sexta-feira, 2 de maio de 2008

LIVRE ARBÍTRIO IV

Falar em liberdade plena ou livre arbítrio é um mero conceito, pois não há liberdade absoluta, quando se estabelece uma situação relacional. Isto quer dizer que, se um objeto ou ente está relacionado a outro, logo não é absolutamente livre. Qualquer que seja o grau de relação, interferência, ou dependência restringe a liberdade. Assim, se o homem depende de luz, ar, água, alimentos e estes estão relacionados a outros fatores, já não há liberdade total. Sabendo-se que até mesmo os desejos e a vontade humana não surgem do nada, porque do nada se obtém apenas nada, logo o homem é um ser relativizado e não absoluto. O que ocorre, geralmente é que o homem confunde o seu desejo de liberdade e de autonomia com a realidade da livre agência. O próprio fato de o ser humano estar preso às variáveis tempo e espaço, o torna condicionado a uma determinada escala de determinismo ou restrição de liberdade.
Seguindo o padrão bíblico, não há como conceber o livre arbítrio, visto que a própria vontade do homem está escravizada pelo pecado conforme Rm. 7:15, 18 a 21 - "Pois o que faço, não o entendo; porque o que quero, isso não pratico; mas o que aborreço, isso faço. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo." Um homem do porte de Paulo, percebia esta contradição entre o seu querer e o seu realizar, logo, onde está o livre arbítrio?
No século XVI, travou-se um grande debate sobre a escravidão da vontade e o livre arbítrio, entre Erasmo de Roterdã e Marinho Lutero. Ambos de enorme capacidade intelectual e de profundo espírito analítico. Erasmo publicou em 1524, a obra "Diatribe Sobre o Livre Arbítrio", nesta obra defendia a posição que o homem possui liberdade de escolhas. Marinho Lutero publicou em 1525, a obra "De Servo Arbítrio, A Escravidão da Vontade", a qual defendia a tese que o homem não possui livre arbítrio.
"Na estima de Lutero, o tratado erasmiano era uma obra da carne. Contendo uma anamnese mal feita, partia de um princípio falso e oferecia um placebo para uma ferida mortal. Lutero repudia o Diatribe de Erasmo expondo a doutrina bíblica do pecado original. Sem um diagnóstico preciso acerca da enfermidade humana, não há como discernir de maneira apropriada o valor das boas novas do evangelho da graça de Cristo. Em sua réplica, Lutero procede a um honesto e rigoroso exame das Escrituras Sagradas, evidentemente preterido por Erasmo."
"Foi com a compreensão do puro evangelho que se abriu para Lutero a noção do cativeiro radical da vontade. Sem nenhuma dúvida, na doutrina da depravação do homem situa-se a pedra angular da Reforma. No coração da teologia de Lutero e da doutrina da justificação, está a sua compreensão da depravação original e da pecaminosidade do homem – que ele conheceu muito bem, mesmo como um monge asceta na Ordem Agostiniana. O reformador está muito bem qualificado para tratar do assunto da impiedade e da depravação."
"O que é a verdadeira liberdade? Neste caso, vê-se também que o discurso sobre a condição servil da vontade não visa a outra coisa, se não ao discurso correto sobre a liberdade. Para Lutero, a livre vontade é um termo divino, e não cabe a ninguém, a não ser unicamente à majestade divina. Conceder ao ser humano tal atributo significaria nada menos do que atribuir-lhe a própria divindade, usurpando a glória do Criador. Lutero, assim, compreende que a pergunta pela liberdade da vontade no fundo é a pergunta pelo poder da vontade. Por isso mesmo, a livre vontade é predicado de Deus. É poder essencialmente específico do próprio Deus."
Assim, percebe-se que a questão do livre arbítrio não se circunscreve à esfera da vontade humana, visto que ela está escravizada e relativizada. Só Deus possui absoluta liberdade de vontade, pois é anterior a todas as outras coisas e seres. O que se vê comumente é a velha dissimulação da vontade humana escravizada pela natureza pecaminosa, tentando achar uma autonomia e liberdade fora dos padrões de Deus. Esta saga se iniciou no Éden e prossegue com base na frenética busca científica pela imortalidade e total independência do homem.
II Pd. 2: 19 - "... prometendo-lhes liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção; porque de quem um homem é vencido, do mesmo é feito escravo." O apóstolo Pedro está denunciando a prepotência dos religiosos judeus que, sendo eles mesmos escravos da mente corrompida pelo pecado, querem impor regra sobre regra e preceito sobre preceito, fazendo dos seus prosélitos outros escravos da religião. Esta mesma verdade perdura até os dias de hoje e talvez até com maior requinte, visto vivermos em um quadrante da história, onde há maiores e mais requintados argumentos e mecanismos de persuasão

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