristo, a saber, na inclusão do pecador na morte com Cristo para destruição da sua morte. Portanto, um morto em delitos e pecados não é livre para executar qualquer juízo, salvo, o da sua própria condenação. Por esta razão é que Cristo afirma: "... e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará... Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres."
Quando o texto de João capítulo oito diz que os líderes religiosos judeus não queriam ir a Cristo para ganhar a vida, não os imputa plena liberdade ou poder de escolha livre. Eles não queriam, porque suas naturezas pecaminosas não os permitiam ir. Seus espíritos mortos para Deus não os impeliam a ir a Cristo para recebê-lo como o redentor deles. Eles estavam nutridos com o engano que a religião deles os garantia a salvação. Isto os cegava e impedia de querer ir a Cristo para ganhar a vida eterna ou espiritual. Apenas a graça e a misericórdia de Deus pode levar o pecador cego e escravo da natureza pecaminosa à plena liberdade em Cristo conforme Jo. 6:44 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia."
Sola Gratia"