domingo, 30 de setembro de 2012

A ANSIEDADE HUMANA E A GRAÇA DE DEUS

Mt. 6: 25 a 34 - "Por isso vos digo: não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: que havemos de comer? ou: que havemos de beber? ou: com que nos havemos de vestir? Pois a todas estas coisas os gentios procuram. Porque vosso Pai celestial sabe que precisais de tudo isso. Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal."
Ansiedade provém do latim 'anxietatis' e tem um grande espectro de significações, tais como: grande mal-estar físico e psíquico, aflição, agonia; Isto produz no homem desejos veementes e profunda falta de paciência, de tranquilidade e enorme receio ante os acontecimentos da vida. Também por ansiedade tem-se que é um estado afetivo penoso, caracterizado pela expectativa de algum perigo que se revela indeterminado e impreciso, e diante do qual o indivíduo se julga indefeso. Pode-se dizer que é um mal da alma humana, porque, por mais que a pessoa tenha bens, saúde, cultura, prestígio, continua tendo ansiedade. Uns têm-na por não possuir nada e desejarem tudo, outros têm-na por possuir muito e temerem perder o que tem.
A sociedade é imediatista e consumista, porque o homem procura preencher suas ânsias com coisas. Tudo é muito efêmero e incompleto à alma humana ansiosa. Há uma profunda necessidade de ser percebido, consultado, desejado, reverenciado e amado. Por isso, o homem natural busca no ter uma forma de compensar a ausência do ser. Imagina, em seu vazio, que, o ter, compensará o não ser. A perda é a pior sensação à alma humana, pois quanto mais se perde, menos se sente como um ser completo. Por esta necessidade de ter, muitas guerras foram travadas, muitas famílias destroçadas, muitas amizades destruídas, muitas dignidades corrompidas. Estas colocações não são meras lições de moralidade ou frases de efeito para comover alguém. São, de fato, a constatação permanente do estado natural do homem ao longo dos tempos.
O texto de abertura sentencia que o homem não deve estar ansioso. Isto porque o Mestre sabe que este é ansioso por natureza. Estar ansioso difere substancialmente de ser ansioso, e, aparentemente parece apresentar uma espécie de axioma. Quem é ansioso por natureza estará invariavelmente ansioso por hábito e necessidade. Entretanto, o Mestre está doutrinando a maneira como o homem pode se livrar da ansiedade natural. É um exercício de fé, e, consequentemente, de transferência de um estado de ansiedade para o estado de dependência da graça de Deus. 
A preocupação com o que comer, o que beber e o que vestir demonstra uma enorme insegurança quanto ao que Deus é. O homem natural não confia que Deus é quem o supre de todas as coisas. Ele se apega a Deus e pede proteção, bênçãos e ajuda, mas realiza a sua tarefa de acumular, porque tem dúvidas se Deus realmente operará em seu favor. Isto é exatamente ausência da fé verdadeira. É como alguém que pula de paraquedas, mas leva um de reserva. Cristo estabelece uma relação valorativa, afirmando que a vida e o corpo são maiores que o comer, o beber e o vestir. O que adiantaria ter o corpo sem ter a vida, ou ter o vestuário sem ter o corpo? Assim, o homem em seu estado vazio e insatisfeito, inverte a ordem natural das coisas.
Jesus, o Cristo mostra que a origem da ansiedade é a reduzida fé, pois não consegue confiar que o mesmo Deus que alimenta as aves dos céus e que veste os lírios do campo é o que pode alimentar e vestir o homem. É ele quem dá a vida ao corpo e que o reveste de roupas. Não apenas de vestuário que se deteriora, mas pode revesti-lo de Cristo para a eternidade conforme Gl. 3: 26 e 27 - "Pois todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo." O homem natural o qual foi eleito e predestinado antes dos tempos eternos passa de criatura a filho de Deus por adoção por meio do batismo na morte de Cristo conforme Rm. 6:3 - "Ou, porventura, ignorais que todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?" A este processo que é originado na soberana vontade de Deus dá-se o nome de "novo nascimento", ou como está no texto original, "nascimento do alto". Tal mudança de mente - metanóia - é realizada pela ação monérgica de Deus por inclusão do pecador na morte de Cristo que o substituiu fisicamente na pessoa de Jesus, e espiritualmente na pessoa do Filho Unigênito de Deus, Cristo. Após a ressurreição, Cristo é, além de Filho Unigênito, também o Primogênito dentre os mortos. Veja que é "dentre os mortos" e não entre os mortos, visto que tal colocação jogaria a ressurreição d'Ele no absurdo contraditório. 
O texto que abre esta instância conclui mostrando que Deus sabe exatamente cada uma das necessidades do homem. Porém, o problema não está em Deus, mas na maneira em que o homem busca resolver sua escassez ou e o seu vazio espiritual.  Mostra ainda que cada dia é portador do seu próprio mal. Invariavelmente o homem natural busca primeiramente o reino deste mundo para preencher-se dele. O ensino de Cristo é o oposto, demonstrando que se deve buscar primeiramente o reino de Deus e a sua justiça. Após este ato de fé, todas as demais carências serão acrescentadas, ou seja, é uma questão de graça e não de esforço. É uma questão de dependência plena na misericórdia e na graça de Deus.
Sola Gratia.
Sola Fide.
Solus Christus.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

