segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A ESPIRITUAIS COMO ESPIRITUAIS, A CARNAIS COMO CARNAIS

I Co. 3: 1 a 3 - "E eu, irmãos não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Leite vos dei por alimento, e não comida sólida, porque não a podíeis suportar; nem ainda agora podeis; porquanto ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja e contendas, não sois porventura carnais, e não estais andando segundo os homens?"
Há nos círculos religiosos o uso recorrente de clichês para superdimensionar as crendices humanas. Reduzem a fé a uma mera questão conceitual. Cada um exalta a sua crença por meio das mais variadas hipérboles e dos mais cândidos elogios. Dão-se a si mesmos os mais honrosos títulos de grandezas. Retiram, assim, a honra e a glória de Cristo para concedê-la a homens, igrejas, seitas, crenças e seus feitos. 
Resolvem, sem o menor exame das Escrituras e de consciência, que alguém é espiritual apenas porque o tal pertence a um determinado credo religioso. Dão como espiritual alguém com base tão somente em atos e atitudes de cunho comportamental. Desta forma, se alguém é batizado, é membro de uma determinada igreja, participa de alguns dos trabalhos religiosos, contribui financeiramente, dá testemunho de honestidade social e familiar, este tal é uma pessoa espiritual. Por outro lado, se alguém teve ou tem manchas morais em sua trajetória de vida é, imediatamente, classificado como sendo mundano, carnal, incrédulo, perdido e condenado ao inferno. Neste último caso alguns, com ar de falsa piedade e de superioridade afirmam: "você precisa se converter", "você precisa aceitar a Jesus", "você precisa de Deus em seu coração". O mais trágico é um condenado condenar o outro cego, segundo Jesus, o Cristo em Lc. 6:39 - "E propôs-lhes também uma parábola: pode porventura um cego guiar outro cego? não cairão ambos no barranco?" Em outro contexto, o Mestre afirmou que meretrizes e publicanos entrariam diante dos religiosos no reino dos céus.
No trato com a sã doutrina, não se pode reduzi-la a uma questão gramatical ou semântica, pois este tratamento é de caráter puramente humanista. A primeira e principal característica da sã doutrina é que ela não pertence ao homem, mas a Deus conforme Jo. 7:16 e 17 - "Respondeu-lhes Jesus: a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo." A maioria dos religiosos toma por verdadeira a doutrina da sua igreja, do seu líder ou da sua denominação religiosa. Neste caso corre-se o perigo de dar crédito à doutrina de homens e não de Deus. Grande parte dos religiosos promove o homem a santo e piedoso apenas por seus atos, mas não pelo seu estado de relação e posição perante Deus. As Escrituras afirmam, peremptoriamente, que se deve dar a cada um o que lhe é devido conforme Rm. 13:7 - "Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra." Isto mostra que nas relações horizontais no trato social deve-se adotar o princípio da reciprocidade. Isto nada tem a ver, necessariamente, com espiritualidade!
O texto de abertura ensina que não se pode falar a todos de igual modo doutrinariamente. Isto seria, no caso dos carnais, como levar um cego para o topo de uma montanha e dizer-lhe: veja como é linda a paisagem deste ponto. O apóstolo Paulo está tratando com a igreja em Corinto. Todos ouviram a mesma pregação para justificação, porém nem todos a recebeu da mesma forma e com a mesma ênfase. A fé é um dom de Deus, por assim ser, é repartida segundo a medida d'Ele conforme Rm. 12:3 - "Porque pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não tenha de si mesmo mais alto conceito do que convém; mas que pense de si sobriamente, conforme a medida da fé que Deus, repartiu a cada um." O ensino claro desta questão dos que ouvem, mas não recebem fé acha-se em Hb. 4:2 - "Porque também a nós foram pregadas as boas novas, assim como a eles; mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não chegou a ser unida com a fé, naqueles que a ouviram."
