domingo, 27 de março de 2011

O PECADO, OS PECADOS E O PECADOR VI

Jo. 16:7 a 11 - "Todavia, digo-vos a verdade, convém-vos que eu vá; pois se eu não for, o Ajudador não virá a vós; mas, se eu for, vo-lo enviarei. E quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais, e do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado."
Algumas pessoas, geralmente religiosas, afirmam: eu não tenho pecado, porque não roubo, não mato, não prostituo, pertenço a uma igreja cristã, faço o bem, sou batizada, etc. Elas julgam que o pecado está relacionado ao que o homem pratica ou deixa de praticar. Estas pessoas são cegas espiritualmente, e, em muitos casos, presunçosas e soberbas, porque julgam-se melhores que os outros. Basta prestar atenção no corpo de membros de uma igreja institucional, basta algum deles praticar qualquer erro moral, é absolutamente abandonado, julgado e execrado por muitos outros ditos "irmãos". O pecado, enquato natureza inerente ao homem depois da queda é um estado e não uma opção. Os atos pecaminosos podem até ser reprimidos, evitados, suavizados em função do tipo de criação, do medo, da religião, etc. entretanto, eles estão lá e podem ou não se manifestar. É como um frasco de veneno poderoso, se ninguém o abrir e ingerir não fará mal algum, porém continua sendo veneno. Não é porque alguns atos pecaminosos não se manifestam, que se extingue a natureza pecaminosa originadora deles. Então pode-se afirmar que o pecado não faz exceção, mas a cruz não faz concessão, pois é somente nela que o pecado é estirpado e o escrito de dívida é rasgado.
Discute-se muito sobre a origem do pecado nos meios religiosos e nos ciclos acadêmicos de teologia. Sabe-se, todavia, que o pecado não se originou em Deus, porque Ele mesmo se declara Santo conforme I Pd. 1:16. Em Tg. 1: 13 a 15 - "
Ninguém, sendo tentado, diga: sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele a ninguém tenta.
Cada um, porém, é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência; então a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte
."
Também o pecado não se originou no homem, pois sendo este feitura das mãos do Deus Santo e Luz Pura, não poderia ter sido feito com o pecado. Deus é a fonte, e, sendo a fonte pura, o homem é o produto, sendo assim, não poderia vir contaminado pelo pecado. O produto é o que a fonte é! Se ocorreu alguma alteração no produto foi depois de pronto e não em sua origem, pois do contrário a origem estaria contaminada.
Ec. 7:29 - "Eis o que tão somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias." Assim, fica claro que o homem por escola própria optou por não crer à palavra de Deus no Éden. O teólgo Aurelius Augustus de Hipona, afirmou o seguinte: a) antes de cair o homem possuía duas condições: I) Posse non pecare; II) Posse pecare. b) após a queda o homem decaído passou a ter apenas uma condição: I) Non posse non pecare. Assim, antes de cair, o homem poderia pecar ou não pecar, mas após pecar ele tornou-se escravo do pecado, e até ao tempo de hoje é isto que acontece. Porém, a origem do pecado não foi no homem, porque ele foi induzido ao pecado por um tentador. Neste caso houve uma ação determinante fora do homem para o levar à incredulidade na Palavra de Deus, a qual afirmara: "... certamente morrerás." Neste caso, o Diabo é atuo-pecador, enquanto o homem é heteropecador.
O pecado se originou em Lúcifer que, após apresentar a iniquidade em seu coração passou a ser Diabo e Satanás. Não havia nada e ninguém determinando o pecado para Lúcifer, por isso ele se tornou auto-pecador.
Is. 14: 12 a 14 - "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! como foste lançado por terra tu que prostravas as nações! E tu dizias no teu coração: eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo." Então, o desejo de formar para si um reino semelhante ao de Deus levou Lúcifer a conceber a soberba e o orgulho, querendo ter um trono de glória só para si. Este foi o mesmo princípio utilizado no Éden para levar o homem a descrer na palavra de Deus conforme Gn. 3:5 - "... sereis como deuses..."
Lúcifer também fora criado por Deus perfeito, porém por escolha própria concebeu a iniquidade em seu coração conforme Ez. 28:15 - "Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que em ti se achou iniqüidade."
Sola Fidei!