PEDIR E NÃO RECEBER

Tg. 4: 1 a 5 - "Donde vêm as guerras e contendas entre vós? Porventura não vêm disto, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam? Cobiçais e nada tendes; logo matais. Invejais, e não podeis alcançar; logo combateis e fazeis guerras. Nada tendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites. Infiéis, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. Ou pensais que em vão diz a escritura: o Espírito que ele fez habitar em nós anseia por nós até o ciúme?"
É verdade que as Escrituras autorizam ao homem apresentar suas petições perante Deus conforme Fl. 4:6 - "Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças." A ansiedade é o fruto da desconfiança em Deus. Por não saber orar como convém, também não sabe suplicar e, muito menos, ser grato. Esta é a realidade do homem em relação a Deus em termos de oração. Tais relações são o resultado das posições, ou seja, por não ter uma posição vertical vivificada, não possui igualmente uma relação filial. O filho confia no pai, porque sabe que ele é o seu provedor amoroso e generoso. 
A questão das relações mal resolvidas para com Deus resultam de uma inversão de atitudes: o homem tenta se aproximar d'Ele por meio de religião exterior, enquanto Deus requer uma adoração em espírito e em verdade. O espírito não vivificado, não pode se comunicar com Deus e a verdade, não é uma mera concepção filosófica, mas uma pessoa, isto é, Cristo. Por isso, não há respaldo, como também não há resposta, visto que não há comunhão e comunicação. A relação correta é vertical e parte de Deus em relação ao homem. É portanto, uma relação monérgica e não sinérgica como pretende a religião humana. Por isto é que se trata de religião, ou seja, religação: o homem busca a Deus por seus próprios esforços e entendimento. Esta é a mentira apregoada nas religiões institucionais que o homem decaído coopera com Deus e que o faz, porque é portador de "livre arbítrio". De fato, o homem decaído é portador do "servo arbítrio", pois todos estão debaixo do pecado, logo, quem é escravo não é livre conforme Jo. 8: 32 a 35 - "Replicou-lhes Jesus: em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado. Ora, o escravo não fica para sempre na casa; o filho fica para sempre." Por esta razão é que a relação monérgica exige uma relação filial.
A condição decaída produz no homem os desejos ou cobiças. A cobiça provém da necessidade de deleite, ou seja, dos prazeres almáticos. Quando cobiça e não consegue vem os ciúmes, e, com estes os assassínios, a violência, os conflitos. A inveja é o desejo de ter o que a outra pessoa tem para se igualar ou superá-la. Isto provoca o desejo de ser aceito, admirado, de ser consultado e prestigiado. Logo, o resultado disso são os conflitos interpessoais, os quais levam aos combates verbais, e, estes, às guerras. As Escrituras ensinam que, quando uma pessoa deseja o mal a alguém está cometendo assassinato conforme I Jo. 3:15 - "Todo o que odeia a seu irmão é homicida; e vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele." Jesus, o Cristo ensina que o homem decaído é homicida, porque a natureza pecaminosa que está nele é procedente de Satanás que é homicida desde o princípio conforme Jo. 8:44 -  "Vós tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele é homicida desde o princípio..."
Assim, a escassez e a falta de bens são o resultado de não peticionar corretamente, pois quando se pede algo a Deus é apenas por inveja, ciúmes e desejo de prazeres. Estas atitudes são ligadas ao mundo horizontal e não ao mundo vertical, ou seja, são em nível humano e pecaminoso e não em nível espiritual e vivificado. O desejo de ter e de ajuntar para si indica a infidelidade do homem, pois demonstra claramente que não confia na dependência plena da graça de Deus. Não confia que Deus é o provedor perfeito e que não faltará ao que tem a fé do Justo conforme Hb. 10:38 - "Mas o meu justo viverá da fé; e se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele." Pedir e não receber é a consequência de pedir mal, ou seja, pedir conforme aos desejos centrados em si mesmo e não em Cristo. As petições devem ser conhecidas diante de Deus com súplicas, porque ninguém tem direitos e méritos para obter nada. As petições com fé e dependência plena na graça e na misericórdia são sempre acompanhadas de ações de graça, porque ao agradecer antes de receber demonstra-se confiança plena na todo-suficiência de Deus como pai e não como resolvedor de problemas, dramas e carências. Deus não tem mensalão para dar ao homem, por meio de mamatas espirituais. Ele tem Cristo para doar, e, Cristo é tudo, tendo-o, tem-se tudo.
Soli Deo Glora!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