Espiritual é o homem que, segundo a graça de Deus, recebeu fé para crer na sua inclusão na morte de Cristo, como também, na ressurreição juntamente com ele. A isto as Escrituras denominam de "nascer do alto" ou de "regeneração". Muitos religiosos tentam, ingloriamente, mensurar o grau de regeneração ou conversão dos outros pelos seus atos. Não há atitude mais incrédula e humanista que esta. Um ateu pode levar uma vida mais correta moralmente que um crente. Algumas pessoas que praticam determinados cultos chamados de diabólicos ou pagãos dão melhor testemunho moral que muitos ditos crentes. Assim, não é pelas obras que se determina a fé, como também não é pela expressão de fé que se determina as obras de justiça. Ambas devem ser paralelas e consequentes da vida de Cristo no nascido do alto, visto que, na essência, tanto uma como a outra é d'Ele. Espiritualidade é um termo que, biblicamente, só se aplica ao pecador que teve a sua velha natureza adâmica destruída na cruz. O homem espiritual é aquele em quem Deus operou o novo nascimento retirando-lhe o coração petrificado pela natureza pecaminosa. Também é o pecador justificado no qual Deus colocou um novo espírito reconciliado com ele por meio da morte e da ressurreição juntamente com Cristo conforme Ez. 36:26 - "Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne." Este processo é monérgico, ou seja, é operado e operacionalizado apenas por Deus. O pecador não pode "se converter" e, muito menos, "se arrepender" por conta própria. A justificação é por graça e não pelas obras de justiça própria. Não é uma questão meritória, mas de misericórdia e de graça soberana. Misericórdia é Deus não nos dando o que, de fato, merecemos: o inferno. Graça é Deus favorecendo a quem não possui merecimento algum. É exatamente isto que ressalta a sublimidade do amor de Deus não agindo em função do que o homem é ou faz, mas em função de sua própria compaixão. Caso a graça e a misericórdia de Deus estivessem condicionadas ao comportamento do homem, onde estaria o glória d'Ele?
O homem que não experimentou o "nascimento do alto" ou a "regeneração" não é espiritual, ainda que seja religioso ou que tenha ouvido o evangelho da graça. Uma coisa é ouvir o evangelho, porém outra coisa é o evangelho lhe ter vivificado pela graça mediante a fé conforme I Co. 2:4 e 5 - "A minha linguagem e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Espírito de poder; para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus."
Desta forma, enquanto o homem que ouviu o evangelho da verdade não for guiado pelo Espírito, permanecerá carnal e não espiritual. Este fato se aplica a qualquer homem, incluindo-se os que praticam religião e seus ritos exteriores. Após nascer de novo e ter as escamas dos olhos retiradas e os ouvidos desobstruídos, o homem vai abandonando a vida na carne e seguindo a vida no espírito. Este é o processo da formação da semelhança de Cristo nos regenerados.
Sola Gratia!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

AS GUERRAS INVISÍVEIS E A SOBERANIA DE DEUS

Dn. 10: 1 a 15 - "No ano terceiro de Ciro, rei da Pérsia, foi revelada uma palavra a Daniel, cujo nome se chama Beltessazar, uma palavra verdadeira concernente a um grande conflito; e ele entendeu esta palavra, e teve entendimento da visão. Naqueles dias eu, Daniel, estava pranteando por três semanas inteiras. Nenhuma coisa desejável comi, nem carne nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi com unguento, até que se cumpriram as três semanas completas. No dia vinte e quatro do primeiro mês, estava eu à borda do grande rio, o Tigre; levantei os meus olhos, e olhei, e eis um homem vestido de linho e os seus lombos cingidos com ouro fino de Ufaz; o seu corpo era como o berilo, e o seu rosto como um relâmpago; os seus olhos eram como tochas de fogo, e os seus braços e os seus pés como o brilho de bronze polido; e a voz das suas palavras como a voz duma multidão. Ora, só eu, Daniel, vi aquela visão; pois os homens que estavam comigo não a viram: não obstante, caiu sobre eles um grande temor, e fugiram para se esconder. Fiquei pois eu só a contemplar a grande visão, e não ficou força em mim; desfigurou-se a feição do meu rosto, e não retive força alguma. Contudo, ouvi a voz das suas palavras; e, ouvindo o som das suas palavras, eu caí num profundo sono, com o rosto em terra. E eis que uma mão me tocou, e fez com que me levantasse, tremendo, sobre os meus joelhos e sobre as palmas das minhas mãos. E me disse: Daniel, homem muito amado, entende as palavras que te vou dizer, e levanta-te sobre os teus pés; pois agora te sou enviado. Ao falar ele comigo esta palavra, pus-me em pé tremendo. Então me disse: não temas, Daniel; porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras, e por causa das tuas palavras eu vim. Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias; e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu o deixei ali com os reis da Pérsia. Agora vim, para fazer-te entender o que há de suceder ao teu povo nos derradeiros dias; pois a visão se refere a dias ainda distantes. Ao falar ele comigo estas palavras, abaixei o rosto para a terra e emudeci."