O PECADO, OS PECADOS E O PECADOR V

Is. 64: 5 a 8 - "Tu sais ao encontro daquele que, com alegria, pratica a justiça, daqueles que se lembram de ti nos teus caminhos. Eis que te iraste, porque pecamos; há muito tempo temos estado em pecados; acaso seremos salvos? Pois todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como o vento, nos arrebatam. E não há quem invoque o teu nome, que desperte, e te detenha; pois escondeste de nós o teu rosto e nos consumiste, por causa das nossas iniqüidades. Mas agora, ó Senhor, tu és nosso Pai; nós somos o barro, e tu o nosso oleiro; e todos nós obra das tuas mãos."
Além do pecado como um princípio e como parte da natureza humana degenerada, decaída e depravada, há os pecados como atos e atitudes decorrentes do pecado. No texto do profeta Isaías é mostrado isto, quando ele se refere aos pecados de cada um e também às iniquidades deles. Ele afirma que, mesmo todas as suas justiças são como panos imundos de menstruação, porque esta é a tradução original da expressão: "... e todas as nossas justiças como trapo de imundícia." Por questões de pudores, os tradutores optaram por uma tradução mais suave. Entretanto, não há nenhuma necessidade de alterar a Palavra de Deus por causa de pudores, pois mais horrendo é o pecado que reside no homem.
Há no novo testamento as seguintes palavras para indicar tipos ou naturezas de atos pecaminosos: a) Adiquias que significa: injustiça, iniquidade, ou ausência de equidade. Por esta razão é que o homem portador da natureza pecaminosa desenvolve os desequilíbrios que acabam por levá-lo a fazer o que é mal. Este ato pecaminos torna o homem não-regenerado cada vez mais injusto perante Deus, a ponto de o profeta afirmar que as iniquidades de todos estavam impedindo-os de adorá-Lo. Este sentido de pecado está registrado em diversas passagens neotestamentárias, mas cita-se à guisa de exemplo, At. 1: 16 a 18 - "Irmãos, convinha que se cumprisse a escritura que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam a Jesus; pois ele era contado entre nós e teve parte neste ministério. Ora, ele adquiriu um campo com o salário da sua iniquidade; e precipitando-se, caiu prostrado e arrebentou-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram." Então, a iniquidade de Judas o fez suicidar-se, por isto, ela é a falta de equidade ou equilíbrio. A sua iniquidade o fez vender Jesus aos líderes judeus, traindo-lhe com um beijo; b) Ponerós significa o mal, ou o que é malígno. É uma referência aos atos pecaminosos que levam o homem a praticar o que é mal ou o que é da natureza do malígno. Esta palavra ocorre 518 vezes na Bíblia, sem contar as suas cognatas. É citada por exemplo em Mt. 5: 11 - "Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa." Neste contexto significa malediscência falar coisas maléficas contra alguém e contra a pregação do evangelho; c) Anomia que significa ausência de lei ou sem lei, normas e regras. É a pessoa que não aceita nem as leis dos homens e, muito menos, a de Deus. É o comportamento caracterizado pelo estabelecimento de uma lei própria e animalesca. A natureza humana decaída é assim, em geral, só não se manifesta desta forma, porque as pessoas temem ser apanhadas pela justiça e levadas à excecração pública. Como elas amam manter as aparências, o prestígio e a fama preferem cometer suas ilegalidades e delitos às escondidas, ou reprimir esta tendência pecaminosa, mas apenas por medo. Este tipo de ato pecaminoso é citado em Rm. 2: 12 e 13 - "Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados. Pois não são justos diante de Deus os que só ouvem a lei; mas serão justificados os que praticam a lei." O verso 12 ensina que todo homem é julgado segundo a luz que está posta diante dele no momento histórico em que vive, e não por um conjunto de regras pré-estabelecidas e seguidas. Mas o verso 13 mostra que, os que conhecendo a lei, não a leva em conta serão julgados segundo o rigor desta mesma lei; d) Parabasis que significa transgressão, isto é, ir para além dos limites pré-estabelecidos. Isto implica em comportamento desregrado típico dos que não tem domínio próprio. É a pessoa que não controla palavras, apetite, desejos e cobiças. Implica em uma compulsão ao desafio de quebrar regras e normas naturais, legais ou morais. Este ato pecaminoso é citado em I Tm. 2: 14 - "E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão." Adão pecou, porque conhecia a palavra de Deus sobre a questão do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, mas a mulher transgrediu, porque não levou em conta a proibição, mas apenas os seus desejos de ser semelhante a Deus na capacidade de julgar entre o bem e o mal.
Sola Sola Scripura!

