terça-feira, 6 de outubro de 2009

A SÍNDROME DE JÓ III


Jó 2: 1 a 7 - "E, vindo outro dia, em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles, apresentar-se perante o Senhor. Então o Senhor disse a Satanás: donde vens? E respondeu Satanás ao Senhor, e disse: de rodear a Terra, e passear por ela. E disse o Senhor a Satanás: observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na Terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal, e que ainda retém a sua sinceridade, havendo-me tu incitado contra ele, para o consumir sem causa. Então Satanás respondeu ao Senhor, e disse: pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida. Porém estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se não blasfema contra ti na tua face! E disse o Senhor a Satanás: eis que ele está na tua mão, porém guarda a sua vida. Então saiu Satanás da presença do Senhor, e feriu a Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça."
Na primeira experiência de Jó, Deus permitiu a Satanás que retirasse todos os seus bens, porque o maligno levantou a prosperidade como sendo uma âncora que faz do homem um ser fiel a Deus. Jó perdeu absolutamente tudo o que possuía, como também os seus dez filhos. Até aí Jó não pecou com os lábios contra Deus conforme os versos 20 a 22 do capítulo 1, assim o demonstram: "Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou. E disse: nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor. Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma."
Na segunda experiência foi permitido ao maligno tocar o corpo de Jó e ferir-lhe com chagas, ou úlceras malígnas desde a planta do pé até a raíz do cabelo. Ainda assim, não pecou Jó contra Deus, conforme o relato do capítulo 2, versos 9 a 10 : "E Jó tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza. Então sua mulher lhe disse: ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre. Porém ele lhe disse: como fala qualquer doida, falas tu; receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios." O pecado que desligou o homem de Deus não foi por palavras ou atos falhos, estes são consequências do pecado que fez o homem perder a comunhão com Ele. Esta é a confusão que as religiões e seitas ditas cristãs fazem na cabeça dos seus seguidores: confundem atos pecaminosos com o pecado.
Há pessoas capazes de suportar intenso sofrimento e muitas provações por algum tempo, porque acreditam em uma teologia da purificação pela dor. Pelo menos por palavras não dizem desatinos ou murmurações, porém há profunda diferença entre pecar por palavras, por atos e no coração com a natureza pecaminosa. Estas atitudes aparentemente resignadas são subproduto de um senso de justiça própria e de bondade desenvolvido pela religião e pela cultura moral em que a pessoa é submetida desde a mais tenra idade. Ela está focada no homem e seus pressupostos e não na centralidade do amor de Deus. Desta forma o homem se submete por algum tempo para comover o coração de Deus a lhe ser favorável, depois utiliza isto como argumento para reivindicar algo de Deus. É diferente ter o temor de Deus e buscar o temor de Deus. No primeiro caso a ação é monérgica, no segundo é sinérgica. Agir dessa forma pode ser uma boa atitude sociológica e antropológica, mas não necessariamente uma boa atitude espiritual. Isto porque só há um que é bom, a saber, Deus. O verdadeiro regenerado não possui a bondade, a bondade de Deus é que o possui.
No capítulo 3, Jó começa perder a sua elegância e paciência. Quando viu que a sua aparente serenidade não superava a crise, amaldiçoou o dia do seu nascimento. Aí que começou a expor o que de fato estava no íntimo da sua natureza adâmica decaída. Começou a falar e conforme o texto sagrado afirma, "na multidão de palavras não falta pecado, mas o que modera os seus lábios é sábio."
Em todo o capítulo três Jó derramou o que estava de fato em seu coração amargurado pela dor e pela perda. Não economizou palavras para expressar a sua indignação contra o que estava passando. Não é assim entre os religiosos e os homens, em geral? Quando está tudo bem, tudo é aceitável, tolerável e maravilhoso. Basta algum desequilíbrio para a velha natureza mostrar a sua real face. A desconfiança de que Deus abandonou o barco e que os seus esforços e dedicação foram em vão levam o homem a revelar a sua real situação pecaminosa. É neste ponto que surge a ira do louco que o destrói e o zelo do tolo que o mata conforme Elifaz, amigo de Jó, ensina no capítulo 4.
Sola Fide!

Um comentário:

Anônimo disse...

Eu tenho esta doença e sou uma pessoa muito religiosa.
De fato só não acabei com minha vida por meus conceitos religiosos.
Pergunto a Deus o que Ele quer com isso, e as vezes me respondo que Ele quer que eu faça parte de sua redenção. Quando pioro tanto que o prurido e a dor tomam conta do meu corpo, já não consigo raciocinar.
Já me cocei com pedra.
A palavra "NÃO TEM CURA" me mata aos poucos.