quarta-feira, 30 de julho de 2014

BATER OU FALAR À ROCHA? UMA SUTIL DIFERENÇA

Ex. 17: 1 a 7 e Nm. 20: 1 a 13 - "Partiu toda a congregação dos filhos de Israel do deserto de Sim, pelas suas jornadas, segundo o mandamento do Senhor, e acamparam em Refidim; e não havia ali água para o povo beber. Então o povo contendeu com Moisés, dizendo: dá-nos água para beber. Respondeu-lhes Moisés: por que contendeis comigo? Por que tentais ao Senhor? Mas o povo, tendo sede ali, murmurou contra Moisés, dizendo: por que nos fizeste subir do Egito, para nos matares de sede, a nós e aos nossos filhos, e ao nosso gado? Pelo que Moisés, clamando ao Senhor, disse: que hei de fazer a este povo? Daqui a pouco me apedrejará. Então disse o Senhor a Moisés: passa adiante do povo, e leva contigo alguns dos anciãos de Israel; toma na mão a tua vara, com que feriste o rio, e vai-te. Eis que eu estarei ali diante de ti sobre a rocha, em Horebe; ferirás a rocha, e dela sairá água para que o povo possa beber. Assim, pois fez Moisés à vista dos anciãos de Israel. E deu ao lugar o nome de Massá e Meribá, por causa da contenda dos filhos de Israel, e porque tentaram ao Senhor, dizendo: está o Senhor no meio de nós, ou não? Os filhos de Israel, a congregação toda, chegaram ao deserto de Zim no primeiro mês, e o povo ficou em Cades. Ali morreu Miriã, e ali foi sepultada. Ora, não havia água para a congregação; pelo que se ajuntaram contra Moisés e Arão. E o povo contendeu com Moisés, dizendo: oxalá tivéssemos perecido quando pereceram nossos irmãos perante o Senhor! Por que trouxestes a congregação do Senhor a este deserto, para que morramos aqui, nós e os nossos animais? E por que nos fizestes subir do Egito, para nos trazer a este mau lugar? lugar onde não há semente, nem figos, nem vides, nem romãs, nem mesmo água para beber. Então Moisés e Arão se foram da presença da assembléia até a porta da tenda da revelação, e se lançaram com o rosto em terra; e a glória do Senhor lhes apareceu. E o Senhor disse a Moisés: toma a vara, e ajunta a congregação, tu e Arão, teu irmão, e falai à rocha perante os seus olhos, que ela dê as suas águas. Assim lhes tirarás água da rocha, e darás a beber à congregação e aos seus animais. Moisés, pois, tomou a vara de diante do senhor, como este lhe ordenou. Moisés e Arão reuniram a assembléia diante da rocha, e Moisés disse-lhes: ouvi agora, rebeldes! Porventura tiraremos água desta rocha para vós? Então Moisés levantou a mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara, e saiu água copiosamente, e a congregação bebeu, e os seus animais. Pelo que o Senhor disse a Moisés e a Arão: porquanto não me crestes a mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes dei. Estas são as águas de Meribá, porque ali os filhos de Israel contenderam com o Senhor, que neles se santificou."
Os dois textos acima registram o mesmo fato, em momentos diferentes, durante a jornada do povo hebreu quando saiu do Egito, onde foi escravo, para Canaã, a "terra prometida". Moisés, o líder, auxiliado por seus irmãos e por um conselho de anciãos das doze tribos de Israel foi escolhido por Deus. Foi colocado à frente do povo, demonstrando que é a sua soberana vontade prevalecente e não a vontade decaída do homem. 
Era costume da época colocar nomes nos lugares onde ocorriam fatos relevantes. Portanto, Massá significa provocação ou contenda, enquanto Meribá significa altercação ou  discussão. Os eventos nestes dois lugares mostram que o homem natural sempre está em estado de conflito com Deus, consciente ou inconscientemente. Não sabem esperar e confiar na providência e no tempo de Deus. Por isto há tantos desajustes psicológicos e doenças no mundo.
Observa-se, ainda, a permanente disposição do homem à murmuração e aos conflitos por questões circunstanciais e materiais. A natureza decaída, invariavelmente, busca a gratificação em coisas. Não há no homem natural qualquer inclinação para o que é espiritual ou divino. Confundem espiritualidade com relações puramente religiosas, místicas e ritualísticas. Também é perceptível o quanto um líder, ainda que escolhido por Deus, é suscetível às falhas e aos erros comuns ao homem. Por esta razão, pode-se afirmar que as Escrituras são absolutamente honestas em mostrar que os homens mais usados por Deus eram completamente normais, cometendo erros e falhas. Nos círculos religiosos espera-se sempre um comportamento perfeccionista dos líderes. Ledo engano, pois falham e falham muito!
