segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A CRUZ, A CRUCIFICAÇÃO E OS CRUCIFICADOS

Mt. 26: 1 e 2 - "E havendo Jesus concluído todas estas palavras, disse aos seus discípulos: sabeis que daqui a dois dias é a páscoa; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado."
Conquanto haja diferentes tipos de cruzes, a cruz mais simples é uma figura geométrica em duas peças que se cruzam horizontal e verticalmente, formando ângulos de noventa graus. A cruz nunca fez parte do judaísmo, mas era utilizada como símbolo religioso por diversas crenças antigas na Ásia. O Império Romano adotou a cruz como instrumento de execução bem antes da condenação de Jesus, o Cristo. A palavra cruz provém do latim 'cruces' e do grego 'stauros' indicando um objeto concreto. Até o final do primeiro século da Era Cristã, raramente, os cristãos usavam a cruz como símbolo por medo dos judeus. Usavam para simbolizar e identificar sua fé um peixe com a inscrição 'Ichthys' que é um acróstico das palavras gregas "Iesus Christos Theos Yios Soter" - significando: "Jesus Cristo, Filho de Deus, o Salvador". Há muita discussão sobre o formato da cruz que Jesus carregou pelas vielas de Jerusalém até os arredores desta cidade, onde foi crucificado. Entretanto, é possível que ele tenha carregado apenas a parte menor que seria, no ato da crucificação, encaixada à parte vertical. Há textos extrabíblicos os quais descrevem o método romano de crucificar desta maneira.
Há cerca de 2.000 anos o cristianismo nominal debate diversos aspectos dos evangelhos. Entretanto, se apegam ao que é histórico e periférico, deixando de considerar o que é profundo e central. No tocante à crucificação, por exemplo, debate-se muito sobre de quem foi a responsabilidade pelo processo da crucificação de Jesus, o Cristo. Entretanto, discutem apenas a moralidade superficial do fato e não a sua profundidade espiritual. Alguns culpam os judeus, outros os romanos e, outros ainda, culpam Satanás. Ora, a crucificação de Jesus, o Cristo seria o ato final da derrota de Satanás conforme Gn. 3:15. Portanto, contrariamente, o maior desejo de Satanás era que Cristo não fosse crucificado. Ele usou diversas pessoas para tentar dissuadir o Cristo do seu destino conforme Mc. 8:31 e 32 - "Começou então a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem padecesse muitas coisas, que fosse rejeitado pelos anciãos e principais sacerdotes e pelos escribas, que fosse morto, e que depois de três dias ressurgisse. E isso dizia abertamente. Ao que Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo." A reação de Pedro era tão somente humana e emocional, pois ainda não havia sido convertido espiritualmente. Por isso a resposta de Cristo a Pedro foi a seguinte: "Mas ele, virando-se olhando para seus discípulos, repreendeu a Pedro, dizendo: para trás de mim, Satanás; porque não cuidas das coisas que são de Deus, mas sim das que são dos homens." Jesus, não estava dizendo que Pedro era Satanás, mas que Satanás o estava usando. Muitos que passavam pelo local da crucificação diziam: "... se és Filho de Deus, desce da cruz." Um dos malfeitores também crucificado afirmou: "Não és tu o Cristo? salva-te a ti mesmo e a nós." A não aceitação da morte de Jesus, o Cristo é típica da incredulidade dos que não experimentaram o novo nascimento. Por não terem recebido a graça da revelação sobre a obra e natureza do Cristo, analisam os fatos à luz apenas de uma lógica humana ou forense. Veem a cruz apenas como um símbolo religioso e não como um caminho interior a ser seguido como o apóstolo Paulo em Gl. 2: 20.
De fato a decisão de redimir o homem da sua natureza pecaminosa é anterior à própria existência do mundo e do homem. É afirmado em Apocalipse que o Cordeiro de Deus foi imolado antes da fundação do mundo conforme Ap. 13:8 - "... esses cujos nomes não estão escritos no livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo." A forma de justificar o pecador foi decidida por Deus antes dos tempos eternos conforme II Tm. 1: 9 e 10 - "... mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos, e que agora se manifestou pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho..." Os pecadores predestinados e eleitos foram incluídos na morte de Jesus, o Cristo antes que o mundo existisse e eles mesmos tivessem cometido qualquer pecado conforme Ef. 1: 4 e 5 - "... como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade ..." 