CONSCIÊNCIAS CAUTERIZADAS

I Tm. 4: 1 a 5 - "Mas o Espírito expressamente diz que em tempos posteriores alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios, pela hipocrisia de homens que falam mentiras e têm a sua própria consciência cauterizada, proibindo o casamento, e ordenando a abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ações de graças pelos que são fiéis e que conhecem bem a verdade; pois todas as coisas criadas por Deus são boas, e nada deve ser rejeitado se é recebido com ações de graças; porque pela palavra de Deus e pela oração são santificadas."
Consciência é proveniente do vocábulo latino 'conscientia' que significa 'conhecimento', 'consciência' e 'senso íntimo'. Em termos mais amplos consciência é "sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior. É o sentido ou a percepção que o ser humano possui do que é moralmente certo ou errado em atos e motivos individuais." 
O homem natural possui a mente cauterizada porque dá ouvidos a espíritos enganadores, crê e prega doutrinas de demônios, ou seja, de anjos caídos que se passam por espíritos iluminados. Homens com as consciência cauterizadas são apostatados da fé e não da religião. Eles permanecem dentro dos sistemas de crenças por meio de igrejas institucionais cuja religião é apenas ritual ou cerimonial. Eles preferem a hipocrisia dos que pregam mentiras e se apegam a atos exteriores, mas não se importam e não suportam a sã doutrina que é a Palavra de Deus. Reputam-na como lenda, como algo duvidoso e manipulado. São em geral pessoas bondosas e têm atitudes humanitárias, caridosas e muito preocupadas com o próximo. Porém, é exatamente isto que os afasta da verdade, pois se apoiam em uma espécie de auto-salvação, por meio de desempenho meritório e de justiça própria. Creem no que eles mesmos podem fazer e não no que Deus faz por eles.
O verbo cauterizar provém de cautério, que, por sua vez, provém do grego 'kauterion', a saber, "ferro vermelho ou em brasa para queimar". No latim provém de 'cauterium' que quer dizer ferro de cauterizar. Assim, a ideia do texto paulino a seu filho espiritual Timóteo é que os homens cujas mentes estão cauterizadas são aqueles que queimaram as suas próprias consciências cicatrizando-as contra o ensino da verdade. Eles substituem a verdade por um sistema que os satisfaça almaticamente. Em medicina cautério é o uso de nitrato de prata, neve carbônica e de bisturi elétrico para cicatrizar lesões e estancar sangramentos. O resultado deste processo químico ou físico é a formação de uma crosta endurecida sobre o local lesionado a fim de criar uma regeneração dos tecidos por baixo. Analogamente, o homem que dá ouvidos a doutrinas de demônios e fala mentiras, cria sobre a sua consciência uma barreira protetora que não permite a penetração de outra verdade, ou de outro ensino que não seja o seu próprio. A cauterização produz um tampão como casca de pereba sobre o local onde há uma chaga. A religião é esta casca e a chaga é o pecado.
A cauterização é o ato pelo qual o homem natural aplica cautério à sua consciência. Este processo é, em suma, o total desaparecimento, destruição e extinção de algo que causava uma falha. Neste processo, há uma perda de sensibilidade ou neutralização daquilo que incomodava. Neste ponto o ser humano natural, fica anestesiado por suas próprias doutrinas e justiças próprias. Ora, sabe-se, que, no sentido do ensino bíblico o que incomoda o homem é o pecado. Visto que pecado é incredulidade conforme Jo. 16:9 - "...do pecado, porque não creem em mim." Como o pecador não pode estabelecer uma comunhão direta com Deus, ele cria o sistema religioso por meio de intermediários, ou seja, demônios e espíritos enganadores para formar um corpo doutrinário bonito e sensível que o satisfaça a alma. Como tal sistema religioso não resolve definitivamente o seu problema pecaminoso, ele, então, se cauteriza por meio de preceitos cerimoniais e morais. Tenta aplacar a dor e o sofrimento espiritual aplicando cautério à sua mente. Neste sentido é que as suas consciências ficam cauterizadas, ou seja, insensíveis, anestesiadas, indiferentes e neutralizadas da verdade. Eles criam um sistema de verdade relativizadas com base em concepções. Entretanto, a verdade não é uma concepção, mas uma pessoa, a saber, Cristo conforme o registro de Jo. 14:6 - "Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." Observa-se, que, Jesus é o caminho, ou seja, o método de Deus, porque caminho significa método. Ele é a verdade e não uma verdade qualquer. Como também é a vida e não apenas vida almática e biológica. E finalmente o texto em comento mostra que ninguém vai a Deus se não for por Cristo. Então, qualquer proposta de burlar este processo é cauterizador e nada tem a ver com Deus e sua verdade.
Solus Christus!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