sábado, 26 de março de 2011

O PECADO, OS PECADOS E O PECADOR IV

Sl. 51: 1 a 5 - "Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas tansgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniqüidade, e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Contra ti, contra ti somente, pequei, e fiz o que é mau diante dos teus olhos; de sorte que és justificado em falares, e inculpável em julgares. Eis que eu nasci em iniqüidade, e em pecado me concedeu minha mãe."
As Escrituras deixam claro que há o pecado, também chamado de pecado original, e que há os pecados, ou seja, os atos e atitudes pecaminosas. Por vias de consequências conclui-se que há também o pecador, aquele que possui o pecado e comete pecados. A maioria das pessoas supõe que só é pecador aquele que comete pecados, delitos, atos falhos, atitudes atentatórias contra a integridade física e psíquica de si mesmo e de outros homens. Entretanto, os textos sagrados mostram que todo homem é pecador por natureza e não apenas por atos. Os atos pecaminosos são a consequência de uma natureza inclinada para o pecado. Ainda que algum homem vivesse a vida inteira sem cometer qualquer falha, continuaria sendo pecador do mesmo jeito. A questão não se circunscreve apenas ao que se faz, mas ao que se é por natureza. Também o texto bíblico mostra que o pecado é uma espécie de erro do alvo, a saber, o alvo era crer na Palavra de Deus, mas o homem optou por crer na mentira dita pelo Diabo. A sugestão do Diabo incorporado na serpente Saraph foi que o homem se assemelharia a um 'deus', passando a ter conhecimento do bem e do mal. Neste sentido se cumpriu o que ele disse à mulher, por que a humanidade passou a ter tal consciência, porém acarretou também o que Deus havia dito caso o homem descresse e desobedecesse à primeira palavra: "certamente morrerás". A morte a que alude o texto do Gêneses não é apenas a morte física, mas primeiramente a morte espiritual. Tal natureza de morte é a separação do homem da comunhão divina. Isto deixou o espírito do homem desligado de Deus. Por isso, todos pecaram e estão destituídos da glória d'Ele.
Foi deste contexto de separação espiritual que surgiu a religião como um artifício humano para tentar reconquistar Deus por meio de sacrifícios de justiça própria, rituais, cumprimento de regras, preceitos, normas, caridade. Entretanto, a história da humanidade mostra que o homem portador da natureza pecaminosa, não tem inclinação natural para voltar sozinho à comunhão com Deus. Deus não aceita a sua religião como forma de justificação do pecado. Deus aceita apenas a provisão d'Ele mesmo contra a natureza pecaminosa. Tal provisão foi acertada antes dos tempos eternos e antes do pecado aparecer.
Rm. 3: 9 a 12 - "Pois quê? Somos melhores do que eles? De maneira nenhuma, pois já demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; como está escrito: não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só." Então, nenhum homem é justo ou pode justificar-se por si mesmo; não há diferença entre as diversas etnias humanas no tocante à natureza pecaminosa; nenhum homem pode ter entendimento da natureza divina sozinho; nenhum homem pode buscar a Deus com base em religião; todos os homens erraram o alvo por natureza e, por isso, estão extraviados; todos os homens, por melhores que sejam eticamente são inúteis; nenhum homem por mais caridoso que seja, não faz o bem. Nestes termos o pecado de fato causou profunda separação entre a criatura e o Criador conforme Is. 59:2 - "...mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados esconderam o seu rosto de vós, de modo que não vos ouça."
Sabe-se que as pessoas que possuem uma determinada crença ou religião não admite nada disso que foi escrito aí atrás, porque confiam mais nas suas crenças do que no que diz as Escrituras. Entretanto, o texto bíblico diz claramente que o pecado é uma realidade, que ele separou o homem de Deus, que nada que o homem faça muda esta verdade, e que sem a justificação por meio da inclusão na morte de Cristo, bem como na sua ressurreição, poderá solucionar o problema do pecado. Logo, não adianta fingir que o pecado não existe, não adianta mudar o nome do pecado para neologismos bonitos, não adianta usar o disfarce da religião para tentar enganar Deus, não adianta se tornar ateu ou descrente nas Escrituras, porque o pecado continua lá pronto para qualquer ato pecaminoso. E, finalmente, o pecado conduzirá o pecador para o inferno, para a vergonha e o desprezo eterno.
Sola Gratia!

