domingo, 25 de maio de 2008

O QUERER E O EFETUAR V

O homem, na presunção religiosa supõe ter a capacidade de querer e de realizar tudo. Na verdade, tal presunção se faz justificar, porque há uma profunda diferença entre escolhas puramente morais e a capacidade de livre escolha espiritual. Mesmo no caso das tais escolhas morais, estão circunvaladas à esfera de uma natureza pecaminosa, portanto, separada da natureza Santa de Deus. Neste sentido, a alma ilude e engana o religioso, deixando-o na suposição de ter uma experiência espiritual. Não se pode confundir a vida da alma, com a vida do espírito. Quando da queda, o homem era portador apenas da vida da alma, porque fora feito tão somente, alma vivente conforme Gn. 2:7 - "... e o homem tornou-se alma vivente." Isto é confirmado por Paulo em I Co. 15: 45 e 46 - "Assim também está escrito: o primeiro homem, Adão, tornou-se alma vivente; o último Adão, espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o animal; depois o espiritual." Percebe-se com base apenas no texto sagrado e não na opinião de quem quer que seja, que o homem natural não é espiritual, ainda que possua um espírito. Isto ocorre, porque o seu espírito está separado de Deus, portanto, morto para a vida verdadeira e eterna. O único que pode restaurá-lo é o último Adão, a saber, Cristo, pois Ele é Espírito Vivificante. Enquanto o primeiro Adão é alma vivente, o último Adão é Espírito que comunica vida eterna. Assim, Cristo é o último Adão, porque n'Ele, isto é, em sua morte, a raça adâmica é terminada. Quando Cristo morreu na cruz, morreu com Ele a natureza adâmica, isto é, o pecado ou velho homem conforme Rm. 6: 6 - "... sabendo isto, que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado fosse desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado." Obviamente que tal realidade só é possível aos eleitos antes dos tempos eternos, que, por isso, creem nesta palavra. Os que não creem, não foram eleitos para tanto, e no máximo, permanecerão apenas bons religiosos.
Por inclusão na morte de Cristo, os eleitos são transferidos do reino das trevas para o reino da luz. Eles passaram da morte, isto é, de um espírito morto para Deus, para a vida em Cristo, isto é, ganharam a Sua vida na ressurreição, juntamente com Ele. Ao ganhar a vida de Cristo, o homem passa à condição de filho por adoção. O homem decaído, religioso ou ateu, é apenas animal, tendo esta palavra no texto original no grego koiné, o significado de psíquico ou almático.
Este é o terrível engano que perdura e progride no mundo, especialmente no campo religioso, pois o inimigo faz isto prosperar a fim de que, os pecadores continuem perdidos espiritualmente e dediquem culto à sua própria alma decaída. Muitos homens bem intencionados, despendem grandes somas de dinheiro e tempo para criar e sustentar obras missionárias, porém estão apenas financiando o anátema. Parece cruel dizer isto, mas quando se tem as escamas dos olhos retiradas pela graça soberana do Pai, todas estas realidade se tornam cristalinas diante dos regenerados. Entretanto, isto não os torna melhores que qualquer outra pessoa neste mundo. Ao contrário, eles são pecadores que receberam a graça, e, portanto, nada são e nada podem. Deus não concede o Seu trono para que ninguém se faça juiz e condene as outras pessoas por causa das suas fraquezas ou soberbas. Estas pessoas já estão condenadas e, se forem eleitas, serão fatalmente alcançadas pela misericórdia e a graça do Pai.
Uma das coisas que o homem decaído não pode entender é que a graça de Deus é irresistível. Uma vez dada ao pecador, ele não pode livrar-se dela. Isto faz sentido de acordo com o que ensina solenemente as Escrituras em Jr. 1:12 - "Então me disse o Senhor: viste bem; porque eu velo sobre a minha palavra para a cumprir." Então, aos que de antemão conheceu, a estes predestinou, aos que predestinou a estes chamou, aos que chamou a estes justificou e aos que justificou a estes glorificou. Esta sequência mostra que Deus é o autor soberano da salvação, que também cria os meios para executá-la, e que finalmente conclui o Seu propósito eterno sem retroceder em nada. Ele não só conhece, escolhe, chama, justifica, mas também concede a glória da vida eterna em Cristo Jesus.
A incompetência humana é tamanha, que, mesmo quando o homem supõe estar exercendo a sua livre agência, na verdade está sendo conduzido a isto para um determinado fim preparado de antemão por Deus. Vê-se esta verdade cristalina em Gn. 45:8 - "Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como governador sobre toda a terra do Egito." Quando os irmãos de José tomaram a decisão de matá-lo e depois acabaram vendendo-o aos caravaneiros ismaelitas, pensavam estar realizando os seus desejos e vontades livremente. Entretanto, eles estavam sendo guiados a isto por uma razão maior e preestabelecida por Deus conforme v. 7 - "Deus enviou-me adiante de vós, para conservar-vos descendência na terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento." Veja, o que os irmãos de José tomaram como um grande feito e exercício do querer deles, Deus estava realizando a Sua soberana vontade em favor deles mesmos, preservando-lhes a vida para que a Sua Palavra se cumprisse em Abraão. Do contrário, Deus teria enganado e mentido a ao patriarca, quando lhe disse que o abençoaria e o multiplicaria grandemente em uma numerosa nação. Também a promessa do Messias, Cristo, teria sido uma mentira, pois se todo o povo hebreu tivesse morrido por causa da seca e da fome, Deus não teria fidelidade nem mesmo à Sua própria Palavra.
Em que você crê? Nas Escrituras? Ou em ensinos de homens?

O QUERER E O EFETUAR IV

Sempre quando se discute a questão do querer, isto é, da vontade humana em relação a salvação, os religiosos são rápidos em dizer que o homem pode aceitar ou rejeitar a graça de Deus em função do uso do "livre arbítrio". Tudo é compreendido intuitivamente por meio de uma análise desprovida de revelação e baseada em falsos ensinos arminianos, gnósticos e na força do intelecto. O religioso, que é por natureza, um arminiano, invariavelmente inverte e perverte a verdade, as vezes, até mesmo em nome de Cristo. Eles seguem padrões repetitivos, como se fora leis em seus corações, porque suas naturezas decaídas elaboram estes padrões para validar suas crenças e esperanças. Na verdade, eles lançam mão de argumentos que partem de premissas falsas e, com isso, chegam a resultados igualmente falsos.
Uma das questões mais cruciais no texto sagrado é o uso e a interpretação dos verbos no modo imperativo. São compreendidos pelos religiosos apenas pela ótica gramatical, mas, neste caso, acabam se transformando em uma espécie de armadilha. Tais verbos, na maior parte das vezes, são imperativos por força de quem os pronunciou e não por força de quem os recebe como ordens. Por exemplo em Gn. 12:2 - "Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu, sê uma bênção." Neste caso, se não ler o texto com as lentes do espírito, pensa-se que Abraão teria uma contra-partida na ação de Deus. Isto é, se ele não procurasse ser uma bênção, a ação de Deus ficaria incompleta ou interrompida. Ora, não é isto que o texto ensina! Basta fazer a leitura de trás para frente que fica perceptível que Abraão seria uma bênção, porque fora abençoado primeiramente por Deus. Logo, a ação é monérgica e o imperativo se faz justificar, porque Deus assim o determinou. Se Abraão pudesse ser uma bênção sozinho, Deus seria absolutamente desnecessário neste caso. Uma tradução livre deste texto seria: "Eu farei que você se multiplique em uma numerosa nação, abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome por meio dessa nação; e você, é uma bênção a partir de agora." Ou seja, você é uma bênção, porque eu te abençoarei e não porque você possa ser uma bênção por si mesmo. O verbo "ser" neste contexto é imperativo afirmativo, ou seja, você é e será continuamente uma bênção, porque Eu, Deus, estou afirmando que serás. Em língua portuguesa não existe o presente contínuo nos verbos, por isso, são traduzidos como se fossem imperativos. Assim, se alguém disser: "Deus é" não parece ter sentido, porque o verbo ser exige um complemento. Entretanto, é o caso do presente continuo, pois o que é, sempre será indefinidamente. Ele é o que é em sua essência e não pelo que faz ou deixa de fazer.
Mc. 8: 34 - "E chamando a si a multidão com os discípulos, disse-lhes: se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me." O mesmo acontece ao conteúdo do texto em questão. Muitos tomam isoladamente o verbo "querer" no texto que vem de ser lido e faz sobre ele um compêndio de teologia focada tão somente no homem. Ora, se Jesus estava se dirigindo a pecadores, o querer deles estava escravizado pelo pecado, logo, não poderia jamais querer ir após Ele. Não é uma questão de opção ou escolha! A vontade ou o querer do homem no pecado é invariavelmente contrário a Deus. conforme Rm. 3: 10 a 12 - "...como está escrito: não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só." Também os antropoteólogos deixam de considerar o texto todo. Neste caso a partícula "se" é fundamental, pois ela dá uma conotação de dúvida. É como se o Senhor estivesse dizendo: 'se é que alguém tem inclinação, vontade ou liberdade para andar no meu caminho, há de negar o seu próprio "eu", tomar a cruz que lhe pertence por causa da maldição do pecado, e seguir-me para a morte.'
Obviamente, quando alguém prega o ensino bíblico da redenção por inclusão na morte de Cristo, causa uma profunda decepção no homem. Isto porque, este, enquanto portador da natureza pecaminosa é sempre inclinado a produzir os meios para a sua própria salvação. O pecado é algo tão hediondo, que cria no homem a falsa ideia que ele é livre até mesmo para produzir sua própria salvação. Não é isso que o evangelho ensina. Em Jo. 6: 44 e 45 diz: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: e serão todos ensinados por Deus. Portanto todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim." O texto, sem prejuízo do seu contexto, mostra com clareza que "ninguém pode" ir a Jesus se o Pai não o conduzir por meio da revelação na Palavra. Não é uma questão de não querer, mas de não poder! É pelo pregar das Escrituras que o Espírito Santo ensina o nosso espírito que a salvação é pela graça por meio da fé. Esta graça é a própria doação do Filho de Deus que foi levantado na cruz, e, nela, atraiu os eleitos para perderem os seus "eus" pecaminosos. Após a destruição do corpo do pecado, da velha natureza, do velho homem, da natureza adâmica é que ocorre a plena justificação conforme Rm. 6. Só possui disposição para ir a Jesus, aqueles aos quais Deus compungiu pela Palavra e que neles operou o querer e o efetuar da fé que faz o justificado viver, isto é, ganhar a vida de Cristo na ressurreição.