CONVERSANDO COM OSSOS SECOS

Ez. 37: 1 a 11 - "Veio sobre mim a mão do Senhor; e ele me levou no Espírito do Senhor, e me pôs no meio do vale que estava cheio de ossos; e me fez andar ao redor deles. E eis que eram muito numerosos sobre a face do vale; e eis que estavam sequíssimos. Ele me perguntou: filho do homem, poderão viver estes ossos? Respondi: Senhor Deus, tu o sabes. Então me disse: profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor Deus a estes ossos: eis que vou fazer entrar em vós o fôlego da vida, e vivereis. E porei nervos sobre vós, e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós o fôlego da vida, e vivereis. Então sabereis que eu sou o Senhor. Profetizei, pois, como se me deu ordem. Ora enquanto eu profetizava, houve um ruído; e eis que se fez um rebuliço, e os ossos se achegaram, osso ao seu osso. E olhei, e eis que vieram nervos sobre eles, e cresceu a carne, e estendeu-se a pele sobre eles por cima; mas não havia neles fôlego. Então ele me disse: profetiza ao fôlego da vida, profetiza, ó filho do homem, e dize ao fôlego da vida: assim diz o Senhor Deus: vem dos quatro ventos, ó fôlego da vida, e assopra sobre estes mortos, para que vivam. Profetizei, pois, como ele me ordenara; então o fôlego da vida entrou neles e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo. Então me disse: filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que eles dizem: os nossos ossos secaram-se, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo cortados."
A mente humana alienada da natureza de Deus segue invariavelmente uma lógica formal e experimental. Tudo quanto se insere no campo subjetivo e ilógico é rejeitado, seja direta, seja indiretamente. Esta é uma das razões porque a religião não serve aos propósitos de Deus. A religião é apenas uma mera tentativa do homem de reencontrar o paraíso perdido por suas próprias justiças, méritos e esforços. É a religação por meio de lógica com base na experiência dialética de causa e consequências. Eu faço isto e consigo aquilo, logo, eu me promovo na escala da evolução e chego ao estado de purificação e sublimação das contingências humanas. Tal raciocínio elimina Cristo, a cruz e a necessidade de morrer n'Ele para destruição do corpo do pecado conforme Rm. 6:6 - "... sabendo isto, que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado fosse desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado." A expressão velho homem equivale à nossa velha natureza pecaminosa herdada de Adão. Tal condição humana independe do homem aceitá-la ou não aceitá-la. A verdade não pertence ao homem!
Na esfera da experiência espiritual nada é lógico ou pode ser nivelado pelo crivo da lógica formal aceita e praticada pelo homem. Por esta razão é que, a verdade não é conhecida pela maioria dos homens, inclusive, os religiosos. Os seus sistemas de crenças foram desenvolvidos à revelia da verdade, visto que ela não é uma concepção, mas uma pessoa, a saber, Cristo. Nele o pecador eleito antes  dos tempos eternos é incluído para ganhar a sua vida pela experiência do nascimento do alto. Toda esta realidade é fruto da ação monérgica e soberana de Deus e independe de quaisquer atos ou ações do homem decaído. Nele não restou nenhuma bondade ou luz suficiente para reconduzi-lo de volta ao Criador. A religião arminiana tenta provar o oposto...
No texto de abertura vê-se uma dessas experiências estritamente no campo espiritual e da fé verdadeira. O profeta é conduzido a um vale de ossos secos e indagado se os tais ossos poderiam viver novamente, ele se omite de qualquer julgamento. Transfere a capacidade de juízo a Deus, obtendo de volta uma ordem: 'ande em torno dos numerosos ossos e profetize a eles', ou seja, os ossos ressequidos deveriam ouvir a Palavra de Deus. Ora, esta é a tarefa mais contraditória para um homem lógico: primeiramente falar a ossos secos, e, secundariamente dizer a eles para ouvir a palavra de Deus. Qualquer pessoa razoavelmente normal se sentiria ultrajada ao ter de manter  uma conversa com ossos secos amontoados em um vale quente e desértico. 
Deus vai mais além, e, diz: "eis que vou fazer entrar em vós o fôlego da vida, e vivereis." Para uma mente lógica é pouco provável que algo morto produza vida, visto que vida provém de outra vida, logicamente falando. Deus prossegue na sua parábola, dizendo: "e porei nervos sobre vós, e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós o fôlego da vida, e vivereis." A mente humana racional e relativizada imagina como poderia aparecer nervos, músculos, pele e alma vivente sobre ossos ressequidos. Qualquer homem razoavelmente inteligente se sentiria constrangido e ridículo na execução de uma tarefa dessas. 
Entretanto, o profeta Ezequiel obedece a ordem divina e pronuncia as palavras de Deus sobre os ossos. Alguns segundos depois ouve-se um reboliço, um retinir de ossos batendo em ossos que se ajuntam, recompondo os esqueletos. Os esqueletos são revestidos de tendões, músculos e pele, e, finalmente o espírito de vida procedente dos quatro cantos da Terra entrou neles e ficaram vivos. Aquele exército numeroso de homens ressuscitados se pôs de pé diante de Deus e do profeta. A lógica foi destruída pelo o que é ilógico, se concretizando na fé, porque lógica é horizontal e fé é vertical. Nisto se cumpre o que é dito em I Co. 1:18 e 19 - "Porque a palavra da cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus, porque está escrito: destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a sabedoria e o entendimento dos entendidos."
Ora, aquele exército de mortos-vivos era a casa de Israel, e, por dupla referência profética, a Igreja formada por homens pecadores, mortos em seus delitos e pecados, mas que foram gerados novamente em Cristo conforme II Co. 5:17 - "Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo." Alguém está em Cristo, quando é conduzido a Ele pela decisão soberana de Deus conforme Jo. 6:44 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia." Uma vez eleito e predestinado à inclusão na morte de Cristo, este o atrai conforme Jo. 12: 32 e 33 - "E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim. Isto dizia, significando de que modo havia de morrer." Após destruir a natureza pecaminosa na sua morte, Cristo retorna à vida, trazendo consigo o regenerado conforme Ef. 2: 5 e 6 - "... estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo, pela graça sois salvos, e nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus...
Sola Scriptura!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A DIFERENÇA ENTRE SERMÃO E A PALAVRA DA CRUZ

