sexta-feira, 4 de setembro de 2015

POSSO TODAS AS COISAS? QUAIS? COMO?

Fl. 4: 6 e 7 - 12 e 13 - "Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças; e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.  Sei passar falta, e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome; tanto em ter abundância, como em padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece."
Há uma recorrente tendência entre religiosos em dissimular exaltação a Deus, quando, de fato, exaltam-se a si mesmos. Para tanto, utilizam de expediente digressivo, o qual consiste em declarar porções bíblicas, as quais demonstram poder, santidade, superioridade e vitória, mas vivem, interiormente, dramas incontroláveis. Por vezes, são pessoas que sequer sabem diferenciar Jesus, o homem histórico, do Cristo pré-existente e eterno, porém se apropriam dos textos bíblicos sem qualquer autoridade espiritual. Pessoas que memorizam textos apenas pela beleza poética dos mesmos, ou porque tais textos e contextos expressam suas mazelas, carências e desesperos circunstanciais. Passada a refrega e a ansiedade, não são capazes de, sequer, localizar tais textos nas Escrituras. Também há aqueles que buscam nas Escrituras textos para responder ou atacar seus desafetos em uma espécie de transferência dos desacertos à esfera do sobrenatural. Ainda há aqueles que se utilizam dos textos bíblicos para aconselhar outros, quando nem eles mesmos creem no que estão aconselhando. Muitas vezes estes artifícios fazem parte de um repertório de expertises para ganhar simpatias, aliados e alguma vantagem emocional ou material sobre terceiros. As pessoas que assim agem são portadoras da "Síndrome de Lúcifer", a saber, querem uma espécie de poder supremo para si. Contrariamente, os eleitos e regenerados recebem como certa a verdade seguinte: "quando sou fraco, aí é que sou forte." No reconhecimento e confissão da própria fraqueza dá lugar à manifestação do poder unicamente de Cristo. Isto faz que o regenerado dependa exclusivamente d'Ele e do seu poder.
Acerca dos tais que usam os textos sacros como meros expedientes, as Escrituras afirmam em Is. 29:13 - "Por isso o Senhor disse: pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas tem afastado para longe de mim o seu coração, e o seu temor para comigo consiste em mandamentos de homens, aprendidos de cor." Portanto, aproximar-se das coisas relativas a Deus, dizer coisas bonitas acerca d'Ele, em nada consiste em confessá-lo e adorá-lo em espírito e em verdade. Eles estabelecem mandamentos, preceitos e regras conforme seus próprios desejos e atribuem à sua religiosidade um culto a Deus que, de fato, não é real. São apenas dogmas decorados e praticados em forma de rituais ou religião exterior. Aos olhos de Deus, para nada aproveita, pois tudo o que possui centralidade no homem e não em Cristo, não possui valor, senão sociológico. Portanto, é fundamental entender e receber com mansidão o fato que a religião é apenas um artifício humano e não uma ordenança divina. De fato, Deus não fundou nenhuma religião. O apóstolo Tiago esclarece que a verdadeira religião consiste em visitar as viúvas e os órfãos e fazer-lhes caridade conforme Tg. 1: 26 e 27 - "Se alguém cuida ser religioso e não refreia a sua língua, mas engana o seu coração, a sua religião é vã. A religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se isento da corrupção do mundo." Primeiramente, vê-se que a religião é um cuidado humano e, secundariamente o falar deve coincidir com a prática humanitária.
O texto de abertura provém de um contexto em que o apóstolo Paulo está expondo as dores, aflições e a glória no serviço do evangelho de Cristo. Fica evidente que, a oração e súplica diante das aflições não é para convencer Deus a ser favorável aos desejos e caprichos humanos, mas para ganhar a paz que ultrapassa todos os limites da compreensão humana. Não se trata de fazer barganha, mas de reconhecer que tudo está no controle de Deus. Acrescenta-se que a paz profunda e espiritual consiste em que os corações dos eleitos e regenerados são guardados em Cristo e não em vitórias materiais como se supõe na religião comum. O texto mostra como Deus prova e aprova os seus eleitos e regenerados, tanto na abundância, como na escassez a fim de que tenham a firme confiança que todas as coisas provêm d'Ele. Desta forma, a pedagogia de Deus consiste em não deixar que a fé dos seus seja apenas apoiada em ter coisas, ou mesmo, que eles não desfaleçam os corações por sofrerem sempre escassez. 
Muitos utilizam apenas o versículo treze do referido texto para se vangloriar de uma vitória que, muitas vezes, nada tem a ver com a dependência plena de Deus. Assim, muitos afirmam: "posso todas as coisas naquele que me fortalece." Entretanto, deixam de considerar tudo o que o apóstolo Paulo fala antes e após o verso treze. Descontextualizam o texto a pretexto de exibir uma vitória que não têm e um poder que não lhes pertence. São, portanto, usurpadores da verdade! Uma visão mais acurada deste verseto, permite ver com clareza meridiana que, o poder sobre todas as coisas reside naquele que fortalece o nascido de Deus e não em si mesmo. Aquele que fortalece é Jesus, o Cristo e não fatos. Deus não tem coisas para dar aos seus, ele tem Cristo, porque Cristo é o tudo de Deus. O poder dos nascidos do alto reside, tanto em ter abundância em Cristo, como ter escassez em Cristo; passar fome em Cristo, ter fartura em Cristo. Cristo é, portanto, aquele que fortalece os nascidos de novo em quaisquer circunstâncias. São os extremos circunstanciais que provam e aprovam os eleitos e regenerados. Aquele que não recebeu a sua inclusão na morte com Cristo, bem como na sua consequente ressurreição juntamente com ele, tende a afastar-se dele tanto em um, quanto no outro extremo. A fé genuína consiste em confiar plena e incondicionalmente em Deus por meio de Cristo sob quaisquer circunstâncias. Os nascidos de Deus não olham as circunstâncias, mas olham para Cristo autor e consumador da fé.
Então, paradoxalmente, quais "todas as coisas" as quais o eleito e regenerado pode? Todas! As boas e as ruins, porque ele é conduzido pelo Espírito e não pela carne. Como eles podem todas estas coisas? Suportando-as da mesma forma em Cristo, pois ele é a vida dos justificados na cruz conforme Gl. 2:19 e 20.
Solo Christus!

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