Desta forma ficam claros alguns fatos: a) Deus quem determinou a morte de Jesus, o Cristo; b) Deus sabia que o homem haveria de pecar e providenciou o meio da redenção; c) Deus escreveu os nomes dos predestinados e eleitos no livro da vida do seu filho, antes dos tempos eternos; d) Deus resolveu redimir apenas alguns para adotá-los como filhos e não a todos os homens. Judeus e romanos foram apenas instrumentos no processo por força das suas naturezas pecaminosas e maléficas. Não foram eles que decidiram matar Jesus, pois nada pode acontecer no Universo sem que Deus autorize conforme palavras do próprio Jesus ao governador romano em Jo. 19:10 e 11 - "Disse-lhe, então, Pilatos: não me respondes? não sabes que tenho autoridade para te soltar, e autoridade para te crucificar? Respondeu-lhe Jesus: nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fora dado..." Uma coisa é a autoridade espiritual de Deus, outra é a autoridade moral humana condicionada ao pecado.
A crucificação de Jesus, o Cristo foi profetizada séculos antes do seu nascimento conforme Sl. 22: 16 - "... traspassaram-me as mãos e os pés." O método romano de castigar era a crucificação, onde os pés e mãos eram pregados no madeiro da cruz com pregos compridos. O peso do corpo e a desidratação levavam o crucificado à morte em algumas horas. Todo o salmo vinte e dois é uma profecia que dá detalhes da morte de Jesus, o Cristo.
No local da crucificação foram levadas três pessoas: Jesus, o Cristo e dois malfeitores. Jesus, como se sabe, foi crucificado para expiar a culpa pecaminosa dos predestinados e eleitos, pois ele mesmo não  havia cometido qualquer delito moral ou espiritual. Também, ali estavam dois homens apanhados em seus crimes e condenados. Estes representam a humanidade, pois todos são pecadores conforme Rm. 3:23 - "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus." Isto é confirmado em inúmeros textos escriturísticos, destacando-se Rm. 5: 12 - "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram." Esta é a chamada natureza adâmica ou natureza pecaminosa herdada de Adão. Por isso, Jesus é o último Adão, pois n'Ele a raça de Adão é terminada na cruz. O malfeitor que blasfemava e desafiava Jesus a descer da cruz salvar-se a si mesmo e a ele é o lado da humanidade que, além de possuir a natureza decaída e depravada, não se reconhece pecador e culpado. O outro malfeitor, ao contrário, ainda que também fosse portador da mesma natureza pecaminosa, reconheceu-a e suplicou o perdão, além de confessar Jesus, como Deus. Assim, fica evidente que, quem matou Jesus, foi o próprio Deus para oferecê-lo em expiação pelo pecado de muitos. Estes muitos são os que se reconhecem pecadores e confessam o seu estado pecaminoso. Recebem a graça para crer e, por isso, são feitos filhos de Deus por inclusão na morte de Jesus, o Cristo conforme Jo. 12:32 e 33.
Sola Scriptura!

sábado, 10 de janeiro de 2015

A ORDO SALUTIS E O EVANGELHO PROCLAMÁVEL

Rm. 8: 29 e 35 - "Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou. Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como não nos dará também com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica; Quem os condenará? Cristo Jesus é quem morreu, ou antes quem ressurgiu dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós; quem nos separará do amor de Cristo? a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?"
'Ordo salutis' é um conceito cristão, mas não se acha grafado na Bíblia desta forma. Entretanto, existe uma ordem da salvação amplamente caracterizada nas Escrituras. Tal ordem, não é um imperativo, mas uma sequência dos eventos que determinam a salvação de pecadores. Trata-se apenas de uma expressão técnica para demonstração de como Deus amou alguns pecadores de antemão, os predestinou, e os elegeu para a redenção, criando todos os meios para que tal ação ocorresse conforme a sua vontade soberana. Tais elementos envolvem sua vontade, sua graça, sua misericórdia, o justificador, a fé, o momento histórico e o espaço geográfico. É o que se chama de 'kairós' de Deus!
