quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

FELIZ É O HOMEM III

Sl. 49: 16 a 20 - "Não temas quando alguém se enriquece, quando a glória da sua casa aumenta. Pois, quando morrer, nada levará consigo; a sua glória não descerá após ele. Ainda que ele, enquanto vivo, se considera feliz e os homens o louvam quando faz o bem a si mesmo, ele irá ter com a geração de seus pais; eles nunca mais verão a luz. Mas o homem, embora esteja em honra, não permanece; antes é como os animais que perecem."
O contexto do salmo em questão é a alusão aos que confiam em si mesmos e constroem a própria felicidade fiados em seus bens, prestígio, fama e poder terreno. O salmista inspirado pelo Espírito de Deus demonstra que tais coisas não são suficientes para garantir a felicidade verdadeira ao homem, e, que, este perece e tudo quanto tem ou presume ter é reduzido a nada. Segue para o outro lado sozinho e sem os bens, o prestígio e a fama deste mundo.
Obviamente, que, ter bens, honra, prestígio é algo bom e desejável à vida de qualquer pessoa. Entretanto, o que as Escrituras mostram é que não se pode fazer destes valores a base da segurança eterna. Não se pode deificar as coisas e coisificar a Deus. A questão é de inversão dos valores e não de ser ou não ser rico, famoso e prestigiado. Estas realidades são transitórias e restritas apenas à existência terrena. São valores de cunho puramente sociológico, e, por fim, são deixados a quem não trabalhou para obtê-los. Tais realidades não podem promover a felicidade permanente e eterna, porque são produzidos e obtidos em um mundo contaminado pelo pecado. 
As Escrituras mostram, também, que os filhos do mundo são mais prudentes ou mais diligentes que os filhos da luz conforme o registro de Lc. 16:8 - "E louvou aquele senhor ao injusto mordomo por haver procedido com sagacidade; porque os filhos deste mundo são mais sagazes para com a sua geração do que os filhos da luz." A parábola que retrata este assunto faz referência à capacidade de multiplicar os depósitos confiados à uma pessoa. É, de fato, uma metáfora alusiva aos que recebem a incumbência do anúncio do evangelho da verdade. Demonstra que as mentes mundanas são mais sagazes para operar e fazer prosperar resultados, que as mentes iluminadas por Deus. Isto parece contraditório segundo o julgamento horizontal e relativo. O que se espera é o contrário: seres iluminados mais capazes, mais operantes e mais espertos que os seres não iluminados. Acontece, entretanto, que, os que receberam revelação do alto e nasceram de novo  perdem o referencial sobre especulações, ambições e conquistas baseadas no esforço e justiça própria. São dependentes da misericórdia e da graça de Deus, pois seus referenciais mudaram de disposição e domínio. O referencial destas pessoas foi transmutado pela operação do nascimento espiritual. Isto acontece, porque os renascidos estão mortos para os valores mundanos conforme Cl. 3: 2 e 3 - "Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; porque morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus." Esta é uma das evidências visíveis que indicam o novo nascimento e uma nova disposição espiritual na vida dos que são filhos da luz. Quando se refere a estes iluminados, filhos da luz ou nascidos do alto, de modo algum, se refere a religiosos. São realidades absolutamente distintas! A religião é subproduto da arrogância humana, o nascimento do alto é o produto final da ação graciosa de Deus.
A palavra feliz é, em alguns casos, traduzida no Novo Testamento como bem-aventurado. O apóstolo Paulo registra em Rm. 4: 4 a 8, o seguinte: "Ora, ao que trabalha não se lhe conta a recompensa como dádiva, mas sim como dívida; porém ao que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é contada como justiça; assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus atribui a justiça sem as obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputará o pecado." Eis a diferença de posturas entre os filhos do mundo e os filhos da luz: aqueles trabalham e laboram por uma recompensa e o que ganham é contado como dívida, pois ganham com base no desempenho próprio. Os filhos da luz ganham com base na graça mediante a fé. É este o sentido de dependência plena e que produz a felicidade real e perene. Na verdade, em muitos casos, o homem acumula e arregimenta para si o controle e o domínio sobre coisas para buscar a felicidade. Isto ocorre porque há nele um vazio e uma culpa gerados pelo abismo produzido pela natureza pecaminosa. Bem-aventurado ou feliz é o home a quem Deus atribui ou distribui justiça sem que ele tenha de ganhar pelo esforço e pela justiça própria. 
O portador da felicidade que procede do alto é como o vento que assopra onde quer e ninguém vê. Ele guarda a sua fé em um mundo interior governado pelo Espírito de Deus e não toma seus bens e a honra deste mundo como referencia. É a este nível de felicidade que está registrado em Rm. 14: 22 - "A fé que tens, guarda-a contigo mesmo diante de Deus. Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova." Assim, a felicidade aprovada e consagrada pelo homem natural acaba por condená-lo, visto que a sua confiança está em coisas e não em alguém que é o portador da verdadeira felicidades, a saber, Cristo.
Os filhos da luz, ao contrário, encontram a base para a bem-aventurança na fé e na graça concedidas e não merecidas conforme Tg. 1:25 - "Entretanto aquele que atenta bem para a lei perfeita, a da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas executor da obra, este será bem-aventurado no que fizer." A lei perfeita referida no texto é a graça, ou seja, a liberdade de não ter a obrigação de construir, fazer e se esforçar para merecer. Esta pessoa executa as obras de Deus, portanto, não são suas obras. Esta pessoa é feliz, porque a sua perseverança não está firmada em coisas, mas em Cristo. 
Sola Gratia!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

