domingo, 10 de fevereiro de 2008

A FALSA TEOLOGIA UNIVERSALISTA DO "TODOS" II

As palavras são significantes que podem ter um ou diversos significados. Cada palavra possui, entre outros aspectos, função semântica e função gramatical. A semântica é um ramo da linguística e se ocupa do estudo da significação das palavras como parte dos sistemas das línguas naturais; pode ser abordado sincrônica ou diacronicamente. Trata, portanto, do significado das palavras, por oposição à sua forma. Já, a gramática, se ocupa do estudo do conjunto de prescrições e regras que determinam o uso considerado correto da língua escrita e falada. Em linguística descritiva, a gramática é o estudo objetivo e sistemático dos elementos, tais como: fonemas, morfemas, palavras, frases etc. e dos processos, como, formação, construção, flexão e expressão, que constituem e caracterizam o sistema de uma língua.
Portanto, as palavras variam de significação, dependendo do contexto em que aparecem. Também à palavra pode-se atribuir sentidos conotativo e denotativo, ou seja, sentidos literal e figurado. Segundo os estruturalistas, especialmente os norte-americanos, a palavra é unidade mínima com som e significado que pode, sozinha, constituir enunciado; forma livre mínima, vocábulo.
Esta breve abordagem nos parágrafos acima, visa na realidade, mostrar que nem sempre as palavras que saltam aos olhos em um determinado texto têm a mesma significação a cada vez que aparecem. As vezes, em uma única frase a mesma palavra, com a mesma grafia e a mesma fonética tem função e sentido diferentes, por exemplo, "como, como, ora, como, como como." Há um "como" que é advérbio de modo, e outro, que é o verbo comer, entretanto, são homógrafas e homófonas.
Neste sentido, imaginem como são as traduções de textos cujas línguas já não são mais faladas correntemente, ou mesmo, sofreram grande evolução ao longo do tempo? Além da questão da preocupação em traduzir corretamente, há também, a preocupação em fazer a versão correta. Para tanto, há a necessidade de muita pesquisa, tempo, instrumentos adequados e a máxima fidelidade ao texto originais. Por exemplo, se alguém tomar um determinado texto do poeta inglês William Shakespeare e traduzi-lo para o teatro moderno e em língua portuguesa, terá primeiramente de traduzi-lo para o inglês atual. Há verbos no inglês que podem ter mais de 15 ou 20 significados.
Estendendo todas estas questões técnicas ao hebraico, ao aramaico e ao grego koiné, que são as línguas matriciais das Escrituras, a dificuldade de se fazer uma tradução confiável é muito grande. A tudo isto, acrescenta-se o fato de haver a forte tendência dos tradutores em fazer versões de acordo com os seus sistemas de crenças. Hoje, se alguém ler o texto bíblico em uma tradução Adventista perceberá logo, em certos contextos, uma enorme adaptação ao sistema de crenças dessa religião; se pegar uma bíblia traduzida pelas Testemunhas de Jeová, ver-se-á um enorme recorte ideológico a fim de satisfazer ao sistema teológico dessa seita; se alguém ler o Evangelho Segundo o Espiritismo, de Alan Cardec* verá que houve um verdadeiro milagre na tradução, porque textos inteiros desaparecem, outros viram mutações e comutações para explicar uma série de coisas, como, reencarnação, ausência de inferno, inexistência do pecado e da condenação eterna, etc. Agora, imagine a grande quantidade de igrejas, seitas e religiões fazendo isto ao longo de 4.000 anos? Obviamente, o texto original é o mesmo contidos nos códices, o problema são as versões com toda a carga de crenças e ideologias nelas impregnadas. O tradutor seguirá invariavelmente o seu sistema de crença.
Para exemplificar, e apenas para isso, toma-se o texto de Lc. 23:43 - "Respondeu-lhe Jesus: em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso." Suponha que alguém creia que, ao morrer, o homem salvo, fique em uma espécie de sono da alma, esperando o dia do juízo e da restauração final. Este texto teria de ser vertido assim: "Respondeu-lhe Jesus: em verdade te digo hoje, que estarás comigo no paraíso." Será que muda muito ou não muda em nada a verdade dita por Jesus? A simples mudança de ordem em duas palavras poderá dar um sentido absolutamente diferente. Este é o problema que se quer levantar nesta série de artigos, visto que muitos cristãos e religiosos batem de frente com determinadas doutrinas bíblicas. Tomam as palavras fora das suas significações e funções, além de tomá-las fora dos princípios da hermenêutica e com uma exegese forçada. É quando a teologia faz com que as Escrituras se inclinem a um determinado sistema de crenças só para justificá-lo como dono da verdade. Mas, a que tipo de verdade se refere essa teologia?
(*) Allan Kardec é pseudônimo e não nome próprio.
Sola Scriptura!