I Co. 1: 18 a 24 - "Porque a palavra da cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. porque está escrito: destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a sabedoria e o entendimento dos entendidos. Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o questionador deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto como na sabedoria de Deus o mundo pela sua sabedoria não conheceu a Deus, aprouve a Deus salvar pela loucura da pregação os que creem. Pois, enquanto os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos, mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus."
Um sermão se define como sendo um discurso oral feito por um profeta, líder de uma religião, seita, por membro do clero, abordando temas bíblicos, teológicos, religiosos ou morais. Em geral sustenta uma crença, lei ou comportamento humano em um contexto presente ou pretérito. São elementos constitutivos de um sermão: exposição, exortação e aplicação prática. É por vezes chamado também de homilia, ou seja, uma peça de pregação de uma determinada doutrina. Há pessoas dotadas de eloquente capacidade retórica e capazes de orar de modo a comover os ouvintes. Há outros que, não possuem uma excelente retórica, mas o que pregam é  a verdade em sua essência. Levando em consideração a exposição de um texto escriturístico, pode-se fazê-lo por meio de exegese, quando se retira do texto significações que possam ir além da letra. Também, se pode fazer eisegese, a saber, colocar no texto palavras e sentidos que não estão lá. São formas de forçar interpretação favorável a uma causa, doutrina ou crença. Sempre houve os pregadores de sermões eisegéticos conforme informa o apóstolo Paulo em II Co. 2:17 - "Porque nós não somos falsificadores da palavra de Deus, como tantos outros; mas é com sinceridade, é da parte de Deus e na presença do próprio Deus que, em Cristo, falamos."
Os sermões exegéticos ou eisegéticos conduzem a uma hermenêutica capenga apoiada apenas na sabedoria humana, sendo esta conforme Tg. 3:15 - "Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica." Na verdade, muitas pregações que se ouvem por aí, nada mais são, que peças de retórica e nada expõem, exorta ou aplica a verdade originada em Deus. O ensino deve ser originado na sabedoria ensinada por Deus e não pela apreensão do intelecto conforme I Co. 2:13 - "... as quais também falamos, não com palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito Santo, comparando coisas espirituais com espirituais." No passado os demônios eram tidos como entidades cheios de sabedoria, ou seja, eram cridos não como seres maléficos, mas aqueles que intermediavam entre o mundo humano e o mundo espiritual. Na mitologia grega eram chamados de 'daimonion', ou seja, espírito sobrenatural que, na crença grega, apresentava uma natureza intermediária entre a mortal e a divina, frequentemente, inspirando ou aconselhando os humanos. Hoje há diversos grupos herméticos ou abertos, porém místicos que ressuscitam estas crenças e as colocam em prática. Tais entidades são chamadas de duendes, avatares, protetores, arcanos, anjos da guarda, espíritos protetores, mentores, guias.
Com o advento do Cristianismo é que os tais espíritos foram classificados como demônios no sentido maléfico. Por esta razão, muitos gnósticos, espiritualistas e místicos atacam o Cristianismo a fim de manter as crenças antigas. Outros tentam igualar o Cristianismo às crenças míticas e lendárias para jogá-lo na vala comum das crendices. Entretanto, é necessário fazer distinção entre Cristianismo Histórico e Nominal e o ensino do Cristo. São questões absolutamente opostas em sua natureza e origem.
A palavra da cruz é uma outra pregação, que, geralmente, não agrada nem aos cristãos nominais e religiosos, e, muito menos, aos homens naturais. A palavra da cruz é loucura, porque não faz concessão ao discernimento racional e gnoseológico. Está, portanto, fora do âmbito do humanismo gnóstico e apostatado de Deus. Para Deus a sabedoria humana e o entendimento dos entendidos, não passa de um acervo de auto-endeusamento contaminado pela natureza pecaminosa. Nestas condições não há como tal sabedoria conduzir o homem ao pleno conhecimento de Deus. 
A Deus aprouve uma outra proposta de redenção por meio da graça e mediante a fé, sendo ambas concedidas por Ele mesmo ao pecador. Logo, a palavra da cruz é uma ação monérgica, ou seja, única e exclusivamente procedente da soberana vontade de Deus. Por esta razão é loucura aos que perecem, a saber, aos que permanecem mortos pela natureza contaminada e decaída pela incredulidade. Quando se fala em incredulidade, não se refere à ausência de religião. O referencial é a fé autêntica no que afirmam as Escrituras, independentemente de ser ou não algo compreendido racionalmente. Este é um processo extramente dolorido e rejeitado pela mente humana decaída. A mente do homem cria alternativas espiritistas, espiritualistas e subliminares para obter algo razoável à sua própria sabedoria humana. No ensino paulino, gregos e judeus simbolizavam a síntese da humanidade daquele tempo. Era uma forma de metonímia para se referir a todos os homens. Os gregos se apegavam à sabedoria nos termos a que já se expôs anteriormente. Os judeus pediam um sinal visível para poder crer. Conclui-se que ambos e a totalidade dos homens estavam seguindo apenas a sabedoria humana. Nada tinham de verdade espiritual, pois esta se discerne espiritualmente e não com base em sabedoria e sinais sensoriais.
A palavra da cruz reduz-se à pregação ou anúncio de um salvador que não salvou a sua própria vida para salvar a de todos os eleitos. Isto é escândalo à teologia dos judeus e à análise racional dos gregos. A palavra da cruz apresenta um salvador crucificado, que, mesmo podendo sair da cruz e destruir o mundo, cumpriu o que fora preordenado antes dos tempos eternos pelo Pai conforme II Tm. 1: 9 e 10 - "... que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos, e que agora se manifestou pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho..."
Na realidade a palavra da cruz apresenta o poder de Deus para todo o que foi escrito no livro da vida e predestinado a crer. Os demais continuarão do lado de fora zombando e acusando a Bíblia, o Cristianismo, os que pregam a verdade até o dia em que terão de comparecer perante os tronos colocados para juízo conforme Ap. 20:4 - "Então vi uns tronos; e aos que se assentaram sobre eles foi dado o poder de julgar." 
Maranata!!!