FELIZ É O HOMEM II

Pv. 3:13 - "Feliz é o homem que acha sabedoria, e o homem que adquire entendimento."
Felicidade é um substantivo feminino que provém do latim 'felicitatis', indicando em seu sentido comum um estado de prosperidade, dita, ventura, felicidade. Assim, a felicidade se reporta, não àquilo que a determina, mas ao estado da alma humana que deseja as coisas as quais considera como motivo de alegria e satisfação. Vê-se, portanto, que a felicidade é em si mesma, algo subjetivo, pois o que pode redundar em grande felicidade e alegria para um, pode ser uma enorme desgraça para outro. Com isto, não se quer afirmar que a felicidade seja algo relativo, ao contrário, é absoluta. O ser que a deseja e procura que é relativizado e a relativiza.
Há no seio da sociedade algumas palavras mágicas, para não dizer sagradas. Entre elas contam-se: amor, prosperidade, sucesso, fama, riqueza, saúde, paz, alegria, segurança, democracia e felicidade. Entretanto, tais palavras desacompanhadas das atitudes concretas que representam, são apenas palavras. Como dizia um comunicador antigo da 'mass media': "palavras são palavras, nada mais que palavras."  
No texto inicial fica evidente que o homem é feliz quando acha a sabedoria e adquire o entendimento. Observa-se, que, tanto a sabedoria como o entendimento são realidades externas ao homem. Não são realidades inatas a ele, pois uma é achada e a outra é adquirida. Embora o homem imagina que é o autor e promotor da sua própria sorte, a verdade mostra de modo diferente. Uma pessoa pode ter sabedoria não tendo muito entendimento, como também pode ter um bom entendimento sem ter grande sabedoria. Enquanto a sabedoria se traduz por temperança, reflexão, sensatez, astúcia, manha, esperteza, o entendimento se reduz à capacidade de julgar, avaliar, formar opinião sobre os seres e as coisas. Tanto sabedoria como entendimento se desenvolvem pela experiência vivenciada ou por dom de Deus. No primeiro caso é terrena, almática e diabólica, e, no segundo caso espiritual pura e perfeita.
O primeiro passo para achar a sabedoria e adquirir o entendimento é confiando em Deus conforme Pv. 16:20b - "... e feliz é aquele que confia no Senhor." Confiar é o verbo que indica um estado de fé, pois significa depositar fé em algo ou alguém, depositar confiança e esperança em algo ou alguém. O normal do homem após a sua decadência pela natureza pecaminosa é desconfiar de Deus. Por esta razão é que, quando alguém ganha ou acha a graça e a misericórdia divina produz como resultado a felicidade. A felicidade procedente da reconciliação espiritual com Deus independe das circunstâncias objetivas e tangíveis. 
O rei Salomão em toda a sua sabedoria avaliou o seguinte: "depois volvi-me, e atentei para todas as opressões que se fazem debaixo do sol; e eis as lágrimas dos oprimidos, e eles não tinham consolador; do lado dos seus opressores havia poder; mas eles não tinham consolador. Pelo que julguei mais felizes os que já morreram, do que os que vivem ainda. E melhor do que uns e outros é aquele que ainda não é, e que não viu as más obras que se fazem debaixo do sol." Assim, na avaliação do rei, os mortos eram mais felizes que os vivos, pois estariam livres das opressões dos poderosos. As más obras que se praticam no mundo eram a causa da infelicidade, dor e sofrimento para muitos na avaliação de Salomão. 
O mesmo Salomão considerava o trabalho e a capacidade de realizar obras uma espécie de vaidade humana conforme o capítulo 4 do Cântico dos Cânticos: "Também vi eu que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja que o homem tem do seu próximo. Também isso é e vaidade e desejo vão." Para ele todo o esforço para realizar obras e produzir bens eram por inveja e não por um desejo natural e desprovido de interesses. Por isso, o rei afirmava o seguinte: "melhor é um punhado com tranquilidade do que ambas as mãos cheias com trabalho e vão desejo." Então, na avaliação do rei Salomão é mais feliz aquele tem pouco ou o suficiente, que aquele que se enche de afazeres e desejos para ter mais que os outros. Faz todo sentido, pois se gasta tanto tempo tentando produzir bens e riquezas que não sobra tempo para aproveitá-los.
Em Atos 26, capítulo 2, o apóstolo Paulo demonstra estar feliz por poder se defender de severas acusações dos seus compatriotas judeus perante o rei Agripa - "Sinto-me feliz, ó rei Agripa, em poder defender-me hoje perante ti de todas as coisas de que sou acusado pelos judeus." Considerando a situação em que se achava o apóstolo, bem que ele poderia se sentir extremamente infeliz por estar sendo julgado e condenado pelos seus compatrícios judeus, mas para ele a felicidade naquele momento era poder se defender. Desta maneira o que conta são as circunstâncias que produzem ou destroem a felicidade. O paradoxo é o homem e não a felicidade em si.
Ora, se é feliz o homem que acha a sabedoria e adquire o entendimento, tal homem somente será feliz quando for achado por Cristo. Ele afirma que é o caminho, a verdade e a vida. Tendo Cristo, se tem caminho seguro, verdade absoluta e vida eterna. Estas realidades produzirão no homem a real felicidade. Por isto, o Mestre afirma em Jo. 8:36: "...se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres." Tal afirmação foi proferida aos líderes religiosos do seu tempo, os quais alegavam serem livres por ser descendência de Abraão e por conhecerem os preceitos da lei. Entretanto, Cristo demonstra a eles que eram escravos do pecado e não livres.
Sola Scriptura!