O evangelho é a proclamação de boas novas para a salvação de pecadores, portanto é o resultado do poder soberano de Deus para redimir aos que amou em sua presciência, predestinou, elegeu, chamou, justificou e glorificou por meio de Jesus, o Cristo. Por esta razão está doutrinado em Rm. 1: 16 e 17 - "Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque no evangelho é revelada, de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: Mas o justo viverá da fé." Vê-se que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. E quem é aquele que crê? Aquele a quem é dado crer, pois a fé não é uma virtude do homem decaído, mas um dom de Deus. Os todos a que se referem alguns textos bíblicos, não são todos os homens, mas todos aqueles aos quais é dada a graça para crer e receber. São homens de todas as nações, tribos e línguas, os quais foram preordenados para crer. O judeu e o grego são termos puramente tipológicos: o judeu é o tipo dos que receberam a lei, as profecias e as promessas do Salvador; o grego é o tipo daqueles que seriam chamados dentre as outras nações. São homens de todas as etnias e não todos os homens. 
O ensino escriturístico da predestinação e eleição causa reações bastante adversas, especialmente entre religiosos "igrejificados", ou seja, confinados, conformados e subordinados a um sistema religioso o qual herdou por tradição ou foi estimulado a pertencer por forças circunstanciais. Estas pessoas estão conformadas aos padrões a elas  ensinados, porque foram persuadidas a acreditar que, se um sistema  afirma ser cristão, cita as Escrituras, fala sobre Deus, sobre Jesus e fala sobre o amor, a caridade e os bons costumes, logo, é a verdade. Ora, muitas seitas satânicas citam todas estas coisas. Neste sentido há demônios mais crentes que muitos religiosos, pois além de crer, eles estremecem diante da realidade de que há um só Deus conforme Tg. 2:18 - "Crês tu que Deus é um só? Fazes bem; os demônios também o creem, e estremecem." Entretanto, e apesar das tentativas de arranjar textos para negar a doutrina da eleição e predestinação tal como está nas Escrituras, o apóstolo Paulo diz que é Deus quem justifica os seus eleitos. Portanto, ainda que intentem acusações, que os condenem e levantem dúvidas sobre questões morais, nada mudará esta verdade. Por terem escamas nos olhos e cera nos ouvidos, não veem e não ouvem que é Deus quem os justificou. Tal justificação não dependeu de méritos ou justiças próprias, mas de Cristo os ter incluído em sua morte de cruz e também na sua gloriosa ressurreição dentre os mortos. A morte de Cristo foi para habilitar os eleitos, matando as suas naturezas pecaminosa. Na sua ressurreição ao terceiro dia mostrou a sua vitória sobre a morte e o inferno. Portanto, sendo a obra da regeneração atribuída apenas a Cristo e não ao pecador, nada o separará do seu amor.
As religiões não conseguem a unidade da fé, porque seguem uma base de crenças humanistas. Tais crenças são apenas adaptações feitas por teólogos para a gratificação das suas almas decaídas e satisfação dos seus anseios. Por tal razão é que há inumeráveis crendices, igrejas e seitas. No Catolicismo Romano, por exemplo, dizem que a ordem da salvação é: 'batismo, confirmação, eucaristia, penitência e extrema unção'. É, na verdade, apenas um conjunto de dogmas sacramentais, alguns das quais sequer estão nas Escrituras como ensino. No Luteranismo, um dos ramos da reforma protestante, a ordem é: 'chamada, iluminação, arrependimento, regeneração, justificação, união mística, santificação e conservação'. No Arminianismo a ordem é: 'presciência, predestinação, eleição, graça preveniente, chamada externa, arrependimento e fé, regeneração, justificação, santificação e glorificação'. No Calvinismo tal ordem é: 'predestinação, eleição, chamada, regeneração, fé, arrependimento, justificação, santificação, perseverança e glorificação'. Observa-se que não há unanimidade sobre algo que está perfeitamente doutrinado nas Escrituras.
Ora, esta necessidade de ordenar os elementos constitutivos da ação monergística de Deus é puramente humana. Na verdade, muitos destas etapas são sucessivas ou mesmo simultâneas. Não necessariamente, numa ordem lógica conforme o entendimento humano. Estas etapas são operadas e operacionalizadas objetivamente por Deus e recebidas subjetivamente pelo homem. Tudo se dá pela graça mediante a fé e, ambas são dom de Deus conforme Ef. 2:8 a 10 - "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas." Assim, o elemento iniciador e desencadeador do processo é a graça. Por graça entende-se que é Deus realizando no pecador uma obra impossível ao homem. Portanto, é Deus fazendo tudo por quem nada merece. Para tanto, ele executa a exigência da lei contra o pecado em si mesmo, na pessoa do seu filho unigênito na cruz. Ao morrer na cruz, todos os pecadores eleitos estavam incluídos nele para aniquilação da culpa do pecado. Ao ressuscitar, trouxe todos os eleitos e regenerados de volta à vida e à comunhão com Deus. Em Cristo na cruz a raça do primeiro Adão foi encerrada e dado o início de uma nova raça em Cristo, o último Adão. É neste sentido que Adão era um tipo de Cristo, pois um deu origem a uma linhagem de pecadores, o outro deu origem a uma ração de novas criaturas justificadas e imortais. 
