segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A ESPIRITUAIS COMO ESPIRITUAIS, A CARNAIS COMO CARNAIS

I Co. 3: 1 a 3 - "E eu, irmãos não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Leite vos dei por alimento, e não comida sólida, porque não a podíeis suportar; nem ainda agora podeis; porquanto ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja e contendas, não sois porventura carnais, e não estais andando segundo os homens?"
Há nos círculos religiosos o uso recorrente de clichês para superdimensionar as crendices humanas. Reduzem a fé a uma mera questão conceitual. Cada um exalta a sua crença por meio das mais variadas hipérboles e dos mais cândidos elogios. Dão-se a si mesmos os mais honrosos títulos de grandezas. Retiram, assim, a honra e a glória de Cristo para concedê-la a homens, igrejas, seitas, crenças e seus feitos. 
Resolvem, sem o menor exame das Escrituras e de consciência, que alguém é espiritual apenas porque o tal pertence a um determinado credo religioso. Dão como espiritual alguém com base tão somente em atos e atitudes de cunho comportamental. Desta forma, se alguém é batizado, é membro de uma determinada igreja, participa de alguns dos trabalhos religiosos, contribui financeiramente, dá testemunho de honestidade social e familiar, este tal é uma pessoa espiritual. Por outro lado, se alguém teve ou tem manchas morais em sua trajetória de vida é, imediatamente, classificado como sendo mundano, carnal, incrédulo, perdido e condenado ao inferno. Neste último caso alguns, com ar de falsa piedade e de superioridade afirmam: "você precisa se converter", "você precisa aceitar a Jesus", "você precisa de Deus em seu coração". O mais trágico é um condenado condenar o outro cego, segundo Jesus, o Cristo em Lc. 6:39 - "E propôs-lhes também uma parábola: pode porventura um cego guiar outro cego? não cairão ambos no barranco?" Em outro contexto, o Mestre afirmou que meretrizes e publicanos entrariam diante dos religiosos no reino dos céus.
No trato com a sã doutrina, não se pode reduzi-la a uma questão gramatical ou semântica, pois este tratamento é de caráter puramente humanista. A primeira e principal característica da sã doutrina é que ela não pertence ao homem, mas a Deus conforme Jo. 7:16 e 17 - "Respondeu-lhes Jesus: a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo." A maioria dos religiosos toma por verdadeira a doutrina da sua igreja, do seu líder ou da sua denominação religiosa. Neste caso corre-se o perigo de dar crédito à doutrina de homens e não de Deus. Grande parte dos religiosos promove o homem a santo e piedoso apenas por seus atos, mas não pelo seu estado de relação e posição perante Deus. As Escrituras afirmam, peremptoriamente, que se deve dar a cada um o que lhe é devido conforme Rm. 13:7 - "Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra." Isto mostra que nas relações horizontais no trato social deve-se adotar o princípio da reciprocidade. Isto nada tem a ver, necessariamente, com espiritualidade!
O texto de abertura ensina que não se pode falar a todos de igual modo doutrinariamente. Isto seria, no caso dos carnais, como levar um cego para o topo de uma montanha e dizer-lhe: veja como é linda a paisagem deste ponto. O apóstolo Paulo está tratando com a igreja em Corinto. Todos ouviram a mesma pregação para justificação, porém nem todos a recebeu da mesma forma e com a mesma ênfase. A fé é um dom de Deus, por assim ser, é repartida segundo a medida d'Ele conforme Rm. 12:3 - "Porque pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não tenha de si mesmo mais alto conceito do que convém; mas que pense de si sobriamente, conforme a medida da fé que Deus, repartiu a cada um." O ensino claro desta questão dos que ouvem, mas não recebem fé acha-se em Hb. 4:2 - "Porque também a nós foram pregadas as boas novas, assim como a eles; mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não chegou a ser unida com a fé, naqueles que a ouviram."
Espiritual é o homem que, segundo a graça de Deus, recebeu fé para crer na sua inclusão na morte de Cristo, como também, na ressurreição juntamente com ele. A isto as Escrituras denominam de "nascer do alto" ou de "regeneração". Muitos religiosos tentam, ingloriamente, mensurar o grau de regeneração ou conversão dos outros pelos seus atos. Não há atitude mais incrédula e humanista que esta. Um ateu pode levar uma vida mais correta moralmente que um crente. Algumas pessoas que praticam determinados cultos chamados de diabólicos ou pagãos dão melhor testemunho moral que muitos ditos crentes. Assim, não é pelas obras que se determina a fé, como também não é pela expressão de fé que se determina as obras de justiça. Ambas devem ser paralelas e consequentes da vida de Cristo no nascido do alto, visto que, na essência, tanto uma como a outra é d'Ele. Espiritualidade é um termo que, biblicamente, só se aplica ao pecador que teve a sua velha natureza adâmica destruída na cruz. O homem espiritual é aquele em quem Deus operou o novo nascimento retirando-lhe o coração petrificado pela natureza pecaminosa. Também é o pecador justificado no qual Deus colocou um novo espírito reconciliado com ele por meio da morte e da ressurreição juntamente com Cristo conforme Ez. 36:26 - "Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne." Este processo é monérgico, ou seja, é operado e operacionalizado apenas por Deus. O pecador não pode "se converter" e, muito menos, "se arrepender" por conta própria. A justificação é por graça e não pelas obras de justiça própria. Não é uma questão meritória, mas de misericórdia e de graça soberana. Misericórdia é Deus não nos dando o que, de fato, merecemos: o inferno. Graça é Deus favorecendo a quem não possui merecimento algum. É exatamente isto que ressalta a sublimidade do amor de Deus não agindo em função do que o homem é ou faz, mas em função de sua própria compaixão. Caso a graça e a misericórdia de Deus estivessem condicionadas ao comportamento do homem, onde estaria o glória d'Ele?
O homem que não experimentou o "nascimento do alto" ou a "regeneração" não é espiritual, ainda que seja religioso ou que tenha ouvido o evangelho da graça. Uma coisa é ouvir o evangelho, porém outra coisa é o evangelho lhe ter vivificado pela graça mediante a fé conforme I Co. 2:4 e 5 - "A minha linguagem e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Espírito de poder; para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus."
Desta forma, enquanto o homem que ouviu o evangelho da verdade não for guiado pelo Espírito, permanecerá carnal e não espiritual. Este fato se aplica a qualquer homem, incluindo-se os que praticam religião e seus ritos exteriores. Após nascer de novo e ter as escamas dos olhos retiradas e os ouvidos desobstruídos, o homem vai abandonando a vida na carne e seguindo a vida no espírito. Este é o processo da formação da semelhança de Cristo nos regenerados.
Sola Gratia!

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