7 comentários:

Helga disse...

Boa tarde,

Gostaria de comentar um trecho de seu texto: "e alguém ler o Evangelho Segundo o Espiritismo, de Alan Cardec verá que houve um verdadeiro milagre na tradução, porque textos inteiros desaparecem, outros mutações e comutações para explicar uma série de coisas, como reencarnação, ausência de inferno, inexistência do pecado e da condenação eterna, etc."

Primeiro, o correto é Allan Kardec. Depois, assim como defendido por você o longo do texto, é bem verdade que as traduções limitam a compreensão, assim como a raiz do verbo traduzir também é o do verbo trair e o melhor seria ler no original e nossa ignorância quanto às diversas línguas faz com que dependamos dos diversos tradutores que existem por aí (como bem defende Shoppenhauer em 'A arte de escrever').

Tendo o brasileiro uma necessidade religiosa e não tendo cultura suficiente para procurá-la na fonte fica este impasse de: ou estuda e lê corretamente, ou lê as traduções. Aí que está, será que antes de afirmar o que o senhor afirmou, checou as mais de 5 traduções correntes em português do Evangelho no Brasil? Não é desculpa, mesmo uma tradução mal feita que seja mancha todo trabalho, certo?

Este trabalho (o Evangelho Segundo..) não se propõe a traduzir a Bíblia inteira (pois há trabalhos específicos pra isso entre os próprios cristãos) e sim, como propriamente diz na introdução, vem dar uma outra interpretação (e não uma explicação, como um fato) às palavras de Jesus, pois estas sem dúvida foram palavras de grande sabedoria.

Em tempo, o Espiritismo não desaparece com o inferno. Só que, não querendo criar intriga, há algum geólogo que prove realmente que o inferno fica num ponto específico no espaço como afirmam os antigos católicos (pós Jesus), sendo este abaixo de Jerusalém? Pois este é o ponto onde afirmam que estaria. O inferno fica onde não há luz (esta a luz com conhecimento). Onde há ignorância há o inferno. E não há uma pessoa/anjo com um crachá escrito Belzebu com a função de lá guardar todas as almas não cristãs d.C. e absolutamente todos todos os que viveram a.C. (menos Maria e uns outros pegos pelo próprio Jesus segundo a Igreja Católica).

Enfim, não somos os primeiros nem seremos os últimos a estarem certos ou errados. Mas o Espiritismo não se preocupa com estas questões, se preocupa com a reforma íntima do próprio homem, como ele faz pra se melhorar e melhorar o mundo à sua volta.

E só. Agradecida.

TARGUM disse...

Pois é, de fato, grafei o peudônimo do Professor Antoine Rivail aportuguesado, pois à época estava em dúvidas se deveria utilizar ou não a letra "K". Agora no acordo ortográfico parece-me que se pode usá-la novamente. O professor utilizou-se desse codinome para identificá-lo como codificador do Espiritismo e não confundir este trabalho com suas obras na área de edcuação.
Creio que pela mesma razão você grafou Schoppenheur diferente não?
Entendo que não é tarefa do espiritismo traduzir toda a Bíblia, mas valer-se de algumas porções sem considerar o todo é muito complicado e perigoso.
Amplexos

Helga disse...