A pedagogia de Deus tem por objeto a revelação de Cristo e não as questões humanas. A prioridade de Deus é revelar o seu Filho e estabelecer o seu reino eterno. As religiões comuns e humanas sempre colocam a centralidade das Escrituras no homem. Isto se percebe, tanto na questão da salvação, como das bênçãos. Entretanto, para o mais falho estudioso da Bíblia, logo se vê que a centralidade é Cristo e não o  homem ou as coisas criadas. Estas coisas Deus pode destruir e fazer novas, mas o seu Filho é eterno, unigênito e primogênito dentre os mortos. Isto não muda no tempo e no espaço.
Observa-se na primeira parte do texto de abertura que, mediante as murmurações do povo no deserto de Sim, Deus ordenara a Moisés que ferisse a rocha com o cajado para dela obter água e atender aos reclames do povo. Moisés, então foi e fez segundo a instrução do Altíssimo. Este acontecimento ocorreu em Horebe, no lugar chamado Refidim. Veja que Deus chama Moisés e diz a ele que estaria adiante dele e sobre a rocha. Moisés foi e fez como instruíra o Senhor e a rocha brotou água potável e saciou a sede do povo e dos animais. 
Ora, a rocha é um símbolo de Cristo e a água um símbolo do evangelho. Em Is. 26:4 diz: "confiai sempre no Senhor; porque o Senhor Deus é uma rocha eterna." É um símbolo apenas, pois Cristo é uma pessoa e não uma rocha, mas para que o homem entenda o sentido do ensino, Deus se utiliza destes processos metafóricos. Em Ez. 47: 2 a 8 diz: "...e eis que corriam umas águas pelo lado meridional. Saindo o homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir, mediu mil côvados, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos artelhos. De novo mediu mil, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos joelhos; outra vez mediu mil, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos lombos. Ainda mediu mais mil, e era um rio, que eu não podia atravessar; pois as águas tinham crescido, águas para nelas nadar, um rio pelo qual não se podia passar a vau. E me perguntou: viste, filho do homem? Então me levou, e me fez voltar à margem do rio. Tendo eu voltado, eis que à margem do rio havia árvores em grande número, de uma e de outra banda. Então me disse: estas águas saem para a região oriental e, descendo pela Arabá, entrarão no Mar Morto, e ao entrarem nas águas salgadas, estas se tornarão saudáveis." Esta é a visão profética de Ezequiel sobre a restauração final. As águas representam o aprofundamento dos eleitos e regenerados na experiência com Cristo. Primeiramente o conhecimento raso e frágil, as águas lavando apenas os artelhos; depois as águas até os joelhos, uma experiência mais ampla; depois as águas até os lombos, uma maior imersão no conhecimento de Cristo; e, finalmente as águas profundas e fecundas que curam e purificam aquilo que está morto. 
O Novo Testamento joga mais luz sobre estas esplendentes verdades, por exemplo, em Rm. 9:33 - "... como está escrito: eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço; e uma rocha de escândalo; e quem nela crer não será confundido." Sião é uma indicação da cidade de Jerusalém onde Cristo iria manifestar a sua missão final como o redentor. Quem crer em Cristo como a Rocha Eterna é porque ganhou a graça para tal, quem não crê já está condenado. Cristo tem sido motivo de redenção e de condenação para todos os homens em todos os tempos e lugares. Ainda em Mt. 7: 24 e 25 - "Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha. E desceu a chuva, correram as torrentes, sopraram os ventos, e bateram com ímpeto contra aquela casa; contudo não caiu, porque estava fundada sobre a rocha.
Jesus, o Cristo esclarece sobre as águas como símbolo do evangelho da verdade em Jo. 4: 13 e 14 - "Replicou-lhe Jesus: todo o que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna." No encontro com a mulher samaritana à beira do poço, o Mestre revelou este profundo ensino: a água que dessedenta eternamente é a fé no evangelho da verdade. Isto nada tem a ver com evangelicalismo religioso e humanista.
No segundo texto de abertura, Moisés é importunado novamente pelo povo que reclamava diversas coisas e pressionava-o por água. Moisés, já sem paciência ficou irado e desconsiderou a instrução de Deus para falar à rocha. Na primeira vez foi-lhe dito para ferir a rocha, mas na segunda foi-lhe instruído que falasse à rocha para dar água. Moisés, então desferiu golpes de cajado na rocha e ela jorrou água. Os dois textos mostram que Cristo viria primeiro para ser ferido e morto para dar aos pecadores o ensino da verdade e que depois disto o evangelho simbolizado pela água fluindo da rocha pela pregação e não pelo esforço das obras da lei.
Entretanto, por Moisés não ter crido no que Deus dissera foi-lhe vedado entrar na "terra prometida". Isto demonstra que até mesmo os escolhidos de Deus podem cometer erros e serem por isso disciplinados. Ao contrário do que a maioria dos religiosos imaginam, Deus é mais exigente e rígido com aqueles a quem tornou por filhos através de Cristo.
Sola Scriptura!