domingo, 18 de maio de 2008

O QUERER E O EFETUAR III

Jn. 1: 1 a 17 - "Ora, veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo: levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim. Jonas, porém, levantou-se para fugir da presença do Senhor para Társis. E, descendo a Jope, achou um navio que ia para Társis; pagou, pois, a sua passagem, e desceu para dentro dele, para ir com eles para Társis, da presença do Senhor. Mas o Senhor lançou sobre o mar um grande vento, e fez-se no mar uma grande tempestade, de modo que o navio estava a ponto de se despedaçar. Então os marinheiros tiveram medo, e clamavam cada um ao seu deus, e alijaram ao mar a carga que estava no navio, para o aliviarem; Jonas, porém, descera ao porão do navio; e, tendo-se deitado, dormia um profundo sono. O mestre do navio, pois, chegou-se a ele, e disse-lhe: que estás fazendo, ó tu que dormes? Levanta-te, clama ao teu deus; talvez assim ele se lembre de nós, para que não pereçamos. E dizia cada um ao seu companheiro: vinde, e lancemos sortes, para sabermos por causa de quem nos sobreveio este mal. E lançaram sortes, e a sorte caiu sobre Jonas. Então lhe disseram: declara-nos tu agora, por causa de quem nos sobreveio este mal. Que ocupação é a tua? Donde vens? Qual é a tua terra? E de que povo és tu? Respondeu-lhes ele: eu sou hebreu, e temo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra seca. Então estes homens se encheram de grande temor, e lhe disseram: que é isso que fizeste? Pois sabiam os homens que fugia da presença do Senhor, porque ele lho tinha declarado. Ainda lhe perguntaram: que te faremos nós, para que o mar se nos acalme? Pois o mar se ia tornando cada vez mais tempestuoso. Respondeu-lhes ele: levantai-me, e lançai-me ao mar, e o mar se vos aquietará; porque eu sei que por minha causa vos sobreveio esta grande tempestade. Entretanto os homens se esforçavam com os remos para tornar a alcançar a terra; mas não podiam, porquanto o mar se ia embravecendo cada vez mais contra eles. Por isso clamaram ao Senhor, e disseram: nós te rogamos, ó Senhor, que não pereçamos por causa da vida deste homem, e que não ponhas sobre nós o sangue inocente; porque tu, Senhor, fizeste como te aprouve. Então levantaram a Jonas, e o lançaram ao mar; e cessou o mar da sua fúria. Temeram, pois, os homens ao Senhor com grande temor; e ofereceram sacrifícios ao Senhor, e fizeram votos. Então o Senhor deparou um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites nas entranhas do peixe."
O texto fala por si só, não sendo, portanto, necessária nenhuma exegese. Fica evidente o quanto a vontade do homem não é o fator determinante, e, muito menos, livre como supõem os religiosos arminianos. Deus ordenara a Jonas a que pregasse arrependimento na grande cidade de Nínive, porém este fugiu, não só da ordem, mas da presença de Deus, como se isto fosse possível.
A atitude de Jonas, ao descer ao porão do navio e dormir, mostra exatamente a posição do homem decaído. Sempre descendo e dormindo profundamente o sono da natureza pecaminosa desprovida da vida de Cristo. A religião é uma espécie de fuga à real situação do homem morto e alienado de Deus. A religião, desde o Éden, tem sido apenas um disfarce criado e desenvolvido pelo homem a fim de empreender esforços na reconquista de Deus. Esta é uma inglória tentativa que, por meio dos méritos, duras regras e complexos preceitos, visam manipular Deus. Todavia, não agrada, não convence e não muda o decreto eterno d'Ele acerca da sentença contra o pecado, a saber, "...a alma que pecar, esta morrerá." Não é o homem decaído que deve ser o portador do foco, mas toda ação é invariavelmente monérgica e centrada na cruz em Cristo.
A tripulação do navio simboliza a humanidade em seus delírios e devaneios religiosos de superstições. Clamar às supostas forças divinas, lançar sortes, fazer declarações, determinar atos proféticos, encher-se de temor. Nada disto é o bastante para aquietar as ondas do mar que espumam as suas próprias abominações. O contexto mostra claramente a mente humana, envidando variados tipos de esforços a fim de se dar bem e escapar da morte. O que contou, no caso do profeta Jonas, foi a soberana vontade de Deus desde o início, visto ter Ele um propósito em tudo o que faz.
Jonas é o tipo do pecador eleito que, apesar de todas as atitudes antagônicas à ordem de Deus, encontra-se debaixo da Sua soberana vontade. A graça d'Ele é irresistível, mesmo quando o homem não a deseja por causa da vontade contaminada pelo pecado. Ele a exerce sobre o pecador, independentemente das suas escolhas subordinadas a uma vontade escravizada pelo pecado. Não é a vontade humana que realiza o querer e o efetuar, mas sim, a boa e agradável vontade de Deus. Nem mesmo a incredulidade humana pode anular a misericórdia e a graça d'Ele. É precisamente isto que muitos religiosos não podem ver e compreender pelas Escrituras. Assim, creem-no em suas próprias mentes reducionistas e horizontalizadas.
Jonas agiu como age qualquer pecador: foge sempre e invariavelmente da presença de Deus, porque suas naturezas lhes são contrárias em posição e em relação. Preferiu ser atirado ao mar, supondo dar cabo de sua vida, à confessar o seu pecado. Observa-se, que, mesmo os incrédulos e idólatras reconhecem a soberana vontade de Deus: "porque tu, Senhor, fizeste como te aprouve."
O texto continua afirmando que aquela tripulação temera grandemente o Senhor Deus e que Lhe oferecera sacrifícios. Aqueles marujos lançaram, pois, Jonas ao mar, o qual foi tragado por um grande peixe. Ali jazeu por três dias e três noites que representam o sinal da morte e da ressurreição de Cristo conforme Mt. 12: 39 a 41 - "Mas ele lhes respondeu: uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal se lhe dará, senão o do profeta Jonas; pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra. Os ninivitas se levantarão no juízo com esta geração, e a condenarão; porque se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis aqui quem é maior do que Jonas." Então, àquele que é maior que Jonas, sejam dadas honra, glória, força e majestade eternamente. Ele é o Cristo, Filho de Deus!

domingo, 11 de maio de 2008

O QUERER E O EFETUAR II

A vontade humana é uma armadilha em si mesma no sentido em que está corrompida pela natureza pecaminosa. Há uma singela ilustração que confere sentido ao esclarecimento do que se pretende dizer neste aspecto. Conta-se que houve um incêndio na floresta, de sorte que os animais buscavam a outra margem do rio a fim de encontrar salvação do fogo. Uma rã achando-se à beira dágua, quando iria inciar a sua travessia, foi abordada por um escorpião que lhe pediu que o conduzisse sobre suas costas, porque não possuía habilidades para o nado. Ela, muito receosa negou-lhe o pedido, alegando que ele sempre ferroava tudo o que se movia, inoculando-lhes o seu veneno fatal. Ele, por seu turno, fez mil e uma juras, afirmando que jamais faria isto, posto necessitar salvar sua própria vida. Após instar por muito tempo e por diversos argumentos, a rã concordou em levá-lo sobre seu dorso. Quando se aproximava da outra margem, a rã sentiu o terror da ferroada do inescrupuloso caroneiro. Agonizando ali junto à margem do rio, perguntou-lhe, por quê? Ele simplesmente respondeu: não consigo me controlar, é algo que ultrapassa o meu próprio controle, pois é da minha natureza ferroar tudo o que é vivo.
Ora, a fábula do escorpião infiel é similar a questão que envolve a natureza humana. É próprio do homem buscar cega e compulsivamente a autonomia e a independência em relação a Deus e a todas as demais coisas. Esta inclinação é resultante da sua contaminação por ingestão do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, acerca do qual recebera ordem para não comer. O pecado não foi o ato de comer do fruto, mas a incredulidade quanto ao decreto de Deus, acarretando muitas consequências nefastas ao homem. Na narrativa bíblica, a qual os incrédulos, incluindo-se muitos religiosos, os quais atribuem apenas valor mítico, estão encerradas muitas verdades. O fulcro central era, o decreto divino, "... dela não comerás..." e a pena condenatória prevista pela desobediência, "... certamente morrerás." O pecado consistiu em o homem não crer no decreto, ou na norma divina. A consequência foi a morte para Deus, isto é, a separação eterna d'Ele por causa do pecado. Assim, o homem é como o escorpião, que por força da sua contingência pecaminosa, não pode ter domínio sobre o seu próprio pecado. Se isto lhe fosse possível, seria o salvador de si mesmo e a humanidade estaria em alto grau de desenvolvimento e perfeição espiritual e moral, cada um seria "deus". O mal que se verifica no mundo, bem como, todas as suas consequências têm a sua origem na quebra da norma por incredulidade, a qual contamina o homem com o veneno do pecado. Assim, pecado, não é apenas o que o homem faz, mas essencialmente o que ele é em natureza.
Isto implica que a vontade do homem é contaminada, consequentemente, todos os seus desejos e decisões são também contaminados. Até o bem que o homem realiza perante a sociedade, ou mesmo em nome de Deus, é fruto da concepção de bem adquirida à revelia da natureza de d'Ele. Logo, não é o bem produzido pela vontade divina, mas pela vontade humana decaída.
Rm. 7: 15 a 19 - "Pois o que faço, não o entendo; porque o que quero, isso não pratico; mas o que aborreço, isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Agora, porém, não sou mais eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico." Este é o locus e a natureza da vontade, do querer e do efetuar na esfera humana. Absolutamente contaminado e corrompido pela natureza pecaminosa.
O apóstolo Paulo continua a exposição desta situação axiomática nos versetos 20 a 24, da seguinte forma : "Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?" Então, quando se faz algo que se tem plena consciência que não é o que se deve fazer e querer, não é o "eu" quem o faz, pois este já está crucificado, mas sim, a carnalidade que para nada aproveita. Os membros, a carne, a natureza, os desejos e a vontade não possuem nada de bom. Enquanto o homem interior, isto é, o espírito regenerado na cruz, quer sempre fazer o certo, porque está em Cristo, a carnalidade não se inclina para Deus e, portanto, produz o mal ao invés do bem. O entendimento pode ser ludibriado por uma lei, isto é, por um padrão comportamental, resultante do jogo entre a carnalidade e o espírito vivificado em Cristo. Por isso, o pecado, o qual Cristo veio destruir, destruído está na cruz, mas quanto aos atos pecaminosos produzidos pelo pecado da natureza carnal, permanece e vai sendo tratado pela santificação em Cristo, até o regenerado atingir a estatura de varão perfeito, à semelhança de Cristo. Isto se dá por um processo de deserto, o qual é solitário, escaldante e árduo.
Paulo responde a sua própria indagação no verso 25 "Graças a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor! De modo que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado." O entendimento liberto, justificado e expiado no sangue do Cordeiro que foi morto antes da fundação do mundo, está submisso à lei de Deus, por meio de Cristo. Entretanto, a carne que para nada aproveita, está a serviço dos atos pecaminosos. Assim, vontade, decisões, e escolhas não são livres como se supõe comumente nas religiões baratas resultantes da vontade escravizada do homem decaído.