Eita, 4 meses? Chega demorei a entender.
Sim, o Prof. Rivail usava o nome de Allan Kardec pra não confundir as pessoas quanto aos trabalhos diferentes que desenvolvia. Porém nome próprio é nome próprio, sempre foi Kardec mesmo.

Escrevi o outro nome errado sem querer mesmo. Esqueci o C e dobrei o P. Voltei-me ao livro que tenho e vi que nós dois erramos. Agora colando do livro para não errar: Schopenhauer. Tá aí também o Wiki que não me deixa mentir (ou me enganar mais). :)

Bom, não há como eu defender o argumento das partes da Bíblia melhor do que já fiz: ao invés de discutir o que não pode ser comprovado é melhor discutir o que interessa: Ele fazia milagres? não sei. Ele ressucitou depois de 3 dias? Também não dá pra saber. Mas houve um cara que surgiu naquela cidadezinha pequena e pouco importante e disse um bocado de palavras. Estas palavras são bastante aproveitáveis em diversos momentos da nossa vida. Essas valem a pena conversar a respeito, por qualquer religião que vise a melhoria do homem.

Att.

TARGUM disse...

Pois é, em matéria de fé, ou se crê no todo, ou não se crê em nada. Não se pode aproveitar apenas o que nos interessa, ou o que é aceitável, ou ainda o que se quer que se diga. A verdade é, em geral, um instrumento de desconstrução do homem e não uma forma de reformá-lo apenas. A proposta básica da verdadeira fé cristã não é religioso e não se propõe a fazer apenas uma reforma moral para tornar o homem melhor. O nosso melhor aos olhos de Deus é pura impureza e injustiça conforme o texto de Is. 64:6 - "Pois todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como o vento, nos arrebatam." O que a essência do cristianismo se propõe é fazer uma nova criatura conforme II Co. 5:17 - " Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo." O texto grego original fala em "nova geração" e, portanto, um novo homem no qual é construída a semelhança de Cristo.
Também há de se acrescentar que o Cristo, Filho Unigênito de Deus, é anterior ao homem histórico Jesus nascido de mulher, na Galiléia há aproximadamente 2.000 anos. Assim, as postulações dessas religiões baratas que se auto-entitulam de cristãs, nada têm a ver com a essência do ensino do Cristo. Porém, todas estas realidades existem e subsistem debaixo da longânima misericórdia de Deus.
Quem sabe, alguns que se acham à beira do caminho podem apreendê-la.
Grande abraço n'Ele.

Helga disse...

Focar-se em um aspecto do todo não está errado, não ofende quem se foca nem quem crê no todo. Na verdade quem se ofende com algo sobre isso sabe pouco ou quase nada. Já dizia Jesus mesmo que não tinha vido destruir a lei mas dar aplicação a ela. Ele e outros (noutras culturas, noutras épocas).
Jesus veio trazer a verdade, como outros também fizeram. O resto é interpretação da nossa parte.
Não importa o nome, importa o bem que se faz. De que adianta a pessoa se proclamar cristã mas agir pior que um zoroastra ou ateu? O que importa é o bem que a pessoa faz e nada mais.

Helga disse...

E dou por encerrada aqui minha participação.

TARGUM disse...

Bem e mal são meros conceitos. Há bem que descamba para o mal, como há mal que conduz ao bem. Aliás, no velho testamento o próprio Deus afirma o seguinte: "Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu sou o Senhor, que faço todas estas coisas." Is. 45:7
O bem praticado por quem tem natureza contaminada pelo pecado original de nada serve para a eternidade.
Entretanto, cada um crê no que pode e não no que quer.
Seja Deus engrandecido eternamente.