terça-feira, 22 de março de 2011

O PECADO, OS PECADOS E O PECADOR III

Rm. 5: 12 - "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram."
Como já foi dito há diversas palavras para se referir à palavra pecado nas Escrituras. Entretanto, o pecado que Cristo veio destruir é 'hamartano', ou seja, aquele que fez o homem errar o alvo, porque o alvo correto era crer na Palavra de Deus: "... certamente morrerás". Todavia, o homem deu crédito a outra palavra, a do inimigo materializado numa serpente: "... é certo que não morrereis". O erro do alvo consiste em crer na palavra errada, embora esta possa ser mais amena e agradável. A palavra de Deus, em geral, é terminal e dura demais, porém o amor é duro e exige muito. O fato é que ninguém quer saber de obedecer sem ter certas recompensas. O Diabo sempre oferece o caminho aparentemente mais fácil e mais fascinante. Muitos religiosos desenvolvem uma teologia própria para justificar os atos de Deus. Entretanto, ele não solicita nada disso a ninguém, porque Ele se basta a Si mesmo. Para justificar a escolha de Adão, muitos, desavisadamente, inventam uma falsa teologia do 'livre arbítrio' que não é livre e muito menos pode arbitrar qualquer coisa.
Deus não foi apanhado de surpresa com o pecado de Adão no Éden. Ele já havia, inclusive providenciado a solução para o mesmo antes de acontecer conforme Tt. 1: 2 - "... na esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos eternos..." Por esta razão o Cristo, Filho Unigênito de Deus, teve de encarnar em Jesus, o homem histórico nascido de mulher para resolver o dilema do pecado. A única maneira de eliminar o pecado do coração do homem é matando-o. Foi exatamente isso que aconteceu na cruz! Jesus, o Cristo morreu para matar a nossa morte, ou seja, morreu para destruição do corpo do pecado conforme Rm. 6:6 a 8 - "... sabendo isto, que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado fosse desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado. Pois quem está morto está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos..." É na cruz, e tão somente nela, que o pecado é desfeito eternamente. Veja que a referência é ao pecado e não aos atos pecaminosos. Então, houve uma justificação, a saber, o pecador foi declarado justo do seu pecado. A fé de que a morte de Jesus, o Cristo na cruz elimina ou aniquila o pecado, nos torna justificados do mesmo, e de igual modo, como Jesus, o Cristo também ressuscitou, recebemos a sua vida quando cremos na sua ressurreição divinal. Tudo isto se apropria pela fé, pois ninguém estava lá há quase dois mil anos atrás, assim como também, os que creram antes na promessa da Sua vinda, como Abraão e outros. Tudo é uma questão de fé, e esta, é dom de Deus, não é um atributo natural do homem. Ao contrário a tendência do homem pecador é não crer, sendo a graça o elemento usado por Deus para mudar esta disposição natural do homem conforme Ef. 2: 8 e 9 - "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie." A graça é quem salva, mas o meio para levar o pecador à salvação é a fé, e esta, provém de Deus.
Por meio de Adão entrou a natureza pecaminosa no mundo e, com ela a morte, esta passou a todos os homens, porque todos são portadores da mesma natureza de Adão. É algo que está no DNA do homem, nenhum escapa à natureza pecaminosa e, por isso, todos já nascem mortos espiritualmente, e depois morrem fisicamente como consequência do pecado. Neste trajeto todos cometem, ou têm o potencial para cometer qualquer natureza de atos pecaminosos. Isto não acontece em escala descontrolável, porque Deus age no mundo por meio da sua misericórdia e graça.
Sola Gratia!