O QUERER E O EFETUAR I

A malfadada vontade do homem decaído, isto é, que permanece debaixo da ira de Deus, por causa da natureza pecaminosa está, de fato, escravizada pelo pecado. Logo, não é livre nos termos e no peso deste vocábulo. Igualmente, a vontade do regenerado não é livre, mas apenas mudou de cativeiro e de senhorio. Antes a tal vontade estava presa aos delitos e pecados, porque, por natureza andava segundo o curso deste mundo, mas agora, uma vez gerados de novo, esta passou à escravidão em Cristo conforme I Co. 7: 21 a 22 - "Foste chamado sendo escravo? não te dê cuidado; mas se ainda podes tornar-te livre, aproveita a oportunidade. Pois aquele que foi chamado no Senhor, mesmo sendo escravo, é um liberto do Senhor; e assim também o que foi chamado sendo livre, escravo é de Cristo." A crucial diferença é que, na condição de escravos do pecado havia apenas a consciência da condenação eterna, mas na escravidão em Cristo há certeza da vida eterna diante de Deus.
O texto sagrado afirma em Fl. 2:13 - "... porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade." Sendo Deus o que opera, tanto o querer como o efetuar, o que resta à vontade daquele que é objeto da operação e do efetuar de Deus? Nada! Esta é a expressão clara da soberania d'Ele e do devido lugar do homem neste mundo e no mundo vindouro. Entretanto, se alguém julga que esta exegese é esdrúxula, não o é! Ora, melhor é ao homem ter a sua vontade operacionalizada e efetuada pelo Soberano Senhor do Céu e da Terra, que permanecer morto em seus delitos e pecados com destino certo ao inferno.
Acontece que o último cativeiro é melhor que o primeiro no sentido em que coloca o regenerado na plena graça de Deus. Comumente as pessoas não regeneradas, ou mesmo aqueles que ainda estão sendo aperfeiçoados em Cristo, não compreendem o que seja de fato a graça. A graça não é algo que se possa negociar com Deus, muito menos reivindicar como um amontoado de benefícios. Ele não se obriga a fazer nenhuma concessão ao homem em função de qualquer justiça ou suposto mérito deste. A graça é, antes, parafraseando Phillip Yancey, Deus operando e efetuando tudo a quem nada merece, como bem Lhe apraz. Quando se afirma que é tudo, é tudo mesmo! Os religiosos sempre afirmam que colocam seus dilemas nas mãos de Deus e se declaram inclinados à obediência da Sua vontade, além de dependentes da Sua graça. Todavia, reservam sempre uma parcela de coisas que julgam boas e agradáveis à suas visões de justiça própria, porém, como afirma o profeta Isaías, tais justiças são como "panos podres de menstruação". Não se escandalize com as palavras escritas na afirmação anterior, pois são assim mesmo que elas se acham no texto hebraico original. O tradutores é que mudaram porque julgaram que seria inconveniente aparecer assim nas Escrituras.
O homem não regenerado, sempre vê a graça de Deus como objeto de barganha, isto é, imagina que é obrigação d'Ele ser-lhe favorável em suas demandas egocêntricas. Porém, quando não são atendidos se põem a questionar a fidelidade do Oleiro Eterno. Acontece que Deus não necessita de absolutamente nada que procede do homem, como também, nada deve a ele. Tudo o que Ele decidiu fazer em favor dos eleitos, o fez por pura misericórdia, graça e soberania. Ainda segundo Phillip Yancey, misericórdia é Deus não dando ao pecador, o que de fato este merece, a saber o inferno. Deus tomou esta decisão antes dos tempos eternos conforme II Tm. 1: 9 - "... que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos..." Em que aspecto a vontade do homem determinou isto tudo que lhe foi concedido por misericórdia e graça? Em nada!
O que o homem decaído desconhece é que todos dependem em tudo de Deus, "...porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos..." Nada, absolutamente nada escapa à soberania de Deus.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

LIVRE ARBÍTRIO X

O evangelho registra em Mt. 16: 29 e 30, o seguinte: "Não se vendem dois passarinhos por um asse? e nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados." Qual o ensino contido nesta passagem? Determinismo, Indeterminismo ou Compatibilismo? Nenhum destes ensinos de homens, mas tão somente mostra o quanto Deus é absolutamente soberano. O que importa, de fato é que, enquanto o homem não regenerado continua em sua saga pela independência de Deus, o eleito confia e se rende ante a soberana vontade do Pai. O texto ressalta a falsa liberdade do homem decaído ao julgar ser possível comprar e vender as coisas criadas e sustentadas por Deus. Todavia, quem determina se estas coisas continuam ou não existindo é o  Criador. O homem se ilude com as escolhas realizadas a partir de uma moral contaminada pelo pecado como se fossem escolhas espirituais. A vontade de Deus é anterior ao homem, e consequentemente à sua vontade decaída também. As escolhas são feitas dentro dos parâmetros estabelecidos pela soberana vontade de Deus. A contabilidade do Criador é tão exata que, até mesmo os fios de cabelo das cabeças de todos os homens não Lhe escapam. Logo, qual homem pode arbitrar sobre o fio de cabelo que cai e o que não cai da sua cabeça? Qual homem, por mais entendido em ornitologia pode determinar qual o passarinho que permanecerá vivo ou morrerá? O fato de alguns homens aprisionarem passarinhos para vendê-los, não lhe garante livre arbitragem, mas indica que a sua vontade é corrompida e egoísta.
Enquanto o "Determinismo" ensina que tudo o que ocorre, isto é, todos os eventos, incluindo-se as escolhas humanas são determinadas por fatores externos, o "Indeterminismo" assevera que estas são feitas à revelia de fatores externos ou internos, isto é, simplesmente são feitas ao acaso. O "Compatibilismo" tenta conciliar a soberania de Deus e a vontade do homem, ou seja, Deus determina tudo, mas o homem possui algum tipo de possibilidade de fazer certas escolhas livres. Estas posições podem até parecer lógicas ou ilógicas, conforme cada caso, todavia não estão em conformidade com as Escrituras. Satisfazem assim, as especulações filosóficas, ou religiosas e humanistas, mas não conformam-se à verdade.
Lc. 12: 25 a 28 - "Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura? Porquanto, se não podeis fazer nem as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras? Considerai os lírios, como crescem; não trabalham, nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. Se, pois, Deus assim veste a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais vós, homens de pequena fé?" O texto fala por si mesmo, entretanto, ressalta-se o quanto o homem é de fato dependente até mesmo das mínimas coisas no universo. Os lírios do campo são um tipo da absoluta dependência de Deus, tanto para a sua manutenção, quanto para a sua destruição. A questão da falsa autonomia humana está intimamente atrelada à falta ou ausência de fé. A escassez de fé leva o homem ao pressuposto, que se pode produzir uma alternativa à soberania de Deus.
Assim, a doutrina ou falso ensino do livre arbítrio é um mero artifício da mente humana decaída, tentando produzir justiça própria. Tais ensinos estão tão enraizados aos preceitos e regras de conduta do cristianismo institucional, que não se pode dissociá-los da base de crenças dos religiosos. O pior engano é aquele que mais se assemelha à verdade. É como o joio que cresce junto aos trigais, não pode ser extirpado no todo, para que se não corra o risco de também extirpar o trigo. Entretanto, o joio não será recolhido aos celeiros eternos, posto não ser trigo. Não basta parecer trigo, é necessário ser trigo!
Jo. 10: 25 e 26 - "Respondeu-lhes Jesus: já vo-lo disse, e não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai, essas dão testemunho de mim. Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas." Os fariseus eram religiosos, porém eram incrédulos, como se depreende do texto acima. Muitos religiosos do nosso tempo lançam mão destes textos para justificar a livre vontade e o quer do homem. Todavia, não há em nenhuma instância das Escrituras, qualquer apoio ao pernicioso ensino do livre arbítrio. No caso do texto retromencionado, Cristo está mostrando aos religiosos do seu tempo, que eles não criam, não por ter escolhido não crer, mas porque não eram das ovelhas d'Ele. Isto implica dizer que a doutrina santa da eleição joga a última pá de cinzas sobre o orgulho religioso. O homem não pode crer se do céu não lho for permitido por misericórdia e graça. No máximo poderá ter religião, que, aliás, não salva, posto que é subproduto da arrogância humana.
O ensino do livre arbítrio é muito atraente aos que não experimentaram ainda o nascimento do alto em conformidade com as Escrituras. É consistente apenas para satisfazer as carências dos que, sem uma nova natureza, tentam ingloriamente reencontrar a porta do Paraíso perdido às suas próprias expensas. Esta justiça não satisfaz a exigência do "Decreto Eterno", pois, "... a alma que pecar, esta morrerá." Logo, como poderá uma alma morta em delitos e pecados produzir caminho seguro de retorno ao seio do Criador? Ainda que este artifício fosse possível, qual, então seria o papel de Cristo e da Sua expiação vicária? Seria Ele apenas um ator teatral, apresentando-se numa peça grotesca para divertimento de uma platéia cega, surda e estúpida?
Amém