domingo, 9 de setembro de 2012

A DIFERENÇA ENTRE CATARSE E FÉ

I Jo. 5: 4 a 12 - "... porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus? Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só pela água, mas pela água e pelo sangue. E o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade. Porque três são os que dão testemunho: o Espírito, e a água, e o sangue; e estes três concordam. Se recebemos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é este, que de seu Filho testificou. Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê, mentiroso o faz, porque não crê no testemunho que Deus de seu Filho dá. E o testemunho é este: Que Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida."
Catarse é uma palavra de origem grega 'Κάθαρσις' e a sua transliteração é 'khátarsis'. É aplicável a diferentes contextos, especialmente em teatro, medicina e psicanálise. Significa 'purificação', 'evacuação' ou 'purgação', ou seja, é algo que modifica o estado da alma por meio de uma forte liberação de sentimentos. Para Aristóteles catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama. A catarse é um conceito relativo, e, portanto, jamais servirá para solucionar as questões mais prementes do ser humano. Geralmente, após uma experiência catártica, a pessoa volta a se sentir nas mesmas condições anteriores que a afligia. O processo está, invariavelmente, relacionado a uma combinação de hormônios descarregados em função da intensidade da experiência emocional a que se submete. Na medicina está relacionada a uma terapia que leva a pessoa a expelir por diferentes formas excretoras o que está envenenando ou intoxicando o seu organismo. Na psicanálise está relacionada a uma espécie de terapia de choque com possibilidade de solução após o processo. Leva o paciente a um extremo conflito interior que o permitirá rever conceitos, ideias e comportamentos diante da situação que o incomoda. Nas artes a catarse consiste em provocar grandes descargas de sentimentos e emoções. Isto envolve experiências em cinema, em teatro e em programas de auditório com grande apelo emotivo. Na religião, a catarse pode ser coletiva ou individual, variando do choro profundo à alegria exagerada e do deslumbramento diante de possíveis experiências com o sobrenatural. Um exemplo de catarse religiosa são os flagelantes durante a Idade Média. Os Flagelantes desfilavam em procissões nas cidades, durante 33 dias,  tempo que corresponde à idade de Jesus, o Cristo, durante os quais se flagelavam com cordas ou cintos de extremidades cortantes. Esta prática era tida como suficiente para que um fiel pudesse atingir o Paraíso, e os ritos da Igreja não seriam então necessários.  O movimento surge e ressurge muitas vezes durante os períodos conturbados, como a "Peste Negra" ou a "Guerra dos Cem Anos". Atualmente há vestígios destas práticas na Índia e durante a semana chamada santa nas Filipinas e em SevilhaHá pessoas, que, nestas condições entram em verdadeiros transes aos quais chamam de arrebatamento. São reações puramente emocionais, nada têm a ver com Deus.
A fé é de outra categoria de experiência, justamente, porque não é natural. É dom de Deus, portanto, não se exprime por qualquer forma catártica. Embora em determinadas religiões e seitas as pessoas entrem em transes catatônicos, isto nada tem a ver com a fé. A fé é algo inalcançável pelo homem por meio de experiências sensoriais. Ela é a confiança apenas na palavra de Deus, nada mais que isso conforme Hb. 11: 1 a 5 - "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem. Porque por ela os antigos alcançaram bom testemunho. Pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus; de modo que o visível não foi feito daquilo que se vê. Pela fé Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho das suas oferendas, e por meio dela depois de morto, ainda fala. Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte; e não foi achado, porque Deus o trasladara; pois antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus." Vê-se que a fé é o firme fundamento de coisas que ainda não estão presentes e certeza absoluta do que não se pode ver com os olhos físicos. Não toca e não vê, mas mantém-se convicto que é verdadeiro e fiel. Os antigos, a saber, os que viveram antes de Cristo, mantinham esta realidade viva e concreta em suas mentes. Pela fé os eleitos entendem que tudo quanto existe veio a existência por meio da sua palavra. O que é hoje visível foi originado do nada, como por exemplo, Ele disse: "haja luz, e houve luz." Abel ofereceu a Deus um substituto e isto lhe foi contabilizado como fé no sacrifício futuro de Jesus, na cruz. Ele creu que não poderia ganhar a vida eterna por seu próprio esforço e mérito, mas apenas por meio da justificação no Justo de Deus. Enoque, o sétimo, depois de Adão, andou com Deus pela fé, pois Deus é invisível, e, por isso, foi trasladado para a presença do próprio Deus. Enoque agradou a Deus, simplesmente porque recebeu graça para crer na realidade d'Ele. 
Por todas estas razões é que é dito em Hb. 11:6 que "ora, sem fé é impossível agradar a Deus; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam." A fé exige que se creia no que não se vê e toque no que não está presente. Isto reduz a fé a uma experiência sobrenatural e não a uma mera catarse que, ao passar os seus efeitos, a pessoa se torna mais angustiada do que antes. As personagens bíblicas que receberam a graça da fé morreram sem ver o que criam se concretizando conforme o verso 13 de Hebreus capítulo 11: "todos estes morreram na fé, sem terem alcançado as promessas; mas tendo-as visto e saudado, de longe, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra."
No mundo de hoje o povo quer que Deus se curve aos seus desejos e lhes faça o que pedem, chamando isto de fé. Quando as petições não são respondidas como lhes convém, mudam de igreja, mudam de religião, ficam magoados com Deus, e, em muitos casos, abandonam suas crendices. Ora, a fé independe de quaisquer fatos concretos, pois do contrário seria apenas ciência. 
O texto de abertura mostra que aos nascidos do alto, o poder que vence o sistema mundano é a fé. O nível de fé posto é que o eleito e regenerado creia que Jesus é o Filho de Deus. Não é solicitado nenhuma ação física, nenhum sacrifício, nenhuma demonstração exterior. O nascido de Deus crê apenas que as Escrituras ensinam que Jesus, o Cristo é o Filho de Deus e que isto é manifesto por três testemunhos: a água, o sangue e o Espírito. O apóstolo João está doutrinando sobre um fundamento da fé, a saber, que Jesus deu testemunho de sua autenticidade como o Messias e Salvador. Mostra as três dimensões do testemunho de Jesus, o Cristo pelo batismo em águas At. 2: 38 - "...arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo..."; pelo batismo na morte na cruz Rm. 6:3 - "Ou, porventura, ignorais que todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?" e pelo batismo no Espírito Santo conforme I Co. 12:13 - "Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos quer livres; e a todos nós foi dado beber de um só Espírito." O apóstolo ensinou isto, porque no seu tempo havia uma heresia chamada gnosticismo, a qual ensinava nas igrejas que Cristo só se encarnou no corpo humano de Jesus no momento do seu batismo, mas o deixou antes da sua morte. Por isso, ele confronta o testemunho de Deus e o testemunho dos homens conforme o verso 9 - "Se admitirmos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior; ora, este é o testemunho de Deus, que ele dá acerca de seu filho." Logo, não há catarse na verdadeira fé! Ou crê que o testemunho de Deus é fiel e verdadeiro, ou crê no testemunho dos homens que inventam teorias e sofismas próprios. 
A essência do testemunho de Deus é a segurança interior, ou seja, no espírito conforme Rm. 8:16 - "O Espírito mesmo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus." Isto é uma experiência interior e espiritual, não é uma catarse ou qualquer forma de religião exterior, sacrificial e meritocrática.
Sola Fide!

