segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O QUE É E O QUE NÃO É APOSTASIA VII

Há uma apostasia chamada Pelagianismo que teve o seu início no século V d. C., mas que, de certa forma perdura diluída na maior parte das diversas seitas e igrejas ditas cristãs de hoje. O Pelagianismo está ligado à figura de um monge, possivelmente de origem Irlandesa, cuja história de vida não é bem conhecida. Pelágio achava-se extremamente aborrecido com o estado em que a Igreja se encontrava nos últimos anos do século IV e início do século V. Por isso, se fez eunuco e perseguiu ardentemente a perfeição moral e a devoção espiritual, tentando persuadir a Igreja a seguir este padrão.
No afã de restaurar a igreja, começou a fazer prosélitos da sua causa, entre eles destacaram-se Coelestius e Juliano de Eclanum. Estes três, deram início a uma acirrada controvérsia doutrinária contra a posição de Agostinho de Hipona. Pelágio se insurgiu contra Agostinho por conta de uma oração escrita por este, a qual rezava o seguinte: "Concede o que ordenaste, e ordena o que tu desejas." Pelágio se levantou contra a primeira frase, porque a segunda, segundo ele, é um direito relativo à soberania divina. Entretanto, ele discordou da primeira frase, porque julgou erroneamente o conteúdo da mesma. O que Agostinho peticionava era algum dom da graça para o homem, em sua debilidade, conseguisse cumprir as ordenanças de Deus. Para Pelágio era desnecessário pedir para cumprir o que Ele ordena, pois para ele, a obediência do homem não necessitava da assistência da graça. Entendia que o homem tem a capacidade de obedecer, tanto à lei moral, como aos comando inerentes ao evangelho. Para ele a obediência não necessita de modo algum ser concedida.
Para Pelágio, o 'livre arbítrio', usado de modo correto, produz a habilidade de desenvolver o bem suficiente para levar o homem à obediência. Então, por meio do esforço próprio, o homem pode alcançar tudo o que é necessário moralmente e religiosamente. Eis, então, o foco em questão: o homem é o centro e a sua justiça própria a centralidade. Neste sentido a cruz e Cristo saíram de cena e de foco nesta visão apostatada das Escrituras. Neste sentido, quantas igrejas pregam o mesmo ainda hoje? Quase todas, sendo algumas centenárias em termos históricos.
Pelágio elaborou 18 premissas para sustentar a sua pseudoteologia:
1ª Premissa: os mais altos atributos de Deus são a bondade e a justiça, sem as quais Ele não seria Deus.
2ª Premissa: sendo Deus completamente bom, tudo quanto Ele criou é igualmente bom, incluindo-se o homem. Para ele Adão foi criado sem pecado e inteiramente competente par todo o bem, com espírito imortal e corpo mortal. Isto implica em atribuir 'livre arbítrio' a Adão, portanto no pelagianismo Adão tinha 'liberum arbitrium', ou possuía a 'possibilitas boni et mali.' Ora, se Adão tivesse a possibilidade do bem e do mal, não haveria necessidade de proibi-lo a comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.
3ª Premissa: a natureza não apenas foi criada boa, mas incontestavelmente boa. Pelágio considerou apenas o estágio primeiro da criação e não o seu desenvolvimento posterior à queda.
4ª Premissa: a natureza humana é inalteravelmente boa, ou seja, em sua essência, o homem é bom. Para ele, o comportamento de alguém é alterado quando se comete pecado, mas os atos pecaminosos não mudam a natureza humana. Ora, mas como alguém comete atos pecaminosos sem uma natureza inclinada ao pecado?
5ª Premissa: o mal ou pecado nunca pode transformar-se em natureza. Para ele o pecado é um desejo de fazer o que a justiça proíbe, sendo, portanto, o homem livre para abster-se ou evitá-lo. O pecado é sempre um ato e nunca uma questão de natureza ou inclinação natural. Pelágio cria, então, num efeito sem uma causa.
6ª Premissa: o pecado existe como resultado das armadilhas de Satanás e dos desejos da carne, sendo estas tentações possíveis de serem evitadas pelo homem por meio da virtude do bem.
7ª Premissa: há sempre a possibilidade de o homem não pecar.
8ª Premissa: Adão foi criado com o 'livre arbítrio' e com uma santidade inerente ou natural.
9ª Premissa: Adão pecou por vontade própria, não tendo sido coagido por Deus ou outra criatura. Negar a presença de Satanás incorporado na serpente é negar as Escrituras.
10ª Premissa: os descendentes de Adão não herdaram a morte natural, nem a morte espiritual. Então, o apóstolo Paulo é um pregador de mentiras, pois ele afirma que o pecado entrou no mundo por Adão e passou a todos os seus descendentes. 
11ª Premissa: nem o pecado de Adão, nem a sua culpa foram transmitidos aos seus descendentes. Considerava a doutrina do pecado original e do pecado transmitido heresias. Na verdade, heresia é negar o que as Escrituras afirmam.
12ª Premissa: todos os homens são criados por Deus na mesma posição e condição que Adão possuía antes da queda.
13ª Premissa: o hábito de pecar enfraquece a vontade, obscurecendo os pensamentos e conduzindo o homem aos maus hábitos ou vícios. Porém, a vontade não é enfraquecida, e, portanto, pode superar os maus hábitos.
14ª Premissa: a graça facilita a bondade, isto é, torna fácil ao homem ser justo.
15ª Premissa: a graça fundamental que Deus concede foi aquela dada apenas na criação, permitindo a alguns atingirem a perfeição.
16ª Premissa: induz a ideia que na lei havia a graça da instrução e da iluminação do homem, porém nada faz interiormente.
17ª Premissa: a graça de Deus também foi dada por meio de Cristo, como uma espécie de iluminação e doutrina. Jesus teria sido apenas um exemplo! Este pensamento é de caráter gnóstico e não cristão.
18ª Premissa: a graça é dada de acordo com a justiça e o mérito do homem. Coloca o foco no homem e não em Cristo.
A controvérsia durou de 411 a 412 d. C. em Cartago, tendo sido conhecida historicamente como Sínodo de Cartago, no qual Pelágio foi absolvido, mas o seu discípulo Coelestius foi exonerado. Em 415, Pelágio foi exonerado por meio de uma sindicância solicitada por Orósio, amigo de Agostinho. No mesmo ano, na Palestina, Pelágio foi denunciado por alguns escritos seus, porém ele os negou e os atribuiu ao seu discípulo Coelestius covardemente. Finalmente, em 416, Pelágio e Coelestius foram excluídos da comunhão da Igreja por heresia e apostasia.

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