LIVRE ARBÍTRIO IX

Denomina-se, comumente, de "Compatibilismo", o ensino que mostra não haver crise ou inconsistência entre o determinismo e a liberdade de escolhas do homem ou livre arbítrio. Entretanto, não se deve confundir liberdade de escolhas meramente morais e mecânicas, com a teoria do livre arbítrio, visto que, este requer absoluta independência ou indeterminismo, enquanto aquelas podem ser feitas nos limites da escravidão da vontade humana. As escolhas são feitas pelo homem dentro dos liames da sua contingencialidade escravizada pela natureza decaída ou pecaminosa ou pelos reflexos de órgãos, sistema nervoso, e reações às circunstâncias objetivas. Logo, não se trata de livre arbítrio, mas de uma espécie de pseudo-autonomia apostatada de Deus ou determinada pela contingência física. O compatibilismo geralmente define livre arbítrio como uma ação que é causada pelos próprios desejos ou vontades de um indivíduo, ao invés de ser este coagido por alguma influência externa. As possibilidades alternativas que parecem necessárias a um livre arbítrio genuíno são interpretadas pelos compatibilistas como tipicamente hipotéticas. Neste caso, fica comprometido o sentido de "livre" e de "arbítrio", pois liberdade absoluta não aceita qualquer fator determinante, e, igualmente, arbitrar é estabelecer juízos de valor e de escolhas.
"A Soberania absoluta de Deus indica que nem um pardal cai, sem a determinação divina". Os irmãos de José não foram inocentados pelos seus atos pecaminosos, ao venderem o próprio irmão aos ismaelitas. No entanto, o Deus da graça utilizou-se da maldade daqueles corações, para cumprir o Seu plano eterno. José mesmo reconhece u isto: "Foi Deus que me mandou para cá antes de vocês para que se conservasse a vida". Deus é o Senhor da História, e, esta soberania, é o que incomoda o homem portador da natureza pecaminosa e morta para a vida espiritual.
Quanto ao "livre arbítrio" pode-se afirmar à luz das Escrituras que, o homem tem vontades e desejos, mas estes estão prejudicados e escravizados pelo pecado conforme Jo. 8.32-36. Todo homem natural está sob o domínio do pecado e só Cristo pode libertá-lo. Essa escravidão implica que a vontade do homem está inclinada para o mal, mesmo quando não se pratica nenhuma ato de maldade. A imagem de Deus se manifesta no senso de justiça social, mas não no entendimento espiritual, consoante I Co. 2.14. O que se deve fazer é pregar o Evangelho e esperar o milagre, isto é, que o Espírito de Deus regenere corações de pedra em corações de carne. Pregam-se as boas novas sobre o vale de ossos secos e fica-se à espera do milagre da vida que só Deus pode dar. Mas, o homem natural, "não quer vir a Cristo para ter vida". Só passa a querer quando o Espírito o regenera." José Normando, Soberania de Deus e Liberdade Humana, arminianismo.com. Com adaptações.
Estes ensinos esdrúxulos sempre existiram ao longo da história da Igreja, porque todo homem não regenerado é, por natureza, um libertariano, isto é, luta em favor da plena liberdade de escolha humana. Pelágio foi um desses homens, sendo monge britânico de certa posição e de uma reputação muito elevada. Ele, com seu amigo Celéstio, foram à Roma, onde viveram no início século V, e se opuseram com veemência a certas opiniões aceitas a respeito do pecado original e da necessidade da graça divina.
Os pelagianos, afirmam que não houve nenhum "... prejuízo do pecado de Adão, que somos agora tão capazes de obediência à vontade de Deus como ele foi, que, de outra forma, teria sido cruel e absurdo propor à humanidade o cumprimento de certos deveres, com a aprovação de recompensas e a ameaça de punições, e que, consequentemente, os homens são nascidos sem vício assim como sem virtude.” Pelágio e seus adeptos também são acusados de ter afirmado “que é possível aos homens, contanto que eles plenamente empreguem os poderes e capacidades com que foram dotados, viver sem pecado,” e embora ele não tenha negado que a graça externa, ou seja, as doutrinas e as motivações do Evangelho, são necessários, todavia, rejeitou a necessidade da graça interna, ou o convencimento do Espírito Santo como ensina em João 15 e 16. Ele reconheceu “que o poder que possuímos de obedecer à vontade de Deus é um dom divino,” mas afirmou “que o controle deste poder depende de nós mesmos, que a morte natural não é uma consequência do pecado de Adão, mas da constituição física do homem, e que Adão teria morrido ainda que não tivesse pecado.” Isidoro, Crisóstomo e Agostinho vigorosamente se opuseram a estas opiniões, e as últimas obtiveram sua condenação em um sínodo realizado em Cartago em 412 d. C.
Vê-se a que ponto a heresia pode chegar: nega tudo o que as Escrituras afirmam sobre a natureza pecaminosa do homem, utilizando-se, supostamente, das mesmas Escrituras. É assim que age a operação do erro dentro das igrejas institucionais: torcem, contorcem e distorcem as Escrituras, para negá-las em nome da verdade e de uma melhor compreensão da verdade. Entretanto, a verdade não é uma concepção, mas uma pessoa, a saber Cristo conforme Jo. 14:6.

LIVRE ARBÍTRIO VIII

A tese do livre arbítrio é tão atraente ao homem no pecado, que dificilmente será banida do seu ideário. Ela possui uma dualidade de sentido: de um lado dá a falsa noção de autonomia em relação a Deus, colocando o destino em mãos próprias, de outro lado, mantém o orgulho e a rebelião contra a soberania e a graça plena d'Ele. Isto satisfaz, tanto à natureza pecaminosa, quanto ao arqui-inimigo de Deus, o qual ousou formar para si um reino em aparteismo ao único reino eterno do Criador. É uma enorme satisfação pecaminosa ter a noção de que uma outra alternativa é possível. O homem em estado de degenerescência sempre busca um caminho alternativo à solução da morte causada pelo pecado. Basicamente, todas as crenças e religiões coloca o poder de decisão nas mãos do homem. A teoria do livre arbítrio é mais uma dessas crenças. Ela cria uma situação mais ou menos assim: "Deus vota em favor do homem, o Diabo vota contra o homem, mas este é quem faz a opção sobre o que quer para sua destinação eterna." Percebe-se esta tendência em quase todas as propostas religiosas e em quase todos os sistemas teológicos. Até mesmo em algumas vertentes do cristianismo, que supostamente deveriam conhecer a verdade, este fato é perceptível. Desenvolvem uma teologia paralela à única teologia possível, isto é, a revelação do próprio Deus por meio das Escrituras. A única revelação posta diante do homem é aquela em que, Ele mesmo, se faz revelar e revelado por Sua eterna e santa Palavra.
Sl. 139:16 - "Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles." Quando nem mesmo os olhos do próprio homem o pode ver, Deus o está vendo; quando sequer o homem tem consciência de si mesmo, Deus está anotando tudo em seus livros eternos; quando sequer o homem sabe se nascerá ou morrerá, Deus já preordenou todos os seus dias. Ora, o que sobra ao famigerado livre arbítrio? Como Paulo propõe sob inspiração em At. 26:14 - "E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me dizia em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões." Qual foi a liberdade de arbitrar que sobrou a Saulo de Tarso e aos seus companheiros de empreitada contra a Igreja no caminho de Damasco? Poderia ele, recalcitrar contra a aguilhada? O que coube ao seu livre arbítrio ante a poderosa fanerousia de Cristo? A única resposta de Saulo foi: "... Quem és, Senhor?" Para quem perseguia a Igreja, e consequentemente, o Senhor dela, é uma grande mudança chamá-Lo de Senhor, não?
Is. 46: 8 a 10 - "Lembrai-vos, disto, e considerai; trazei-o à memória, ó transgressores. Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro; eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho subsistirá, e farei toda a minha vontade." Nesta passagem, o Senhor Deus está, não apenas, chamando à consciência do homem de que somente Ele é Deus, mas também relembrando-o de que é um transgressor. Deus é único, e igualmente o único em todo o universo capaz de ver, predizer e realizar feitos antes mesmos deles acontecerem, que faz o seu conselho subsistir e faz absolutamente toda a Sua vontade. Deus realiza toda a Sua vontade, até mesmo a vontade do homem Lhe está sob controle. Assim, quando alguém se inclina para as Escrituras, deseja conhecer Deus, se volta para a verdade, e ganha a vida de Cristo, não é por força do livre arbítrio, mas por misericórdia e graça de Deus. Pois, "é ele quem perdoa todas as tuas iniquidades, quem sara todas as tuas enfermidades, quem redime a tua vida da cova, quem te coroa de benignidade e de misericórdia, quem te supre de todo o bem, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia..." Sl. 103: 3 a 5.
Jó 38: 2 a 4 - "Quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento? Agora cinge os teus lombos, como homem; porque te perguntarei, e tu me responderás. Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Faze-mo saber, se tens entendimento." Deus indaga a Jó quem era ele, visto que sem o mínimo de conhecimento estava escurecendo o conselho d'Ele com opiniões oriundas de uma mente decaída. Então, o Senhor o faz assumir o seu lugar de homem pecador e o interroga acerca de incontáveis maravilhas feitas antes de existir o homem na face da Terra. Fala-lhe de como Ele ordenou todas as coisas no universo por leis fixas e preordenadas. Ironicamente Deus inquire a Jó no verso 21: "De certo tu o sabes, porque já então eras nascido, e porque é grande o número dos teus dias!"
Jó é o tipo do homem decaído, mas que pretensamente acredita que tinha justiça própria e méritos perante Deus por ter desenvolvido uma retidão, integridade, temor e desvio do mal pela força da sua própria carnalidade. O que Deus realiza no homem não é apenas informação acerca do que é certo e do que é errado, mas opera nos eleitos o querer e o efetuar, dando-lhe um novo coração e um espírito novo conforme Ez. 18:31 - "... e criei em vós um coração novo e um espírito novo..."

