sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A SÍNDROME DE JÓ IXX


Jó 32: 1 a 5 - "Então aqueles três homens cessaram de responder a Jó; porque era justo aos seus próprios olhos. E acendeu-se a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; contra Jó se acendeu a sua ira, porque se justificava a si mesmo, mais do que a Deus. Também a sua ira se acendeu contra os seus três amigos, porque, não achando que responder, todavia condenavam a Jó. Eliú, porém, esperou para falar a Jó, porquanto tinham mais idade do que ele. Vendo, pois, Eliú que já não havia resposta na boca daqueles três homens, a sua ira se acendeu." Na sequência de capítulos, ao chegar no 32, vê-se uma situação interessante: três acusadores legalistas e um acusado igualmente legalista em uma espécie de impasse. Três contra um e um contra três em arranjos diferenciados: ora os três amigos de Jó contra ele, ora um dos amigos de Jó contra os outros dois e contra o próprio Jó. Assim sucede, sempre que se coloca a centralidade no homem e na lei. Geram-se apenas imposições de vontades, preceitos, regras e normas puramente humanas.
Dois dos três amigos de Jó cessaram de replicá-lo, porque este se declarava justo aos seus próprios olhos. Jó ascendeu a sua ira contra os três amigos, porque o condenavam sem apresentar uma causa determinante ou eficiente do seu sofrimento. Um dos amigos de Jó, e que não pertencia à tríade de contestadores, se levantou contra ele, insistindo em aspectos lógicos da religião: o homem não pode ser castigado sem ter pecado contra Deus. Não conheciam de fato o que é soberania de Deus e a diferença entre pecado e pecados.
Eliú, preso às formalidades culturais do seu tempo falou por último. Prolixo, pois gasta a maior parte da sua fala em apresentar aquilo que pretendia dizer. Todavia, no conteúdo em si, nada de novo acrescentara ao que todos já houvera dito. De certa forma, Eliú estava mesmo interessado em apresentar a validade do seu direito à fala. Ele atribuiu à avançada idade dos amigos, a razão da incompetência deles em levar Jó ao reconhecimento do seu erro, ou pecado. Assim, pretendia Eliú sobressair-se como o grande convencedor do amigo Jó, como se fora a virtude de Deus na Terra.
Ainda que com base na tradição oral, Eliú reconhece que o espírito que vive no homem foi o resultado do sopro do Todo-Poderoso. Isto é verdade conforme Gn. 2:7 - "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida; e o homem foi feito alma vivente." As palavras hebraicas para "...fôlego de vida" significam de fato: "fôlego das vidas", referindo-se à alma e ao espírito. Porém, faltou conhecimento ou luz para mostrar-lhe que este espírito está morto para Deus, por conta do pecado. É verdade também que Eliú reconhece que a sabedoria é um dom de Deus e não das elaborações humanas.
Eliú agiu como todos os religiosos ao longo dos tempos: julga que o falar é mais imperioso do que buscar o significado da real soberana vontade de Deus para com Jó. O foco do seu discurso irado continua sendo jogado sobre o homem e suas práticas. Ainda que teça uma elegante e profunda peça de retórica em nome de Deus, isto não é necessariamente o conhecimento de Deus. Ele, em sua ira, demonstra tremendo orgulho espiritual e promove auto-exaltação. Para ele era imperioso que Jó reconhecesse que merecia o castigo. Eliú prometeu argumentos repletos de novidades, superioridade e loquacidade. Todavia, nada disso se vê em sua fala. Ele reproduz o mesmo modelo produzido pela crença comum, pela religião dominante e pela natureza presunçosa de conhecer os desígnios de Deus para a vida dos outros.
Eliú desejava tão-somente desabafar a sua opinião conforme suas próprias palavras no verso 20. Se encheu de dureza e se afastou das lisonjas comuns em negociações inter-humanas. Todavia, age como muitos líderes religiosos em nome de Deus, e de Jesus, mas que, no fundo, agem em seus próprios nomes decaídos e corrompidos pela natureza pecaminosa que não morreu na cruz com Cristo, e, muito menos, com Ele ressuscitou ao terceiro dia pela fé.
Sola Fide!

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