sábado, 8 de setembro de 2012

O FRUTO QUE VEM DA MORTE

Jo. 12: 24 - "Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo caindo na terra não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto."
Comumente muitos leitores das Escrituras, leem-na como uma obrigação para justificar suas posições religiosas, para buscar explicações aos seus dilemas, para obter orientação conforme seus interesses,  para encontrar consolo e conforto na hora da dor. Também há os que leem as Escrituras para se vangloriar de ter lido a Bíblia toda, por uma ou diversas vezes, como se isto lhes acrescentasse espiritualidade e autoridade sobre os demais. Outros ainda leem-nas para encontrar supostas falhas e contradições e deitar críticas sobre a Igreja e sobre o Cristianismo. O fato é que a Bíblia ainda é o livro mais vendido e lido no mundo. As críticas ácidas e a rejeição das Escrituras, não as invalidam, ao contrário, tornam-nas autênticas, pois foram previstas nelas mesmas. Este é um fato resultante da natureza decaída do homem, que, naturalmente resiste à verdade, pois são de princípios opostos.
Constata-se hoje, que, a maioria absoluta dos leitores das Escrituras não as lê como palavra de Deus, mas apenas como um manual de religião, um livro de curiosidades, um receituário de auto-ajuda. Fazem-na de uma espécie de guia de mantras milagrosos contra a dura realidade da vida. Portanto, urge dizer, que, a leitura nas Escrituras é uma espécie de engenharia reversa, ou seja, não é o homem quem lê a Bíblia, mas, antes ela que o lê. O ato de ler por parte do homem é apenas ato mecânico, mas o que conta é o que ela prescruta e revela ao pecador discernindo-lhe o entendimento espiritual do que de fato ele é. Todavia, quase todos buscam desvendar nas Escrituras, o que Deus é, o que Ele pode fazer e o que se pode obter de vantagem d'Ele. É fundamental entender que Deus não é discernido pelo homem natural e que Ele não tem coisas para dar aos homens. Ele tem apenas Cristo para doar, pois é o doador e a doação ao mesmo tempo. Quem tem Cristo, tem a vida eterna conforme Jo. 17:3 - "E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste." Esta engenharia reversa indica que o conhecimento de Deus e de Jesus, o Cristo não é um exercício intelectivo ou gnoseológico, mas uma revelação concedida por Ele. A ação espiritual é sempre monérgica e jamais sinérgica, pois a conversão vem de Deus, a salvação é pela graça e até a fé é dom d'Ele. 
O texto de abertura apresenta uma aparente contradição, visto que determina que o fruto provém da morte do grão de trigo. Conceitualmente, tais ideias não parecem fazer o menor sentido, pois fruto, no sentido botânico, é vida continuada, enquanto a morte é finitude. Por fruto, biologicamente falando, tem-se o seguinte: é 'órgão formado pela maturação de um ou mais ovários, associados a estruturas acessórias, que apresenta grande variedade de formas e geralmente contém sementes; metacarpo, endocarpo.' Todavia, o texto usa de uma metáfora para se referir ao fruto do Espírito, sendo isto indicado pelo uso da palavra no singular. Por extensão de sentido pode-se dizer que o fruto gerado pela morte é um filho, um rebento ou um resultado.
Morte é um substantivo feminino derivado do verbo morrer e traz inumeráveis significações, tais como: 'decesso, desfunção, desaparecimento, falecimento, fim, passamento, finamento, perecimento'. Entretanto, interessa nesta instância o sentido da morte como renovação, transição e substituição do  homem morto para Deus, por outro novo homem vivificado pelo Espírito de Cristo conforme Rm. 6:3 e 4 - "Ou, porventura, ignorais que todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida." A palavra batismo no grego neotestamentário significa imergir, e, neste texto, não se refere a batismo em água ou batismo simbólico. É uma clara indicação da imersão ou inclusão do pecador na morte de Cristo. Verifica-se que são utilizadas as expressões "em Cristo" e 'na sua morte'. Assim, ao crer que a morte de Cristo foi, de fato, a sua morte e que era você quem estava lá também, crê-se que foi incluído na morte d'Ele para destruição da sua morte e ganho da vida eterna na ressurreição juntamente com Ele. É uma questão de consideração espiritual ou de fé e não de ação ou ato físico conforme Rm. 6:11 - "Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus." Cristo é aquele um que morreu por todos os eleitos para que estes também morressem para suas naturezas pecaminosas conforme Rm. 5:14 - "Pois o amor de Cristo nos constrange, porque julgamos assim: se um morreu por todos, logo todos morreram."
É neste assentimento que a vida provém da morte, pois é por ela que surge o fruto do Espírito. É neste sentido que o ensino bíblico aprofunda o que é a verdadeira salvação. Isto nada tem a ver com religiões, mas tem a ver com a ação monérgica e soberana de Deus. O grão de trigo que foi lançado na terra é, em primeiro plano, Cristo, e, em segundo plano, cada um dos pecadores eleitos e incluídos na morte d'Ele. Estes pecadores eleitos em nada diferem dos demais homens na face da Terra, mas por razões que ultrapassam o entendimento natural, os seus nomes foram eleitos antes da fundação do mundo conforme Ef. 1: 3 a 5 - "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade." Vê-se, pelo texto, que as bênçãos de Deus já foram determinadas na esfera celestial em Cristo aos que foram eleitos 'nele', ou seja, 'em' + 'ele'. Este é o processo de inclusão e não apenas de substituição como se prega nas religiões comuns e sem o evangelho. Vê-se que os eleitos foram predestinados antes da fundação do mundo, quando nenhum deles teria cometido qualquer ato bom ou ruim, ou mesmo, que existiam. Logo, a questão da salvação não é com base em méritos e justiças humanas, mas, tão somente, na graça soberana e absoluta do Pai. As religiões se apegam aos méritos e justiças humanas, porque são subproduto da incredulidade, e, portanto, tentam religar-se a Deus por conta e risco próprio.
O grão de trigo, a saber, Cristo ao morrer e ser sepultado levou os eleitos em sua morte de cruz, e, ao ressuscitar ao terceiro dia, os trouxe vivificados para a eternidade, quando então, foram adotados por filhos do Altíssimo. O grão de trigo que morreu resultou no fruto do Espírito, ou seja, produziu a vida, a espiritualidade e a eternidade novamente ao homem decaído.
Sola Gratia!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