sexta-feira, 2 de maio de 2008

LIVRE ARBÍTRIO VII

A crença no livre arbítrio foi defendida como importante para o julgamento moral por diversas autoridades religiosas e criticada por diversos filósofos, como, por exemplo, Spinoza e Karl Marx. Teologicamente falando, frequentemente se alega que a doutrina da Onisciência de Deus está em conflito com a tese do livre arbítrio. Afinal de contas, se Ele sabe exatamente o que ocorrerá, incluindo cada escolha feita por cada pessoa, o status das escolhas como livres está em questão e se torna absolutamente sob suspeita de fraude. Parece que o conhecimento eterno de Deus sobre as escolhas individuais constrange a liberdade individual. Mais uma vez estamos diante de uma questão axiomática, pois, ou o homem reconhece que Deus é Soberano e Onisciente, ou terá de eliminá-Lo e atribuir absoluta liberdade e arbítrio a si próprio.
Na perspectiva da teologia estritamente cristã, Deus é descrito como Onisciente e Onipotente. Por esta razão, muitas pessoas, cristãs e não-cristãs, acreditam, não apenas, que Deus sabe quais decisões o indivíduo tomará amanhã, mas também que Ele determina tais escolhas. Todavia, proponentes do livre arbítrio alegam que o conhecimento de um acontecimento é totalmente diferente da causação do acontecimento. Entretanto, todas as Escrituras mostram Deus como, não só conhecendo, mas também, determinando tudo soberanamente. A verdade é que o homem em seu estado decaído e totalmente depravado não alcança o significado exato de soberania.
Admitindo-se que Deus é Soberano, Onisciente e Onipotente, deixemos que Ele fale por Si mesmo em Is. 43:13 - "Eu sou Deus; também de hoje em diante, eu o sou; e ninguém há que possa fazer escapar das minhas mãos; operando eu, quem impedirá?" Nesta mesma linha vejamos o texto de Fl. 2:13 - "... porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade." De que categoria ou natureza de operação o texto fala? Se a operação abrange, tanto o querer, como o efetuar, o que sobra ao livre arbítrio? Se a operação é segundo a boa vontade de Deus, em que interfere a vontade do homem? Em nada!
A posição calvinista é enfaticamente contrária ao livre arbítrio, pois os calvinistas defendem a doutrina da eleição, a qual mostra que Deus escolheu aqueles que serão redimidos, antes da criação do mundo. Um dos maiores defensores dessa visão teológica foi Johnathan Edwards cuja vida e obra não pode ser colocada em questão. Foi um autêntico cristão no viver e no falar.
Edwards defende que o "Indeterminismo" é incompatível com a dependência dos indivíduos em relação a Deus, e, por conseguinte, com a Sua Soberania. Ele conclui, que, se as respostas dos indivíduos à graça de Deus são contra-causalmente livre, então sua salvação depende parcialmente deles - indivíduos - e, por isso, a Soberania d'Ele não seria absoluta e universal. No livro "Liberdade da Vontade", Edwards defende o "Determinismo Teológico", e alega que o "Libertarianismo" é incoerente. Por exemplo, ele argumenta que por autodeterminação, o "Libertarianismo" quer dizer, ou que as ações do indivíduo, incluindo seus atos de vontade, são precedidos por um ato de vontade, o que leva a um regresso ao infinito, ou que os atos da vontade do indivíduo não têm causas suficientes, o que nos levaria a concluir que os atos da vontade ocorrem acidentalmente. Sendo assim, o livre arbítrio não torna ninguém digno de aprovação ou reprovação, tanto perante Deus, quanto perante os homens.
No "Metodismo" que é um ramo do protestantismo nascido no século XVIII, na Inglaterra, graças a dois grandes clérigos anglicanos: John Wesley e George Whitefield. O motivo de discórdia e posterior separação entre eles, não de inimizade ou de conflito, já que, por exemplo, Wesley foi o pregador no serviço fúnebre de seu grande amigo Whitefield, foi exatamente essa questão do livre arbítrio. Whitefield era Calvinista e Wesley Arminiano. O Arminianismo é uma teoria teológica surgida na Holanda e que influenciou uma boa parte da teologia ocidental, embora condenada pelos calvinistas no Sínodo de Dort em 1618/19, juntamente com o seu criador, Tiago Armínio. No entanto hoje, grande parte, senão maioria da cristandade protestante é arminiana. O Arminianismo consiste na crença da teoria do livre-arbítrio, explicado da seguinte maneira, opondo-se aos famosos cinco pontos do Calvinismo, isto é, os cinco artigos de fé contidos na “Remonstrance”, resumidos da seguinte forma: 1) Deus elege ou reprova na base da fé prevista ou da incredulidade do homem decaído; 2) Cristo morreu por todos os homens, em geral, e em favor de cada um, em particular, embora somente os que creem sejam salvos; 3) Devido à depravação do homem, a graça divina é necessária para a fé ou qualquer boa obra; 4) Essa graça pode ser resistida; 5) Se todos os que são verdadeiramente regenerados vão seguramente perseverar na fé é um ponto que necessita de maior investigação. Esse último ponto foi depois alterado para ensinar definitivamente a possibilidade de os realmente regenerados perderem sua fé, e, por conseguinte, a sua salvação. Todavia, nem todos os arminianos estão de acordo, nesse ponto. Há muitos que acreditam que os verdadeiramente regenerados não podem perder a salvação e estão eternamente salvos. A salvação é realizada através da combinação de esforços de Deus, que toma a iniciativa, e do homem, que deve responder positivamente a essa iniciativa, o que é chamado de sinergismo, contra o monergismo calvinista. A resposta do homem é o fator decisivo, ou determinante, ou causal. Deus tem providenciado salvação para todos, mas Sua provisão só se torna efetiva e eficaz, para aqueles que, de sua própria e livre vontade, “escolhem” cooperar com Ele e "aceitar" Sua oferta de graça. No ponto crucial, a vontade do homem desempenha um papel decisivo. Este era o sistema de doutrina apresentado na “Remonstrance” - Representação - dos Arminianos e rejeitado pelo sínodo de Dort, como sendo heresia, após cerca de 155 reuniões.
Ao que parece, o homem natural tem uma forte inclinação para aquilo que é herético e que não consta das Escrituras, pois hoje, quase a totalidade do cristianismo nominal possui forte apelo e caráter arminiano. Todavia, sabe-se que Deus nunca se relacionou ou trabalhou com a maioria a ponto de Cristo afirmar em Mt. 7: 13 e 14 - "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram."