Profeta como indicado nos textos bíblicos é a pessoa a qual fala ou profere palavras em nome de Deus. Não é alguém que se coloca na perspectiva de interlocutor entre o homem e Deus, mas aquele a quem Deus ordena proclamar o que ele diz. No velho testamento era considerado falso profeta aquele que errasse uma única predição. Era apedrejado segundo a lei de Moisés, ainda que em mil predições acertasse novecentos e noventa e nove. Nos cultos pagãos, profeta era a pessoa que fazia previsões, proferia acontecimentos futuros ou se apresentava como intérprete dos 'deuses'. Neste caso, a profecia, tinha caráter adivinhatório e não como ensinado nas Escrituras. Hoje se vê muitos destes profetas que se fazem profetas por conta própria mentindo e engando.
O profeta Daniel viveu entre os séculos V e VI a. C. Ele estava entre os judeus levados cativos á Babilônia quando o rei Nabucodonosor invadiu Israel. Devido ao seu caráter, sua juventude e origem nobre, Daniel foi selecionado pelo rei para servir no palácio real, juntamente com outros três jovens hebreus. O nome Daniel provém do hebraico 'דָּנִיּאֵל' que significa 'Deus é meu juiz.' A ele foi dado um nome babilônico, o qual era Beltessazar. A profecia de Daniel narra os acontecimentos ligados às nações e o desenvolvimento dos fatos históricos até o fim dos tempos. Daniel foi uma das poucas pessoas elogiadas por Deus e morreu aos 72 anos. Atuou, segundo os propósitos de Deus, com sabedoria e diligência durante toda a vida.
O texto de abertura mostra Daniel no cativeiro babilônico no reinado de Ciro. Estava muito abatido pela demora na libertação do seu povo. Daniel se dirigiu às margens do rio Tigre para orar e confessar o seu pecado e o pecado do seu povo. Com ele estavam outros homens, porém não suportaram a revelação e fugiram. Daniel jejuou por três semanas e buscou entendimento de Deus sobre os acontecimentos. Após a sua oração olhou para o céu e viu um anjo ou mensageiro celeste vestido de roupas de linho cingido por ouro puro. O anjo foi descrito como tendo corpo como o berilo, o rosto resplandecia como um relâmpago, os braços e pés reluziam como bronze polido, os olhos como tochas de fogo e a voz como o som de uma multidão. Diante desta visão celestial, Daniel perdeu todas as suas forças físicas e caiu em sono profundo ao ouvir o som das suas palavras. Prostrado em terra desfalecido, ouviu a ordem do anjo para que se levantasse e ouvisse a mensagem de Deus. Trêmulo Daniel ouviu que era um homem mui amado e que suas orações haviam sido ouvidas por Deus desde o momento em que se colocou a orar e confessar.
A despeito do poder do mensageiro divino e da sublimidade da visão de Daniel foi relatada uma batalha invisível no espaço: "Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias..." Ora, sempre que uma mensagem faz referência à Satanás e seus demônios usa-se uma tipificação com algum dominador tirano terrestre. Desta forma, a referência ao 'príncipe do reino da Pérsia' não é uma referência ao rei Ciro, mas a um poder espiritual satânico que detinha o controle da Pérsia. Tal força espiritual do mal resistiu entre o mensageiro enviado e o profeta Daniel. Por causa desta interferência no mundo espiritual, um dos anjos mais poderosos na hierarquia celeste veio para ajudar. Muitos intérpretes afirmam que o anjo Gabriel é o responsável pela proteção e condução do povo judeu ou de Israel como nação. 