Portanto, o evangelho proclamável é o que mostra com simplicidade o modus operandi de Deus para remissão do pecado conforme Rm. 15: 3 e 4 - "Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras."
Muitos homens inchados em sua arrogância pecaminosa se sentem ofendidos quando confrontados com estas verdades. Entretanto, aos nascidos de Deus é dada a seguinte ordem sobre o evangelho proclamável: "portanto indo, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo." Esta ordenança foi dada aos eleitos e regenerados, que são homens comuns e sujeitos a erros. Não são perfeitos como querem alguns cegos espiritualmente, porque exigem dos eleitos aquilo que eles mesmos não são. A obra do Diabo é exatamente esta: fazer o pecador rejeitar a mensagem por causa do mensageiro. Ora, basta ler as Escrituras e verificar-se-á que os homens mais usados por Deus eram de péssima qualidade moral. Todavia, foram eles regenerados e as obras deles falam ainda hoje. Eles foram conhecidos de antemão, predestinados, chamados, justificados e glorificados.
Sola Gratia!

A PORTA ESTREITA, OS FALSOS PROFETAS E AS ÁRVORES FRUTÍFERAS

Mt. 7:13 a 23 - "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram. Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade."
A condição existencial humana está intimamente atrelada à relação moral do certo e do errado. Entretanto, não é o erro ou o acerto moral que determina a relação espiritual do homem, mas a sua posição e relação  espiritual que são determinantes dos resultados morais. Comumente, uma pessoa é tida e recebida como correta e aprovada conforme os valores ético-morais que a faz notória perante a sociedade. Por esta razão, quando alguém tido e recebido como correto e aprovado cai em algum falha grave é altamente repudiado. Quando mais necessita  da compaixão e da graça é rejeitado, exatamente porque está sendo guiado pela lei do esforço próprio e não pelo Espírito.
A espiritualidade é algo determinado pela vontade soberana e monérgica de Deus. Não  é obtida como prêmio ou recompensa por quaisquer práticas de justiça própria. O ensino bíblico diz: "assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: somos servos inúteis; fizemos somente o que devíamos fazer." A maioria dos homens, especialmente os religiosos, imagina, erroneamente, que espiritualidade é a consequência de prática ou exercício exterior do que é moralmente correto. Este é um dos mais terríveis enganos pregado, sustentado, aceito e praticado pelas religiões humanas. 
O espírito do homem foi nele inoculado por Deus, portanto, veio d'Ele e a ele retorna após a morte física conforme Ec. 12:7b - " ... e o pó volte para a terra como o era, e o espírito volte a Deus que o deu." Então, o que sobra entre o corpo físico que retorna ao pó e o espírito que retorna ao criador é a alma. A alma é a sede das emoções, volições e decisões que opera após a queda do homem. Como o espírito ficou desligado ou "morto" para Deus, a alma assume o controle dos atos e atitudes humanas por meio da sensorialidade. A soma da alma e do corpo forma o que as Escrituras chamam de carne ou carnalidade. Tal carnalidade é o conjunto dos desejos e inclinações da alma contaminada pela natureza pecaminosa. Não há em toda extensão das Escrituras qualquer menção à salvação do espírito, mas sempre se refere à alma. Portanto, a maior parte dos feitos interpretados como atos de espiritualidade, no homem são de fato atos almáticos. Só podem ser tidos como espiritualidade, os atos e atitudes guiados pelo Espírito de Deus que é o único que se comunica com o espírito humano regenerado pela justificação na morte de Cristo. O espírito do homem só se comunica com o Espírito de Deus e vice-versa e aquele  necessita ter sido reconciliado a Deus novamente pela justificação em Cristo. É este o sentido de "pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus."