LIVRE ARBÍTRIO VI

Para Isaiah Berlim, assim como muitos outros, para uma escolha ser livre, o agente deverá ter a capacidade de agir de outra maneira, ou seja, de optar por outra alternativa além da posta diante dele. Esse princípio, chamado por Peter van Inwagen de "Princípio das Possibilidades Alternativas", é considerado pelos seus defensores como uma condição necessária para a liberdade. Nessa visão os atos realizados sob a influência de uma coerção irresistível não são livres, e o agente não é moralmente responsável por eles. Então, neste caso, a carga genética e as influências do meio natural, não seriam coercitivos e irresistíveis? O que o homem pode fazer acerca da sua hereditariedade que pode levá-lo a ser propenso a uma ou outra doença, a um ou outro comportamento? E o que o livre arbítrio poderia fazer contra um vulcão, um terremoto, uma seca, uma enchente, etc?
Para Harry Frankfurt e Daniel Dennet, o livre arbítrio é aceitável, mesmo com base em escolhas coercitivas e irresistíveis, quando coincidem com os desejos do agente. Assim, a capacidade de agir de outro modo só faz sentido quando lidamos com expectativas, e não com algum futuro desconhecido e incognoscível.
Na neurologia a questão do livre arbítrio é vista assim: "há várias desordens relacionadas ao cérebro que podem ser chamadas de desordens do livre arbítrio. Na desordem-compulsiva-obsessiva um paciente pode sentir uma necessidade irresistível de fazer algo contra a própria vontade. Exemplos incluem lavar as mãos várias vezes ao dia, reconhecendo o desejo de lavar as mãos como o próprio desejo embora pareça ser contra a própria vontade. Na "Síndrome de Tourette" e síndromes relacionadas o paciente faz movimentos involuntários, por exemplo tiques e proferimentos. Na síndrome da mão estranha 'alien hand syndrome' o membro do paciente faz movimentos significativos sem que ele tenha a intenção." Logo se vê que é um conceito forçado de livre arbítrio, já que o agente está condicionado por um mal, sobre o qual ele não tem controle ou domínio.
No Hinduísmo a questão do livre arbítrio se resume assim: "a mente é parte integrante da natureza, a qual está vinculada à lei de causalidade. Porque a mente está vinculada a uma lei, ela não pode ser livre. A lei de causalidade como aplicada à mente é chamada karma." Esta posição foi assimilada e adaptada pelo espiritismo.
No Budismo a coisa é assim encaminhada: "os ensinamentos sobre o karma são interessantes por causa da sua combinação de causalidade e livre arbítrio. Se as coisas fossem totalmente causadas não haveria meio de se desenvolver uma habilidade - suas ações seriam totalmente determinadas. Caso não houvesse causalidade alguma as habilidades seriam inúteis, pois as coisas estariam mudando constantemente sem qualquer tipo de rima ou razão entre elas. Mas é porque há um elemento de causalidade e porque há um elemento de livre arbítrio que você pode desenvolver habilidades na vida. Você se pergunta: o que está envolvido no desenvolvimento de uma habilidade? - basicamente isso significa ser sensível a três coisas: 1) é ser sensível a causas vindo do passado, 2) é ser sensível ao que você está fazendo no momento presente e 3) é ser sensível aos resultados do que você está fazendo no momento presente - como essas três coisas vêm juntas."
A ciência coloca as coisas do seguinte modo: "ao longo da história da ciência foram feitas várias tentativas de responder à questão do livre arbítrio através de princípios científicos. O pensamento científico frequentemente figurou o universo de maneira determinista, e alguns pensadores acreditaram que para predizer o futuro é preciso simplesmente ter informação suficiente sobre o passado e o presente. Essa visão encoraja as pessoas a verem o livre arbítrio como uma ilusão."
A ciência atual é uma mistura de teorias deterministas e estatísticas. A mecânica quântica prevê observações apenas em termos de probabilidades. Isso põe em dúvida se o universo é determinado ou não. Alguns cientistas deterministas, como Albert Einstein, acreditam na
'Teoria da Variável Oculta', isto é, que no fundo das probabilidades quânticas há variáveis postas. O teorema de Bell põe essa crença em dúvida, e sugere que talvez Deus esteja jogando dados, o que poria em dúvida as previsões do 'Demônio de La Place'. Ou talvez Deus não jogue dados, mas apenas siga sua vontade, sendo a mesma não determinada por nada, nem mesmo por um objeto formal como o bem ou a verdade, tal como na teoria das verdades eternas de Descartes."
"Os biólogos, como os físicos, frequentemente trataram da questão do livre arbítrio. 'Natureza x Nutrição' é um dos debates mais calorosos. O debate questiona a importância da genética e da biologia no comportamento humano quando comparados com a cultura e o ambiente. Os estudos genéticos identificaram vários fatores genéticos específicos que afetam a personalidade do indivíduo, de casos óbvios com a 'Síndrome de Down' a efeitos mais sutis como a predisposição estatística à esquizofrenia. Todavia, não é certo que a determinação ambiental é menos ameaçadora para o livre arbítrio do que a determinação genética. A última análise do genoma humano mostra que temos apenas uns 20.000 genes. Tais genes, e o material genético 'intron' reconsiderado, junto com o redescrito MiRNA, permite um nível de complexidade molecular análogo à complexidade do comportamento humano. Desmond Morris e outros antropólogos evolucionários estudaram a relação entre comportamento e seleção natural em humanos e outros primatas. A investigação mostra que a genética humana pode ser insuficiente para explicar tendências comportamentais, e que fatores ambientais evolucionariamente vantajosos, como o comportamento dos pais e os padrões culturais, modulam tais fatores genéticos. Nenhum desses fatores, complexidade genética e comportamento cultural vantajoso, requer o livre arbítrio para explicar o comportamento humano."

LIVRE ARBÍTRIO V

Alguns bons argumentos de Martinho Lutero na obra "A Escravidão da Vontade" são dignos de consideração. O primeiro versa sobre "a culpa universal da humanidade prova que o 'livre arbítrio' é falso." O segundo afirma que "o domínio universal do pecado prova que o 'livre arbítrio' é falso." Também o seguinte argumento: "o 'livre arbítrio' não pode obter aceitação diante de Deus através das observância da lei moral e cerimonial."
A respeito da culpa universal, Paulo é categórico em Rm. 3:9 - "Que se conclui? Temos nós, os judeus, qualquer vantagem sobre os gentios? não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado". Todos, de qualquer etnia, em qualquer tempo e lugar estão debaixo do pecado e esta é uma decisão de Deus conforme Rm. 11:32 - "Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos." Logo, como pode alguém argumentar que há de fato algum nível ou tipo de liberdade para arbitrar ou fazer escolhas absolutamente livres?
Precisamente, porque a escravidão ao pecado é algo universal, ela faz do homem decaído um ser totalmente depravado e incompetente para buscar, querer e se voltar para Deus às suas próprias expensas conforme Rm. 3:10 a 12 - "Não há justo, nem sequer um, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer." Sem a justiça, o homem não pode participar em aspecto algum da natureza de Deus. Por isso, foi necessário a manifestação do Justo de Deus, Cristo, para justificar o pecador e torná-lo aceitável perante o Pai consoante I Pd. 2:5 - "... sois edificados como casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo." No tocante ao entendimento, este está entenebrecido e obscurecido pelo pecado conforme Ef. 4:18 - "... para que não mais andeis como andam os gentios, na verdade da sua mente, entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração."
Quanto a buscar a Deus por parte do homem decaído é outra impossibilidade, o que prova a ausência total de livre arbítrio. Há de fato uma inimizade natural entre o homem decaído e Deus conforme Rm. 8: 7 e 8 - "Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser; e os que estão na carne não podem agradar a Deus." Não há como a carnalidade agradar e se inclinar para Deus, porque Ele é Espírito e só pode ser adorado em espírito em em verdade. Portanto, só por intermediação de Cristo isto é possível consoante Rm. 8: 9 a 11 - "Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele. Ora, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo Jesus há de vivificar também os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita."
Quanto ao extravio e à inutilidade do homem é verificável ao longo da história estes fatos pela futilidade dos seus atos e pela desesperada tentativa de construir um paraíso fora de Deus. O mal moral que aflige a humanidade, as enfermidades e o caos na natureza atestam o grave estado de degenerescência do homem fora de Deus.
O livre arbítrio é uma falácia que provém dos ensinos gnósticos desde os primeiros tempos da Igreja primitiva. Eles foram penetrando sorrateiramente e se avolumando, na medida em que a humanidade foi superando certas limitações e obtendo maior grau de autonomia. Entretanto, o famigerado livre arbítrio não é capaz de obter aceitação diante de Deus por intermédio da lei, quer seja moral, quer cerimonial de acordo com Rm. 3: 20 e 21 - "...porquanto pelas obras da lei nenhum homem será justificado diante dele; pois o que vem pela lei é o pleno conhecimento do pecado." Embora Jerônimo, por volta do século IV, tenha dito que este texto abrangia apenas a lei cerimonial, sabe-se que abrange as duas, visto que Paulo menciona a questão da impossibilidade de justificação e que a lei apenas revela a consciência do pecado. Esta ideia é absurda até pela lógica simples, pois desta forma a graça de Deus seria útil apenas para nos livrar da lei cerimonial, logo como ficaria a lei moral? Quem pode obedecê-la plenamente? Ninguém!
Em Gl. 3.10, Paulo escreveu: "Todos quantos, pois, são das obras da lei, estão debaixo da maldição; porque está escrito: maldito todo aquele que não permanece em todas as cousas escritas no livro da lei, para praticá-las". Assim, põe termo a essa falsa doutrina do livre arbítrio, pois ou o homem está condenado pela escravidão da sua vontade ao pecado, ou a graça de Deus é perfeitamente dispensável, já que ela apenas nos livra da lei cerimonial. Pelo texto de Gálatas, fica claro que, ou o pecador é liberto da escravidão do pecado, ou ele permanece maldito, porquanto ninguém é capaz de cumprir todas as exigências da lei moral.