Assim, Daniel recebeu a revelação sobre os acontecimentos futuros acerca do povo judeu. Não era uma visão para aqueles dias e para atender aos desejos dos judeus de retornar à Jerusalém, mas para os últimos dias da história da Terra. O fato é que, embora o homem carnal não possa ver há movimento constante no mundo espiritual. Portanto, não devemos andar ansiosos ou amedrontados conforme ensinado em Mt. 28:20 "...e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.
Soli Deo Gloria!

sábado, 7 de fevereiro de 2015

A GUERRA NO CÉU E AS REALIDADES ESPIRITUAIS INVISÍVEIS

Ap. 12: 7 a 9 - "Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele."
As Escrituras não possuem muitos registros sobre Satanás, mas o pouco que falam é o suficiente para entendermos a origem e o caráter deste arcanjo da ordem dos querubins. Querubim provém do hebraico 'כרובים' ou 'keruvim' uma ordem de anjos, ocupando o segundo nível hierárquico abaixo de Deus e dos serafins. Cada ordem de anjos possui funções específicas no universo. Os querubins eram comandados por um arcanjo com funções de organizar a adoração, a guarda e a comunicação das ordens divinas entre os demais anjos.
O profeta Ezequiel fez menção ao arcanjo querubim comandante das forças angelicais. É um texto por meio de uma metáfora usando a figura de um rei terrestre. Deste texto retiram-se as seguintes palavras Ez. 28: 12 a 15 - "Tu eras o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estiveste no Éden, jardim de Deus; cobrias-te de toda pedra preciosa: a cornalina, o topázio, o ônix, a crisólita, o berilo, o jaspe, a safira, a granada, a esmeralda e o ouro. Em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados. Eu te coloquei com o querubim da guarda; estiveste sobre o monte santo de Deus; andaste no meio das pedras afogueadas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que em ti se achou iniquidade." Então, o arcanjo da ordem dos querubins era perfeito, sábio, belo. Achava-se no Éden Celestial, andava coberto de pedras preciosas e de ouro. A ele foi dado o comando da música para louvor de Deus. Ele era o guarda na capital do universo e andava em meio ao esplendor das pedras preciosas. Entretanto, um dia surgiu a iniquidade em seu coração, provando que o pecado não é uma questão de prosperidade, mas de incredulidade. 
O profeta Isaías revela o tipo de iniquidade que surgiu no coração do arcanjo chefe da guarda conforme Is. 14: 12 a 14 - "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! como foste lançado por terra tu que prostravas as nações! E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo." Por ser um ser espiritual criado livre para pensar e agir, o arcanjo querubim protetor desejou para si mesmo um trono acima das estrelas, assemelhando-se a Deus em poder e glória. Desta forma o anjo querubim não desejava mais adorar a Deus espontaneamente, mas queria adoração a si mesmo. Muitos, ingenuamente, pensam que Deus foi surpreendido por tal atitude. Ora, Deus tudo sabe conforme Is. 29:15 - "Ai dos que escondem profundamente o seu propósito do Senhor, e fazem as suas obras às escuras, e dizem: quem nos vê? e quem nos conhece?" Este foi o primeiro engano do querubim cobridor. Não creu na onisciência de Deus!
O arcanjo querubim violou os princípios imutáveis das leis de Deus conforme Sl. 111: 7 e 8 - "As obras das suas mãos são verdade e justiça; fiéis são todos os seus preceitos; firmados estão para todo o sempre; são feitos em verdade e retidão." Assim, não há nas obras de Deus quaisquer possibilidades de mentiras e injustiças. Os princípios são firmados eternamente e não oscilam em função das vontades dos seres criados. Estes princípios estão contidos nos dez mandamentos quando analisados como lei divina. 
