segunda-feira, 3 de março de 2008

A DOUTRINA DA ELEIÇÃO CONFORME AS ESCRITURAS V

A doutrina da predestinação defendida por Jacobus Arminius parte de uma perspectiva diferenciada do papel da misericórdia e da graça mostradas nas Escrituras. Para ele, a depravação humana não é total, a eleição é condicionada à fé e ao arrependimento do pecador, a graça pode ser resistida pelo pecador, a expiação é ilimitada e o homem possui a possibilidade de perda da salvação. Entretanto, se o pecador possui um mínimo lapso de vontade livre para se inclinar para Deus, a misericórdia e a graça são absolutamente desnecessárias.
Para o arminianismo, a eleição é condicionada pela fé, mas, como poderia ser graça se exige algo? Além do mais, esta forma de crer levanta outra relevante questão: as Escrituras deixam claro que o homem não possui fé própria, mas que esta é um dom de Deus conforme Ef. 2: 8 - "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus." Judas elucida que a fé foi de uma vez para sempre entregue aos santos e Paulo afirma que a fé foi repartida por Deus a cada um dos regenerados de acordo com Rm. 12:3b - "... conforme a medida da fé que Deus, repartiu a cada um."
Em sua "Declaração de Sentimentos", apresentada à Igreja Reformada da Holandesa em 30 de outubro de 1605, Armínio resumiu a sua posição em cinco pontos:
1 - Capacidade humana e liberdade de escolha: todos os homens embora sejam pecadores, ainda são livres para aceitar ou recusar a salvação que Deus oferece;
2 - Eleição condicional: Deus elegeu os homens que ele previu que teriam fé em Cristo;
3 - Expiação ilimitada: Cristo morreu por todos os seres humanos, em todas as épocas e lugares;
4 - Graça resistível: os homens podem resistir à Graça de Deus para não serem salvos;
5 - Decair da Graça: homens salvos podem perder a salvação caso não perseverem na fé até o fim.
Thiago Armínio, defendeu uma posição próxima à sublapsariana, pois afirma que Deus não predetermina ninguém à perdição. Segundo Arminius, Deus em seu decreto eterno escolheu seu Filho como Salvador para mediar a favor daqueles pecadores que se arrependem e creem em Cristo, e para administrar os meios eficientes e eficazes para a fé de cada um deles. Assim, para ele, Deus decreta a salvação e a perdição de pessoas em particular com base na Sua onisciência da fé e perseverança de cada indivíduo. Este erro doutrinário persiste em muitas igrejas ditas cristãs, ainda hoje, precisamente porque é uma posição focada no homem. Neste caso, como fica o texto de Jr. 20:7? - "Persuadiste-me, ó Senhor, e e fiquei persuadido; mais forte foste do que eu, e prevaleceste..." Assim, nem o pecador pode crer sozinho para se arrepender, e não se arrepende sozinho para crer. Também, ele não tem fé própria conforme já foi colocado anteriormente. O fato de Deus ser onisciente, não o obriga a salvar ou deixar de salvar qualquer pecador, muito menos, pecadores que não possuem capacidade para perseverar sem a vida de Cristo. Deus não escolhe e predestina os homens com base em uma fé ou arrependimento previstos, mas com base na sua soberana vontade.
Na verdade, a crise entre predestinação absoluta e a predestinação condicional deve-se à falta de compreensão de duas doutrinas bíblicas: graça e eleição. Sem a eleição a graça não teria lugar, e sem a graça, a eleição seria dispensável. Assim, aos que Deus conheceu de antemão, foram predestinados e eleitos soberanamente, chamados eficazmente, justificados graciosamente e glorificados final e cabalmente.
Segundo Arminius, o apóstolo Pedro expõe que a expiação de Cristo é ilimitada em II Pd 3.19Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada, pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.” Jocobus Armínius omitiu o fato que Pedro estava doutrinando à Igreja, e portanto, aos que já haviam nascido do alto. Esta não é uma afirmação universalista, como pretendem os arminianos ainda hoje. Quem são os "convosco", os quais não deveriam perecer? São os todos que deveriam se arrepender do que eram, ou seja, pecadores. Arrependimento é mudança de mente, logo, alguém se arrepende quando já conhece a verdade. Não se arrepende para chegar ao pleno conhecimento da verdade, mas chega-se ao pleno conhecimento da verdade, porque se arrependeu por misericórdia e graça, sendo ambas dom de Deus.