domingo, 20 de março de 2011

O PECADO, OS PECADOS E O PECADOR II

Rm. 3:23 - "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus."
No outro texto falou-se em terminologia religiosa que nada tem a ver com a verdade do evangelho e que isto determina uma descrença generalizada no cristianismo. Entretanto, é necessário reafirmar que tal terminologia é utilizada por quem não conhece a verdade, e, que, o tal cristianismo referido não é o que Cristo ensinou. Assim, há uma profunda diferença entre o que se vê como religião e o que é a verdade cristalina vinda de Deus para o homem a fim de redimi-lo. A questão básica é que o homem impuro toma o que é puro e contamina-o para a sua própria satisfação, logo, Deus não está nisto. A religião em si pode até ser boa, produzir bons resultados materiais, comportamentais e reformar o homem moralmente. Porém, isto não pode salvá-lo, porque a salvação é de outra dimensão, a saber, da esfera espiritual e é uma ação de Deus em direção ao pecador e não do pecador em direção a Ele. A isto dá-se o nome de salvação monérgica, enquanto a salvação oferecida pela religião é uma "salvação" sinérgica.
O texto que abre este artigo é claro ao afirmar que "todos pecaram", logo, não há exceções. Também é igualmente claro ao afirmar que estes que pecaram "estão destituídos da glória de Deus." Assim, algo ou alguém que foi destituído, não possui mais qualquer ligação ou associação com a coisa, ou pessoa da qual foi destituído. Esta separação do homem em relação a Deus é chamada de morte no texto bíblico. Desta maneira, o pecado fez o homem morrer espiritualmente para Deus, determinou as práticas pecaminosas na vida humana, e estabeleceu a morte eterna do pecador na condenação pela culpa do pecado. Ao ler este texto de abertura muita gente, por inexperiência espiritual, por presunção e arrogância pode pensar que não está destituída da glória de Deus só porque professa alguma religião, porque se submeteu a alguns rituais religiosos, porque não comete crimes, adultérios, prostituições, roubos, etc. Todavia, estas coisas são atos pecaminosos e não o pecado que destitui o homem de Deus.
Como foi dito no outro artigo, há muitos artifícios para distanciar o homem pecador de Deus e fazê-lo senhor de si mesmo, num suposto reino justo e igualitário na Terra. Uma das formas de se conseguir isto é modificando ou suavizando o sentido das palavras. Então, muitos hoje atribuem ao pecado como sendo apenas um distúrbio de origem endocrinológica. Reduzem o mal espiritual a um mero problema de ordem hormonal ou bioquímico. Entretanto, o pecado é uma realidade e mal moral é perceptível no dia-a-dia da humanidade e tende a se agravar exponencialmente.
No texto neotestamentário há diversas palavras para a palavra pecado. Por isso, muita gente faz confusão e tende a reduzir todas a uma só significação, ou inventar e reinventar pecados, classificando-os em escala de valores diferenciados, tais como, pecados veniais, pecados mortais, etc. E o que acontece é que a cultura civilizatória assimila estas fórmulas como válidas e elas se tornam aceitáveis sem serem confrontadas com a verdade. As palavras na língua grega 'koinê' em que o novo testamento foi escrito variam de acordo com o sujeito, o objeto, o gênero, o número, o grau e o tempo. Assim, quando o texto fala do pecado original, ou pecado por princípio, é utilizada a palavra [hamartano] e suas derivadas de acordo com as declinações exigidas pelo contexto. Por exemplo, em Hb. 10:6 - "...não te deleitaste em holocaustos e oblações pelo pecado." Assim, o texto diz que Deus não se alegrou com ofertas de sacrifício pelo pecado original, porque a palavra utilizada foi 'hamartia', significando 'errar o alvo'. Então, o pecado como estado, princípio ou natureza levou o homem a errar o alvo. Se alguém erra o alvo é porque há outro alvo a ser, ou que foi atingido. Acertou-se um outro alvo e não o alvo verdadeiro. Então há o pecado, os pecados e o pecador.
O pecado é o que o homem é por natureza, por herança adâmica, por princípio e não por escolha. O pecado é o que o homem é, e não o que ele pratica de errado ou ruim. Tais práticas são consequência do pecado e não causas. Como este pecado foi inoculado no primeiro casal ancestral, ele passou a todos os seus descendentes. O homem faz o que é mau, porque o pecado o leva e o inclina a isto. Este pecado é a incredulidade e Jesus Cristo deixa isso claríssimo em Jo. 16:8 e :9 - "E quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo:do pecado, porque não crêem em mim." Então, "... do pecado" [peri hamartias] e não de um determinado pecado específico, ou de diversos pecados é a afirmação de Jesus, sendo a palavra no original relacionada ao pecado original e não a atos e atitudes errôneas.
É este pecado que Jesus veio aniquilar na cruz conforme Hb. 9:26 - "...mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo." Novamente a palavra grega para o pecado é [hamartias].
Solo Christus!

O PECADO, OS PECADOS E O PECADOR I

Rm. 5:12 - "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram."
O corolário da terminologia religiosa traz muitas palavras, termos, jargões, e clichês repetidos e reproduzidos desde o início da fé cristã. Em muitos casos tais discursos ou teses nada têm a ver com a verdade pura do evangelho. São ideias e concepções puramente dogmáticas seja de grupos, pessoas, ou denominações que se dizem cristãs. Por conta desta triste realidade muitas pessoas vivem na completa cegueira espiritual, praticando sua religião puramente humanista. Outros, porém, preferem se distanciar de tudo o que tem associação com o cristianismo histórico. É mesmo desanimador ver a grande distância entre o que as Escrituras ensinam e o que praticam alguns cristãos nominais. Chegou-se a um ponto em que muitas pessoas se sentem envergonhadas por serem identificadas com o cristianismo. Todavia, nem os que se auto-denominam cristãos têm o direito de dizer o que bem entendem sobre a fé cristã, nem os que se envergonham da fé evangélica têm o direito de negá-la por conta dos maus exemplos. No primeiro caso, porque não têm conhecimento espiritual sobre o que é de fato a fé genuína; no segundo caso, porque ninguém é digno por si mesmo, a ponto de envergonhar-se do Cristo e da sua mensagem. O fato de haver erros humanos, não anula a verdade do evangelho, pois ele nada tem a ver com o falseamento da verdade produzido pelo homem decaído.
Há na atualidade um enorme esforço para declarar o homem um ser justo, bondoso, capaz de produzir um mundo melhor, mais equilibrado, mais inclusivo, mais igualitário com base apenas no humanismo. Prevalecem no mundo, os sistemas os quais buscam recompensar os desníveis socioeconômicos com programas ou políticas afirmativas. O malgrado marximo tenta agora se apoderar da dinâmica capitalista, dizendo que o capitalismo pode ser mais justo, sem necessariamente, haver uma revolução sangrenta para implantar o socialismo. É a conquista do poder pelas massas e seus salvadores da raça humana. Isto implica em que o homem está procurando salvar-se a si mesmo com base no que concebe como o que é justo aos seus olhos. Isto elimina a justiça da cruz para aniquilação do pecado, do tratamento dos pecados por Cristo, para redenção plena do pecador. A proposta humanista nada mais é do que tentar produzir o paraíso na Terra sem a participação de Cristo crucificado no processo, porque julgam que o cristianismo falhou em sua proposta original e que ele não passou de uma fantasia de pessoas ignorantes. Neste sentido o Diabo está tendo grandes avanços e enorme sucesso com os seus filhos, pois o objetivo dele é exatamente o de exaltar o homem com a natureza pecaminosa interiorizada. Contrariamente, a proposta de Cristo é a de humilhar o homem portador da natureza pecaminosa, para salvá-lo de si mesmo e depois reconstruir um mundo perfeito, justo e igualitário habitado por novas criaturas à imagem e à semelhança de Deus.
Este processo de melhorar o homem com o pecado interiorizado, dando-lhe poderes, prazeres, progressos, conhecimento intelectual e científico é patrocinado pelo Diabo. Ele quer produzir um reino para si com os homens fieis e obedientes a ele por causa da natureza por ele mesmo inoculada neles conforme Gn. 3:4 e 5 - "Disse a serpente à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal." A serpente do Éden era um animal admirável e andava sobre duas patas, também era um ser alado e reluzente. Ela foi incorporada por Satanás para que ele pudesse se expressar audível e visivelmente à mulher e pudesse dialogar com ela. Satanás contradisse a palavra de Deus que afirmava que se o homem comesse daquele fruto morreria. Ele usa de uma negação para induzir no homem a ideia de que estava sendo passado para trás por Deus. Nisto gerou-se a incredulidade na palavra de Deus, mas gerou a fé na palavra do Diabo. Este foi então o pecado que fez o homem cair, morrer ou ser desligado de Deus. Satanás mostrou falsamente ao homem a possibilidade de ser como um deus, porque as palavras hebraicas são [yEvèdOy £yihÈl'EÐk], ou seja, [sereis como deuses], tendo pleno conhecimento do bem e do mal e com a capacidade de estabelecer juízos. É este princípio que rege o homem até hoje, conforme o texto que abre este artigo.
Sola Scriptura!