O texto de abertura é o ensino puro e direto de Jesus, o Cristo. É uma forma metafórica de ensinar a trajetória dos homens ao longo da vida. Tal caminho passa por uma porta que poderá ser larga ou estreita. A porta larga conduz a um caminho largo, fácil e prazeroso de ser percorrido. Por isto, o texto afirma que muitos andarão por ele. Entretanto, a porta estreita, o caminho apertado e difícil, poucos o encontram. A porta estreita e o caminho apertado são exatamente que conduzem à vida. Vida no texto original se refere à vida 'zoé', ou seja, a vida eterna e abundante prometida por Cristo.
O texto previne os eleitos e regenerados sobre a existência de falsos profetas. Tais profetas são falsos, não pela aparência exterior, mas pelo que são e ensinam por suas naturezas pecaminosas. O que contamina o homem é o que procede do coração e não a sua aparência exterior. A forma de conhecer e discernir entre o falso e o verdadeiro são os frutos. Ninguém consegue plantar uma videira e dela colher figos mais tarde. Ou ela produz uvas, ou não é uma videira. É neste ponto que surge a confusão religiosa entre causa e  efeito e vice-versa. Ora, a videira produz uvas invariavelmente, porque é da sua natureza genética produzi-las e não porque alguém deseja que produza outro fruto. Por semelhante modo, a ovelha produz lã, porque é da sua natureza. O lobo jamais produzirá lã, ainda que produza pelos. Deus já preordenou as árvores e os seus fruto antes dos tempos eternos, quando nem o mundo ainda houvera sido criado conforme II Tm. 1:9 - "...que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos..." O que define a árvore e os seus frutos é a graça concedida em Cristo antes dos tempos eternos. A santa vocação é o chamamento da parte de Deus para a separação da natureza pecaminosa. A salvação e o chamamento ocorreram pela vontade soberana de Deus e não pelas obras de justiça que alguém praticara. Deus tem os seus propósitos que não podem ser alterados e refutados por quem quer que seja.
Finalmente, o texto mostra que muitas pessoas chamam Cristo de 'senhor' repetidamente, no entanto, ele não lhes é por Senhor. O que determina o senhorio de Cristo sobre uma pessoa é a eleição antes da fundação do mundo conforme Ef. 1:4 - "... como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade..." Assim, os regenerados foram eleitos nele, ou seja, por inclusão em sua morte de cruz e ressurreição. Muitos imaginam que o "ser santo e irrepreensível diante dele" é uma questão de exercício comportamental. Não o é! De fato, o texto diz que tal condição é em amor, ou seja, a santidade e a irrepreensibilidade diante de Deus é por meio do amor de Cristo. Isto se dá pela operação e a operacionalização da graça de Deus antes que os eleitos houvessem nascido ou praticado o bem ou o mal. É um processo segundo "o beneplácito da sua vontade." Os eleitos não foram escolhidos com base no que haveriam de fazer ou deixariam de fazer, esta seria uma eleição falaciosa. No caso, Deus escolheria alguém pelo prévio conhecimento do que tal pessoa o escolheria também. Logo, isto não é eleição e, muito menos, predestinação, visto que coloca a escolha no homem decaído. Este erro doutrinário  é ensinado pelos lobos vestidos de cordeiros para encobrir as suas naturezas devoradoras. É a oferta da porta larga e do caminho espaçoso, porque coloca a centralidade no homem e sua suposta bondade.
Observa-se que o texto ensina que muitos dirão: senhor, senhor, nós profetizamos, expulsamos demônios e realizamos muitos milagres em teu nome. Todavia, Jesus lhes afirma: "então lhes direi claramente: nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade." A expressão: "nunca vos conheci" no texto grego original é 'homologueso', ou seja, 'eu não homologo ou confirmo' a autoridade de vocês. Homologar é confirmar que um documento ou objeto é autêntico e verdadeiro. Neste caso, Jesus, o Cristo está afirmando que não havia compatibilidade entre ele e os que o chamavam de Senhor. Jesus lhes diz para apartarem-se dele, pois praticavam a iniquidade. Ora, como pode ser pregar  o evangelho, expulsar demônios e fazer milagres a iniquidade? Simplesmente porque foram praticados por homens cujos espíritos não foram reconciliados com Deus por meio da inclusão na morte de Cristo e também na sua ressurreição. Eles não praticaram atos de espiritualidade, mas apenas atos almáticos contaminados pela natureza pecaminosa residente e persistente neles.
Sola Scriptura!