sábado, 5 de dezembro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ XIII


Jó 23: 1 a 4 - "Respondeu, porém, Jó, dizendo: ainda hoje a minha queixa está em amargura; a minha mão pesa sobre meu gemido. Ah, se eu soubesse onde o poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal. Exporia ante ele a minha causa, e a minha boca encheria de argumentos. Saberia as palavras com que ele me responderia, e entenderia o que me dissesse. Porventura segundo a grandeza de seu poder contenderia comigo? Não: ele antes me atenderia." Jó agiu como agem todos os homens portadores da natureza decaída: quando provados querem encontrar Deus. O desejo de falar com Deus não é para colocar-se na perspectiva d'Ele, mas para propor solução ao seu drama. Os religiosos, especialmente, os arminianos buscam Deus para ditar-lhe como Ele deve operar o querer e o efetuar, segundo as suas necessidades e não segundo a boa vontade d'Ele. Observe que Jó vê Deus apenas como um juiz em seu tribunal. É a visão do Deus sem a graça! É a visão maniqueísta de Deus! É o Deus iracundo e prestes a castigar qualquer um sem motivos...
O homem decaído desenvolve enorme capacidade de argumentar suas reivindicações. Se coloca na perspectiva de interlocutor perante Deus. Não conhece o caminho da humilhação conforme Mt. 11:29 - "Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas." Não se vê como mendigo, mas como rei e postulante de direitos. Jó faz uma pressuposição do que imagina ser a retidão e a grandeza de Deus, porém não consegue compreender as razões do seu sofrimento. Logo, a sua visão de Deus é apenas assentimento intelectual e religioso. Ao contrário do que pleiteiam os homens e do que ensinam as doutrinas humanistas nas igrejas, o regenerado necessita de dependência plena conforme II Co. 12:9a - "E disse-me: a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza."
Jó não se vê como portador da culpa do pecado original, mas como alguém que não dá motivos para sofrer os danos por que passava. Este é um comportamento comum entre os homens decaídos: alegam sua retidão, sua justiça própria, seus méritos na tentativa de fazer Deus se curvar a eles em seus dramas. Observa-se que Jó, de fato, possui profundo conhecimento informativo sobre Deus. Declara coisas grandiosas acerca d'Ele: mostra que Deus é onisciente, onipresente e onipotente; mostra que Deus é incompreensível pelo homem, salvo se Ele mesmo se revelar; mostra que Deus é imutável; mostra que é Deus quem resolve as coisas; mostra que é Deus quem cumpre os Seus decretos; mostra que há um plano para o mundo; mostra que é Deus quem soluciona o problema do pecado no homem. Assim, fica evidente que não é suficiente ter um assentimento puramente intelectual sobre Deus.
Por fim, Jó declara que não é por conta da sua tragédia que se sente angustiado, mas, sim, o fato de que era Deus quem a executava. Ou seja, o homem sem a regeneração possui uma visão parcial da soberania de Deus. Além do que o homem em tal situação espiritual se magoa muito rapidamente contra Deus.
No capítulo 24, Jó chega a uma tese que Deus, muitas vezes deixa de castigar os perversos. Desta forma, subjaz no inconsciente do homem decaído, a ideia de que Deus é injusto e que se vale de dois pesos e duas medidas. Mostra a brutalidade dos ímpios, como quem age sem nenhum limite. Mostra que há uma ordem dominante no sistema humano que é tolerante com o mal e que Deus não age sobre esta questão. Isto equivale a acusar Deus de ser conivente com o que é mal.
Jó encerra o seu discurso amargo contra a ordem prevalecente, para que seus amigos provem o contrário do que ele expõe. Está interessado em encontrar uma resposta para o seu dilema pessoal. A prosperidade dos ímpios é um mistério para os que não conhecem a soberana vontade de Deus. Exige dos regenerados um profundo exercício de fé, pois o reino deles não se firma na prosperidade, mas no mundo vindouro, onde haverá justiça e paz. Entretanto, o homem em seu estado pecaminoso, quer produzir o reino de Deus à força neste mundo que jaz no maligno. Não veem a restauração final como fato, mas apenas como retórica.
Mais adiante veremos onde Jó pretende chegar com todos os seus questionamentos.
Sola Gratia!

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