A mesma linha de argumentação arminiana segue no texto de I Jo 2.2 - "E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo." Se o ensino deste versículo fosse universalista, logo, algo teria dado errado, pois nem todo o mundo é liberto do pecado. O que João está ensinando é que, a expiação de Cristo foi válida para aqueles regenerados aos quais ele estava dirigindo a Palava, mas também, pelos que seriam regenerados pelo mundo todo. Não é uma afirmação de que a propiciação de Cristo fosse para todos os homens em todos os lugares e tempos. Então, era uma validação para os que já criam, mas também pelos pecados de todos os que viriam a crer em todo o mundo, isto é, de todas as raças, tribos, nações e povos que há no mundo.
Também em II Co 5.19 - "... pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação." Novamente, o equívoco se dá pela má aplicação da palavra mundo. No sentido e na forma em que aparece no texto, mundo, é a Terra habitada ou a raça humana alienada, ímpia e hostil à natureza de Deus. O texto coloca Cristo como o único pontífice entre o mundo decaído e o Senhor Deus criador e sustentador do universo. Não é, portanto, uma referência à redenção de todos os homens.
Ainda, segundo Armínio, a graça e a expiação têm eficiência e eficácia ilimitadas, mas há uma chave para que a função graça e a função expiação sejam plenamente exercidas. E essa chave está no final do versículo 2 de I Jo: “que todos cheguem ao arrependimento.” Porém, já é ponto passivo que, há um todos nas Escrituras, que não são todos os homens, mas apenas aqueles todos que foram eleitos, segundo a soberana vontade de Deus.
O arminianismo prossegue com a seguinte afirmação: "o sacrifício pleno, eficiente e eficaz de Cristo deve ser somado ao arrependimento, produzindo então a salvação. Ou seja: a expiação não limitada mais arrependimento = salvação." E ainda: "o sacrifício pleno, eficiente e eficaz de Cristo, ou graça não limitada, sem o arrependimento produz justiça." Ou seja: "a expiação não limitada menos arrependimento = justiça." Esta linha de interpretação foge completamente ao ensino bíblico sobre graça - Deus fazendo tudo por quem nada merece - e justiça - Deus executando a sentença contra o pecado.
A verdade, para Arminius, é que o valor da cruz não é limitado, mas sua aplicação sim. Para ele, todos estamos predestinados à salvação, mas a eleição depende do arrependimento. Por isso, Arminius afirma que Deus decreta a salvação e a condenação de pessoas em particular com base no pré-conhecimento divino da fé e perseverança de cada um em particular. A posição arminiana é paradoxal e contraditória, porque universaliza em um sentido, mas particulariza em outro sentido, entretanto utiliza o mesmo centro de convergência, a saber, a cruz de Cristo. É muito estranho crer em um Deus que providencia a salvação para todos os homens degenerados pelo pecado, mas fica refém deste pecador, pois este é quem decide se "aceita" ou não a dádiva de Deus.
Os arminianos supõem poder explicar com lógica plausível o texto de II Pd 2.1: “Assim como no meio do povo surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão dissimuladamente heresias destruidoras, até a ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição.” No entanto, o texto só reforça o erro doutrinário do arminianismo, na medida em que, há os que estão na Igreja, porque foram regenerados, como há os que estão na Igreja, porém apostatados da fé. Estes negam a soberania de Deus em escolher e predestinar os que quis, como também deixar os que, sem regeneração, perecem apesar de religiosos.
A teologia de Jacobus Arminius ressalta a liberdade humana, acredita no pecado original, considera que a vontade do homem natural decaído está degenerada e incapacitada para produzir qualquer bem espiritual. Nesse sentido seu conceito de liberdade humana diferia da visão de Pelágio que acreditava que no homem sobrou bem suficiente para o conduzir de volta a Deus. Jacobus Arminius influenciou profundamente a teologia de John Wesley, o metodismo e o protestantismo de missões.
Não se sabe, porém, em que aspecto Armínio, afirma que o homem destituído da glória de Deus, que não tem nenhuma inclinação para as coisas espirituais, que não busca a Deus, que não faz o bem, que não possui justiça e que está morto em seus delitos e pecados, poderá ter liberdade de escolha para a salvação.
Sola Gratia!

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