segunda-feira, 26 de março de 2012

A DIFERENÇA ENTRE VERDADE E RELIGIÃO

Jo. 8:31 e 32 - "Dizia, pois, Jesus aos judeus que nele creram: se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.."
Tg. 1:26 e 27 - "Se alguém cuida ser religioso e não refreia a sua língua, mas engana o seu coração, a sua religião é vã. A religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se isento da corrupção do mundo."
Há profunda e abismal diferença entre verdade e religião. O senso comum não se apercebe das diferenças, porque foi adestrado pela cultura judaico-cristã ocidental a ver uma como sinonímia da outra. Tal ignorância resulta de um processo massificante de crendices, misticismo e alienação produzido ao longo da história pela igreja institucional. 
Vê-se no primeiro texto, que, a verdade não é apenas uma concepção, mas uma pessoa, a saber, Cristo. A condição para conhecê-Lo como a verdade é a permanência na Sua Palavra. Como consequência de tal permanência, se torna discípulo, ou seja, seguidor da Palavra da Verdade. Tal verdade, uma vez inoculada no pecador, processa o que se chama de fé, a fé produz confiança na graça que é a causa primeira da redenção conforme o registro de Ef. 2: 8 e 9 - "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie." A ordem do ensino neste texto é meridianamente clara: a graça salva, porque o homem não pode ser o agente promotor da sua própria salvação, visto que não possui justiça própria, e, consequentemente, não possui méritos. A fé leva o pecador a confiar plenamente na ação monérgica de Deus. Ambas, graça e fé, agem para que o pecador eleito antes dos tempos eternos receba a verdade e se torne discípulo de Cristo. A vivificação é o resultado final do processo absolutamente decidido, provido por meios eficientes e eficazes, e, finalmente executado na plenitude do tempo conforme I Co. 15:22 - "Pois como em Adão todos morrem, do mesmo modo em Cristo todos serão vivificados." A vivificação do homem é necessária, porque após a queda, este se tornou morto para Deus, ou seja, separado da sua comunhão. Assim, é essencial, que, Aquele que é o portador da vida eterna, o inclua em sua morte de cruz, para, na sua ressurreição conceder-lhe a vida eterna novamente. Adão foi o primeiro homem arquétipo de todos os pecadores, Cristo o último Adão, arquétipo de todos os regenerados. O primeiro homem era apenas alma vivente, o segundo homem espírito vivificante. Cristo se fez homem em Jesus, para matar a morte da raça adâmica no homem decaído, ressuscitando ao terceiro dia para restituir a vida espiritual e reconciliar o redimido novamente a Deus.
A religião é uma ação sinérgica, ou seja, resulta dos esforços humanos em reencontrar o caminho de volta a Deus por seus próprios esforços, méritos e justiças. Acontece, entretanto, que tais ações estão contaminadas pela natureza adâmica decaída e morta para Deus. A religião não é validada no campo espiritual sem o novo nascimento. O inteiro teor do texto do apóstolo Tiago mostra que a religião é uma prática consequente e não determinante, além de ser do homem e dirigida ao homem. Refrear a língua, ser generoso com os necessitados e guardar-se isento da corrupção do mundo são  fatos da esfera puramente humana. Tais fatos ainda que desejáveis e exigidos como pureza diante de Deus, não são possíveis sem a regeneração. É impossível ao homem natural praticar este nível de religião proposto por Deus por meio de Tiago. 
A palavra religião não é originalmente hebraica ou grega. Muito antes de judaísmo e cristianismo, os poetas e sacerdotes de cultos dos povos mais antigos se utilizavam deste termo. Os poetas datílicos diziam que religião era: "culto prestado aos deuses", portanto, não designava a prática monoteísta como pretendem o judaísmo e o cristianismo. Para eles, a palavra religião era proveniente de 'relliquiae' ou 'relíquia', ou seja, algo antigo e herdado culturalmente. Os latinos, notadamente, Cícero, o termo é proveniente de 'relegere' que quer dizer reeleger: acreditava-se que o homem voltou a reeleger Deus como objeto de culto, retornando-se a Ele novamente. Lactâncio e Sérvio estabeleceram a etimologia da palavra religião em 'religio' ou 'religare', que, em última análise, seria propriamente 'o fato de se religar aos deuses'. Na poesia ou filosofia epicurista de Tito Lucrécio se dizia: "religionum animum nodis exsoluere pergo." significando: "esforço-me por libertar a alma dos nós das religiões." O prefixo 're' dá o sentido da acepção atual do vocábulo religião como: 'tornar a ligar'. Assim, só se torna a ligar, aquilo que foi uma vez desligado. Neste caso religião é a vã tentativa do homem decaído de se religar a Deus por meio de seus próprios esforços. 
Deus não fundou nenhuma religião, Cristo não encorajou a prática religiosa, mas colocou diante do homem a possibilidade de ser liberto verdadeiramente pela fé genuína em Sua Palavra. Ser discípulo de Jesus, o Cristo quer dizer apenas confiar plenamente em Sua Palavra. 
Sola Scriptura!