domingo, 13 de março de 2011

FÉ E OBRAS: OPOSIÇÃO OU COMPLEMENTO V?

Tg. 2:25 e 26 - "E de igual modo não foi a meretriz Raabe também justificada pelas obras, quando acolheu os espias, e os fez sair por outro caminho? Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta."
No texto o apóstolo Tiago está trabalhando com um outro exemplo acerca de fé e obras. Ele lança mão de um episódio doVelho Testamento cuja personagem central é uma prostituta chamada Raabe. É bom lembrar que, para os padrões do povo hebreu e da lei mosaica, Raabe não era uma mulher honrada, porque não era hebréia, era prostituta e, finalmente, não seguia a lei de Moisés. Isto precisa ser dito, não para denegrir a sua memória, mas para mostrar que, com base em boas obras, ela não serviria como modelo para quase nada. Também é bom lembrar que esta mesma meretriz, Raabe, faz parte da genealogia de Jesus conforme Mt. 1:5.
Ainda de Raabe se diz o seguinte em Hb. 11:31 - "
Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os desobedientes, tendo acolhido em paz os espias.
" Vê-se que a obra de Raabe foi, primeiramente, pela fé e não por justiça própria ou mérito. Tiago diz que a obra de Raabe a justificou, mas que obra operou ela? Na verdade, a sua maior obra foi a mentira, pois sendo ela nativa daquela terra espionada pelos hebreus, os acolheu, protegeu e mentiu para as autoridades de Jericó. Logo, o que Tiago está dizendo é que, ao deixar aqueles dois espias fugirem, porque acreditava que Deus estava com o povo de Israel, isto lhe foi imputado para justiça. Raabe simplesmente creu no que foi dito sobre as obras grandiosas de Deus para com o povo hebreu conforme Js. 2: 9 a 13 - "... e disse-lhes: bem sei que o Senhor vos deu esta terra, e que o pavor de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra se derretem diante de vós. Porque temos ouvido que o Senhor secou as águas do Mar Vermelho diante de vós, quando saístes do Egito, e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Sion e Ogue, que estavam além de Jordão, os quais destruístes totalmente. Quando ouvimos isso, derreteram-se os nossos corações, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o Senhor vosso Deus é Deus em cima no céu e embaixo na terra. Agora pois, peço-vos, jurai-me pelo Senhor que, como usei de bondade para convosco, vós também usareis de bondade para com a casa de meu pai; e dai-me um sinal seguro de que conservareis em vida meu pai e minha mãe, como também meus irmãos e minhas irmãs, com todos os que lhes pertencem, e de que livrareis da morte as nossas vidas."
A obra de Raabe foi colocar a sua vida e o seu futuro em jogo ao se por contra os interesses do seu próprio povo, protegendo o invasor. Entretanto, isto ocorreu porque ela simplesmente creu no que ouviu sobre Deus ter dado a terra de Canaã aos hebreus. Ela não duvidou disto e, portanto, esta atitude é decorrente de fé e não de obras. A obra de Raabe foi apenas a expressão da sua fé e não o contrário como presumem os religiosos, especialmente, os arminianos. Muitos teólogos e interpretes das Escrituras fazem eixegese dos textos e não exegese. Isto é, colocam palavras inexistentes na boca dos que escreveram os textos. O correto é extrair do texto o que o profeta ou escritor disse inspirado por Deus, e não acrescentar o que não há no texto. Raabe agiu primeiramente por fé, porque os muros de Jericó eram altos e os portões fortificados com ferrolhos, logo, como ela pode crer que um povo errante pelo deserto poderia conquistar aquela cidade fortificada? Ora, sabe-se que a fé é dom de Deus e não de obras humanas conforme Ef. 2: 8 e 9 - "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie."
Sola Fidei!