LIVRE ARBÍTRIO IV

Falar em liberdade plena ou livre arbítrio é um mero conceito, pois não há liberdade absoluta, quando se estabelece uma situação relacional. Isto quer dizer que, se um objeto ou ente está relacionado a outro, logo não é absolutamente livre. Qualquer que seja o grau de relação, interferência, ou dependência restringe a liberdade. Assim, se o homem depende de luz, ar, água, alimentos e estes estão relacionados a outros fatores, já não há liberdade total. Sabendo-se que até mesmo os desejos e a vontade humana não surgem do nada, porque do nada se obtém apenas nada, logo o homem é um ser relativizado e não absoluto. O que ocorre, geralmente é que o homem confunde o seu desejo de liberdade e de autonomia com a realidade da livre agência. O próprio fato de o ser humano estar preso às variáveis tempo e espaço, o torna condicionado a uma determinada escala de determinismo ou restrição de liberdade.
Seguindo o padrão bíblico, não há como conceber o livre arbítrio, visto que a própria vontade do homem está escravizada pelo pecado conforme Rm. 7:15, 18 a 21 - "Pois o que faço, não o entendo; porque o que quero, isso não pratico; mas o que aborreço, isso faço. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo." Um homem do porte de Paulo, percebia esta contradição entre o seu querer e o seu realizar, logo, onde está o livre arbítrio?
No século XVI, travou-se um grande debate sobre a escravidão da vontade e o livre arbítrio, entre Erasmo de Roterdã e Marinho Lutero. Ambos de enorme capacidade intelectual e de profundo espírito analítico. Erasmo publicou em 1524, a obra "Diatribe Sobre o Livre Arbítrio", nesta obra defendia a posição que o homem possui liberdade de escolhas. Marinho Lutero publicou em 1525, a obra "De Servo Arbítrio, A Escravidão da Vontade", a qual defendia a tese que o homem não possui livre arbítrio.
"Na estima de Lutero, o tratado erasmiano era uma obra da carne. Contendo uma anamnese mal feita, partia de um princípio falso e oferecia um placebo para uma ferida mortal. Lutero repudia o Diatribe de Erasmo expondo a doutrina bíblica do pecado original. Sem um diagnóstico preciso acerca da enfermidade humana, não há como discernir de maneira apropriada o valor das boas novas do evangelho da graça de Cristo. Em sua réplica, Lutero procede a um honesto e rigoroso exame das Escrituras Sagradas, evidentemente preterido por Erasmo."
"Foi com a compreensão do puro evangelho que se abriu para Lutero a noção do cativeiro radical da vontade. Sem nenhuma dúvida, na doutrina da depravação do homem situa-se a pedra angular da Reforma. No coração da teologia de Lutero e da doutrina da justificação, está a sua compreensão da depravação original e da pecaminosidade do homem – que ele conheceu muito bem, mesmo como um monge asceta na Ordem Agostiniana. O reformador está muito bem qualificado para tratar do assunto da impiedade e da depravação."
"O que é a verdadeira liberdade? Neste caso, vê-se também que o discurso sobre a condição servil da vontade não visa a outra coisa, se não ao discurso correto sobre a liberdade. Para Lutero, a livre vontade é um termo divino, e não cabe a ninguém, a não ser unicamente à majestade divina. Conceder ao ser humano tal atributo significaria nada menos do que atribuir-lhe a própria divindade, usurpando a glória do Criador. Lutero, assim, compreende que a pergunta pela liberdade da vontade no fundo é a pergunta pelo poder da vontade. Por isso mesmo, a livre vontade é predicado de Deus. É poder essencialmente específico do próprio Deus."
Assim, percebe-se que a questão do livre arbítrio não se circunscreve à esfera da vontade humana, visto que ela está escravizada e relativizada. Só Deus possui absoluta liberdade de vontade, pois é anterior a todas as outras coisas e seres. O que se vê comumente é a velha dissimulação da vontade humana escravizada pela natureza pecaminosa, tentando achar uma autonomia e liberdade fora dos padrões de Deus. Esta saga se iniciou no Éden e prossegue com base na frenética busca científica pela imortalidade e total independência do homem.
II Pd. 2: 19 - "... prometendo-lhes liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção; porque de quem um homem é vencido, do mesmo é feito escravo." O apóstolo Pedro está denunciando a prepotência dos religiosos judeus que, sendo eles mesmos escravos da mente corrompida pelo pecado, querem impor regra sobre regra e preceito sobre preceito, fazendo dos seus prosélitos outros escravos da religião. Esta mesma verdade perdura até os dias de hoje e talvez até com maior requinte, visto vivermos em um quadrante da história, onde há maiores e mais requintados argumentos e mecanismos de persuasão

quinta-feira, 1 de maio de 2008

LIVRE ARBÍTRIO III

Lentamente algumas teses vão sendo incorporadas à religião cristã nominal, porque os religiosos necessitam se conformar aos padrões aceitos e praticados pela sociedade, pois temem perder o bonde da história. Eles imaginam, que, ao se acomodar aos princípios consagrados em um determinado momento histórico lhes garante perpetuidade no tempo e no espaço. Desta maneira vão incorporando bases filosóficas, elementos científicos e preceitos ecléticos ao rol das suas crenças a fim de sobreviver às drásticas mudanças provocadas pela modernidade. Verificando-se os credos mais antigos do cristianismo, as declarações de princípios e as confissões de fé, verificam-se grandes alterações na base da verdadeira fé cristã. Doutrinas que eram consideradas normais e comuns aos cristãos dos três ou quatro primeiros séculos, foram modificadas a partir do quarto século, por mera influência do Império Romano. Isto foi devido a falsa conversão do imperador Constantino, tendo havido, na verdade, uma acomodação de parte do cristianismo aos valores e práticas do culto não-cristão de Roma. Por volta do século IV até o século VI, a igreja original e primitiva sofreu inúmeras modificações não apenas em seus ritos, mas em sua forma e conteúdo doutrinário. As chamadas questões cristológicas dos séculos II, III e IV trouxeram muitas dissenções e novas maneiras de praticar o cristianismo. Aquilo que era uma pura fé bíblica, passou a introduzir elementos humanistas, filosóficos, secularistas, etc. A igreja passou a ser uma instituição, adquiriu uma organização hierárquica e desenvolveu formas de governos mais empresariais e pragmáticos.
Na Idade Média, a situação ficou tão crítica que, acabou por provocar a Reforma Protestante no início do século XVI. Com a reforma, voltou-se a procurar uma maior seriedade e aproximação da fé bíblica. Surgiram muitos debates, divisões e subdivisões por meio de controvérsias e discordâncias doutrinárias. Mas, isto tudo serviu para purificar a fé verdadeira. Quanto mais se debatia, mais os cristãos autênticos se afirmavam nas Escrituras somente. Os demais seguiam com suas teses mescladas de mundanismo e conformismo com padrões anti-bíblicos.
No pós Reforma Protestante, a religião cristã sofreu ao longo de dois ou três séculos, inúmeras influências do renascentismo, do iluminismo, do cientificismo e do pensamento libertarista. Entretanto, é necessário fazer aqui um entendimento: quando se fala de religião cristã, estamos nos referindo à igreja enquanto instituição e ao cristianismo histórico e nominal apenas. Quando nos referimos ao verdadeiro cristianismo, faz-se apenas com base na fé conservada nos moldes das Escrituras e na simplicidade do evangelho de Cristo. Não é religião! É a verdade compendiada e revelada por Deus.
Por causa dos desvios e interferências humanistas na religião histórica é que a teoria do livre arbítrio é tão aceita e divulgada. Quase sempre em debates sobre soberania, graça, escolhas e responsabilidade moral do homem, os religiosos apontam para o livre arbítrio como explicação e justificativa para muitas atitudes e posições. É uma doutrina estranha às Escrituras e de difícil definição até mesmo à filosofia, mas que apresenta uma falsa lógica, satisfazendo, assim, muitas perguntas e explicações falsas. Como muitos religiosos não têm experiência de novo nascimento imaginam que têm no falso ensino do livre arbítrio um forte aliado para justificar o injustificável.
A questão do livre arbítrio e da responsabilidade moral do homem é um nó que cria muitos debates e pouca verdade. Isto porque, o homem que não experimentou o nascimento do alto, não consegue admitir a soberania de Deus. Sem esta admissão, a graça, a fé, a eleição, a morte inclusiva e substitutiva em Cristo, bem como a dependência plena de Deus ficam prejudicadas ou mesmo desconhecidas.
O apóstolo Paulo, em Rm. 9:21, põe em tela a questão da responsabilidade moral da seguinte maneira: "Porventura não é o oleiro senhor do barro para poder fazer da mesma massa um vaso para uso honroso e outro para uso vil?" Nessa visão os indivíduos podem ser desonrados pelos seus atos mesmo embora esses atos sejam, no final das contas, completamente determinados por Deus.
Uma visão similar defende que a culpabilidade moral do indivíduo repousa no seu caráter. Isto é, uma pessoa que tem o caráter de um assassino não tem outra escolha senão assassinar, mas ainda assim pode ser punida porque é certo punir aqueles que tem um mau caráter. Isto é confirmado pelo fato de a natureza humana estar absolutamente corrompida pelo pecado e inclinada para o mal moral. Ou seja, querendo ou não, o homem decaído está em estado de rebelião contra Deus, não apenas nos seus maus atos, mas também nos atos bons. Não é uma questão do que se faz, mas do que se é em natureza. Ora, uma laranjeira dará invariavelmente laranjas, enquanto uma macieira dará invariavelmente maçãs.
Estas idéias de livre arbítrio resultam de influências gnósticas e filosóficas no cristianismo nominal e histórico. Elas servem de ensejo ao surgimento de variantes teológicas que fogem cada vez mais da simplicidade do evangelho e se aproximam mais e mais do humanismo baseado em uma lógica formal.
A "Teologia do Processo", também conhecida como "Teologia Neoclássica" é uma escola de pensamento influenciada pela filosofia do processo, de Alfred North Witehead. Ricardo Gondim é o representante dessa linha teológica no Brasil, com a variante denominada de "Teologia Relacional" ou "Teísmo Aberto".
A Teologia do Processo se subdivide em Teísmo Fechado e Teísmo Aberto. No geral postulam o seguinte: Deus não é onisciente no sentido coercitivo; a realidade não é feita de substâncias materiais, mas por eventos ordenados por uma série, que são experimentais na natureza; o universo é caracterizado pelo processo e mudança, carregado pelos agentes do livre arbítrio. A autodeterminação caracteriza tudo, e não apenas seres humanos. Deus não pode forçar nada a acontecer, apenas exercer seu livre arbítrio, possibilitando novas possibilidades; Deus contém o universo, mas não é idêntico a ele; por Deus conter o universo, este está em mudança, Deus muda, é afetado por aquilo que acontece no universo; Teísmo dipolar, é a ideia que um Deus perfeito não pode ser limitado por certas características; em relação a vida após a morte, há divergências se as pessoas experimentam uma experiência subjetiva, ou uma experiência objetiva.
Estas ponderações foram aqui colocadas para o efeito de verificação do quanto uma pequena distorção da verdade pode criar inúmeras ideias errôneas acerca de Deus e da Sua Palavra. Com isto confirmam as Escrituras que afirmam ser largo e espaçoso o caminho do erro.