terça-feira, 20 de março de 2012

COMPRAR SEM DINHEIRO

Is. 55:1 a 13 - "Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos; volte-se ao Senhor, que se compadecerá dele; (...) e para o nosso Deus, porque é generoso em perdoar. Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim como o céu é mais alto do que a Terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos. Porque, assim como a chuva e a neve descem dos céus e para lá não tornam, mas regam a terra, e a fazem produzir e brotar, para que dê semente ao semeador, e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca: ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei. Pois com alegria saireis, e em paz sereis guiados; os montes e os outeiros romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores de campo baterão palmas. Em lugar do espinheiro crescerá a faia, e em lugar da sarça crescerá a murta; o que será para o Senhor por nome, por sinal eterno, que nunca se apagará."
Há, no mundo, somente dois sistemas "teológicos": o da mentira e o da verdade. O primeiro é formado por diversas e diferentes religiões; o segundo é formado por um remanescente disperso, minoritário e desprovido de ritos, cerimonialismos, clericalismos, e institucionalismos. O primeiro é essencialmente antropocêntrico, enquanto o segundo é tipicamente cristocêntrico. O homem natural busca na religião um caminho de religação à Deus, porém sem que seja despido do seu "eu" contaminado pela natureza pecaminosa. O homem regenerado é encontrado por Deus, justificado sem mérito e sem justiça própria. A solução divina se dá pela graça e pela misericórdia, retirando  o foco do homem e colocando-o em Cristo por meio da Sua morte compartilhada. No ato de inclusão e substituição, Deus executa a justiça eterna contra o pecado e redime os pecadores eleitos antes dos tempos eternos. Assim, na religião o homem tenta se aproximar de Deus por meio de supostos méritos próprios. Na relação verdadeira é Deus quem conhece o pecador de antemão, predestina-o, chama-o, justifica-o, e glorifica-o por meio da graça plena. 
O sistema da mentira se caracteriza por ter a centralidade na ação sinérgica, a saber, na presunção humana de ser o gestor da sua própria salvação por méritos e justiça próprios; o sistema da verdade tem a centralidade na ação monérgica de Deus, a saber, por graça plena, visto que o homem é absolutamente incompetente para promover qualquer ação no campo espiritual. Tal incompetência se explica pela total corrupção do espírito humano. Esta corrupção significa a sua morte para Deus, ou seja, a separação do espírito do homem, em relação ao Espírito Santo de Deus. É este, portanto, o sentido de queda, perda da comunhão, depravação total, e corrupção espiritual. Isto não quer dizer que o espírito do homem decaído seja a fonte dos atos pecaminosos, pois esta tarefa fica por conta da alma. Por esta razão, sempre que as Escrituras se referem à salvação, o faz no sentido de purificação da alma. O espírito do homem é reconciliado com Deus após a vivificação, ou retorna a Ele após a morte física.
O sistema da mentira é baseado em ativismo, porque exige autosacrifício, esforço e dedicação, visto que o foco é o homem e suas necessidades, seus desejos, projetos e vontades. Por este caminho sempre trilha a maioria, ele imputa ao próprio homem mérito e a justiça própria. Cristo faz menção a ele em Mt. 7:13 - "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela." A porta estreita é o sistema da verdade, a porta larga é o sistema da mentira. 
No sistema da mentira os ideólogos afirmam, sem pudor e à revelia das Escrituras, que, o homem possui "livre arbítrio" e faz escolhas morais e espirituais livres as quais o capacitam à salvação. Tomam, por exemplo, no texto que abre este artigo, a expressão: "...ó vós, todos os que tendes sede..." como indicativo da liberdade de escolha, aceitação e decisão em optar pela oferta de Deus. Não há nada mais enganoso do que esta posição, visto que a vontade, o desejo e a emoção humana estão centradas na esfera almática, e, esta, não pode voltar-se para Deus. O que é reconciliado pela justiça de Cristo na cruz é o espírito e não a alma. A alma é tratada ao longo da experiência de novo nascimento, e o corpo será restaurado glorificado. Assim, permanece a posição do pregador reformado Martinho Lutero que diz: o homem não possui "livre arbítrio", mas "servo arbítrio". Tal posição foi publicada na obra "On the Bondage of the Will" em resposta às posições arminianas e universalistas de Erasmo de Roterdã. A posição de Lutero é a correta, pois quem comete pecado é escravo do pecado, logo, escravo não é livre. As Escrituras afirmam que todos pecaram e que o pecado entrou no mundo por meio de um homem, e passou a todos os homens, consequentemente todos são portadores da natureza pecaminosa. 
Entretanto, se houver o mínimo de honestidade bíblica verificar-se-á, entre outras coisas, que, o texto de Isaías se refere aos que têm sede. Ora, a natureza humana decaída não possui sede pelas coisas concernentes a Deus conforme o registro de Rm. 3:10 e 12 - "...como está escrito: não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só." Destarte, nenhum homem é competente para fazer escolhas livres e se voltar para Deus. O texto mostra, ao contrário, a ação graciosa e monérgica de Deus oferecendo a redenção sem que o homem a mereça e possua o que oferecer por ela. É como comprar manjares deliciosos sem dinheiro. Neste caso entra o agente fiduciário, Jesus, o Cristo como aquele que se oferece como penhora, segurança e garantia ao pecador. Este é o sentido jurídico de fidúcia, ou seja, '... ônus que grava a propriedade dada em fideicomisso, visto que ela pertence ao fiduciário enquanto este viver ou por outra condição estabelecida pelo testador.' Os que têm sede, têm-na, porque esta lhes foi outorgada pela Graça.
Aquele que tem sede busca ao Senhor enquanto se pode achá-Lo, porque Ele mesmo provoca a sua sede e o conduz ao abandono da iniquidade, pois é na cruz que esta é aniquilada conforme Hb. 9:26 - "...mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo." É pelo poder da Palavra vivificante de Deus que o pecador é despertado em fé e levado à cruz,  para em Cristo, ganhar a vida conforme Jo. 6:44 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia." Vê-se que é uma questão de não poder, e não de querer, desejar, ou escolher livremente.
Comprar sem dinheiro parece paradoxal, entretanto, é uma questão de crédito concedido por graça plena mediante a fé, àqueles que, jamais poderiam se voltar livremente para Deus. É Cristo que os justifica, rasgando o escrito de dívida que havia contra eles por conta do pecado conforme Cl. 2:14 - "... e havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz."
Sola Gratia!