terça-feira, 8 de março de 2011

FÉ E OBRAS: OPOSIÇÃO OU COMPLEMENTO IV?

Tg. 2:21 a 24 - "Porventura não foi pelas obras que nosso pai Abraão foi justificado quando ofereceu sobre o altar seu filho Isaque? Vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada. E se cumpriu a escritura que diz: e creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça, e foi chamado amigo de Deus. Vedes então que é pelas obras que o homem é justificado, e não somente pela fé."
A leitura das Escrituras não depende apenas da capacidade intelectual ou do domínio das línguas originais, hebraico e grego. Tais aspectos são importantes para um mero assentimento lógico e racional, mas não produz os efeitos espirituais necessários. O bom entendimento é fundamental, porém se não for unido à fé, que é dom de Deus, de nada adianta conforme Hb. 4:2 - "
Porque também a nós foram pregadas as boas novas, assim como a eles; mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não chegou a ser unida com a fé, naqueles que a ouviram." Então vê-se que a pregação do evangelho pode até ser coerente e correta, mas se não for eficiente e eficaz pela ação da fé, não produz salvação.
Ao ler as primeiras sentenças declarativas do texto que abre este artigo, tem-se a impressão de que Tiago está afirmando que a salvação depende das obras. Ele utiliza o exemplo de Abraão como forma de expressar sua prédica. Todavia, os versículos mostram o que de fato é a justificação pela fé, não se tratando de uma postulação com base nas obras, mas com base na fé. Em Galatas 3 e Romanos 4 Paulo menciona o caso de Abraão. Porém, o apóstolo afirma que o homem é justificado pela fé, não por obras. Tiago faz referência a Gn. 22, enquanto Paulo faz referência a Gn. 15. No texto referência de Paulo, Deus prometeu a Abraão que lhe daria um filho por meio do qual se constituiria uma grande nação, e, por ela viria o Salvador do mundo. Abraão creu apenas nessa palavra inicialmente, e ainda quando, o mesmo Deus exigiu o sacrifício do filho da promessa, Isaque ele continuou crendo. Por isso, não foi a obra de Abraão que o justificou, mas a fé que Deus lho concedeu. Abraão possuía todos os motivos para não crer na promessa de Deus, pois era muito idoso, não tinha tido filhos antes, sua esposa já havia cessado de menstruar e era também idosa. Entretanto, Abraão creu no que Deus disse! Então o ato de oferecer o filho da promessa em holocausto foi uma obra resultante da fé e não da falta dela. Abraão creu que o mesmo Deus que lhe dera um filho, o poderia restituir mesmo tendo sido sacrificado. Em Gn. 15 a justificação de Abraão estava relacionada a seu filho, o que se tornara um tipo da justificação do pecador no Filho Unigênito de Deus, a saber, Cristo. De igual modo em Gn. 22, a justificação de Deus para Abraão estava relacionada a seu filho. Em Gn. 15 Abraão não tinha filho, mas creu no poder da palavra de Deus.
Rm. 4:17 - "... como está escrito: por pai de muitas nações te constituí perante aquele no qual creu, a saber, Deus, que vivifica os mortos, e chama as coisas que não são, como se já fossem." Então este texto confirma o nível de fé que teve Abraão ao realizar a obra, logo o que o justificou foi a fé e não as obras. Abraão creu que, mesmo Isaque morrendo, Deus o ressuscitaria dos mortos. E antes ele creu apenas na promessa de um filho, ou seja, creu no invisível. Isso é fé dada por Deus!
Não há nenhuma contradição entre Tiago e Paulo, ao contrário, se complementam no sentido de confirmar que a justificação do pecador é pela fé e não por obras. Ao arminiano ou ao homem apenas religioso, poder-se-ia confirmar que Paulo fala da justificação pela fé e Tiago da justificação pelas obras. Entretanto, Tiago não afirma em instância alguma que o pecador não é justificado pela fé. Ele confirma que as obras vivas são o resultado da vida justificada pela fé.Tiago mostra que a oferta de Isaque foi uma obra de Abraão, e que tal obra mostrou visivelmente a fé de dele na promessa de Deus. Paulo enfatiza a justificação, enquanto Tiago enfatiza o modo operacional da fé pelas obras de Cristo no nascido do alto. Logo, não se pode dizer o que o texto bíblico não diz só para satisfazer a base de crença própria ou de alguém. Isso é desonesto e diabólico.
Sola Scriptura!

