segunda-feira, 3 de março de 2008

A DOUTRINA DA ELEIÇÃO CONFORME AS ESCRITURAS III

A doutrina da eleição é indigesta a qualquer homem, mesmo àqueles que, por misericórdia, experimentaram a graça irresistível de Deus. Por princípio e por contingencialidade, o homem ainda que regenerado, o foi no sentido de ter sido libertado da culpa e da pena eterna do pecado. Todavia, ainda está sob influência e na presença do pecado no mundo. Ainda está sendo libertado da influência, e porque será definitivamente libertado da presença do pecado na restauração final. Esta condição, o deixa vulnerável à fé permanente e isto conta contra uma recepção mais ampla sobre a eleição e a predestinação.
O pecado, o qual Jesus expiou na cruz, foi definitivamente e absolutamente destruído conforme Hb. 9:26 - "... mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo." A manifestação de Cristo foi "uma vez por todas", logo não haverá segunda ou terceira vez para fim de aniquilação do pecado. Aniquilação é um substantivo derivado do verbo aniquilar, que em sua significação traduz a clara ideia de extinção completa ou de reduzir à nada. É evidente que é assim, pois do contrário ter-se-ia de assumir que Jesus não foi eficiente e suficiente para resolver o problema do pecado no homem. E, pior, ter-se-ia de concordar que o inimigo teria sido mais eficiente e eficaz que "o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" conforme o registro do apóstolo João, citando João, o batista.
Aos olhos dos religiosos, a visão de um Deus "mais" amoroso que, supostamente, provê salvação irrestrita é, no mínimo, tola, pois faz que um Deus justo se curve a criaturas pecaminosas e inimigas d'Ele. O fato de Deus ser amor, não o obriga a amar todos os homens, ou mesmo qualquer homem em particular, ou apenas uma parcela distinta de homens. Ele é amor, e continuará sendo amor ad eternum, porque é da Sua essência. Entretanto, Ele não necessita de demonstrar ou exercer este amor a absolutamente nada ou ninguém. Deus se basta a Si mesmo!
O problema do pecador é achar que é o centro do universo e que Deus vive apenas em função da solução do problema do pecado. Assim, os pecadores religiosos fazem um arranjo doutrinário para sustentar a defesa de Deus, e de quebra, disponibiliza a todos a possibilidade de redenção. É uma visão puramente humanista, do que da soberana justiça de Deus. Na superfície, esta posição aparenta ser mais atraente e consistente, pois satisfaz à lógica humana. Entretanto, nem tudo o que é lógico, é verdadeiro e vice-versa. O fato é que Deus não deixa de cumprir a Sua justiça se deixasse todos sem a redenção, como também cumpre-a ao executá-la na cruz, incluindo os predestinados e eleitos na mesma cruz. De qualquer forma, a questão da punição ao pecado é executada, seja na condenação eterna, seja na morte em Cristo. O que foi objeto do decreto eterno de Deus relativamente ao pecado é executado, ou na cruz ou na condenação eterna. Nisto se cumpre o texto seguinte: "... a alma que pecar, esta morrerá."
O fato é que, se a questão da salvação de pecadores totalmente depravados tivesse sido deixada a critério deles mesmos, não haveria a menor chance de redenção. A questão não é de escolha, porque o homem decaído não possui natureza para se voltar para Deus e escolhê-lo. Suas escolhas são apenas mecânicas e todas feitas dentro da vala sob a interveniência do pecado. Se alguém pudesse salvar-se a si mesmo por auto-escolha, Jesus não precisaria ter morrido na cruz para habilitar o pecador a ser apresentável a Deus. A cruz seria absurdamente desnecessária, e diríamos, ridícula! É como se alguém, caindo de um avião em altitude de cruzeiro, se agarrasse aos cadarços dos próprios sapatos para salvar-se da morte pelo impacto.
Considerando a relação de um Deus absolutamente soberano com um mundo e uma criatura totalmente decaída e depravada, surgem quatro vertentes possíveis:
1. "Deus poderia não prover nenhuma oferta de salvação para nenhum homem."
2. "Deus poderia prover a oferta de redenção a todos os homens."
3. "Deus poderia interferir diretamente e de igual modo, garantindo a salvação a todos."
4. "Deus poderia interferir diretamente e garantir a redenção a alguns homens."
A primeira hipótese é de pronto rejeitada, porque o homem imagina que, sendo Deus amor, jamais o deixaria entregue à sua própria sorte e sem uma provisão de salvação. Todavia, Deus poderia ter optado sim, por esta solução, visto que Ele é soberano e pode fazer ou deixar de fazer o que quer. Uma grande parte, senão, a maioria excluiria a terceira hipótese, porque se sabe que nem todos são salvos. Ficam, então, a segunda e a quarta opções. Assim, os religiosos que não tiveram os ouvidos furados e as escamas retiradas dos olhos ficam com a segunda, pois ela é mais plausível e "livra a cara de Deus" de assemelhar-se a um tirano implacável. Os nascidos de Deus, ficam com a quarta posição, porque ela pode ser sustentada pela Palavra do próprio Deus, as Escrituras.
Deus, não só pode, como de fato interferiu e interfere diretamente na vida dos que Ele soberanamente elegeu antes dos tempos eternos, ou desde a fundação do mundo para salvá-los. A questão em jogo não é o que Deus deve fazer, mas da Sua oferta e intervenção direta. Oferecer a possibilidade de salvação, implica, necessariamente, em uma intervenção direta para levar o pecador a recebê-la. Entretanto, é fundamental saber que nenhum dos predestinados e eleitos apresenta qualquer virtude, justiça ou mérito para que Deus os escolhesse. Ele assim o fez por puro exercício da sua soberana vontade.
Obviamente, o convite por instrumentalidade do evangelho da graça é estendido a todos os homens, porém, sem uma intervenção direta de Deus, ninguém pode se inclinar para Ele. Isto fica bastante claro em Rm. 8: 6 e 7 - "Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser." A palavra 'carne' neste texto não é uma mera referência à constituição física do homem, mas à carnalidade, isto é, a sua natureza contrária a Deus. É a carne com todos os seus feitos pecaminosos e avessos à santidade de Deus.
O homem pecador e entregue a si mesmo, jamais quererá ir a Cristo. Por isso, é necessário que o próprio Deus o tome pela mão e o conduza à cruz conforme Jo. 6: 44 e 65 - "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. E continuou: por isso vos disse que ninguém pode vir a mim, se pelo Pai lhe não for concedido." A teologia arminiana, gnóstica e humanista assume que, mesmo com a queda restou bem suficiente no homem para voltar-se para Deus, entretanto, não mostram isto biblicamente. É como alguém já afirmou: "Deus vota no homem, o Diabo vota contra o homem, mas o próprio homem é quem faz a escolha." Neste sentido, Deus estaria se curvando, tanto ao homem decaído e separado d'Ele, como ao Diabo, que neste caso, seria vitorioso. Esta sim, é uma heresia grosseira!
Sola Gratia!

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