Outra questão que se divulga erroneamente sobre este arcanjo querubim é o seu nome. Muitos afirmam com base em tradições religiosas que ele se chama Lúcifer. Primeiramente isto decorre de um erro de tradução de São Jerônimo do texto hebraico para o latim da Septuaginta. O profeta Isaías diz: "... ó estrela da manhã ...", entretanto este não é um nome próprio, mas apenas uma forma figurada de se referir ao arcanjo querubim. No hebraico tal expressão figurada é 'הילל בן שחר', ou seja, 'heilel ben shachar'. Jerônimo traduziu para o grego como 'heosphoros' e para o latim foi traduzido como 'lucem ferre'. Estas expressões significam apenas 'portador da luz', sendo portanto, um adjetivo e não um nome próprio. Trata-se, portanto, de uma função e não de um nome. O arcanjo querubim era o portador do conhecimento a ser disseminado entre os demais anjos sob seu comando. Luz em termos bíblicos indica sempre conhecimento e não apenas o fenômeno óptico. Os tradutores tomaram a expressão latina 'lucem ferre' e passaram ao português como o nome próprio Lúcifer. Posteriormente, o identificaram à Estrela D'Alva que é, de fato, o planeta Vênus. Nada tem a ver com o arcanjo da ordem dos querubins.
Na verdade o texto de Ap. 12 mostra os atuais nomes do arcanjo querubim caído: "E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás..." Diabo significa caluniador e acusador, enquanto Satanás provém do hebraico 'shai'tan' que significa adversário ou inimigo. Desta forma o antigo arcanjo chefe da guarda no céu passou a ser o dragão, antiga serpente, Diabo e Satanás. O nome original anterior a sua queda, não foi dito em nenhum texto das Escrituras.
Muitos pensam que Deus simplesmente poderia ter destruído Satanás para servir de exemplo. Todavia, Deus optou por deixar as coisas fluírem a fim de o caráter de Satanás pudesse ser revelado. A simples eliminação de Satanás poderia gerar uma adoração dos demais anjos apenas por medo e não por amor espontâneo. No ensino de Jesus, o Cristo isto fica explicado conforme Mt. 13:30 - "Deixai crescer ambos juntos até a ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro." O joio é tão semelhante ao trigo que, se o agricultor retirá-lo da plantação danificará toda a safra. Assim, espera-se o amadurecimento, porque então, é revelado o que é trigo e o que é joio.
Sola Gratia!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O EVANGELHO ANUNCIADO, AS ESCRITURAS CONFIRMADAS, E A TRAGÉDIA DO ENGANO

I Co. 15: 1 a 19 - "Ora, eu vos lembro, irmãos, o evangelho que já vos anunciei; o qual também recebestes, e no qual perseverais, pelo qual também sois salvos, se é que o conservais tal como vo-lo anunciei; se não é que crestes em vão. Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que apareceu a Cefas, e depois aos doze; depois apareceu a mais de quinhentos irmãos duma vez, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormiram; depois apareceu a Tiago, então a todos os apóstolos; e por derradeiro de todos apareceu também a mim, como a um abortivo. Pois eu sou o menor dos apóstolos, que nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus que está comigo. Então, ou seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim crestes. Ora, se prega que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição de mortos? Mas se não há ressurreição de mortos, também Cristo não foi ressuscitado. E, se Cristo não foi ressuscitado, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não são ressuscitados. Porque, se os mortos não são ressuscitados, também Cristo não foi ressuscitado. E, se Cristo não foi ressuscitado, é vã a vossa fé, e ainda estais nos vossos pecados. Logo, também os que dormiram em Cristo estão perdidos. Se é só para esta vida que esperamos em Cristo, somos de todos os homens os mais dignos de lástima."
O anúncio do evangelho foi uma ordem dada aos discípulos pelo Mestre Jesus, o Cristo. Não é um imperativo, mas uma ação contínua e participativa da natureza dos nascidos de Deus. É como está doutrinado em II Co. 4:13 - "Ora, temos o mesmo espírito de fé, conforme está escrito: cri, por isso falei; também nós cremos, por isso também falamos..." Àquele que crê, não é dada a opção de silenciar sobre a verdade.