PERDER PARA GANHAR

Jo. 12: 25 - "Quem ama a sua vida, perdê-la-á; e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna."
A sociedade humana sempre, e, agora, mais do que nunca é apoiada no ganho. No ideário dominante, o ter prescinde o ser, porque imaginam os homens, que, tendo, serão. Serão mais consultados, mais aceitos, mais amados, mais cogitados, mais admirados, mais felizes. Contrariamente, perder é um verbo insuportável ao homem, pois redunda em não ter e não ser. Por todas estas razões é que muitos se apegam tanto ao que supõem ter. Na verdade, na esfera espiritual, não têm e nem são nada conforme Is. 40.17 - "Todas as nações são como nada perante ele; são por ele reputadas menos do que nada, e como coisa vã." Como verbo transitivo direto 'perder' significa 'ficar sem a posse de algo, deixar de ter, fazer mau uso, desperdiçar, passar a ter menos do que tinha, deixar escapar'. Enquanto intransitivo é 'ter mau êxito, sofrer derrota'.
A vida é tratada nas Escrituras em três esferas: a vida biológica (bios), a vida almática (psikê) e a vida espiritual (zoê). No texto de abertura a palavra traduzida como vida é 'psikèn', ou seja, é a vida da alma ou a vida almática. Esta é a esfera da vida com a qual o homem foi feito por Deus originalmente conforme Gn. 2:7 - "...e o homem tornou-se alma vivente." A alma possuía originalmente a função de fazer a conexão entre o espírito e o meio natural, sendo conduzida por aquele que se ligava apenas a Deus. Após a queda, o espírito ficou desativado, porque foi desligado de Deus. Assim, a alma assumiu o controle na condução do homem em relação ao mundo. É esta dimensão da vida que permite ao homem ter vontade, desejos, emoções e decisões. A maioria dos homens, especialmente, os religiosos toma as ações da alma como sendo atos espirituais, porém, de fato, não o são. São apenas almáticas e de elevado perigo, pois a alma acha-se absolutamente contaminada pela natureza pecaminosa conforme Tg. 3:15 - "Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, almática e diabólica." Desta forma, a sabedoria que não procede de Deus por meio da revelação pelo espírito vivificado é almática e de origem diabólica. A queda no pecado deu ao Diabo uma ascendência sobre a alma do homem decaído. Por esta razão é que Cristo veio para libertá-lo verdadeiramente.
É a vida almática que Cristo veio purificar e resgatar, porque o espírito é reconciliado com Deus no novo nascimento e o corpo será restaurado na ressurreição final. Observa-se que todos os textos a que Cristo se refere à salvação faz menção da alma e não do espírito ou do corpo, embora se saiba que o homem será restaurado em sua totalidade na restauração final. Logo, a salvação é plena e total. Os homens, mesmo os que se dizem ateus ou agnósticos, não admitem tal ideia de terem almas terrenas, contaminadas pelo pecado, e, portanto, diabólicas. Isto se deve ao próprio resultado da natureza pecaminosa nele residente. Alguns imaginam que suas crenças e sistemas religiosos os faz diferenciados. Outros imaginam que os seus comportamentos éticos os tornam dignos e isentos de tal contaminação. Entretanto, não é este o ensino do Cristianismo puro conforme Rm. 5:12 - "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram."
O texto de abertura é o fundamento do ensino de Cristo: 'quem ama a sua vida almática contaminada pela natureza pecaminosa, estará perdido para sempre. Mas aquele, entretanto, que não concorda e se opõe aos feitos da carne e crê que foi crucificado com Cristo, e incluído em sua morte de cruz para destruição da vida almática, ganhará a vida de Cristo na ressurreição juntamente com Ele.' Isto é confirmado pelo ensino do apóstolo Paulo em Cl. 3: 9 e 10 - "...pois que já vos despistes do homem velho com os seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou." Veja que foi o velho homem que foi despido, e não o homem velho. Isto implica que a expressão 'velho homem' é a velha natureza almática contaminada pela natureza pecaminosa. A expressão 'vestistes do novo' é o revestimento do homem novo nascido que ganha a vida eterna. Esta nova disposição vai sendo renovada na medida em que o regenerado ganha o conhecimento de Deus por meio de Cristo. Vai sendo formada no eleito regenerado a semelhança de Cristo. Este era o projeto antes da queda: fazer o homem à imagem de Deus, como também, formar nele a Sua semelhança.
Este é o sentido verdadeiro do perder e do ganhar. Perde-se a vida almática condenada pelo pecado original, e ganha-se a vida de Cristo para a eternidade.
Sola Gratia!