LIVRE ARBÍTRIO II

A questão do livre arbítrio cria mais do que um simples axioma. Ela supõe a quebra da soberania de Deus, posto que, se alguém ou alguma coisa é capaz de existir livre de qualquer causa, logo, Deus não é soberano. Admitindo-se que Ele é soberano, como a Sua própria Palavra o diz, qualquer partícula, em qualquer canto do universo que Lhe escape ao controle, o faz mentiroso e um ser relativizado. Neste caso, o homem terá de optar por ser "deus" no lugar do verdadeiro Deus soberano. Como esta possibilidade é, por si mesma, absurda, resta apenas reconhecer que o homem nem é livre, nem possui poder de arbitrar nada fora da vala comum nos liames da natureza escravizada pelo pecado.
Não há consenso sobre o conceito do livre arbítrio nem mesmo na filosofia. Para os filósofos a possibilidade de o homem fazer escolhas metafísicas entre alternativas genuínas acarreta, no mínimo, três situações: a determinista, a libertarianista e a compatibilista.
O determinismo assevera que todos os acontecimentos, inclusive vontades e escolhas humanas, são causados por acontecimentos anteriores, ou seja, o homem é fruto direto do meio, logo, destituído de liberdade de decidir e de influir nos fenômenos em que toma parte. O determinismo rejeita a ideia que os homens têm algum livre arbítrio. Assim, o determinismo admite que há uma causa causadora das escolhas humanas, seja pela vontade, seja fora da vontade.
A doutrina libertarianista opõe-se ao determinismo, uma vez que defende a existência do livre arbítrio pleno nos indivíduos. Uma das formas de libertarianismo é o indeterminismo e defende que as ações livres do homem são produzidas por efeitos sem causas anteriores ou fora das próprias ações. Entretanto, há os que creem, que, ao invés da volição ser um efeito sem causa, defendem que o livre arbítrio e a ação do agente sempre produz o evento. Esta situação é bastante contraditória, pois admite evento determinado pela liberdade de agir, mas como alguém age livremente, se depende da liberdade ou da vontade para isso? Daí, surge a dificuldade de dar à liberdade uma categoria exequível ou factível. Produz-se, neste caso, uma contradição conceitual.
Há ainda o compatibilismo que é a visão que o livre arbítrio emerge mesmo em um universo sem incerteza metafísica. Compatibilistas podem definir o livre arbítrio como emergindo de uma causa interior, por exemplo os pensamentos, as crenças e os desejos. Seria resumidamente o livre arbítrio que respeita as ações, ou pressões, internas e externas. A filosofia que aceita tanto o determinismo, quanto a liberdade de escolhas é chamada de “soft determinism”, expressão cunhada por William James para designar o que hoje chamamos de livre arbítrio compatibilista. Desta forma, tentou-se encontrar um meio termo ou uma via exequível.
A visão oponente ao Compatibilismo é o Incompatibilismo, sendo que esta visão não admite qualquer maneira de conciliar a crença em um universo determinístico com o livre arbítrio verdadeiro. Assim, ela acaba por reforçar o determinismo, e, com isto, nega o compatibilismo.
Spinoza compara a crença humana no livre arbítrio a uma pedra pensando que escolhe o caminho que percorre enquanto cruza o ar até o local onde cai. Ele diz: "as decisões da mente são apenas desejos, os quais variam de acordo com várias disposições"; "não há na mente vontade livre ou absoluta, mas a mente é determinada a querer isto ou aquilo por uma causa que é determinada por sua vez por outra causa, e essa por outra e assim ao infinito"; "os homens se consideram livres porque estão cônscios das suas volições e desejos, mas são ignorantes das causas pelas quais são conduzidos a querer e desejar" (respectivamente Spinoza, Ética, livro 3, escólio da proposição 2; livro 2, proposição 48; apêndice do livro 1).
Schopenheur, concorrendo com Spinoza, escreve: "cada um acredita de si mesmo a priori que é perfeitamente livre, mesmo em suas ações individuais, e pensa que a cada momento pode começar outra maneira de viver [...]. Mas a posteriori, através da experiência, ele descobre, para seu espanto, que não é livre, mas sujeito à necessidade, que apesar de todas as suas resoluções e reflexões ele não muda sua conduta, e que do início ao fim da sua vida ele deve conduzir o mesmo caráter o qual ele mesmo condena."
Há filósofos que consideram a expressão "livre arbítrio" absurda. Thomas Hobbes diz que se esse é um poder definido pela vontade, então não é livre, nem não-livre. É um erro categorial atribuir liberdade à vontade. John Locke concorda com ele e atribui um caráter de ridicularidade discutir esta questão.
Também se pergunta se um ato causado pode ser livre ou se algum ato não-causado pode ser desejado, tornando o livre arbítrio um oximoro, isto é, reunir termos contraditórios e paradoxais. Alguns compatibilistas argumentam que essa alegada falta de fundamentação para o conceito de livre arbítrio é ao menos parcialmente responsável pela percepção de uma contradição entre determinismo e liberdade. Além disso, de um ponto de vista compatibilista o uso de "livre arbítrio" em sentido incompatibilista pode ser visto como uso da linguagem exageradamente carregada de conotações emocionais.
Então, percebe-se que não há concordância sobre livre arbítrio nem mesmo na filosofia humana, quanto mais na esfera espiritual.

LIVRE ARBÍTRIO I

O dicionário Aurélio  diz que livre arbítrio, ou também livre alvedrio é, de modo geral, a possibilidade de exercer um poder sem outro motivo que não a existência mesma desse poder, portanto é a liberdade de indiferença em relação a uma causa. Refere-se principalmente às ações e à vontade humana, e pretende significar que o homem é dotado do poder de, em determinadas circunstâncias, agir sem motivos ou finalidades diferentes da própria ação. É uma forma de indeterminismo, isto é, uma ação sem uma causa determinante. O conceito de livre arbítrio tem implicações religiosas, morais, psicológicas e científicas. Tal conceito recai na crença ou doutrina filosófica a qual defende que os homens têm o poder de escolher suas ações sem um fator determinante. A expressão costuma ter conotações objetivistas e subjetivistas. No primeiro caso indica que a realização de uma ação por um agente não é completamente condicionada por fatores antecedentes. No segundo caso indica a percepção que o agente tem de que a sua ação originou-se na sua própria vontade.
A questão do livre arbítrio cria um axioma, pois quando admitimos que algo ou alguém é livre, implica em que não haja absolutamente nada que determine as suas ações e a sua própria existência. É como se tivéssemos uma causa não-causada ou um efeito sem causa anterior a si e fora de si mesmo. Isto, aplicado ao homem, faz dele um ser absoluto, onipotente, capaz de fazer escolhas por si mesmo e bastando-se a si mesmo. Ora, esta é uma possibilidade muito facilmente rechaçável pela lógica mais simplista que se possa tomar. Arbítrio implica em que o ser livre pode estabelecer juízo de toda espécie, sobre si mesmo e sobre as demais coisas, o que o torna juiz absoluto de si e de todas estas coisas.
Aplicando esta questão ao homem e assumindo-o como criatura de Deus, basicamente cai por terra qualquer possibilidade de existência de livre arbítrio, pois o fato ser criatura de Deus, retira-lhe a possibilidade de existir e agir por si próprio, ou de não ser determinado por outro ser ou ente. Assim, ou Deus é absoluto, ou o homem é absoluto. Os dois não podem ser absolutos ao mesmo tempo.
Trazendo a questão do livre arbítrio para o campo espiritual ela é reduzida também à impossibilidade, porque o homem não possui liberdade espiritual plena. No debate entre Cristo e os líderes religiosos do seu tempo verifica-se o seguinte em Jo. 8:32 - "... e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." Se admitirmos, como Cristo propõe, que eles só poderiam ser livres após conhecer a verdade, então há de se assumir que os tais não eram livres, sem receber de outro a tal liberdade. Neste caso, a verdade seria a causa da liberdade deles, logo, eles não eram livres. Sabendo-se que a verdade não é uma concepção, mas sim, uma pessoa, a saber, Cristo, logo, a liberdade espiritual do homem está condicionada a Cristo e não a si mesmo.
Os judeus responderam a esta proposta em Jo. 8:33 da seguinte forma: "...Somos descendentes de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém; como dizes tu: Sereis livres?" A réplica de Cristo no verso 34 foi: "Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo do pecado." Então, sabe-se que a única coisa certa na vida do homem é o pecado, o qual gera a morte para Deus, a morte para si mesmo e a morte eterna. Assim, o homem não é espiritualmente livre, posto que escravizado pelo pecado.
O que acontece é que o homem se imagina livre, porque confunde escolhas morais ou volitivas com liberdade. O fato de a mente do homem estabelecer vontades e desejos, permitindo escolhas entre diversas possibilidades ou não fazer escolha alguma por não haver possibilidade, não implica em liberdade, porque até os desejos são causados pela mente humana e, esta, está escravizada pela natureza pecaminosa. Assim, qualquer escolha, mesmo moral, que se faça, é feita dentro dos limites da escravidão da vontade humana ao pecado.
Por exemplo, se digo: você crê que pode se levantar e andar até a porta, abri-la e sair? A pessoa responde: sim! Mas, eu indago: você tem garantia de que isto sucederá exatamente assim conforme você acredita ter liberdade para fazer? A pessoa, responde: não! Logo, pergunto: onde está, pois, o livre arbítrio?