terça-feira, 1 de março de 2011

FÉ E OBRAS: OPOSIÇÃO OU COMPLEMENTO III?

Tg. 2: 15 a 18 - "Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e tiverem falta de mantimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito há nisso? Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma. Mas dirá alguém: tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras."
Há somente duas formas de se relacionar com Deus: a primeira é a relação morta ou decaída; a segunda é a relação vivificada ou regenerada. No primeiro caso, o homem está separado de Deus, por conta da sua natureza pecaminosa. Isto foi devidamente avisado ao ancestral comum, Adão, quando Deus disse: "...porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás." A expressão hebraica traduzida por "certamente morrerás", entretanto, é no texto original "morrer, morrendo" [tûmAGt tôm]. Isto determina diversas consequências, dentre elas, a separação entre a criatura e o Criador, como também o processo de degenerescência até a morte física. Em princípio tal expressão não se refere apenas à morte biológica, mas também à morte para Deus. A palavra morte em qualquer idioma traz significação de separação ou desligamento. No segundo caso, o homem é regenerado da sua morte espiritual e recebe a garantia de uma restauração plena, a saber, corpo, alma e espírito, na ressurreição final. Neste caso ele será novamente recomposto ao estado original de Adão, quando então possuía plena ligação com o Criador.
Assim, para o homem que está morto para Deus, ainda que o busque como um religioso, a sua adoração é morta, bem como as suas obras são mortas para Ele. Podem até ser obras interessantes sociologicamente, mas não podem salvá-lo, pois estão comprometidas pela sua natureza decaída e morta. Contrariamente o homem regenerado, ou nascido do alto, adora de modo ressurrecto e vivo, porque foi vivificado na ressurreição juntamente com Cristo conforme Cl. 3:1 - "Se, pois, fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentando à destra de Deus." Igualmente as obras desse homem são vivas e não mortas, porque elas foram preparadas por Deus de antemão para que os seus eleitos andem nelas. Porém, isto não o torna perfeito e imune aos dilemas da existência neste mundo.
Então, Tiago está tratando da natureza das obras mortas expressas por uma fé igualmente morta. Ele está se referindo àquelas pessoas que afirmam ter fé em Deus, e não a fé de Deus. Estas pessoas creem que ao despedir o faminto e o nú em paz proferindo fé para eles, de alguma maneira, os tais serão agraciados no que necessitam. Está é uma fé morta, pois não produz os efeitos desejados ou necessários. Não é a fé de Deus, porque esta se expressou na ação concreta d'Ele enviando o Seu Filho para concretamente morrer na cruz real, justificando os pecadores eleitos. Ele viu que o homem decaído estava nú espiritualmente, faminto de justiça, cego da verdade, e pobre de vida. Assim, Cristo veio para tornar os pecadores fartos de justiça e vestidos de vestes brancas. A fé morta lida com as possibilidades do homem, mas a fé viva lida com as concretudes e o poder real de Deus.
Tiago está desafiando este homem que afirma ter fé, mas os seus atos não são da fé viva, mas de uma categoria de fé morta. Ele não está doutrinando sobre ter ou não ter fé, mas de uma natureza de fé apenas por palavras. Também não está falando de obras para quem tem a fé viva, mas das obras mortas dos que dizem ter fé. No texto de Tiago 2, trata-se das obras dos que se dizem cristãos, e não das obras de cristãos. Ele diz: ..."se alguém diz..." e não "... se algum cristão diz..." No verso 14 ele reitera: "pode acaso semelhante fé salvá-lo?" O que se pode deduzir da expressão "... semelhante fé..."? Quer dizer que se tal fé não pode salvá-lo, ela poderá o que então? Logo, fica evidente que Tiago não está falando de fé viva, a saber, fé como dom de Deus aos nascidos do alto. Ora, se a fé que se busca não pode salvar o pecador, não é necessário pregar o evangelho, pois a fé vem pelo ouvir, e o ouvir da palavra de Deus. Afirmar que se tem fé em Deus não é o mesmo que ter a fé de Deus. Até porque, é a fé que possui o pecador para regenerá-lo, e não o pecador que possui fé para salvar-se.
Sola Scriptura!