Em língua portuguesa o texto que trata deste tema foi traduzido com o verbo no imperativo 'ide', porque a tradução é arminiana. De fato o texto original utiliza o verbo no particípio contínuo. Portanto, o que as Escrituras afirmam em Mc. 16: 15 e 16 é "E disse-lhes: indo por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado." A raiz do verbo usado por Cristo provém de 'poreía' que é o substantivo para caminho, jornada, caravana. A forma verbal utilizada no texto é 'poreythentes', significando que, ao longo do caminho ou da jornada da vida, os discípulos de Cristo anunciam o evangelho. O mesmo verbo é utilizado em Mt. 28:19 e em outros contextos correlatos. A forma verbal utilizada no grego koinê está no modo particípio circunstancial ou aoristo e não no imperativo. O sentido mais simplificado do 'poreythentes' é 'indo' ou 'enquanto vão'. É óbvio que o verbo indica mobilidade geográfica, mas não é um imperativo como querem os defensores de missões. É uma ação contínua nos caminhos do dia a dia de cada um dos eleitos e regenerados por todo o mundo. Há oportunidades para quem se prepara, é chamado e recebe a incumbência de pregar em qualquer parte do muando, como para quem prega em sua vizinhança e em seu bairro. Uma coisa não anula a outra, mas o fato é que se trata de uma ação contínua dada a todos e não a uma casta de pessoas especiais designadas para uma obra misteriosa. Tal urgência missionária alegada por muitas igrejas se justifica pelo suposto poder de arrebatar almas do inferno. Entretanto, as Escrituras ensinam que as almas predestinadas e eleitas  têm os  seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro, antes da fundação do mundo. O 'indo' é destinado apenas a despertar os predestinados e eleitos conforme Rm. 8:29 e 30 - "Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou." Deus não trabalha 'a posteriori', mas 'a priori'. Os que foram conhecidos de antemão e predestinados serão salvos, independentemente do envio de missionários.
No texto de abertura, Paulo traz à memória dos discípulos em Corinto que o evangelho da verdade já lhes havia sido anunciado. Relembra-lhes que o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. O apóstolo Paulo não elabora um evangelho alternativo, mas entrega o mesmo evangelho recebido diretamente do Cristo. A essência do evangelho verdadeiro é que Cristo morreu para aniquilar os pecados dos eleitos, foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. O evangelho não é uma fórmula mágica elaborada para impressionar os pecadores como se vê hoje. O método para a redenção do pecador foi decidido por Deus antes dos tempos eternos conforme II Tm. 1:9 - "... que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos..." Paulo ainda apela ao testemunho e autenticidade da morte, sepultamento e ressurreição de Cristo por grande número de pessoas que presenciaram todos os eventos.
Na igreja de Corinto estavam "crentes" que receberam o mesmo evangelho, da mesma fonte e com a mesma autenticidade. Todavia, os que não puderam crer à verdade criaram para si verdades alternativas. Naquela igreja havia os que afirmavam que não há ressurreição dos mortos. Estes "cristãos" não nascidos do alto, tentavam mesclar o judaísmo ao ensino do evangelho puro. Tal situação de incredulidade determina na mente contaminada pela natureza pecaminosa grande necessidade de um evangelho adaptativo às exigências da alma não regenerada. Ora, se não há ressurreição dentre os mortos, Jesus, o Cristo não ressuscitou. Sua morte se torna absurda e absolutamente desqualificada em sua finalidade última. A morte de Cristo foi para matar a morte do pecador eleito, a saber, aniquilar  o pecado que tornou o homem morto para Deus. A ressurreição de Cristo é o coroamento e a prova que ele venceu a morte, o inferno e o poder do pecado conforme Ef. 4:  8 a 10  - "Por isso foi dito: subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens. Ora, isto, ele subiu que é, senão que também desceu às partes mais baixas da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu muito acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas."
A tragédia do engano religioso é pior que a tragédia do ateísmo, pois, neste caso o homem tem consciência da sua rejeição da verdade. No caso do religioso que crê no engano, o torna um praticante de ritos e preceitos, mantendo a natureza pecaminosa que os condena perante Deus. Falar das Escrituras, de Cristo, de Deus e realidades espirituais, nem sempre é anunciar o evangelho.
Sola Gratia!